Ainda É Cedo
23 Uma Conversa Franca
Notas iniciais
#Steve
Eu consegui! Consegui! Finalmente consegui! Me declarei para Isa.... Quer dizer, quase.
Isso é pior do que ser fuzilado por um helicóptero.
Ai meu deus! Ela continua olhando para mim com as sobrancelhas levantadas. Ela deve me achar um idiota.
–Significou? – perguntou após uma eternidade
Confirmei com a cabeça me odiando por não conseguir ficar mais tranqüilo.
–Ee-e-e-e-eu... – estendi o eu por uma eternidade ficando cada vez mais desesperado – Eu gosto de você.
PRONTO FALEI! Agora pode me odiar para sempre, Isadora! , pensei.
Ela riu.
–Eu também gosto de você. Quer dizer, gostar eu gosto de amoras. Você eu amo. – respondeu bem humorada
Sorri junto. Não era bem esse o “gostar” que eu estava dizendo...
–Bem...
–Eu te beijei depois que você me beijou. – disse ela interrompendo meu raciocínio
–E – Eu sei. Por quê?
– Por que o que? – perguntou aflita
–Por que o que, o que? – devolvi a pergunta ,mais aflito que ela
Explodimos em uma gargalhada.
–Ai que confusão! –exclamou
Suspirei. Clima desconfortável voltou. Falta de assunto também. Por que eu sou tão ruim nisso?
–Poxa, está chovendo muito. – puxei assunto – Não costuma chover tanto assim no Arkansas.
–Pois é. – concordou com a cabeça – É verão né? Chuva de verão é assim mesmo. Lá em Angra a gente já espera a tempestade em janeiro. Sempre a loja do meu pai enche.
–Eu sei te conheço há algum tempo. – ironizei
Ela riu.
–Sabe o que eu acho?
–Não, mas gostaria de saber. – falei sorrindo
–Acho que nós ferramos com nossa intimidade.
– Como assim?
–Antes da gente... Você sabe. – disse sem jeito balançando a cabeça para o lado – Bem, antes disso nunca ficávamos sem assunto e muito menos com vergonha um do outro.
Fui obrigado a concordar.
–Então você acha que devemos conversar sobre?
–Sobre o beijo? – quis saber, tímida
–Você quer começar? Você disse que tinha sido importante. – disse ela
Passei a mão na testa suando frio. Respirei fundo. Pronto, lá vai.
–Por favor, não me odeie. – pedi antes de tudo – É só o que te peço tudo bem?
–Te odiar? Por que eu te odiaria, Steve? – inquiriu confusa antes de me dar um abraço – Eu jamais te odiaria.
Acariciei a bochecha dela, sorrindo.
–Sabe aquele dia em que eu surtei com a Sharon no restaurante?
–Sei, o que tem?
Respirei fundo novamente. Difícil dizer para uma garota linda, moderna e independente com a Isa que você a ama. Principalmente quando ela está sentada enfrente a mim mais charmosa do que nunca.
–Fala Steve, estou curiosa! – me apressou dando um tapinha no meu braço.
–Naquele dia quando eu sai de lá encontrei o Sam. – contei – E ele me ajudou muito a perceber uma coisa.
– Que coisa? – se interessou mais curiosa impossível
Engoli em seco quase tento um ataque de pânico.
–A...A...A...A... Perceber... Será que você pode ser menos bonita só um pouquinho? – pedi desesperado
Isadora soltou uma gargalhada escandalosa.
–Quê?
–Olha é que está difícil dizer que sou apaixonado por você com você olhando para mim linda desse jeito. – reclamei desesperado. Silêncio na cabana. Minha nossa, eu falei! Eu falei!
Joguei as mãos sobre os olhos, completamente embaraçado.
Fiquei a sim por tempo indeterminado. Isa não falou nada por muito, muuuuuuuuuuito tempo. Isso estava me deixando pior.
–Apaixonado? – repetiu depois de um tempo – Mesmo? Por mim? Por quê?
Olhei para ela, recatado.
–Eu só não me apaixonaria por você se eu fosse gay. –afirmei
Ela riu, meio sem jeito. Coloquei a cabeça entre os cotovelos, mas constrangido do que nunca.

–Eu... Não sei o que dizer. – confessou – Só sei dizer que ontem eu tive o melhor beijo da minha vida.
Voltei a olhar para ela, estupefato. Eu ouvi direito? Isadora disse o melhor beijo de sua vida?
– Como é? – perguntei
–Tudo bem, vou ser franca com você. – suspirou – Pra mim aquilo não foi só um beijo, tá legal? Eu só falei aquilo porque você me pediu desculpas e isso me deixou com raiva. Aquele beijo foi... Foi... Foi mágico!
Eu estava boquiaberto. Talvez haja uma esperança...
–Eu nunca, nunca mesmo tinha pensado em você dessa forma... Como homem. – continuou a falar olhando para os próprios pés – E quando você me beijou... Foi muito bom.
–Bom?

Ela concordou.

–E eu não consigo entender isso. Não consigo entender porque cargas d’águas eu gostei tanto e nem porque eu te agarrei em seguida. – prosseguiu com a voz embargada – Você mexeu comigo, Steve. De um jeito que ninguém tinha mexido antes. E eu não sei se isso é bom ou mau.
Isa ficou de pé, de costas para mim, fitando a chuva cair pela janela.
Levantei-me também, colocando as mãos nos ombros dela. Isa virou-se para mim, com as sobrancelhas juntas.
–Por que você se apaixonou por mim, Steve? –indagou com o rostinho carregado pela duvida e insegurança – Sempre quis arrumar namoradas para você, porque você é o cara mais lindo e príncipe que eu conheço. Sempre achei que você merecesse uma princesa. E você se apaixona por mim que sou uma sapa?
Eu ri colocando uma mecha dos cabelos castanhos atrás de sua orelha.
–Eu não acho que eu seja príncipe e muito menos lindo. – contrastei rindo – E de sapa você não tem absolutamente nada. Nada mesmo. Eu já disse é impossível não se apaixonar por você, Isa. Você é inteligente, divertida, linda, doce, delicada, carinhosa, amiga, justa... São tantos os adjetivos para te descrever. Você ensinou quase tudo que eu sei – asseverei falando com o coração – Quantas vezes você chegava do trabalho exausta e mesmo assim sentava naquele computador e me ensinava sobre tecnologia, televisão. Quantas vezes você gastou o seu dinheiro para comprar algo que você sabia que eu precisava? Você fez um jardim para mim...
–Você viu?
–Sim, eu vi, e ficou lindo. – agradeci – Você é fantástica.
–Não. Você é fantástico, Steve. – replicou apontando para o meu coração – Se eu fiz algo por você foi por que você mereceu. O crédito é seu, não meu. Eu nunca menti quando disse que te amava. Até agora você foi o único que não me abandonou quando eu mais precisei. Quando eu te conheci eu estava perdida sendo usada pela Cléo. Mas, sabe porque eu deixava? Por que se eu não me deixasse ser usada por ela eu acabaria sozinha. Eu sempre acabo sozinha. Meus amigos não conseguem passar muito tempo comigo. Desde que eu era criança eu tenho problemas com amizade.
–Porque as pessoas têm inveja de você. – afirmei com convicção – A Cléo é prova disso. Você é a amiga que todo mundo quer, a namorada que todo mundo quer, a filha que todo mundo quer. E deve ser difícil para as pessoas conviverem com você por isso. Porque sempre vão comparar a pessoa com você. E sabe por quê? Porque você é o modelo. Você é incrível.
Uma lágrima desceu discretamente pelo seu rosto e fiz questão de limpa-la.
–Você é muito fofo, Steve! – exclamou me dando um abraço – Eu não sei mais o que sinto por você e isso está acabando comigo. Nunca senti isso antes e tenho uma grande dificuldade em lidar com coisas que desconheço.
Sorri me separando do abraço.
–Está tudo bem, meu amor. –confortei-a – Você não tem que estar apaixonada por mim só porque sou perdidamente apaixonado por você. Seria bom, mas não é regra.
Ela soltou uma risada.
–Então como faremos? – quis saber
– Sobre nós ou sobre salvarmos o Barton?
Isa rolou os olhos.
–No momento, sobre nós.
Suspirei enquanto refletia.
–Só sei que não quero que nossa amizade seja afetada. Isso é primordial para mim. Quanto aos seus sentimentos, só você pode me dizer.
– Não importa o que aconteça seremos sempre amigos, tudo bem? – afirmou – Promete para mim.
Sorri abertamente.
–Prometo, claro que prometo. E você promete uma coisa para mim?
–O que você quiser. – disse ela
–Prometa que não vai esquecer que sou apaixonado por você. – pedi
–Como assim? Acho que não dá para esquecer isso, Steve.
–Estou dizendo isso para você não ficar mais me falando de Brian ou de outro ex-namorado e para você tentar ser menos atraente.
Isa gargalhou.
–Você é uma figura!
–Promete?
–Eu estou toda suja de barro e água, meu cabelo grita por uma escova então eu estou igual uma monstra. – dizia entre risos
– E você ainda está bonita.
–Ah fala sério, Steve! – se revoltou – Estou um monstro.
–Beautiful monster. – retruquei divertido
–. Como vamos achar os outros? – mudou de assunto, meio constrangida e indo para a porta
A chuva finalmente tinha passado.
–Já estamos aqui há uma hora. Acho que já é seguro procurar o resto. – analisei
Isa concordou e lá fomos nós. Andamos devagarzinho, já que o pé dela ainda doía, e conversando. Fiz uma tempestade em copo d’água. Por que tanto pânico se uma simples e honesta conversa com Isa solucionou tudo? Confesso que estou bem mais aliviado agora. Seria muita, muita sorte querer que ela fosse apaixonada por mim, mas só de saber que eu provoquei alguma coisa nela já me deixa mais confiante.
–Ei olha só, uma Willow! – exclamei apontando a árvore
Ela revirou os olhos.
–Por que tanto amor por uma arvore? É só uma arvore igual todas as outras. – reivindicou
Olhei para ela ofendido.
–Não é só uma árvore. É A árvore. – entrei da defesa do salgueiro – Essa árvore simbolisa a pureza. Não cresce em lugares secos e é a árvore mais flexível do mundo. Nada pode quebrar ela! Nem o maior furacão ou maremoto. Sem contar que os romanos acreditavam que os salgueiros eram mágicos e possuíam a capacidade de curar e rejuvenescer idosos.
Ela me olhava perplexa.
–Você é muito Gnomo! – vociferou em tom de pesar – Pra mim é só uma grande e inútil árvore.
–Inútil? – berrei – Só uma Willow é capaz de produzir oxigênio para trinta pessoas!
–Oh nossa que árvore linda! Essa árvore é quase uma heroína! – zombou
–Ah você não tem jeito! – resmunguei
–E nem você. – revidou
Continuamos nossa caminhada exaustiva e nada de achar ninguém. Nem os capangas de Sharon e nem nossos compadres. O dia já estava amanhecendo e ainda estávamos no meio da floresta. Isa reclamando dos mosquitos e eu deslumbrado com tanto verde, com tantos bichos e com tanto ar puro.
Já estávamos desistindo quando ouvimos um barulho de carro á uns metros dali. Puxei a garota para trás de uma árvore. A coloquei entre a planta e meu escudo apontando a arma para a direção do barulho.
–Um carro! — sussurrou
O som estava se aproximando.
–Fica aqui. – sussurrei de volta e fui em direção ao barulho que só crescia
Sai de trás das arvores e um Suburban azul escuro quase me atropelou. Sam!

Abaixei a arma e chamei Isadora.
–Finalmente! Procuramos vocês por horas! – disse ele aliviado
–E a Romanoff...
–Estou aqui! – disse ela nos fundos do carro.
Impressão minha ou esses dois tinham uma fixação por utilitário de luxo com sete lugares? O Suburban seguia o estilo dos últimos dois carros: espaçoso e luxuoso. Isa e eu entramos no banco traseiro, dessa vez sem nos preocuparmos tanto com a proximidade.
Wilson arrancou com o carro.
–E aí? – disse ele com malícia olhando para nós pelo retrovisor.
–E aí o que? – quis saber Isa, sonolenta
–Vocês dois... No mato... Sozinhos até essa hora...
–CALA A BOCA, SAM! – gritamos juntos
–Nós somos amigos tá legal? – informei dando um soco no banco dele
Dominika e ele riram.
–Claro... “Amigos”. – debochou a latina
–Olha aqui vocês não tem mais o que fazer não? – Isa perdeu a linha – Não sei se vocês sabem, mas nós sofremos um acidente seríssimo de carro e depois fomos caçados pelo mato como zumbis. Será que dá para o casal maravilha parar de gracinha e acelerar que ainda temos que salvar um homem na Sibéria?
O “casal maravilha” ficou sem graça e seguiu viagem em silencio. Após alguns minutos Isadora adormeceu e não pude parar de refletir em nossa situação.
Se algo me preocupava esse algo era Natasha Romanoff. Dificilmente ela ainda acredita que vamos “explodir” Nova Iorque, isto é, como uma mentirosa profissional acreditaria em uma moça que tem horror a armas e violências e um moço (que no caso sou eu) que está se sentindo superculpado por roubar um carro (agora dois!) podem simplesmente se aliar a terroristas? Óbvio que ela não caiu nessa. Não por muito tempo.
Mas, então porque ela não se manifestou? Mesmo com tanto atraso por que ela não reclamou? Esse cara deve ser mesmo importante para ela. Ah e ainda estamos dependendo do que ele descobriu! Isso se ele ainda estiver vivo. Se este cara morreu todos nós vamos morrer.
–Steve! – Sam chamou
–OI!
–Acorda a Belinha, acabamos de entrar em Alvorado. – disse ele a frase do século.
Respirei aliviado. Finalmente!
–Deixe a dormir quando chegar ao lugar me avise. – falei com pena de acordar a moça.
–Mas, já estamos na fazendo do Julius. – treplicou — Em cinco minutos chegaremos á sede da fazenda.
Olhei no relógio e eram nove da manhã. Se contar que saímos da floresta no Arkansas as cinco e meia, chegamos rápido.
–Isa? – chamei sacudindo delicadamente seus braços – Isa?
Ela gemeu antes de abrir os olhos com cerca dificuldade.
– O que foi? O pneu furou de novo? Estamos cercados? – questionou elétrica
–Não, calma. – olhei para o banco de trás e dei um soco no banco – ACORDA AÍ RUSSA, CHEGAMOS A ALVORADO!
Ela levantou assustada.
–Credo Steve, que grosseria! – repreendeu-me Isa em meio á um bocejo
Dominika se espreguiçou no banco da frente.
–Chegamos? Graças! – se alegrou Romanoff – Agora é só ir para a Sibéria.
–Não gente, também não é assim. – ponderou Isa olhando a paisagem pela janela – Nós não temos uma roupa alem da que estamos vestindo. Como é que vamos para o lugar mais frio do mundo?
Silencio desesperador. Ninguém tinha pensado nisso.
– Não esquenta Belinha, nós damos um jeito. – disse ele estacionando o carro entre três arvoredos.
Descemos do carro, mais felizes do que nunca.
Natasha começou a andar de um lado para o outro.
–Temos que embarcar ainda hoje. – exigiu – Já perdemos tempo demais nessa viagem maldita!
–Olha aqui se o “jeito” que vocês estão pensando em dar é outro assalto, podem tirar o cavalinho da chuva. – decretei com cara de poucos amigos – Já basta ter roubado dois carros na viagem de Nova Iorque até aqui. Já chega disso. Isso é errado, fora da lei e um grande desvio de conduta.
–Faço das palavras do Steve as minhas. – disse Isadora também revoltada
Natasha soltou um rosnado de raiva esmagando uma borboleta com a sola do sapato.
–Desnecessário fazer isso. – resmungou Domi – E tudo bem, puritanos, nós compramos as roupas de frio, ok?
–Agora sim! – Isa sorriu
– Vamos almoçar tomar um banho, comprar as roupas e antes do por do sol zarpar do país pode ser? – questionou Sam
Todos concordaram.
–Bem, não seria propício darmos uma explicação as pessoas antes de partir? – propôs a brasileira
Voltamos a atenção a ela, confusos.
– O que passa na sua cabeça? – perguntou Domi cruzando os braços
– Tem internet aqui?
Sam confirmou.
–Proponho que façamos um vídeo contando tudo pelo que passamos sem mencionar o resgate a Clint para que não atrapalhem nossa viagem, e botemos no Youtube. Mas, claro, isso amanhã para que quando rastrearem a origem do vídeo não nos encontre. – contou
Impressionante a capacidade que a Isa tem de pensar em coisas simples que ninguém mais pensa.
–É só uma idéia gente! – acrescentou, rapidamente, ao perceber que ainda a fitávamos de boca aberta

–Idéia genial. – declarei
–Isso pode nos ajudar bastante com a opinião pública! – exclamou Domi
–Só que eu não posso aparecer neste vídeo. – informou a ruiva
– E por que não? – eu quis saber
–Por que vocês são bonzinhos já ajudaram suas respectivas sociedades, eu não. Meu avô matou o Kennedy.
Olhamos para ela chocados.
–Seu avô matou o Kennedy? Pera aí, seu avô matou o presidente John F. Kennedy? – quase berrou Isadora, estupefata
Natasha rolou os olhos irritada com “exagero”. Esta mulher vem de uma linhagem de assassinos.
–É acho bom ela não aparecer no vídeo. – concordou Sam, com receio da européia
Entramos na sede da fazenda.
Agora nossa missão era simples: Informar a população de nossa real missão.
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