O cheiro dos Cullen — uma mistura de granito molhado com algo vagamente adocicado — além de suportável após tantos dias de convivência, começava a se tornar familiar. Quase seguro. Jane e Alec, por outro lado, eram o contraponto absoluto a essa familiaridade; algo neles evocava um túmulo que jamais deveria ter sido aberto. O aroma seco e metálico que emanavam era sufocante, fazendo os pelos do meu pescoço se eriçarem e meus dentes arderem com a vontade primitiva de rasgar algo.

Abaixo da túnica, meu corpo era como uma fornalha constantemente alimentada. O lobo dentro de mim arranhava as paredes do meu peito, inquieto, rosnando para cada movimento fluido e antinatural dos gêmeos de Volterra.

Renesmee caminhava ao meu lado com uma postura ereta e invejável, sua imponência magistral escondendo a fragilidade da nossa situação. O toque frio dela em meu braço era a lembrança constante do tratado e de tudo o que estava em jogo. Eu sentia a tensão nela através do tecido fino; ela fingia uma calma aristocrática, mas o ritmo do seu coração, embora lento para os padrões humanos, batia em uma cadência que soava como um tambor de guerra.

A mesa principal já estava servida e nossos convidados a postos quando atingimos a sala de refeições. Seguindo as tradições mais antigas, fomos recebidos entre aplausos e cânticos, um sinal de bom presságio que soava como ironia aos meus ouvidos. O banquete fora montado com uma opulência que me revirava o estômago; carnes temperadas e vinhos caros servindo apenas de cenário para a nossa possível execução.

— Sente-se, Sultana — murmurei, puxando a cadeira para ela com uma cortesia que me parecia estrangeira.

Edward estava posicionado no lado oposto da mesa. Seus olhos estavam presos em cada movimento que eu exercia junto a Renesmee. Ele mantinha a guarda alta, esforçando-se visivelmente para não iniciar um desafio silencioso comigo. Agradeci mentalmente, sabendo que ele captaria meu recado: não agora, sanguessuga.

Os gêmeos sentaram-se à nossa esquerda. Como os Cullen, nenhum deles comia ou bebia de fato; suas presenças eram meramente sociais e predatórias. Além da aparência marmórea e dos olhos vermelhos, os irmãos ostentavam a mesma expressão sádica com um orgulho doentio.

— Jacob Al-Aswad… — na língua de Alec, meu nome soava como um escárnio. Sua atenção estava voltada ao meu rosto como quem busca ler as entrelinhas de um contrato falso. — Você parece tenso. Sempre ouvi histórias sobre o calor sufocante do deserto ao meio-dia, mas não fazia ideia de que ele era capaz de fazer até mesmo os nativos sucumbirem.

Apertei o guardanapo de linho sob a mesa até sentir as fibras se rompendo na palma da minha mão.

— O noivado e o casamento são ritos sagrados para o meu povo, Volturi — respondi, mantendo a voz rouca e estável. — Para nós, unir-se a uma parceira é uma decisão única e eterna. Por baixo da casca de um Sheik, existe apenas um noivo ansioso.

Renesmee pousou a mão sobre meu antebraço. Um toque leve, carregado de uma aprovação silenciosa que me ajudou a manter o lobo sob controle. Ela se inclinou em minha direção em um movimento fluido. A poucos milímetros de mim, o perfume floral e fresco dela filtrava o cheiro de morte que emanava dos italianos.

— Fico aliviada em saber que não sou a única com os nervos à flor da pele — ela forçou uma risada discreta. A voz era tão doce que eu mesmo quase acreditei na mentira.

Ela encostou a cabeça em meu ombro. Por um breve momento, precisei de cada grama do meu autocontrole para não recuar ou demonstrar surpresa. Encenávamos a perfeição para os olhos de Jane, mas foi nas íris de Renesmee que vi o reflexo do meu próprio medo. Se eu vacilasse, entregaria a cabeça dela, dos Cullen e de todo o meu povo em uma bandeja de prata.

— Acho que é um bom momento para darmos início ao banquete, antes que nosso nervosismo nos consuma, habibti — murmurei, usando o termo carinhoso apenas para ver Alec tensionar a mandíbula.

O almoço só teve início após a primeira garfada dos noivos, conforme exigia a etiqueta. Nem mesmo o tilintar da prata contra a porcelana parecia capaz de romper a tensão que pairava em nosso lado da mesa. Alec nos observava com uma precisão quase animalesca, atento até à forma como nossas sombras se misturavam na parede. Ele não era impulsivo como a irmã; era o tipo de predador que esperava o alvo se cansar de fingir para desferir o bote.

— Vocês dois juntos são fascinantes — Alec começou, a voz deslizando como névoa fria. Ele se dirigia claramente a Renesmee. — Essa união parece tão... geométrica. Os Cullen e os Al-Aswad juntos. Diga-me, Renesmee, em que momento exato a hostilidade milenar entre as nossas espécies deu lugar a esse sentimento tão urgente? Imagino que a história de como o Sheik a conquistou deva ser digna de um épico.

Senti o braço dela enrijecer sutilmente contra o meu. Era o momento em que a mentira precisava de sustentação. Eu estava pronto para inventar qualquer bobagem sobre o destino, mas ela foi mais rápida.

— O amor não pede permissão para a história, Alec — ela respondeu. Notei que sua voz não se alterou nem em um semitom. — Nós nos esbarramos em uma conferência em Londres, meses atrás. No começo, tudo era baseado em uma curiosidade diplomática. É claro que a proximidade de nossas famílias facilitou muito o nosso entrosamento. As chamadas eram frequentes, a troca de confidências ainda mais. Em dado momento, descobrimos que o peso de liderar nossos povos era um fardo que nenhum de nós queria carregar sozinho.

Observei o perfil dela enquanto ela falava. Pela primeira vez, não foquei na sua aparência de porcelana, mas na precisão cirúrgica de suas mentiras. Renesmee tinha uma mente rápida; estava criando uma linha do tempo lógica, amarrando fatos reais — como as viagens diplomáticas de Carlisle — a uma narrativa fictícia. Havia uma coragem gelada nela que eu nunca tinha me dado ao trabalho de reconhecer. Ela não estava apenas "atuando"; estava construindo uma fortaleza de palavras.

— Londres é um lugar formidável — Alec arqueou a sobrancelha, como quem nos oferece o benefício da dúvida, antes de saltar o olhar subitamente para mim. — E quanto a você, Jacob: como seu sangue quente foi atraído por uma híbrida de pele tão fria?

Apertei a coxa sob a mesa, sentindo a vibração do lobo querendo responder com dentes.

— A resistência dela — respondi, e notei que não precisei mentir totalmente. — Renesmee não se curva. No meu mundo, as pessoas costumam baixar a cabeça para o Sheik. Ela me desafiou desde o primeiro segundo. Como eu disse mais cedo, no deserto, Alec, nós não valorizamos o que é fácil de obter. Valorizamos o que sobrevive à tempestade.

Por um instante, Renesmee olhou para mim; um relance rápido que poderia ter passado despercebido por qualquer outra pessoa à mesa. Suas íris estavam carregadas por um brilho de inteligência. Ela analisava minha resposta e parecia satisfeita com a forma como a fala se encaixava na dela.

Comecei a reparar em detalhes que a raiva costumava ofuscar: o modo como ela controlava a respiração para não parecer uma imortal estática, e a firmeza quase imperceptível com que segurava o talher, como se fosse uma arma pronta para ser usada. Ela era eficiente. Era essa a palavra. Renesmee era uma sobrevivente que usava a etiqueta como camuflagem.

— E quanto ao noivado apressado? — Jane interveio. — A primavera na França é muito mais agradável para um casamento do que o verão no deserto. Por que a urgência em selar o sangue agora?

Nenhum Volturi fazia questão de esconder a desconfiança. O casamento fora marcado para a data exata em que Aro havia permitido a caça e o extermínio de transfiguradores e filhos da lua, sob o pretexto do risco que nossas espécies representavam. Eles sabiam que, mesmo em todo seu poder, a tríade não se voltaria contra uma espécie que fizesse parte da família de Carlisle — seu maior elo político. A união era o nosso escudo.

Renesmee inclinou a cabeça, e vi um vislumbre da autoridade de Carlisle em seus olhos.

— Porque Volterra nos ensinou que o tempo é um luxo que nem todos possuem, Jane — ela disparou, um golpe direto na paranoia dos gêmeos sobre o poder de Aro. — Quando se encontra uma aliança que garante a paz e a continuidade de duas linhagens, cada dia de espera é um risco desnecessário.

Enquanto falava, Renesmee tocou levemente o anel de sinete em meu dedo. Um gesto sugestivo de sua aliança e respeito pela minha casa. Era um recado claro do afeto que os gêmeos estavam ali para provar que não existia. Embora não nutrisse sentimento por mim, ela conhecia o peso da linhagem Al-Aswad.

Ela estava no centro do ninho de cobras, sendo interrogada pelos seres mais perigosos do mundo, e não estava cedendo um centímetro de terreno. Renesmee Cullen era uma peça muito mais valiosa naquele tabuleiro do que eu jamais imaginei.

Houve um período tortuoso de silêncio após a resposta afiada de Renesmee; o mesmo só foi interrompido pela eficiência de Carlisle em se levantar diante daquela plateia e, com a taça de cristal em punhos — mesmo sem beber um gole do conteúdo — puxar o primeiro brinde da manhã. Ele ergueu as mãos o líquido vermelho captando a luz dos candelabros como se fosse sangue fresco.

— Somente uma união de tamanha magnitude poderia gerar tantas dúvidas aos nossos convidados. E que privilégio poder testemunhar o quão significativa é a história que estamos escrevendo juntos. — A voz de Carlisle era um veludo diplomático, mas notei o olhar de advertência que ele lançou na minha direção. — Um brinde aos noivos. Que a força do deserto e a sabedoria de minha casa se tornem um só. E que possamos testemunhar os frutos que serão gerados a partir daqui.

Billy inclinou a cabeça, batendo levemente seu cajado no chão de mármore, um gesto de aprovação que ecoou pelo salão.

— Aos noivos — todos repetiram em uníssono, um coro de vozes que parecia uma sentença.

Pela tradição da minha casa, o brinde do casal não era feito à distância. Eu teria que beber da mesma taça que ela, um selo público de intimidade e confiança. Olhei para Renesmee e percebi que ela já sabia. Ela se levantou com a mesma elegância fluida, e eu a segui, sentindo a fornalha do meu corpo reagir à proximidade dela.

Peguei a taça de ouro cravejada de safiras que Sarah nos entregou. Meus dedos tocaram os dela sobre o metal frio, e por um instante, o mundo exterior desapareceu. Observei a forma como a luz das tochas brincava nos reflexos acobreados do cabelo dela, e como a pele de seu pescoço parecia tão frágil diante da brutalidade do que estávamos enfrentando.

Ela não desviou o olhar. Sustentou minha atenção com uma firmeza que me desarmou. No reflexo das íris dela, eu não vi apenas a aliada eficiente; vi a determinação de alguém que estava disposta a queimar o próprio futuro para salvar os seus.

— Pelas nossas casas, Jacob — ela sussurrou, a voz apenas para os meus ouvidos, mas carregada com o peso de um juramento.

Eu levei a taça aos lábios primeiro, bebendo o vinho amargo, e depois a entreguei a ela. Para os Volturi, era um gesto de amor; para nós, era o compartilhamento de um fardo. Quando Renesmee bebeu, sua mão livre buscou a minha. Ela entrelaçou seus dedos gélidos nos meus, um contraste térmico que me fez vibrar, mas não me afastei. Pelo contrário, fechei minha mão sobre a dela com força, protegendo-a.

Jane estreitou os olhos, a malícia brilhando sob a franja loira. Ela não gostava da harmonia que estávamos projetando. O brinde fora impecável, mas o preço fora alto: ao segurar a mão de Renesmee daquela forma, sob o olhar de Edward e o escrutínio de Alec, percebi que a fronteira entre "fingir" e "proteger" estava se tornando perigosamente turva.

Eu não estava apenas defendendo uma aliada política. Eu estava defendendo a única pessoa que, naquele salão de monstros e sombras, parecia entender exatamente o tamanho do meu sacrifício.

Quando o banquete foi finalizado, o eco dos aplausos e o barulho das capas dos irmãos arrastando sob o piso pareciam uma lembrança distante. Renesmee e eu caminhamos juntos até o jardim dos fundos após nos certificamos de que não seríamos seguidos. Tanto eu, quanto ela, precisávamos de um momento para recuperar o fôlego, antes de seguir para as festividades que ainda ocorreriam; o ar do deserto parecia o único capaz de varrer o cheiro de morte dos Volturi que seguia preso em meus pulmões.

Paramos próximos ao banco de pedra próximo às trepadeiras. Ela caminhou e se postou sobre ele em uma lentidão que entregava seu esgotamento mental. As mãos foram mantidas presas ao encosto, enquanto o rosto se voltava para a grama recém cortada aos nossos pés. O silêncio entre nós não era mais carregado de farpas; era o silêncio de dois soldados que acabavam de sobreviver a uma emboscada.

— Você foi bem. — Eu disse, a voz saindo mais rouca que o planejado. — A história de Londres foi uma bela carta na manga, eu diria.

— Eu estive lá com meu avô no outono passado. — Ela deu de ombros, um gesto de indiferença que não combinava com a situação. — Existe um ditado entre os franceses onde diz que: a mentira mais eficiente é aquela que veste a roupa da verdade. Eu me apeguei a detalhes reais.

Pela primeira vez, ela se virou. O rosto antes voltado ao chão, agora fixo no meu e as costas, finalmente, tomando o lugar das mãos no encosto do banco. Ela não me olhava com o julgamento habitual.

A luz dos primeiros raios solares da tarde em marraquexe conferia a sua pele um tom abrilhantado que eu ainda não havia tido a chance de vislumbrar.

— Jacob, sobre o que aconteceu na caçada na outra noite… — O lobo dentro de mim se colocou em defesa esperando por um ataque que não veio. — Sinto muito pela forma como eu reagi com você. Eu estava sufocada. A ideia de que você poderia me ler e usar isso contra mim me fez querer te ferir. Sob o olhar dos Volturi eu percebi que não somos tão diferentes.

A honestidade dela me atingiu como uma soco; foi necessário um momento para processar todas as informações. Cruzei meus braços sobre o peito, sentindo o calor que emanava da minha própria pele.

— Se serve de consolo, eu estava usando sua dor para me sentir menos culpado por desistir da minha própria vida. — As palavras pesavam como chumbo em minha língua. — Era muito mais fácil de colocar em uma posição de mimada e egoísta, do que admitir que fomos jogados no mesmo buraco. Mas, desde o começo, você entendeu e aceitou sua missão melhor do que eu.

Renesmee inclinou a cabeça para o lado direito, seus olhos me observando com um tipo novo de curiosidade.

— Nosso prognóstico contra os Volturi melhora muito se protegermos um ao outro, como fizemos lá dentro. — Um longo suspiro soltou seu peito. — Jacob, eu respeito sua casa e respeito seu povo. Eu conheço os prós e contras desse sacrifício. Mas, não anseio passar o resto da eternidade vivendo em um campo de batalha. Se vamos fazer isso, é preciso que possamos ao menos nos tolerar.

— Você tem razão. — Concordei, dando um passo em sua direção. — Eles é quem são os verdadeiros inimigos. Nós dois somos apenas vítimas. Por mais que eu deteste essa aliança, eu odeio mais ainda a ideia de ver os Volturi vencendo e meu povo sendo dizimado. Eles querem nos ver duelando, querem ter provas de que nossa hostilidade é maior que o nosso dever. Não vamos dar a eles o que vieram buscar.

Um pequeno e quase imperceptível sorriso brotou em seus lábios avermelhados. Me sentei ao seu lado desfrutando um breve momento de silêncio que parecia selar um pacto.

— Mesmo que tentem nos quebrar novamente, eles não conseguirão.

Não havia romance naquele jardim, nem o perdão total. Mas havia um reconhecimento. Eu não a via mais como a "princesinha de gelo" que roubara meu futuro, e ela parecia ter parado de me ver como o "animal" que a mantinha prisioneira. Éramos apenas Jacob e Renesmee, dois estranhos que, pela primeira vez, decidiam não ser inimigos.

— Deixe que tentem — respondi, sentindo o peso do meu anel de sinete contra o dedo. — Eles não sabem que agora o teatro tem dois diretores.

Renesmee assentiu e, pela primeira vez naquela noite, o frio que emanava dela não pareceu uma afronta à minha temperatura, mas um equilíbrio necessário.