Ainda é cedo.

10 Capítulo 10: Anne


Notas iniciais
Parte I - Só queríamos estar ali Tô emocionada que tivemos nossos primeiros comentários! Obrigada Lahi!!! Ainda não consegui parar pra te responder porque tô postando pelo telefone e o coitado tá pedindo arrego, mas saiba que você fez meu coração muito muito feliz por ser a primeira a comentar. E vamos de mais um pouco desses dois!

Eduardo.

Acordei com todo corpo dolorido.

Queridas férias... Sozinho. Há um tempo isso seria normal para mim, mas hoje estranhei. Entrei no banho e passei um bom tempo lá, deixando a água cair no bendito braço.

Minha semana se resumiu a um enorme nada. A maioria do pessoal tinha viajado ou tinha sempre algum compromisso, e a dor que eu sentia não ajudava nem um pouco, então nem vontade de sair eu tinha.

Vez ou outra eu esquecia que a Manu não tava lá, ia até seu quarto e o via vazio, então lembrava de tudo de novo.

-Admita Edu, você ficou chateado – disse em voz alta pra mim mesmo.

Voltei para o meu quarto, o que não ajudou muito. Olhei para a parede e lá estava a mancha de sangue que ela tentou limpar há meses atrás...

Preciso tirar essa garota da cabeça!

Peguei um desenho qualquer que estava jogado na gaveta e colei sobre a mancha. Procurei o papel amassado e encontrei escondido entre algumas roupas. Disquei o número e esperei.

Uma moça de voz extremamente fina me atendeu.

-Boa tarde, com quem falo?

-Boa tarde, Eduardo.

-Então senhor Eduardo, em que poderia ajudar?

-Gostaria de marcar uma avaliação com a Anne.

-Pra quando o senhor gostaria?

Pra que tanta pergunta? Aquela voz era insuportável!

-Pra quando tiver.

-Amanhã estaria bom para o senhor?

-Ótimo!

-Qual a forma de pagamento? É pelo plano de saúde?

-Fala pra Anne que é o Eduardo, ela sabe do que se trata.

-Senhor...

-Só diz isso moça!

-Só um minuto por favor.

Certeza que ela foi perguntar!

Voltou um tempinho depois.

-Então está marcado senhor Eduardo, sua consulta é às 14 horas.

-Obrigada.

Desliguei o celular caindo de costas na cama.

Merda Eduardo, o que você pensa que está fazendo?


No dia seguinte, cheguei no endereço do cartão em cima da hora. Tecnicamente eu tinha uma razão para estar lá: a dor não passou.

Reconheci a dona da voz irritante na hora que abri a porta do consultório. Ela parecia ter tipo... Doze anos. Era minúscula, com um corte na altura do queixo, óculos de armação grossa e longas unhas pintadas de rosa choque.

Confirmei meu nome e ela confirmou minha avaliação. Sentei em uma das cadeiras e fiquei lá observando o espaço. Era pequeno mas aconchegante. As paredes claras eram decoradas com cores em tom pastel e flores. Só tinha a mesa da recepcionista, uma porta que dava acesso a um banheiro e duas poltronas beges.

Ouvi a porta do consultório abrir e involuntariamente, virei o rosto.

Sem a maquiagem pesada dessa vez, os cabelos presos, mas ainda com muito volume nos cachos. Um sorriso de ponta a ponta da orelha enquanto se despedia do paciente. A roupa toda branca.

Ela ergueu a cabeça, e a expressão mudou. Mas isso foi ainda melhor...

-Eduardo – me levantei e ela cruzou os braços, entrando na sala.

Esperou que eu entrasse e fechou a porta, se encostando na mesa de braços cruzados.

-Pode sentar na maca por favor.

Fiz o que mandou.

-Então... Por que marcou uma avaliação?

Me encarava fixamente, parecia satisfeita com a situação.

-Fui atropelado por uma doida ai... – ela riu baixinho – Mas fui rapidamente atendido e encaminhado a uma linda fisioterapeuta.

Nossa, que espírito de cantada de pedreiro que baixou em mim, misericórdia! No momento que fechei a boca, me amaldiçoei por ter falado isso.

-Sem dúvida você é um dos piores que já apareceu me cantando aqui... Mas sei que a luxação não deve ter passado só com uma semana. Fisioterapia é um processo lento, muitas vezes doloroso... Quer mesmo arriscar só pra me cantar?

-Me pegou... Mas e você? Está disposta a me aguentar em todas as sessões jogando esse papo furado?

-Não! – ela sentou na sua mesa e esticou as pernas, ainda de braços cruzados.

-Então sai um dia comigo! Prometo que nunca mais apareço aqui.

Ela não respondeu o convite, apenas se levantou e começou a analisar meu braço. Pegava em alguns pontos e perguntava “dói?” de forma doce.

Fez alguns exercícios e eu quase gritei de dor em alguns momentos.

-Pronto, a tortura acabou.

Ela voltou para sua mesa e arrancou uma das folhinhas de atestado médico, anotando alguma coisa no verso.

Me levantei e fui até a mesa ver o que era. Ela abriu a porta e antes de sair, me entregou o papel.

-Sexta, 19 horas aqui na portaria do prédio.

Me deu um empurrão e fechou a porta. Sai de lá com um sorriso no rosto.


Manuela

Era sexta e fomos para a casa da minha avó. Pra variar, eu estava sentada no meu cantinho observando a vista.

Peguei o celular pela milésima vez. Nada de novo desde os últimos cinco minutos.

Ele bem que podia me ligar... Dar um sinal de vida, nem que fosse pra brigar comigo. Qualquer coisa.

Vi minha avó se aproximando. Eu já era considerada uma mulher na média baixa de altura. Ela conseguia ser menor que eu, não só pelo fator encolhimento da idade. Usava sempre um coque baixinho, prendendo bem os fios brancos. Os pezinhos quase não levantavam do chão para andar, por puro mau hábito, pois ela era a mais disposta da família. Era fofa, meio ranzinza. Soltava vez ou outra um palavrão que causava risadas em todo mundo.

-Manuela, tá escurecendo. Vai passar a noite aqui?

-Sim, vó.

-Vou arrumar seu quarto, não demora pra entrar.

Então ela voltou arrastando os pés como sempre fazia.

Vi o carro do Sam virar a rua e parar na frente da casa da minha avó. Demorei pra entender que ele não estava sozinho e me lembrei que minha mãe tinha falado sobre uma namorada.

Eles desceram, ele deu um beijo nela e pediu pra ela esperar quando me viu sentada.

-Precisa conhecer ela.

-Não acredito que VOCÊ ta amarrando o burro?

Ele riu.

-Sua idiota! Tá vendo como nada é impossível? Se até um cara como eu pode se apaixonar…

Lá vinha ele com esse papo de novo!

-Algumas coisas são impossíveis sim.

Ele puxou minha mão, me levando até ela enquanto riamos.

-Beca, essa é a Manu. Manu, essa é a adorável Beca.

-Então você é a santa que colocou meu garoto nos trilhos? Uma honra conhecê-la.

Ela riu e respondeu tímida:

-Prazer.

Parecia ser boa moça. Era alta, pele morena, os cabelos castanhos cortados num chanel clássico. Estava com vergonha, é claro.

-Desculpa, sou meio espalhafatosa assim mesmo...

-Tudo bem.

Sam saiu de trás de mim e pegou a mão dela. Seguiram os dois juntos pra dentro da casa e eu voltei pro meu cantinho.

Acho que já ia dar umas oito da noite quando resolvi entrar. Jantei e fui para o quarto que minha avó tinha arrumado.

Liguei a TV mas não tinha nada de interessante. Havia esquecido meus fones em casa, então nada de música. Deixei todos os livros na outra casa pra poder descansar a cabeça. Todas as opções de distração estavam indisponíveis.

Meu celular vibrou com um novo email. Era da empresa do meu voo. Havia tido um problema com minha passagem, e eles pediram pra que eu agendasse uma nova data. Tinham três opções: uma era pra daqui uma semana, a outra era para essa madrugada e outra só pra fim do mês. Bem, não ia arrumar minhas malas a tempo de qualquer maneira, e minha mãe pirava se eu já fosse embora. Um mês era muito tempo. Respondi marcando para daqui uma semana. Eles confirmaram meu voo e mandaram os novos dados.

Precisava de alguém pra me buscar no aeroporto...

Quer saber? Foda-se o orgulho.

Disquei o número e esperei.

-Alo?

Meu estômago deu um pulo só de ouvir a voz do outro lado.

-Edu? Tá tudo bem?

-Sim e com você?

-Ótimo... É — vai! Fala! Não é tão difícil! É só falar que vai voltar antes do planejado — Então, eu...

E aí que a merda aconteceu. Uma voz de mulher surgiu no fundo da ligação.

-Eduardo, você... Ah, desculpe, não vi que tava no telefone.

Era uma voz um pouco mais distante mas nitidamente de uma mulher perto dele. Meu coração acelerou.

-Tem alguém aí? — eu não queria mesmo ter perguntado algo tão óbvio mas não consegui segurar quando meu peito se apertou.

-Manu, escuta...

-Não, fica tranquilo, não precisa explicar. Sem compromisso, lembra?

Então eu desliguei.

Idiota. Idiota. Idiota. Idiota. Idiota.

Isso que eu sou: uma idiota!


Eduardo

Puta que pariu!

Tava tudo tão bem! Por que precisava rolar isso?

Passei no horário marcado pra pegar ela, passeamos e conversamos muito. Ela era realmente o que parecia ser: incrível.

Estava cedo ainda e quando ela soube que eu desenhava, fez questão de ver alguma coisa. Fomos lá pra casa – sem maldade, juro! – e mostrei algumas coisas que eu tinha. Ela observava detalhadamente cada traço do papel.

Então meu telefone vibrou no bolso.

Olhei o nome na tela. Manuela. Putz, parecia que todas as horas de conversa com a Anne sequer tinham acontecido de verdade. Parecia que a única coisa que realmente me importava agora, era atender o maldito telefone.

Sai de fininho e atendi na sala.

-Alo?

-Edu, tá tudo bem?

Sua voz estava tão baixinha. Parecia que eu não falava com ela há séculos.

-Sim e com você?

-Ótimo... é… — ela parou de falar por alguns segundos — Então, eu...

E foi aí que deu merda. A Anne saiu do quarto com um dos desenhos na mão, me procurando.

-Eduardo, você... – então ela viu o celular – Ah, desculpa, não vi que tava no telefone.

Rezei pra ela não ter ouvido... Mas o cara lá de cima me deixou na mão. Foi em vão.

-Tem alguém aí?

Drooooooooooga.

-Manu, escuta...

-Não, fica tranquilo, não precisa explicar. Sem compromisso, lembra?

Então ela desligou. Sentei no sofá, apoiando o rosto nas mãos fechadas.

-Tá tudo bem?

Só fiz que sim com a cabeça.

-Desculpa, mas quem é Manu?

-Ela mora aqui comigo, ta viajando.

-E vocês...?

-Não – respondi rápido até demais – ela só queria saber se tava tudo bem.

-E está tudo bem?

Eu era péssimo nisso... Senti meu peito afundar.

Agora, alguém me explica por que eu to assim, se tem uma garota linda e completamente incrível aqui comigo!

Ela andou até a porta, pegando a bolsa que tinha deixado no chão.

-Tá na minha hora...

-Não precisa ir Anne, é sério, tá tudo bem.

-Você é um péssimo mentiroso Eduardo... E eu sei reconhecer minha hora de sair de cena – parou na minha frente e segurou meu rosto, me dando um beijo no canto da boca — Quando tudo estiver realmente bem, pode me ligar.

Ela saiu, batendo a porta atrás dela.

Merda!


Manuela

Idiota!

Mas, quem sou eu pra exigir algo dele? Fui eu quem beijou o John, certo?

Peguei o celular e enviei a mensagem

“Ainda ta com a Beca? Preciso me distrair... Pode vir me pegar?”.

Ele não demorou pra responder:

“To deixando ela em casa agora, quinze minutos”.

Saí do quarto e fui para a sala esperar o Sam. Ele buzinou e eu gritei avisando que não demorava para minha avó.

-O que foi?

-Só me leva em algum lugar, qualquer um.

Ele dirigiu até a primeira lanchonete que achou, e estacionamos por lá. Sentamos e eu pedi a primeira coisa que vi no cardápio: açaí. Ele não quis nada.

-Vai me dizer o que aconteceu ou não?Sei que não me chamou pra poder comer porque vi o tanto de comida na geladeira da vovó.

-Eu liguei pra ele.

-E...

-E só de ouvir a voz dele, meu estômago pulou.

-Tá vendo Manu...

Meu tom de voz mudou completamente de forma involuntária.

-Vi sim Sam, vi que ele ta com outra! — ele me olhou confuso — Mas você quer saber? Eu não ligo! E daí? Ele é livre e desimpedido, nós não temos nada! E eu fiquei com o John, então quem sou eu pra exigir algo dele? Tá tudo bem, tudo excelente.

O açaí chegou e eu comecei a misturar o leite condensado e a banana.

-E o pulo no estômago?

Enchi a colher e coloquei na boca.

-Era fome!

Ele tampou o rosto impaciente.

-Você é impossível Manuela... Se está tão indiferente assim, por que me chamou?

-Porque precisava conversar, não pode mais?

-Pode se não for me matar ao ouvir a verdade.

-Que verdade? Já falei a verdade: ele é livre e eu também. Tá tudo ótimo!

-Manuela Bernardes, voce é uma perfeita idiota. É incrivelmente incrível como consegue fazer cinco coisas ao mesmo tempo enquanto se arruma pra sair, é adorável quando quer, mas vira um bicho quando te contestam e tem uma responsabilidade maior do que muitos por aí. Só tira altas notas, cuida de todos ao seu redor e ainda arranja tempo pra fazer tudo o que quer. Tem uma vida planejada, seguida à risca e não se importa com o que os outros vão pensar se pra você estiver tudo bem. E tá aí seu maior problema: a vida não segue o roteiro que a gente quer. Não dá pra planejar cada coisinha, cada relação e sentimento. Você fode com tudo quando tem que se envolver em algo. E faz de propósito! Tem medo de arriscar, e tudo pra você tem que ter lógica e explicação! Só que nem tudo tem que ser explicado, Manu... Quando se trata de convivência você se fecha completamente, como uma criança desconfiada. Fechar os olhos não impede que nada aconteça, só impede de ter novas experiências. Viver em negação não vai te ajudar. Tá na hora de crescer nesse ponto, Manu. Talvez você só tenha amadurecido cedo demais e não conseguiu desenvolver essa parte... Ou talvez você só tenha medo de crescer completamente. Mas tá na hora Manu, admite que gosta dele e pronto.

Ta, isso doeu. Não ousei responder.

-Vai me matar agora?

Engoli outra colherada do açaí.

-Não, você tá certo. Sou um desastre quando se trata de qualquer pessoa. Mas... Que diferença vai fazer? Ele ta com outra.

-E vai desistir? Me diz Manu, por que nunca tenta ir até o fim, só pra variar?

-Porque eu tenho medo, ok?!

Ta, isso doeu mais ainda falado em voz alta.

-Não podemos viver com medo.

-Fácil falar!

-Fácil fazer também... Qual é Manu, se eu, um dos maiores galinhas da cidade consegui me apaixonar por alguém, você consegue admitir que gosta dele.

-Como sabe que quer ficar com ela? Que vai dar certo?

-Eu não sei.

-Então o idiota é voce. Como arrisca então? E se não der certo?

Ele sorriu de um jeito bobo, e respondeu da forma mais simples do mundo.

-Quando você gosta de alguém, não liga se vai dar certo ou não, você só quer que aconteça. Não importa, o resto é só o resto. Quando queremos alguém na nossa vida, a gente se esforça pra manter ela ali. Você sabe que eu nunca durei nas relações porque enjoava, não me apegava a ninguém. Mas eu me sinto diferente sobre ela. Eu apenas sinto, não é algo racional, lógico, que eu possa te ensinar a fórmula para você reproduzir. E se magoar, não der certo, pelo menos eu escolhi ser feliz enquanto funcionou. Eu não quero passar a vida pulando de colo em colo pensando “e se…”. Se acabar, doi e a vida segue. Se der certo, felicidade! — ele fez um joinha com as duas mãos pra tentar se mostrar positivo — Seguinte, tenta por pelo menos um minuto, deixar de ser a responsável por todos. Tenta por um minuto, não entender nada, só fazer. Fazer por você. Só por você. Pode ser?

-Obrigada.

-Não agradeça, só de não ter me batido...

-Calado.

Fui em direção ao carro.

-Não vai pagar?

-Hoje é por sua conta.

Pude ver ele bufar e ir até o caixa pagar meu lanche.


Eduardo

“Chego amanhã, pode me pegar no aeroporto?”.

Olhei aquela mensagem por um bom tempo. Ela não vai voltar só daqui uma semana?

Ah, e daí?

“Claro, que horas?”.

Enviar.

“Chego meio-dia, até amanhã :*”.

Novamente, como sempre, íamos fingir que nada aconteceu. Ela não ouviu a Anne e eu não dei uma crise de ciúmes antes dela ir.



Notas finais
E você leitor fantasma, aproveite o bonde da Lahi e de o ar da graça também. Saber o que pensam quando leem é uma delicia!