Ainda É Cedo
35 Uma Nova Etapa
Notas iniciais
#Steve
Após uma hora de carro e inúmeras dúvidas, a motorista parou frente um prédio decadente no subúrbio de Dublin.
Aquela era uma típica rua interiorana sem muitos carros, sem muitas pessoas e com imóveis não tão sofisticados quanto na capital. Ao meu lado Clint parecia que ia ter um AVC de tanta ansiedade. Não parava de perguntar para a médica “Você disse que ela não estava bem. Como assim? É grave? Pode dizer não se acanhe!” e isso estava me irritando muito. Primeiro que ele parecia não desconfiar das intenções da profissional de saúde, segundo que se preocupar com a Natasha não é algo normal e terceiro que eu não sabia onde estavam as minhas filhas.
– Coloquem o capuz e me sigam... Em silêncio. – ressaltou Nina descendo do carro.
Por via das dúvidas a segui com a mão no revolver que estava camuflado em meu bolso. Entramos na clínica e tudo parecia normal. Médicos normais, pacientes normais... Talvez McCarthy fosse do bem.
Entramos em um elevador.
–Tem certeza que aqui é seguro, Dra. McCarthy? – Clint questionou cabreiro, tirando o capuz.
–Aqui, aqui não. Mas, no último andar, pra onde estamos indo, é sim. Lá só trabalham gente fechada comigo e só estes tem a acesso.
–Gente fechada com você? – eu ainda estava desconfiado – Por quanto tempo Isa vai precisar ficar aqui?
O elevador se abriu no nosso andar de destino e logo nos deparamos com uma porta que só foi aberta com as digitais da médica. Fiquei um pouquinho mais tranquilo; era visível que ali era seguro. Isto se não for uma armadilha...
–Vejam! – ela chamou nossa atenção para a segurança do local – Aqui não tem câmeras, mas temos acesso às câmeras da portaria. Se alguém chegar nós saberemos e só entra aqui gente de extrema confiança. Sua namorada vai ficar aqui até que as suas filhas estejam boas o suficiente para poder seguir viagem.
–E em quanto tempo isso acontece?- quis saber Clint
–Três meses no máximo.
–Certo. Onde ela está? – a apressei apontando para as varias saletas.
Antes que ela pudesse responder, Sam sai de uma dessas salas com um copo d’água na mão sendo acompanhado por uma Dominika com o braço esquerdo em uma tipoia e um curativo no canto esquerdo da face.
–Graças a Deus! – exclama o sujeito – Cara que bom que você nos encontrou... Não tem ideia do que passamos.
–O que aconteceu de verdade? Estive com Coulson e a TV está noticiando que encontraram bombas e cocaína na casa...
–São uns filhos de uma puta, Steve! – cortou-me enfurecido – O máximo que podem ter encontrado é uma mamadeira da Flora que esquecemos lá.
–Boa lembrança! E as coisas das bebês? Conseguiram pegar? E Isadora onde está? Está bem? – meus olhos miraram o braço imobilizado de Domi – Domi o que houve com você?
A caribenha deu de ombros.
–Estou bem, só levei um tiro no ombro enquanto fugia. Já estou melhor não se preocupe. Trouxemos as coisas das meninas... Os carrinhos, bebês-conforto, roupinhas, mamadeira... Só que ficou uma para trás e acho que isso vai fazer a SHIELD estranhar o fato de nós termos uma mamadeira rosa e cheia de florzinhas.
Respirei aliviado. Por enquanto a SHIELD não tinha ideia de que estávamos em “maior número”.
–Gente depois vocês explicam como tudo aconteceu, agora, doutora, será que você pode pelo amor de Deus me levar até a Natasha? – grunhiu Clint em um pico de desassossego.
Nina sorriu para ele.
–Claro, mas antes venham até minha sala para eu preparar os dois. – ela apontou pra mim – Antes de vê-las vocês precisam saber de algumas coisinhas.
Todo o alívio passou. Era óbvio que ela (a Natasha não me importa! Ninguém se importa com ela... Só o Clint.) não estava bem. Dominika e Sam estavam tensos e estranhos e a doutora estava fazendo muito mistério.
De frente a sujeita – que ao que parece era legal – sentei-me aflito.
–Vou começar pela menina baleada a... Qual o nome da ruiva? – tentou recordar com alguma dificuldade.
–Natasha. Natasha Romanoff. – se apressou Clint.
–Isso, obrigada. Sua amiga levou um tiro no peito e a bala se alojou no coração. – contou ela da forma mais suave que uma notícia dessas podia ser dita — Passou por uma cirurgia de alto risco essa manhã e ainda não despertou. Está no CTI e ainda não pode receber visitas, porem pode olhar sua amiga pelo vidro.
Os olhos de Barton estavam esbugalhados de terror. Até eu fiquei com pena. Coitada, mala ou não, é um ser humano e que está nos sendo muito útil atualmente.
–Ti-Tiro no coração? – o Gavião engoliu em seco – Cirurgia de alto rico? Ma-mas, ela está bem né doutora?
–Não podemos garantir nada até que ela desperte do coma induzido.
–Eu...
–Pode ir, Barton. – o cortei já entendendo que, bizarramente, ele estava me pedindo uma autorização para ver a colega. – Depois irei ver como ela está e entender como isso tudo aconteceu.
Na hora que a porta do humilde consultório bateu eu soube que era a minha vez de ouvir coisas nada agradáveis sobre a pessoa que mais amo no mundo.
–Agora sobre a Allie, quer dizer, Isadora. – corrigiu-se bem-humorada. Permaneci sério e amedrontado – Pelo que me relataram no momento em que o sítio foi invadido a mamãe tinha acabado de entrar em trabalho de parto e isso é ruim;
“Isso é ruim”,. Ah jura? Poxa, não sabia!
Continuei sério.
–Ela chegou no meu consultório em Dublin sofrendo uma parada cardíaca e com cinco centímetros de dilatação. Os bebês tinham baixado muito e mesmo assim um parto as 28 semanas é algo muito arriscado. Principalmente porque o coração da Isadora está fraco.
–O que? – o meu “o que” saiu quase como um sussurro
–Em uma gravidez normal o coração da mulher trabalha por dois. No caso dela está trabalhando por quatro e isto está acarretando uma insuficiência respiratória. Isadora estara respirando com a ajuda de aparelhos nas próximas semanas e para evitar maiores problemas já recebeu uma dose de corticoides, que amadurece os pulmões dos bebês caso cheguem muito antes da hora. – contou-me.
Agora quem está com problemas cardíacos sou eu. Comecei a me descabelar de nervoso.
–Há algo mais que devo saber?
Ela fez uma careta e concordou. Porque tudo sempre tem que piorar, em?
–Ontem à tarde dei ordens para que o Dr. Sherman, que está a atendendo no momento, pusesse um sonda intravenosa com solução fisiológica e uma injeção de Brethine, um inibidor de trabalho de parto. –continuou a Dra. – As contrações cederam, mas voltaram duas horas depois mais violentas, precisando de mais uma injeção e depois outra. Nada deu muito certo, então o único jeito era uma cirurgia.
–Cirurgia? Como assim cirurgia?
–Chama-se Cerclagem é um procedimento não muito comum, mas bastante realizado em mulheres que tem problemas na gravidez, que não conseguem segurar a criança. No caso da Isa ela que tem três pequenos crescendo de vento em polpa é o único jeito de mantê-los por mais algum tempo. Entretanto o coração dela já está fraco e pode ser que não se recupere a tempo de enfrentar a cesariana que deve acontecer em um mês.
–Então... Então não faça! – me indignei — Faça então o parto e mantenha os bebês na incubadora, não importa se ficarão por muito tempo, o que importa é a Isa ficar viva e saudável. Não! Ela não vai...
–Ela está na sala de cirurgia neste momento. – Nina me interrompeu e levantei furioso – Apresentei os riscos da operação para ela, porem...
Joguei a mesa violentamente para o lado em um surto de raiva
–COMO VOCÊ PODE TER PERMITIDO UMA COISA DESSAS? – berrei no ápice do ódio apontando o dedo pra sujeita – Como você pode se denominar médica e permitir uma cirurgia sabendo que a paciente pode não sobreviver?
–Acalme-se! – implorou assustada – Ela que quis fazer a cirurgia, discuta isso com ela! Eu disse que o coração dela não está forte e que pode não se recuperar para enfrentar o parto, mas ela quer que as filhas nasçam saudáveis. – gritou de volta – Entre por a vida dela ou a das filhas em risco ela escolheu a dela. Ela é maior de idade e ela quis fazer essa bendita cirurgia.
Passei as mãos pelo rosto suando frio.
–Desculpe. Desculpe doutora. – pedi após um tempo, colocando a mesa no lugar – É que... Eu não posso perdê-la.
Mesmo com todo o meu piti McCarthy me abraçou solidariamente. Acho que deve estar acostumada com o desespero de futuros papais de primeira viagem como eu.
–Se acalme, beba uma água, converse com seus amigos e quando a operação acabar eu te aviso, certo? Não se preocupe. Ela é forte e pode sim aguentar outra cirurgia em trinta dias. Estamos fazendo tudo que podemos fazer. Todo mundo nessa ala no hospital são seus fãs e querem muito que vocês consigam provar suas inocências. Farei o que for possível.
–Me desculpe. – pedi de novo absurdamente envergonhado com meu momento de fúria. – Só não deixe a partir.
–Não vou deixar. – prometeu – Agora vá beber uma água.
Agradeci pela milésima vez e voltei a sala de espera onde Sam ainda bebia água acompanhado de uma calada e triste Dominika.
–Cadê o Clint? – perguntei sentando-me frente os dois
–Com a cara colada na vidraça do CTI. — respondeu o homem. – Já te explicaram o quadro da Isa?
Confirmei com a cabeça, tristeza total.
–Quando... A que horas eles apareceram, como Natasha levou um tiro no peito e como chegaram ao hospital?
Wilson inspirou profundamente se preparando para contar aquela história incrível e sinistra.
–De madrugada comecei a ouvir barulhos de carro e quando percebi estávamos cercados e a vagabunda da Sharon estava com Deus e mundo do lado de fora. Fui chamar a Isa e adivinha? Ela estava tendo contrações... Ah é! Boa lembrança! Ela estava sentindo isso desde cedo, mas disse que eram “contrações de treinamento”. Contudo, começaram a doer muito e ela acabou desmaiando. – disse ele sonolento – A russa teve a ideia de fazer um tumulto pra distrair o pessoal enquanto levávamos a lindinha para o carro. Foi aí que ela levou um tiro da Hill. E vou te contar em? Ela é forte! – se surpreendeu rindo – Mesmo com um tiro no peito ela conseguiu atirar na barriga da Carter e correr até nós. Domi fugiu com Isa e Natasha, que desmaiou no carro, sem rumo até ser atingida por um tiro no ombro...
–Ninguém viu a Isadora grávida? – o interrompi por um momento.
–Colocamos um pano preto sobre ela. – explicou Domi – Dirigi só uns seis quilômetros pela estrada até me dar conta de que os pneus tinham sido atingidos. Enquanto eu chorava nossa possível morte, essa médica, a Nina, apareceu batendo no vidro do carro dizendo que tinha visto nossas fotos pela televisão e reconhecido a Alicia-Isadora.
Ergui uma sobrancelha, surpreso.
–Então ela salvou a vida de vocês? Quando descobrimos o que tinha acontecido fiquei com muito medo de ser uma armadilha.
Domi sorriu.
– Ela é uma boa pessoa, virou nossa fã depois do vídeo que fizemos. Sinal que ainda tem gente que acredita em nós.
–Ao menos isso! – concordei
Voltei a ficar em silêncio, angustiado, esperando uma notícia da minha família.
–Ela vai ficar bem, cara, não entra em pânico. – afirmou Snap como se lesse minha mente – Eu achei muito “heroica” essa atitude dela de, você sabe, se arriscar pelas filhas.
–Isadora não podia ter feito isso comigo e se acontecer algo? Digam-me! O que vai ser de mim sem ela?
Todos ficaram em silencio, de cabeça baixa. Não precisam responder. O que vai ser de mim sem ela? Nada. Essa é a resposta: N-A-D-A.
Após alguns minutos um homem alto, trajado de branco e luvas apareceu a minha frente.
–Capitão Rogers é um prazer conhecer o senhor! – exclamou contente estendendo a mão para mim. Confesso que após tanto tempo sendo tratado com um facínora louco ver alguém me tratar com tanto respeito é reconfortante – E claro conhecer todos vocês também.-acrescentou olhando para o casal ao meu lado- Mal posso acreditar que vou fazer o parto das filhas do Capitão América!
–Certo, hã, e a Isa? Onde ela está? Eu posso vê-la? – fui direto ao assunto, tentando não ser indelicado.
–Ah claro, me desculpe! Quarto doze. Ela já está acordada.
Voei para o lugar o mais rápido que pude. Dá porta pude vê-la presa a monitores e sondas intravenosas olhando para o vazio. Aproximei-me devagarzinho.
Isa virou-se para mim com um sorriso de canto.
–Oi. – disse ela.
–Oi querida. – respondi segurando sua mão que não estava ligada a nada e depositando ali um beijo. – Senti sua falta.
–Nós também. – retrucou sorrindo para a barriga.
Não sabia por onde começar a dizer tudo que estava entalado em minha garganta.
–Sabe Steve. – ela começou dondo-me um tempo a mais para pensar nas palavras – Eu estava lendo um livro sobre gravidez e nele explicava esse amor imenso que vem sendo produzido dentro de mim por essas coisinhas na minha barriga. Ele dizia que quando se está grávida seu corpo começa a desenvolver uma quantidade absurda de um hormônio chamado oxitocina, que também é conhecido como hormônio do amor. Quando o bebê nasce à mãe já está “intoxicada de amor”.
Eu sabia onde ela queria chegar com isso.
–Isso não justifica o que você está fazendo. – não aguentei – Eu entendo sua preocupação com elas, mas não justifica você colocar sua vida em risco pra...
–Pra salvar a vida dos meus filhos? – Isa completou a sentença, olhando em meus olhos – Eu não quero que elas fiquem meses em uma incubadora, que fará o trabalho que eu deveria ter feito. Eu não culpo você, Steve... Você só vai entender direito o que é esse amor quando elas estiverem nos seu colo.
–Eu já as amo, Isa.
–Não é a mesma coisa. Se for preciso eu vou dar a minha vida por elas e sei que essa será a coisa certa a fazer. – ela parou de falar por um minuto e uma lágrima escorreu de seus olhos – E... Eu sei que é isso que vai acontecer em breve.
–Não! – reivindiquei – E quanto a mim? E quanto a elas? Elas vão precisar de uma mãe.
–Eu sei que você vai encontrar uma para elas.
–ISA! – gritei perplexo – Você ouviu o que disse? Você é a mãe delas, você é o amor da minha vida! Eu não quero encontrar ninguém eu já encontrei.
Ela ergueu os braços para que eu a abraçasse e assim fiz. E nós dois choramos durante o abraço.
Me separei para beijar rapidamente seus lábios. Isa sorriu.
–Você tem que prometer que vai ficar bem. – exigi – Prometa!
Ela soltou uma gargalhada.
–Se não for...
–Não importa. Apenas prometa.
–Tudo bem. – a sujeita rolou os olhos – Prometo ficar bem.
–Agora sim! – comemorei beijando a demoradamente nos lábios.
Nos dias seguintes Isa foi examinada por uma nação de perineonatologistas e cardiologistas e tudo continuava na mesma: ela correndo riscos e as meninas ótimas, se mexendo como loucas e causando dores na coluna de Isadora. Pode parecer estranho, mas minhas filhas estão me irritando. Isa pode não se importar com a “rave” que está acontecendo na barriga dela, porem eu me importo. Às vezes penso que ela tenha razão sobre a diferença do amor entre pais e mães, que nos pais só nasce de verdade quando a criança nasce.
Natasha despertou do coma e estava bem ( bem do jeito que alguém que levou um tiro no coração pode estar!) e agora Clint sentia dores no joelho devido a correria dos últimos dias. Dominika continuava com o braço enfaixado, todavia seu bom-humor havia voltado assim como o de Sam. No momento o problema que enfrentávamos era a falta de roupa e dinheiro. Na pressa de fugir, só pegaram as roupas das bebês.
Isadora estava enlouquecendo aos poucos (e com razão!). Sobre as mais rígidas recomendações médicas, minha querida só podia se levantar para ir ao banheiro e o peso mais pesado que poderia levantar era o de uma escova de dentes. O trabalho dos médicos e a cirurgia havia interrompido o trabalho de parto extremamente prematuro; seu objetivo agora era manter assim pelas próximas cinco semanas para então completar oito meses. Porem, Isadora (que adora complicar as coisas!) insistia na ideia de ir até as 36 semanas onde entraria no nono mês, algo abundantemente difícil em uma gestação tripla. Sem contar que aguentar até lá forçaria ainda mais o seu já forçado coração.
Enquanto a meta dela era fazer com que os bebês não precisassem de incubadora, o meu era o contrário.
E no mais profundo e desesperador tédio passamos as malditas cinco semanas. Natasha já estava de alta e pronta para “ mandar a Hill para o inferno”, Domi já tinha tricotado tudo que pode tricotar – com a ajuda dos enfermeiros gentis que compraram tricô e roupas para nós que não tínhamos nada – e eu continuava ali, ao lado de Isa, tentando distraí-la, fazer com que ela sorrisse... Mas não era fácil. Ficar 150 dias sem poder nem se mexer e com uma rave na barriga não é moleza. E ainda assim ela se recusou a fazer o parto. E a médica ( que raiva dessa Nina!) apoiou a ideia dela de ir até o inicio do nono mês. E pior ainda: Domi e até a Natasha (essa, claro, só achava que íamos poder ir embora mais cedo se elas ficassem mais tempo dentro da barriga. Isadora que se explodisse!) também apoiaram a ideia.
Clint, Sam e eu continuávamos achando que era suicídio.
–Vocês não sabem o que é instinto maternal! – alegava Domi quando questionada sobre – Ser mãe é padecer no paraíso. Isa é forte e vai conseguir.
Resumindo eu nada pude fazer a não ser esperar mais três semanas.
#Isadora
90 dias depois.
Acho que nunca senti tanta falta da minha mãe quanto agora. Nossa como faz falta uma mãe quando se está prestes a ser mãe! Os homens ao meu redor continuam me achando louca –Steve está prestes a ter uma síncope – mas, consegui chegar as 36 semanas. E não há nenhuma possibilidade deu conseguir mantê-las aqui por mais um dia que seja. Simplesmente não dá mais. Eu fiz o que pude por estes três pedacinhos de gente. Se eu morrer morro com a consciência tranquila. Ontem fizemos a última morfológica e as princesas estão dentro dos padrões normais para a idade gestacional.
Tinha chegado o dia de me livrar desse barrigão e embarcar em uma nova fase da minha vida.
E eu estava completamente apavorada. Essa não era só uma cirurgia... Era A cirurgia. Eu podia não voltar dela. E minha mãe dizia que a anestesia (tal de raque) doía horrores. Todavia existia alguém ainda mais espavorido que eu: Steve.
–Não se esqueça do que você me prometeu. – repetia ele para mim, na maca. – Vai ficar tudo bem, não se preocupe! A Dra. Nina disse que não dói nada e os riscos...
–Eu sei, Steve! – interrompi em uma gargalhada – Fica calmo e mande alguém comprar brincos para as meninas. Ia comprar e não deu tempo. Eles disseram que vão furar...
–Tá maluca? – me barrou – Elas não vão furar as orelhas das bebês.
–Claro que vão! Muito melhor furar quando é pequenininha e bebê de brinco é a coisa mais fofa da vida.
–Isso é um absurdo! – bradou enfurecido, como se eu dissesse para botar maconha na mamadeira delas – As minhas filhas só vão usar brincos se elas quiserem. Isso é uma questão de escolha e elas...
–Desculpe interromper a conversa de vocês, mas se vai mesmo querer ver o parto das suas filhas sugiro que vá logo trocar de roupa. – Dr. Sherman salvou a pátria.
Steve, ainda de cara amarrada, beijou o alto de minha testa.
–Esse assunto não acabou!
–Anda logo! – repliquei e ele foi.
Os enfermeiros me levaram na maca, naquele corredor sem fim, me dando tempo para pensar no que estava prestes a acontecer. Aquela salinha me matou de ansiedade e eu só conseguia chorar e rezar! Minha cabeça estava a mil e por alguns segundos me arrependi de ter arriscado tanto esperando tanto tempo. Felizmente a fofa da Dra. McCarthy, que é uma fooofa, foi conversar comigo e tentar me acalmar.
Depois de calma entramos no centro cirúrgico e por incrível que pareça, lá dentro fiquei bem mais tranquila, pois vi pessoas que eu já conhecia, que cuidaram de mim nessas semanas em que fiquei presa aqui dentro e isso me tranquilizou... Um pouco.
O meu maior medo era da anestesia. E a bendita começou pelo soro da mão ( que normalmente não dói, mas pelo meu nervosismo doeu tanto quanto uma enxadada!) e depois para a tal da raque. E essa não doeu porque eu me distrai olhando para a porta, na ansiedade de ver Steve entrar. Quando dei por mim já tinha acabado.
A picada da anestesia não é nada perto da aflição que eu senti quando ela começou a fazer efeito. Dá um medo de parar de respirar, parece que vai anestesiar tudo. Apesar de saber que eram só por minutos fiquei agoniada por não sentir as pernas. E após uma eternidade apareceu Steve para meu alivio. E – novidade – ele estava mais apavorado do que eu.
E então começou. Eu não vi nada, graças ao pano na minha frente, a não ser Steve que mostrou que definitivamente é um lorde. Ficou me acariciando o tempo todo, conversando, dizendo que ia ficar tudo bem. Minhas filhas podem não ter casa ou segurança, mas com certeza terão um pai incrível.
Passado uns vinte minutos eis que a médica diz à frase que me levara às lágrimas.
–Anna está chegando papais! – ele gritou contente. Segundos depois um choro forte e estridente tomou o lugar. – Chegou à primogênita!
Steve chorou mais do que Anna e eu juntas. Ela era a coisa mais linda e fofa desse mundo, mesma sujinha de sangue e placenta. Nem pude “lamber” a cria direito, pois a levaram para uma mesa e começaram a futricar a bichinha. Antes que eu pudesse gritar um “Ou devolve a minha filha” outro chorinho. E era Olívia chorando forte e saudável. Branquinha, carequinha, pequenina e suja de placenta.
–Ela é igualzinha à outra! –Steve disse o óbvio entre lágrimas – Oi filha!
Preciso dizer que chorei litros?
E novamente foram fuxicar minha outra filha. Esperei ansiosa pelo último choro... E nada. Comecei a entrar em surto.
–Cadê a Flora? – gritei em pânico
–Caraca! – exclamou um outro enfermeiro
–Cadê a Flora? – gritou Steve na onda do pânico
–Sua filha está enrolada na anaconda que é esse cordão umbilical. – disse ele RINDO (RINDO!!!) – Vamos lá neném... Um, dois, três e ...
E finalmente o terceiro choro! E veio até mim a última princesa que era lindamente idêntica as três maninhas e me acabei de chorar por completo. E outra vez arrancaram [o sentimento é esse] minha filha e a levaram rumo a uma bancada fria na qual fuçam nela e nas irmãs e nada me diziam e elas berrava, e eu fazia perguntas ao vento .Ah, não fosse a anestesia tão eficiente...
–Eu vou ver como elas estão! – tranquilizou-me Steve
Enquanto eu ficava ali sendo costurado (e agradecendo por estar viva) Steve voltou sorrindo de orelha a orelha.
–Tenho novidades! As meninas estão ótimas de saúde, estão conseguindo respirar sozinhas, e cada uma mede 46 cm. Ah e por peso elas não vão precisar de UTI. Anna tem 2.450g, Olívia 2.354g e Flora 2.200g. Todas com mais de dois quilos! Parabéns amor, você conseguiu!
E mais rios de lágrimas e beijos salgados.
–Então assim que estiver bem podemos ir para casa, quer dizer, ir... Sei lá, sair daqui?
–Não sei hoje elas vão ficar em observação na pediatria. Apenas se preocupe em ficar boa.
Após ser costurada como um saco de batatas, ainda no bloco cirúrgico,enquanto duas enfermeiras simpáticas me limpavam (eita trabalho brabo, coitadas!), eu ainda grogue por conta da anestesia, eis que, de repente, vejo uma perna – uma perna enorme e branca, uma perna morta – e elas jogavam aquela bendita perna pra cá e pra lá, com um certo trabalho, e abriam e fechavam… Até que eu perguntei :
– Por descargo de consciência: essa perna é minha? — e elas riram, enquanto uma delas balançava a tal perna freak fazendo ‘iuhu’ – Caara, enfermeiras, não façam isso! Eu quase tive outro filho de tanto susto.
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Só fui ver minhas filhas no dia seguinte, porque, como eu esperava, passei muito mal no pós-operatório. Desmaiei umas seis vezes, minha pressão baixou muito. Steve, coitado, estava ficando louco com três bebês chorando ao mesmo tempo (é BEM pior que eu pensava!) e comigo quase morrendo. Só conseguiram estabilizar a pressão hoje no final da manhã. Além disso, estou com muuuuuuuita dor. Confesso que achei que tiraria de letra a recuperação da cesárea, mas está sendo muito mais difícil do que imaginei. Mal consigo me mexer... Para conseguir ver as meninas hoje foi uma batalha.
Depois da minha quase morte pude finalmente analisar minhas joias raras. Contar dedinho por dedinho do pé, olhar os detalhes – e descobrir que você passa quase nove meses com as criaturas na barriga e elas saem à cara do pai – e ver que... Valeu a pena.
Steve deu o primeiro banho nas meninas com a ajuda de Domi, já que eu estava muito mal.
–Oi minha pinxesinha. Você tá olhando pra mim é? – ele fala com aquela voz de doente mental que as pessoas costumam usar com bebês e cachorros. Gargalhei – Você sabia que eu sou seu pai Florinha?
–Essa é a Lili, Steve! – corrigi – A Flora é aquela ali dormindo no carrinho.
–E Anna é essa no seu colo, certo? – Domi me perguntou – Nós temos que dar um jeito de diferenciá-las.
Steve continuava igual um bobão olhando para Olívia que o fitava com a expressão “eu não acredito que essa criatura seja meu pai!”. Flora dormia sossegada num carrinho próximo a minha cama enquanto Anna mamava na boa.
–Cadê as bonitas do tio? – Sam entrou gritando na sala seguido por Clint e Natasha
Flora acordou aos berros. Odiei Sam com todo o meu ser. Não contente ele ainda foi até ela fazer gracinha.
–Gente essa é qual?- quis saber
–É a Fadinha. – respondeu Domi vindo até ele. Em uma bancada próxima, Steve tentava colocar a fralda em Lili. Tentei impedir, mas Anna mamava mais que um bezerro esfomeado.
Olhei para ela cansada. Amamentar é chato. Mamadeira é o que há, mas no hospital “não pode”.
A.J estava cagando e andando para o meu cansaço.
–Tá solano bebê? Não sola bebê?- Sam fazia caretas pra Flora que chorava em busca de socorro- Ô ti coiginha masi fofa a fadinha do tio! Tá solano po tio? Não sola po tio? Sola não!
–QUER PARAR! – grunhiu Natasha a ponto de matá- lo- Que inferno, coitada da criança! Essa sua cara feia e essa voz de esquizofrênico. Deixa-me ver essa garota.
Aproveitando que a AJ tinha dormido me levantei para ver o que se passava com a outra.
Natasha meteu o carão dentro do carrinho e Flora parou de chorar no ato. Ficou absolutamente parada olhando pra ela.
–Isso fica quieta, tá? Não gosto de você. – a ruiva fez questão de deixar claro – Nem de você e nem dos seus pais e muito menos das suas irmãs, então cala a boca para que eu não tenha que te jogar pela janela.
–Natasha! – eu e Clint bradamos no mesmo momento.
Peguei Florinha do carrinho para que ela se acalmasse e fui em direção a Steve que observava Lili, rindo.
–Do que você tá rindo, Steve?
Ele não respondeu, apenas apontou a pobre criança. Algo estava errado com o macacão. Suas perninhas gordinhas estavam apertadas dentro dos buracos por onde teriam de passar os braços e tão esganadas que deveria estar contando a circulação dela. O colarinho estava entre suas pernas. No alto, a cabeça de Olívia passara pela abertura desabotoada que fica embaixo, e seus braços estavam perdidos no meio das perninhas do macacão. Estava uma beleza.
–Seu tonto. – lastimei – Você colocou o macacão nela de cabeça para baixo.
–Estou tentando. Juro que estou.
E eu sei que ele estava... Só que não estava tendo êxito. Dei Flora a ele e arrumei a roupinha da outra. Assim que parei para respirar... Anna acordou esfomeada.
E essa correria durou a semana inteira. Foram os dias mais felizes da minha vida em alguns aspectos e os mais terríveis em outros. Steve estava sempre fazendo alguma coisa errada desde colocar o macacão ao contrário em Lili até confundir Flora com Anna e dar banho em Anna que já tinha tomado banho. Eu sabia que ele estava tentando me ajudar, mas estava me atrapalhando e me deixando irritada. Ele sempre queria pedir ajuda a Domi, a Sam e a quem mais fosse, entretanto acho isso errado. Elas são nossas filhas. Nossa responsabilidade. Nós dois estávamos exaustos e insones, sim, mas nós somos os pais e temos que fazer isso.
Algumas noites ficávamos como zumbis, passando um pelo outro sem dizer nada, com os olhos extasiados, Steve com um bebê e eu com dois (porque ele fica sem ação com mais de um na mão!). Acordávamos a meia-noite com os primeiros barulhinhos de Flora e corríamos antes que ela acordasse as irmãs. Às vezes não dava tempo e um coral desesperador de choros acordava toda a Irlanda. Em seguida acordávamos as três e meia e depois as quatro e meia e depois as cinco.
Aquilo estava me deixando louca. E nem eram as bebês. Era a incompetência de Steve em trocar uma fralda sem sujar a criança toda ou dar mamadeira sem tropeçar em alguma coisa. Infelizmente tínhamos que ficar no hospital até as meninas completarem um mês, data em que já teriam recebido todas as vacinas e em que viagens de carro seriam seguras. E até lá, sinceramente, não sei se minha paciência vai aguentar.
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#Steve
Não, ninguém me disse que ia ser fácil. Só não imaginei que fosse ser tãããão difícil. Esses últimos dias foram cruéis. Quando só faltavam sete dias para podermos ir embora, Anna começou a chorar compulsivamente e chamamos a doutora. O diagnóstico foi cólicas e ela disse que o melhor a fazer eram massagens, pois eram novinhas demais para uma medicação. Pois bem, não adiantou. E pior no dia seguinte Flora também começou a reclamar. E reclamar não é “ei mãe estou com cólicas, me ajuda” é um choro inacreditavelmente alto, como se a estivesse matando. E em coro. E to-da hora. E para fechar Olívia também seguiu o péssimo exemplo das irmãs.
Isadora tem ido crises de choro, se sentindo uma péssima por não conseguir fazer nada para sarar as meninas e com isso a falta de paciência dela atingiu um nível assustador. Essa fase das cólicas está me tirando às forças, e elas vieram com tudo mesmo... E o pior é que as crises começam por volta das oito da noite e vão até as cinco da manhã. Não sabemos mais o que é dormir. E com cólicas e Isadora estressada ainda tem a Natasha que sai do “quarto” dela de madrugada com uma arma dizendo que “se vocês não conseguem fazer essas pestes calarem a boca eu consigo.”.
Ando exausto demais para brigar com ela. Sam e Domi também reclamar por não poder dormir. O hospital inteiro reclama e ninguém faz nada para ajudar. A suspeita é que as cólicas sejam por conta da fórmula infantil que elas estão tomando, porque Isa não tem mais coluna e nem tempo para amamentá-las direito.
Resumindo: Estamos entrando em curto.
E ainda temos muito a fazer fora cuidar de nossas filhas. Não posso esquecer isso, é só ligar a televisão que percebemos que nada mudou na nossa vida. Só piorou de uma forma melhorante. Estranho né? Mas, é assim que me sinto: Cansado, pressionado e excessivamente feliz.
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