Ainda assim...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Félix acorda e, embora ainda com os olhos fechados e muito sonolento, aproveita aquela sensação gostosa que ele não conseguia entender, muito menos explicar, ele tinha dormido maravilhosamente bem, talvez fosse porque a véspera de Natal, que mexia com ele, apesar de os Natais da família Khoury serem sempre cercados de falsidades e decepções... Aquele pensamento quase acabou com aquela sensação boa que ele não sabia explicar, mas a brisa quente e úmida do verão escaldante brasileiro fez Félix se lembrar que ele não estava no conforto de seu quarto na mansão dos Khoury, mas na periferia da cidade, mais precisamente no quarto de Valdirene do Espirito Santo aspirante a BBB... _Argh. Aquilo foi o suficiente para Félix despertar completamente, virar-se de costas na cama e passar a mão pelo rosto.
“Menininho!!!” Félix ouviu a voz estridente de Márcia e não conseguiu evitar o sorriso tenro mas divertido. “Félix!!!” A mulher adentrou o quarto sem a menor cerimônia. “Félix meu filho, você ainda está desse jeito?” Por um motivo que Félix não conseguia explicar aquela sensação gostosa de minutos atrás voltou para o seu peito.
“Quê isso criatura!?! Mas eu devo ter vendido chiclete no Sermão da montanha pra ser acordado a esta hora da manhã na véspera de Natal.” Ele falou com seu costumeiro humor debochado, enquanto já se levantava da cama. “Márcia, será possível que a gente não pode ter uma véspera de Natal tranquila, com um café da manhã agradável...” Ele usou as mãos pra simular que bebia um gole de café segurando na asa da xícara.
“Café agradável!!! Ô Félix, você tá esquecendo que temos que chegar na 25 de março em menos de 30 minutos senão perdemos o nosso posto, e que na véspera de Natal o trânsito de São Paulo é terrível?” A mulher falava enquanto pegava uma roupa que ao jogar na direção de Félix acabou indo para no seu rosto.
“Ei cuidado, criatura que não quero morrer sufocado com estas roupas bregas. Porque se é pra morrer, melhor morrer em alto estilo que é pra ficar pra história.” O homem falava enquanto tirava a roupa do rosto e começava a se vestir. “Que horror!!! Vira essa boca pra lá Félix que ninguém vai morrer na minha casa na véspera de Natal não. Pelo amor de Deus!” Márcia bateu na madeira pra evitar o mau agouro.
“Aí Márcia, foi a força de expressão, você também não tem senso de humor. Olha que eu é quem devia estar mau humorado por ser acordado com este banho de agua fria depois de sonhar que estava deitado em Dubai sentindo a brisa quente debaixo de uma confortável barraca digna de um sheik.” Félix terminava de se arrumar enquanto a mulher olhava pra ele tentando assimilar suas palavras.
“Sheik, sheik, só se for um milk-shake da barraca da loura. Mais eu já vou te avisando que só dá pra tomar um ou nosso lucro do Natal vai todo pro ar...”
“Tá maluca Márcia, eu aqui falando em Dubai e Sheiks chiqueeérrrimos e você me vem com milk-shake da barraca da loura... Eu só posso ter aberto as catacumbas sagradas para ouvir tamanha insanidade.”
“Chiquuérrimos é? E por acaso esses sheiks não eram assim um carneirão bem...”
“Que isso Márcia! Dá onde você tirou um coisa sem sentido destas, o carneirinho um sheik no meu sonho.” Félix foi baixando o tom de voz ao falar, como se aquela possibilidade não fosse tão absurdo quanto ele queria fazer parecer enquanto passava a mão pelo cabelo pra ajeitá-lo. “O carneirinho poderia ser no máximo um garçom, daqueles assim rechonchudinhos de tanto comer do bufê escondido...” Félix deu uma gargalhada tentando não deixar transparecer que o assunto “carneirinho” e “sonho” numa mesma frase surtisse tanto efeito sobre ele.
“Sei. Tá bom menininho, agora vão bora, vão bora. Porque o dia hoje promete.” Márcia saiu do quarto seguida por Félix que reclamava que não tinha tomado nem mesmo o café preto horroroso coado 2 vezes pela mulher.
*****
Enquanto Félix tomava café Márcia falava o tanto que aquele dia prometia porque véspera de Natal era o oásis para os vendedores de comida da 25 de março, mas Félix mal ouvia o que ela dizia porque a imagem de Niko com aquela túnica elegantérrima e uma gutra na cabeça andando na praia com aquele sorriso meigo e encantador... Ele não podia negar que o carneirinho apesar de não ter assim um corpo esbelto e bem defino, também não era de se jogar fora. Tá bom ele era lindo, não que Félix estivesse interessado. Ele riu timidamente, imagina, o carneirinho e ele eram apenas amigos, ele adorava conversar com ele, eles podiam passar horas conversando que o Félix nunca ficava entediado, ele era uma pessoa boa e Félix se sentia tão à vontade na frente dele que podia ser ele mesmo... “... promoção!!! É isso!!! Dois Hot Dogs pelo preço de um. O que você acha Félix?” A voz de Márcia ao fundo fê-lo se lembrar de que não era bem assim. O carneirinho, Niko, quando soubesse que ele na verdade vendia HotDog na 25 de Março, ele iria... bom não desaparecer, porque era sempre Félix quem o procurava. E Niko, Gentleman do jeito que ele era, com certeza nunca iria destratá-lo se ele tivesse a coragem de aparecer por lá, mas daí a querer algum tipo de relacionamento com ele... “Ei... menininho? Você está me ouvindo?” A Voz de Márcia trouxe Félix de volta pra realidade.
“Claro, que eu estou te ouvindo criatura, quem não ouve esta voz de taquara rachada...”
“Péra lá que minha voz não é de .. ta...”
“Taquara rachada”
“é... disso daí que você tá falando não hein. E saiba que a Tetê parachoque e paralama fez muito sucesso, viu.”
“Cantando?” Félix perguntou incrédulo.
“É sim... no cassino do chacrinha se você quer saber”
“Ahh sei, deve ter levado o abacaxi.” Félix fez um gesto com a mão pro alto imitando o apresentador quando entregava o prêmio de consolação. Enquanto ele saía pela porta em direção a seu fatídico dia na 25 de março.
“É... mas era um abacaxi bem docinho se você quer saber viu?” Márcia falou com dignidade enquanto seguia o seu menininho que ria e caçoava de maneira singela.
****
Márcia tinha razão, quando disse que véspera de natal era um oásis, porque Félix nunca viu tanta gente junta num lugar só na vida. Parece que o Brasil inteiro tinha resolvido baixar na 25 de março pra fazer as compras de Natal. “Hooot Dooog, olha o Hoot Dog do Félix. Promoção dois Hoot Doogs pelo preço de um.”
“Márcia, a gente tá faturando muito.” Ele falou animado com a amiga. “É claro que estamos menininho. Não te falei, eu te falei não te falei que hoje a gente morria de vender cachorro quente.” Félix não pôde responder devido a fila de gente esperando por um cachorro quente. Mas abriu um sorriso gigante, com esta venda de Natal quem sabe até sobraria um dinheirinho pro Félix comprar assim uma roupinha nova, ou um sapato... O Niko já tava começando a desconfiar de que algo estava errado com o tanto que ele estava repetindo roupa ultimamente. Ele continuava a gritar alegremente pensando que sua redenção seria uma visita ao carneirinho depois de um banho de loja.
Sua descontração era tamanha que só percebeu a presença de Niko, ali em sua frente quando ouviu aquela voz doce de carneirinho desapontado. “Me dá um Hot Dog.”
“Niko.” Por um minuto Félix desmoronou. Toda a felicidade que sentia há menos de 1 minuto se esvaiu, e enquanto Niko falava ele pensava em uma forma de não se deixar humilhar. Mesmo porque vendedor de HotDog era uma profissão digna e, apesar, de ser humilhante ter ido de presidente do Hospital a vendedor de HotDog, ele estava fazendo o que podia pra superar este intempérie momentâneo, Félix pensava enquanto falava a primeira bobagem que vinha na sua cabeça. Pelo Menos Niko riu de sua piada, mas apesar de saber ser um trabalho digno, apesar de agir com naturalidade e admitir vender HotDog de cabeça erguida, um furacão se formava dentro de seu estômago. Félix continuou falando e falando, para esconder o quanto estava nervoso mas ao colocar aquela mostarda no HotDog do carneirinho acabou escancarando aos quatro ventos seu estado de espírito.
Pelo menos ele conseguiu se controlar a tempo de não piorar ainda mais a situação. E o Niko, claro, foi o Gentleman que Félix imaginava, apesar da cara de piedade ele aceitou o endereço que Félix escreveu e disse que depois iria na Márcia para conversarem. Félix sabia que isso não iria acontecer, é claro, mas achou melhor não falar nada, mesmo porque se mais gente reclamasse da demora, Márcia era capaz de enterrá-lo em alguma tumba sagrada.
Mais tarde, enquanto tomava banho, Félix deixou que sua mente voltasse àquele cena horrível em que Niko flagra ele vendendo HotDog com uma flor no cabelo. “Aí meu Deus que humilhação.” Ele falou alto apoiando a cabeça nas mãos. O rosto do carneirinho olhando pra ele com pena, aquilo era a pior das humilhações para um homem, ver alguém que você am... gosta... admira, é, admira, sentir pena de você. E foi isso que aconteceu hoje pela manhã. Niko olhou pra ele com pena. Por algum motivo aquilo deixou Félix com uma sensação de vazio que ele não podia explicar.
Durante todo o banho, Félix tentou em vão pensar que ele estava vivendo uma vida digna e que tinha pelo menos uma pessoa que gostava dele de verdade. Márcia. Mas, por mais racional que o homem fosse, ele não conseguia mudar aquela sensação desagradável que ele estava tendo dentro do peito, mas quando ele finalmente sentou na cama para enrolar a toalha na cabeça, veio o reflexo de 14 horas em pé vendendo HotDogs. Seu corpo todo doía, desde o dedinho mindinho do pé até o ultimo fio de cabelo. E foi a isso que ele atribuiu aquela sensação estranha no peito. Não ao fato e que já passava das 10 da noite e nem um sinal de fumaça do carneirinho. É claro que ele sabia que o Niko jamais iria na casa da Márcia na véspera de Natal falar com um vendedor de cachorro quente na 25 de março. Félix balançou a cabeça. Ele era um homem sensato que sabia usar a razão e racionalmente isso era um disparate. Além do mais, ele não tinha nenhum motivo para ficar assim só porque um amigo não foi visita-lo na noite de Natal.
Apesar do turbilhão de pensamentos que invadia a cabeça de Félix ele resolveu descer pra conversar com a Márcia, afinal era véspera de Natal e ela o divertia imensamente, e era isso que ele precisava. Mas ele não podia negar que, ao repetir pra Márcia a mesma estória que ele disse a si mesmo alguns minutos atrás quando ela perguntou do carneirinho, lá no fundo ele queria acreditar que, não hoje é claro, mas talvez no outro dia, ou em alguns dias o Niko apareceria lá dizendo que ainda era seu amigo apesar de... Neste instante a campainha tocou, mas ainda assim com toda a sua racionalidade, nem passou pela sua cabeça que poderia ser ele. “Acho que você conhece muito pouco as pessoas tá. Acho que o carneirinho chegou.” O comentário da Márcia fez seu coração disparar e sem perceber um sorriso tímido apareceu na sua cara. “Será que é ele?”
O “Não sei” de Márcia foi cheio de insinuações e Félix hesitou um pouco não querendo acreditar, seu estômago agora parecia estar sofrendo um dilúvio de borboletas e só após a campainha tocar pela segunda vez e Márcia dar um leve empurrão na sua perna e dizer no mesmo tom de voz. “Vai lá, atender a campainha.” Que Félix levantou e foi até a porta. Quando viu Niko sentiu uma alegria inexplicável e uma vontade imensa de abraça-lo e sem nenhuma intenção de disfarçar isso, abriu os braços e esperou o aconchego do abraço do amigo.
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