Aids
2 Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida
Maia examinava os prontuários dos pacientes com calma. Havia terminado o ambulatório mais cedo naquele dia pois queria curtir um pouco a companhia dos gêmeos.
“Espero que eles estejam animados hoje, huhuhu!”, pensava contente. Era óbvio que sua imaginação estava em cenas proibidas para menores de idade. Matinha-se tão entretida que nem notou uma visita parada à porta.- Doutora? – Chamou uma voz infantil.- Hum? Ah, Kiki, boa tarde. Como está, meu ruivinho mais fofo? – Sorriu ela abraçando o garoto e depositando um beijo em sua testa.- Bem. – Respondeu sorrindo de volta. – Doutora...- Já disse pra me chamar de Maia, fofucho. – Repreendeu apertando as bochechas dele.- Ai, isso dói! Sim, Maia. Queria perguntar uma coisa, posso?- Já perguntou. – Sentenciou ela, deixando o menino emburrado.- Ah, assim não dá.- Já deveria estar acostumado, gracinha. – Puxando-o e colocando-o no colo. – Ta, não vou mais te importunar. O que quer saber?- O que é AIDS?- HEIN?- O que é AIDS? – Repetiu sem se importar com a reação da garota.A jovem médica olhava-o espantada. Kiki estava com 11 anos, quase um adolescente. Nessa fase era natural que várias questões acerca do corpo e da sexualidade surgissem. Mas essa pergunta pegou-a completamente desprevenida. O Santuário era, por si só, um mundo a parte. Todos ali viviam por demais isolados para saberem o que acontecia mundo afora. Não entendia como algo tão grande e complexo tinha ido parar nos lábios da criança.- Onde ouviu essa palavra, Kiki?- Não ouvi. Li numa revista que eu compr... – Ficou repentinamente mudo e vermelho, como se fosse revelar algo escabroso.- Hum, era uma revista com... Garotas?O menino ruborizou ainda mais e baixou o olhar, concordando de leve com a cabeça.- Hahahaha! – Maia não agüentou e começou a rir sem parar.- Não é engraçado... – Resmungou num fiozinho de voz.- Desculpa, desculpa! – Pediu quando conseguiu se controlar. – Mas é tão bonitinho! – Exclamou abraçando com força o pequeno aprendiz.- Humpf...- Ah, Kiki, não fique assim. Na sua idade é normal querer ver mulheres bonitas... Mas depois conversamos sobre isso. O que mais você leu?- Que era uma coisa que meu vizinho poderia ter. E que devia tratá-lo bem mesmo assim. Quer dizer que o Deba tem AIDS?- NÃO! Quer dizer, espero que não. – Arrematou indecisa.- Então o quê?- Ta certo amor, vou te explicar. Mas promete que tudo o que eu falar aqui fica entre a gente, viu? Promessa de homem!- Promessa de homem! Peraí, você é menina! – Observou ele, com a testa franzida.- Promessa é promessa! – Concluiu ela sorrindo e alisando os fios rubros. – Deixa eu ver, por onde começo... Pelo início, sempre melhor.“Aconteceu há algum tempo atrás, você não era nascido e eu ainda era muito criança. Um moço que morava nos EUA viajou para a África e teve contato com um grupo de macacos. Lá ele adquiriu um bichinho estranho, um vírus.”- O que é um vírus? – Interrompeu o garoto, curioso.- O menor bichinho do mundo. Tão pequeno que temos que usar uns aparelhos enormes para vê-lo. Um tipo dele é que causa a gripe.- Ah tá. E aí?“Ele voltou para casa doente. Esse moço não tinha um namorado, tinha vários.”- Que nem o Milo? – Inocente.- Bem, sim. – Respondeu, pensando: “Nem de longe TANTOS quanto o Milo”.“Só que, olha que estranho, o vírus não passava de uma pessoa pra outra pelo ar, como quando ficamos resfriados. Ele era transmitido de outra forma.”- Que forma?- Ai, como pergunta! Eu já chego lá.“Demorou um ano ou dois e logo havia muita gente com esse bichinho. Era difícil tratar deles. Davam remédios e nada de melhorarem. O mais esquisito era que quem tinha o vírus acabava morrendo não dele e sim de doenças muito fáceis de curar. Era como se algo no corpo não estivesse funcionando bem, impedindo que aqueles males fossem embora.”- Sim, como pegavam o vírus?- Depois! Continuando...“Uns 10 anos depois esse bichinho já tinha saído dos EUA e ido parar aqui na Europa, na América do Sul, na África e na Ásia. Vamos chamá-lo de HIV agora.”- HIV?- Human Imunodeficience Virus. Vírus da Imunodeficiência Humana.- Que é essa imuno... Imunodefi... Isso aí?- É quando o corpo fica tão fraco, mas tão fraco que não consegue mais lutar contra as doenças causadas pelos outros micróbios, além desse vírus.- Que tipo de doenças?- Resfriados, gripes fortes, até aquela diarréia que seu mestre teve mês passado.- Nossa! Ele deve ser realmente terrível... – Exclamou assustado.- Mais do que imagina, meu anjo. Vamos em frente.“Os médicos, quando descobriram sobre esse vírus, ficaram desesperados. E foram atrás das formas como ele passava de uma pessoa a outra. Foi aí que chegaram ao moço dos macacos. Na medicina chamamos de caso index, o primeiro caso. Notaram que os únicos que pegaram o bichinho eram seus namorados e os namorados deles. Aí que tiveram a primeira certeza: a doença precisa de contato.”
- Ela pega se eu pegar um lápis que outra pessoa tenha segurado?- Não! É um contato especial...“Era necessário que as pessoas tivessem namorado muito para ter a doença. E como o moço só tinha namorados, acharam que ela ficaria só entre homens. Mas então mulheres começaram a ter os mesmo sintomas deles. De onde vinha? É que alguns moços também namoravam mulheres.”- Ah, então é só não namorar que não se pega! – Concluiu inocente e vitorioso. Maia sorriu.- Quem dera fosse tão simples...“Um dia, chegou ao hospital uma pessoa com os sintomas desses moços. Mas ela não namorava ninguém. Como poderia estar doente? Perguntaram, perguntaram e ela acabou confessando que usava alguns remédios proibidos. Drogas.”- Drogas? Que é isso?- Aqui é realmente esquecido por Deus, Kiki... Vamos deixar isso para uma outra conversa. No momento basta você saber que drogas são remédios, porém a lei de cada país não permite que os usemos. Quem o faz comete um crime.“O tipo de droga ele usava era especial. Em vez de comprimidos ou xarope, era uma injeção. Pesquisando mais os médicos descobriram que ele não jogava fora as agulhas e sim usava a que outros amigos já tinham usado. Um desses amigos tinha o HIV. Mais uma forma de passá-lo por aí.”- Não use drogas e não namore! Pronto, ninguém mais fica doente!- Será? – Pendendo a cabeça levemente, continuou:“Lembra das mulheres que ficaram doentes? Uma delas estava grávida. Quando o nenê nasceu, coitadinho, morreu pouco depois. Ele tinha pego a doença da mãe. Os médicos acharam que era só não engravidar que não teria mais o vírus nas crianças. Mas aí nasceu uma menina, muito bonitinha. Ela não estava doente, não tinha o vírus. Só que com o passar dos anos, ela foi emagrecendo, emagrecendo até não conseguir mais viver. De onde ela tinha pego essa doença então? Quando nasceu estava normal... AH! Mas sua mãe tinha amamentado ela. Examinaram o leite e viram que tinha muito HIV ali.”“Por fim aconteceu algo que deixou todos em polvorosa. Um homem, sem namorado e que não usava drogas ficou doente. Ele tinha sofrido um acidente sério, precisou tomar sangue de outras pessoas para não morrer. Infelizmente, era um sangue com o HIV.”- CARAMBA! Quer dizer que qualquer coisa passa esse vírus!- Foi o que todos imaginavam. Daí que começaram os problemas.“Os homens que namoravam homens, as moças que namoravam por dinheiro, os usuários dos remédios proibidos, os filhos das moças doentes, aqueles que precisavam se sangue para viver – algumas doenças requerem que você faça isso várias vezes — começaram a ser discriminados.”- O que é discriminar?- É quando temos preconceito. E preconceito é quando fazemos uma idéia, errada ou não, sobre algo que não conhecemos. Só que, quando pensamos errado, tendemos a discriminar, colocar de lado, maltratar. Como quando você e os cavaleiros de Bronze vieram ao Santuário. Todo mundo achava que eram traidores e que Saori não era Athena. Mas, em vez de ouvi-los, preferiram brigar. Não teria sido melhor se parassem e conversassem?- É mesmo... E que houve?“Deu um trabalho danado pros médicos tirar essas idéias da cabeça de todos. Primeiro eles provaram que a pele sem feridas, o cocô, o xixi, o cuspe, as lágrimas não tinham o vírus. Depois fazer com que as pessoas perdessem o medo de se aproximar de quem tinha o HIV. Ainda hoje há quem ache que só por ter sentado no banco ou beber no copo de alguém doente, ficará doente também. Uma grande mentira.“- Que feio! Nunca vou fazer isso! – Garantiu com determinação.- Assim espero, amor.- Mas e os remédios? Ou quem tinha o vírus continuou morrendo?“Demorou mas criaram alguns remédios para controlar a doença. Só que o HIV era mais esperto do que todos supunham. Ele mudou, criou filhos mais fortes. E foram necessários medicamentos ainda mais poderosos. Aliado a isso, os governos do mundo começaram a fazer campanhas sobre como se prevenir. Tipo, usar preservativo quando namorassem, trocar e agulhas, não dar de mamar aos nenês, as mamãe receberem remédio antes de seus filhos nascerem, o sangue era examinado toda vez antes de ser usado.”- O que é... Preservativo?- Outro dia, Kiki!“Hoje em dia cientistas do mundo inteiro estão trabalhando para criar uma vacina e/ou remédios que curem de vez a doença. Está difícil, não é tarefa simples. Pelo menos quem pega e descobre cedo pode se tratar e viver muitos anos, sempre com muito cuidado. As pessoas também perderam grande parte do preconceito, apesar dele ainda ser forte. O maior problema é que essa epidemia continua crescendo, sem parar... Onde estamos errando?”Maia parara de falar, estava divagando, pensativa. Aquela conversa reacendera seus temores, as mesmas preocupações da época de estudante. Quando a doença pararia de se disseminar?- Maia! O que significa AIDS?- É a sigla em inglês para Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida. Foi como os médicos a chamaram.- E quem tem é o que? Aiditico?- Não, querido. É aidético. Mas essa palavra foi abandonada há muitos anos porque ela trazia sofrimento. Só os médicos a usam e entre nós apenas. Quem tem o vírus é soropositivo. Quem não tem é soronegativo.- Esse sou eu! – Sorriu feliz.- Claro que é. Agora me promete uma coisa: nunca vai tratar mal quem tiver AIDS. Jura?- Juro! Mas... E se ela me tocar?- O que eu acabei de falar? O HIV não se pega tocando na pessoa. Nem dormindo na mesma cama, nem tomando banho junto. Só tenha cuidado com sangue. E quando PENSAR em namorar uma menina venha me falar para que eu te oriente sobre isso.- Certo! Agora eu sei tudo dessa doença! Ainda bem que ela não surgiu aqui, né Maia? – Comentou recostando a cabeça no ombro da moça.- Sim, ainda bem... – Murmurou.Contudo, algo a estava deixando inquieta. A conversa fizera surgir uma enorme dúvida em seu peito. Seria realmente o Santuário imune àquela epidemia?
Notas finais
N.A.: O modo como a Maia explica para Kiki sobre a AIDS pode parecer meio infantil mas ele é uma criança e ainda por cima vive num lugar isolado. Num caso desses, quanto mais simples e diretas as palavras melhor.
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