Ahd al-Ramad

4 Sob a vigilância dos abutres


Parada em frente a um espelho de corpo inteiro, eu permitia que as mulheres da minha família — Rosalie, Alice e Esme — me auxiliassem com o drapeado do meu kaftan de noivado. A peça escolhida por elas era de um azul tão profundo que quase flertava com o negro, pesada pelos bordados em fios de ouro que se sobrepunham em meus ombros como correntes reais. Eu não via uma noiva no reflexo.

— Você está linda, Nessie — Rosalie foi a primeira a quebrar o silêncio, sua voz carregada de uma admiração rara. — Como uma princesa de outra era.

Forcei um pequeno sorriso em sua direção. Era uma forma educada de demonstrar agradecimento, mas o gesto não alcançava meus olhos. Eu não me sentia parte da realeza; sentia-me como um tributo sendo preparado para o altar.

— Onde ele está? — questionei, me voltando para minha mãe. Minha voz era baixa, um segredo compartilhado apenas entre nós quatro naquela sala.

— No pátio das laranjeiras. Ele está... inquieto — Esme respondeu, seus olhos refletindo a mesma angústia que eu tentava sufocar.

Agradeci com um aceno discreto. Para minhas "irmãs", não era surpresa que Edward se sentisse afetado pela oficialização do noivado e, menos ainda, pelo casamento que ocorreria em apenas sete dias. Todo o nosso clã parecia carregar o peso do que nós sentíamos; a melancolia de Edward desde nossa chegada ao Marrocos, há cinco noites, era um fantasma que todos fingiam não ver para manter a diplomacia intacta.

Assim que o trabalho com meu traje foi finalizado, pedi um momento de privacidade. Meus passos eram pesados enquanto eu caminhava em direção ao pátio, o ouro do vestido tilintando suavemente.

Edward estava lá. Vestido em trajes típicos da região, sua silhueta estática fazia uma oposição severa ao movimento vibrante das folhas ao redor. Ele não se virou quando me aproximei; ele nunca precisava. Edward captava minha presença no ar antes mesmo que meu pé tocasse o mármore do pátio.

— Você não dormiu — ele constatou, virando-se para me encarar. Sua voz era suave, mas carregada de uma melancolia que ele não se dava mais ao trabalho de esconder de mim.

— Os Volturi chegarão em breve — soltei um longo suspiro, colocando-me ao seu lado. O alívio foi instantâneo. A presença gélida dele era um bálsamo para minha pele, constantemente aquecida pelo calor desértico e pela febre de ansiedade que me consumia.

Seus olhos dourados prenderam-se aos meus. As íris estavam em um tom denso e escuro, um reflexo do estresse que nem mesmo a caçada recente pudera aplacar. Eu o conhecia o suficiente para saber que a cacofonia de mentes dentro daquele palácio — os segredos de Jacob, a desconfiança dos anciãos e a tensão dos nossos — estava sendo uma tortura silenciosa para ele.

Edward estendeu a mão, e o toque de seus dedos frios contra o meu rosto foi o único momento de verdade que tive desde que pisei em Marraquexe.

— Você estará perfeita diante deles — o tom de Edward era de uma veneração quase absoluta. — Eu sacrificaria a eternidade apenas para ocupar o lugar de Jacob naquele altar.

Senti meu peito se apertar diante da declaração. Aquela única noite em que escolhemos o pecado da proximidade, em que dormi com Edward em um ato de rebeldia silenciosa contra o tratado, parecia ter aberto uma ferida ainda maior nele.

Eu carregava o peso da culpa como uma segunda pele. Desde aquela noite, o modo como ele me olhava havia mudado; Edward parecia me adorar com uma intensidade renovada, uma devoção faminta que ele não fazia mais questão de resguardar quando estávamos a sós. No isolamento daquele pátio, a máscara de "irmão" não apenas caía — ela se estraçalhava sob o peso de um amor que não tinha mais para onde recuar.

Houve um longo período de silêncio entre nós. Busquei em minha mente palavras que servissem de consolo, mas nenhuma das que encontrei parecia suficientemente adequada para curar o que eu mesma havia infligido a ele.

Ao som de botas pesadas se chocando contra o chão de mármore, Edward e eu nos afastamos em um movimento instintivo de preservação. Jacob caminhava em nossa direção com a expressão fechada e os ombros tensionados, como um soldado prestes a cruzar a linha de frente de um campo de batalha.

Meu futuro noivo e eu não havíamos trocado mais do que duas ou três palavras após o desentendimento durante a caçada. Eu não poderia dizer que isso me perturbava; quanto menos interações tivéssemos, menos eu precisaria gastar minha energia atuando.

— O comitê de Aro está se posicionando nos portões — anunciou ele. A voz era tão áspera e cortante quanto uma lâmina afiada, desprovida de qualquer traço de cortesia matinal.

Jacob parou a poucos metros de onde Edward e eu estávamos. Seus braços fortes mantinham-se cruzados sobre o peito e os olhos vermelhos — o sinal nítido de uma noite inteira sem sono — alternavam entre mim e meu "irmão". Ele não se deu ao trabalho de esconder o desprezo que sentia ao nos observar naquela proximidade.

— Obrigada por avisar, Al-Aswad — respondi. Minha voz assumiu o tom gélido e autoritário que eu já havia percebido que o irritava profundamente.

— Alec e Jane já estão no pátio externo — ele sibilou, se voltando exclusivamente para mim. Cada um de seus gestos era milimetricamente calculado para ignorar a presença de Edward ao meu lado. — Seria de bom tom que a noiva não andasse com o "irmão" a tiracolo. Os gêmeos podem captar a intimidade entre vocês a quilômetros de distância.

A palavra "intimidade" saiu de sua boca carregada de um veneno particular, uma acusação direta ao que ele vira no jardim e ao que Edward, sem dúvida, estava projetando em seus pensamentos agora.

Me levantei em uma lentidão que seria considerada exagerada até mesmo para um humano. O tilintar dos bordados e das correntes fixas em meu traje eram o único som a preencher o barulho do ambiente. Olhei para Edward uma última vez — um pedido silencioso de perdão que ele captou antes mesmo de eu formular o pensamento — e então desviei o rosto, sentindo o frio dele se tornar uma lembrança distante.

Caminhei até Jacob, me colocando ao seu lado. O calor que emanava de seu corpo se colidiu com minha temperatura mais amena de forma sufocante, tornando a névoa do desconforto entre nós ainda mais densa. Ele era como uma estranha extensão do calor desértico.

Mesmo que meu noivo não facilitasse o gesto — mantendo o braço direito enrijecido — me enlacei a ele. O contato imediato me fez querer recuar pelo aumento do choque térmico, mas mantive a coluna ereta, com o postura que era esperada de alguém naquela posição. Ao longe, soavamos como uma imagem de união perfeita: a sultana e o sheik em suas vestes imaculadas. Mas, sob o luxo, eu era capaz de sentir a repulsa dele por mim e pelo o que viria a seguir.

Jacob apertou o braço sobre o meu, uma pressão excessivamente forte que beirava a dor; provavelmente, eu teria um osso trincado, se não fosse minha natureza vampírica. Não reclamei.

Edward ficou para trás, entre dois pés de laranjeira; senti seu olhar queimando a retaguarda até que desaparecessemos do seu campo de visão. À medida que atravessávamos os corredores, o perfume de sândalo e especiarias do palácio foi subitamente asfixiado por um cheiro metálico, antigo e seco — o cheiro de morte preservada que vinha de Volterra.

As portas se abriram com um estrondo surdo.

Como duas colunas essenciais e sombrias, os gêmeos se mantinham estáticos no centro do salão. As capas que vestiam pareciam forjadas em um tecido tão pesado que nem mesmo uma tempestade de areia seria capaz de movê-las; eram monumentos de cinza e poeira. A aura ao redor deles era predatória, capaz de engolir o burburinho dos servos e transformar o ar em um vácuo gélido.

Enquanto caminhávamos em direção a eles, cada passo meu era uma nota em uma sinfonia de mentiras. O tilintar do ouro no meu kaftan parecia ensurdecedor contra o silêncio de morte que eles emanavam. Senti Jacob tencionar o braço, o calor de sua pele tornando-se quase insuportável sob a pressão de seu esforço hercúleo para manter a máscara de noivo devoto.

— Jane, Alec. É um prazer finalmente conhecê-los — minha voz soava polida e estável como uma pedra no fundo de um rio, escondendo a turbulência por baixo da superfície. — Que bom que chegaram a tempo de participar de todas as festividades anteriores ao casamento.

A loira à minha frente inclinou a cabeça em um gesto puramente animal; era como se ela fosse o carrasco e eu, a peça a ser julgada. Seus olhos redondos, vermelhos e infantis fixaram-se em mim com uma intensidade tão brutal que, caso se transformasse em algo físico, rasgaria minha pele. Um sorriso sem vida e milimetricamente calculado pousou sobre seus lábios.

— Nosso mestre fez questão que chegássemos cedo. Ele solicitou relatos detalhados de cada momento desta união histórica, Renesmee — ela disse, sua voz fina e melodiosa enviando um calafrio que nem mesmo o calor de Jacob conseguia dissipar. — Aro sempre fala sobre o clã Cullen, seus talentos incomuns e, claro, o "milagre". E agora, o milagre decidiu se unir aos lobos, nossos inimigos naturais.

Ela desviou o olhar para Jacob. A presença dos Volturi no palácio o atingia de forma muito mais visceral do que a mim; a aura de dor e a energia de séculos de mortes que emanavam daquele clã eram como um gatilho para o lobo. Capturei o exato momento em que a mandíbula dele travou, um rosnado silencioso vibrando em seu peito.

— Um Sheik imponente — Alec comentou, sua voz sendo um contraponto sombrio à da irmã. Ele deu um passo à frente, circulando-nos com a paciência metódica de um tubarão. — Embora o cheiro dele ainda seja... perturbadoramente selvagem para os nossos padrões. Diga-me, Al-Aswad, como é para a sua espécie reivindicar como noiva algo que seus ancestrais foram ensinados a caçar?

Senti o músculo do braço de Jacob saltar sob meus dedos. A provocação de Alec era cirúrgica, testando o temperamento do lobo em busca da primeira faísca de agressividade que denunciaria a farsa.

— O deserto nos ensina que o que é raro é mais valioso do que o que é comum, Volturi — Jacob respondeu. Sua voz saiu em um tom baixo, um rosnado contido que ele camuflou sob uma firmeza de líder. — Renesmee não é uma presa. Ela é o futuro deste povo. E eu protejo o que é meu.

Ele enfatizou a última frase e, por um segundo, a encenação foi tão impecável que quase me esqueci de seu amor pela mulher humana e de seu ódio por mim e pela aliança de nossos pais. Ele me apertou contra o seu flanco, um gesto de posse que, para os gêmeos, pareceria proteção, mas que eu sabia ser um aviso silencioso para que eu não vacilasse.

Jane se aproximou, parando a poucos passos de mim. Suas mãos enluvadas buscaram o tecido dourado em meus ombros, um toque que parecia contaminar a seda. Seu cheiro era asfixiante, lembrando-me a podridão seca de um cemitério antigo; ela não possuía o rastro adocicado comum à nossa espécie. Tudo nela remetia ao perigo absoluto.

— Na Itália, ficamos surpresos com a pressa para a execução deste casamento — ela sussurrou, os olhos lampejando em malícia. — Por um breve momento, chegamos a cogitar que o amor não estaria presente nesta união. Aro ficaria tão decepcionado se soubesse que está perdendo tempo e sendo enganado. Esperamos que os próximos dias provem o quanto se amam.

Senti o peso do dom dela latente, uma promessa de dor que ela adoraria cumprir. Sustentei seu olhar sem piscar.

— Desde pequena meus pais me ensinaram que o amor tem pressa, Jane — respondi, mantendo a voz firme. — Carlisle e Billy são amigos há dois séculos. Eu nasci sabendo da existência da casa Al-Aswad e a tecnologia se encarregou de nos aproximar, mesmo através dos continentes. Mas agora, se nos dão licença, o Sheik e eu temos obrigações com os anciãos. Edward os guiará aos seus aposentos.

Ao mencionar o nome de Edward, vi os olhos de Alec brilharem. Ele sabia onde a verdadeira lealdade daquela sala residia. Jacob e eu nos retiramos, mantendo o passo sincronizado e aristocrático. Só quando dobramos o primeiro corredor, longe da visão dos gêmeos, é que senti a mão de Jacob afrouxar o aperto no meu braço, deixando para trás a sensação de que meus ossos haviam sido prensados por uma prensa de ferro.

Eu ainda sentia a pressão asfixiante da presença de Alec e Jane quando adentramos a pequena biblioteca privativa. O som da porta pesada se fechando pareceu selar, ao menos por um instante, a paranoia que nos perseguia desde que cruzamos o salão. Atirei meu corpo sobre um divã no canto do cômodo, desmoronando sem qualquer preocupação com a etiqueta ou com a presença de Jacob ali. Ele caminhou até a janela, observando o pátio com os ombros rígidos como pedra. O sol poente mergulhava o ambiente em tons de âmbar, desenhando sombras longas que pareciam garras sobre o mármore.

— Sinto como se minha alma tivesse sido sugada — ele admitiu. A voz era baixa, desprovida da agressividade habitual. Era apenas exaustão pura. — Eles não acreditaram em nenhuma palavra do que dissemos.

— Não é necessário que acreditem, Al-Aswad — respondi, dando de ombros com uma indiferença que eu não sentia de verdade. — É necessário apenas que não obtenham provas. Eles estão buscando um pretexto para o banquete; se Jane não encontrar um erro na nossa fala, tentará forçar um erro na nossa reação.

Jacob se virou para mim. Pela primeira vez, o desprezo que ele usava como armadura deu lugar a uma clareza estratégica fria. Naquele momento, não éramos lobo e híbrida; éramos dois alvos no mesmo estande de tiro.

— Ela vai usar o dom dela — ele constatou. — Vai atingir um dos meus homens, ou talvez um dos seus, para ver se eu vou te proteger ou se você vai se importar comigo.

— Se ela fizer isso, você não pode reagir com fúria. E eu terei que demonstrar uma afeição que nós dois sabemos que não existe. No momento em que Alec soltar aquela névoa, ou Jane focar o olhar, precisamos ser uma unidade. Sem fissuras. Sem hesitação.

Jacob assentiu, um movimento seco. Foi quando percebi o detalhe crucial: o volume sutil no bolso de sua túnica, o tecido que ele tateava obsessivamente como uma âncora de culpa, havia desaparecido. O bolso estava liso, impecável.

— Onde está o lenço? — a pergunta escapou antes que eu pudesse contê-la, suave como um sussurro.

Jacob levou a mão ao bolso vazio, um gesto reflexivo, e seus olhos encontraram os meus com uma honestidade brutal.

— Guardado — respondeu. — Não posso dar a Alec o luxo de encontrar o caminho para o meu ponto fraco. Se eu cair, meu povo cai comigo.

Ele deu um passo à frente, diminuindo o abismo entre nós. Pela primeira vez, não senti o calor dele como uma agressão térmica, mas como uma realidade necessária e sólida.

— Hoje à noite, Renesmee, eu serei o noivo que o mundo espera. Mas preciso que você mantenha Edward sob controle. Alec sabe que ele é o ponto de ruptura. Se o seu "irmão" vacilar ao nos ver juntos, os gêmeos vão despedaçar esta aliança antes mesmo do vinho ser servido.

— Edward fará o que for preciso — afirmei, embora meu coração desse um solavanco doloroso. — Ele entende o sacrifício.

Jacob olhou para as minhas mãos e, em um gesto puramente tático, segurou-as. O contraste térmico ainda estava lá, mas a hostilidade havia dado lugar a um pacto de sangue. Saímos da biblioteca lado a lado, não mais como inimigos, mas como estrategistas marchando para a própria execução — ou para a sobrevivência. No horizonte, os sinos do palácio começaram a tocar, um som fúnebre que convocava o início do jogo.

Aquele seria um dia longo, com horas preenchidas pelos nossos deveres sociais. Atravessamos o pátio central em direção ao salão de recepção dos anciãos sob o olhar vigilante de Alec, que nos observava de uma das sacadas superiores com a imobilidade de uma estátua de gesso. A mão de Jacob pousou na pequena curvatura das minhas costas — um toque que, horas antes, teria me feito encolher em repulsa, mas que agora eu aceitava como uma necessidade estratégica.

Meus "irmãos" e as irmãs de Jacob, assim como Carlisle e Billy, estavam reunidos junto ao conselho. Nossos pais sorriram de forma aliviada ao notar a proximidade que forçávamos; a ilusão de harmonia parecia estar funcionando para quem queria acreditar nela.

Me sentei entre Rosalie e Alice, mantendo a postura rígida que o kaftan pesado exigia. Edward evitava qualquer contato visual comigo; ele já não parecia mais o homem vulnerável de horas antes. Sua expressão estava trancada, uma máscara que não deixava escapar nenhuma fenda de sentimento. Senti uma pontada de alívio por isso; eu sabia que ele tinha consciência do que estava em jogo, mas temia que seus sentimentos pudessem traí-lo sob o escrutínio de Alec. Me mantive em vigilância silenciosa, até o anuncio oficial do inicio do banquete.