Aham, é amor

10 ...mas que ainda não acabou


PERCY (Point of View)

Logo depois que a partida de futebol acabou, com a vitória do meu Santa, eu tentava achar alguma coisa pra fazer, mas estava difícil. Como não obtive resultado positivo nessa complicada tarefa, subi para o meu quarto, e deitei-me na cama, esperando um meteoro cair do céu para que o dia ficasse mais interessante. E como de costume, nenhum meteoro caiu do céu. Tédio.

Esse é meu penúltimo domingo antes das férias acabarem, e aqui estou eu, sem ter nada para fazer, contando os minutos e implorando para que o tempo passe logo, pois já que não tenho nada para fazer agora, talvez consiga algo pra fazer depois.

Peguei meu celular, que estava jogado na cabeceira da cama, e vi as horas. Sete e vinte e cinco. Ótimo. E tinha uma nova mensagem, do Andrew.

“Só confirmando, cara: festa na casa da Calipso, 20h. Tá de pé ainda né?”

Como você é lerdo, Perseu.

Eu havia esquecido completamente da festa da Calipso. E ela começaria daqui há trinta e cinco minutos. Pelo menos, tenho alguma coisa pra fazer nessa noite chata de domingo. Respondi a mensagem:

“Claro que vou. Vão indo que eu chego lá.”

Joguei o celular pro lado, e virei-me com a cabeça pra cima, ainda na cama, esperando o tempo passar. Bem, o teto do meu quarto é verde escuro, como as paredes e a porta. E a janela na parede à minha direita é de vidro liso. Bom, a porta do meu quarto é de madeira, lisa. Hum, o chão do meu quarto também é de madeira, e...

PERSEU, SEU IDIOTA! – eu já devo ter mencionado isso antes, mas vai mais uma vez: meu cérebro, minha mente e minha consciência, nenhum deles é meu melhor ou minha melhor amigo/amiga.

Ah, mas isso é triste mesmo. Eu, um garoto de dezesseis anos, tendo uma princesa linda e gostosa como vizinha, estou agora deitado na cama, descrevendo as características do meu quarto. Com certeza a Annabeth acharia isso idiotice, afinal ela parece ser uma garota inteligente, e divertida. Mais uma vez, eu fiz coisa errada. Não devia ter pensado nela.

E nesse momento eu lembrei da Annabeth deitada por cima de mim. As cenas de hoje de manhã voltaram à minha mente. Mesmo tendo dormido no sofá, que não é um lugar muito confortável para se dormir, e por cima de mim, que fica ainda mais desconfortável (ou não, dependendo da ocasião, se é que me entende), ela acordou linda, como uma princesa. Parece até uma filha da deusa grega do amor, Afrodite, que não importa o que faça, sempre está linda e radiante.

Aqueles olhos cinzentos me fascinavam, os cabelos loiros caindo por seus ombros, e seus lábios rosados e carnudos... Tudo nela me fascina. Annabeth, até seus defeitos, se é que eles existem, não são problema para mim.

Olhei para a parede da direita, onde fica a minha janela com visão para a avenida principal do condomínio. E, consequentemente, com visão para casa dela.

Agora são sete e trinta e sete, com certeza ela está lá, sentada no sofá, ou deitada na cama, assistindo um filme qualquer, comendo pipoca e tomando refrigerante, ou suco.

Assim como minha família, a família dela também viajou, deixando-a sozinha em casa, do mesmo jeito que eu estou agora. E com certeza, partilhamos do mesmo tédio, só que em lugares diferentes.

Pelo menos eu vou à uma festa, Annabeth. Estou ganhando, não vou morrer de tédio. Pelo menos nessa noite.

E aí eu percebi mais uma vez o quanto eu sou imbecil, idiota, estúpido.

Minha vizinha linda, gostosa e maravilhosa, pela qual eu estou completamente apaixonado, está sozinha e deverá continuar sozinha em casa pelo resto da noite, à menos que arrume algo melhor pra fazer, o que é difícil, já que ela é nova no condomínio.

E eu, também bonito, gostoso e maravilhoso, estou aqui sozinho nesse momento, mas vou para uma festa daqui há menos de trinta minutos.

Entenderam onde eu quero chegar?

PELO MENOS UMA VEZ NO ANO PERCEBEU UMA COISA SEM PRECISAR DA AJUDA DOS OUTROS, E ME USOU PRA ALGUMA COISA, SEU ANIMAL. – meu cérebro, melhor amigo do homem depois do cachorro e das revistas da Playboy, dizia-me.

Se tem alguém aí mais lerdo e idiota do que eu, e que não percebeu ainda o que eu quis falar nesses últimos parágrafos da história, eu vou esclarecer as coisas.

NOSSA PERSEU, É A PRIMEIRA VEZ QUE VOCÊ HUMILHA ALGUÉM USANDO A INTELIGÊNCIA E AS PALAVRAS. PARABÉNS, #EMOCIONADO. — ... eu não sei bem o que meu cérebro quis dizer dessa vez, mas continuando...

Eu tenho que convidar a Annabeth pra ir nessa festa comigo.

É isso mesmo que eu vou fazer... Assim que eu arrumar coragem pra levantar da cama, pentear o cabelo, colocar um pouco de perfume, descer as escadas, e...

ANDE LOGO, SEU ANIMAL. DAQUI HÁ POUCO APARECE OUTRO CARA NA VIDA DAQUELA GAROTA E VOCÊ FICA NA MERDA. – cérebro não tão amigo, não tão amigo...

Mas ele tem razão. Eu tenho que agir logo se quiser conquistar a loirinha. A minha loirinha. E isso é o que eu mais quero.

*****

Estou quase dando uma volta à 180º e dirigindo-me de volta para casa. Mas eu não posso fazer isso.

Aqui estou eu, na frente da casa da Annabeth, com um buquê de flores na mão esquerda e uma caixa de bombons na mão direita, vestido apropriadamente para a ocasião, com um terno preto e calças jeans da mesma cor. Bom, a única coisa nas últimas linhas que podemos dizer que é verdade, é que eu estou na frente da casa da Annabeth. E com o dedo indicador direito encostado no botão da campainha, questionando-me sobre o que eu estou prestes à fazer.

Será que eu devo mesmo fazer isso? Ela nem me conhece direito! Nos vimos pela primeira vez ontem! E se ela achar que eu sou um adolescente louco e tarado?

DEIXE DE SER LERDO, PERSEU! A PIOR COISA QUE VOCÊ PODE OUVIR É UM NÃO! AGORA APERTE LOGO ESSE CARALHO DE BOTÃO ANTES QUE APAREÇA OUTRO E O FAÇA! – epa! Como assim ‘apareça outro e o faça’? A Annabeth não é desse tipo! Ela é minha, só minha!

É, eu estou mesmo gamado na Annabeth.

Mesmo não sendo tão gentil, meu cérebro tem razão. A pior coisa que eu poderia ouvir seria um não! E querendo ou não, se eu não fizer alguma coisa, outro cara vai fazer. Afinal, uma garota linda e gostosa como a Annabeth não vai ficar tanto tempo sem namorado. Ops... Nesse instante nem havia notado, mas logo teria ódio de mim mesmo. Você saberá do que eu estou falando nas próximas linhas.

Toquei a campainha.

As imagens que sempre aparecem na minha cabeça quando eu penso na Annabeth apareceram mais uma vez. Mas dessa vez foi com mais intensidade. Lembrei do primeiro momento em que a vi, nesse mesmo lugar, quando eu estava vindo até a casa dela pra chamar a Thalia pra almoçar, e a Annabeth abriu a porta. Eu entrei e conheci até o pai dela. E a Annabeth acabou indo almoçar junto conosco, para nossa alegria. Ou para minha própria alegria, tanto faz, o que importa é que ela almoçou com a gente naquele dia. Lembrei dos nossos momentos ontem à noite, assistindo ABC do Amor. Lembrei de hoje de manhã, com ela dormindo por cima de mim, e depois acordando, linda como sempre só que um pouco irritada, questionando o que aconteceu. Tá, muito irritada. Mas eu expliquei que nada aconteceu e estamos bem, eu acho.

Tudo isso se passou na minha cabeça em dez segundos. Foi o tempo que fiquei esperando a porta ser aberta pela Annabeth. Aí você pergunta, “até isso você contou?”, e a resposta é óbvia: claro que sim. Quando você está amarrado, gamado, completamente apaixonado, faz coisas assim.

Quando ela abriu a porta e eu a vi, estava linda como sempre.

Como uma garota tão linda assim não tem namorado?

Espera... Eu nunca perguntei se ela tinha namorado.

PUTA QUE PARIU, PERSEU, SEU IDIOTA! – nem preciso dizer que foi meu cérebro – PUTA QUE PARIU DE NOVO! PUTA QUE PARIU MAIS UMA VEZ! A GAROTA PODE ATÉ TER UM NAMORADO E VOCÊ AÍ, NA FRENTE DA CASA DELA, PROCURANDO PALAVRAS PRA CONVIDÁ-LA PRA UMA FESTA QUE VAI ACONTECER DAQUI HÁ MENOS DE VINTE MINUTOS! VOCÊ É LERDO MESMO, PERSEU, LERDO!

Puta que pariu, eu sou idiota.

Não que eu não tenha notado isso antes, mas agora eu percebi que eu sou idiota mesmo.

E agora, o que eu faço? Cavo um buraco no chão e enterro a cabeça? Me jogo por trás dos arbustos que existem ao lado da casa da Annabeth? Invento uma desculpa fuleira e saio correndo daqui?

– Aham... – escutei alguém fazendo esse barulho, pigarreando, pra atrair a atenção – Oi Percy.

Gelei. Era ela. Ela já estava na minha frente. Era ela mesmo. E na minha frente. Era ela respondendo à porta. Era ela respondendo à porta após o meu toque na campainha. E ela estava linda como sempre, só pra deixar claro. Na minha frente!

Ótimo. Momento “Se vira nos trinta, Percy Jackson!”.

– Ahn, oi. – falei, olhando para ela. Annabeth tinha um sorriso no rosto, e isso me deixou feliz. Afinal, com ou sem namorado, se a Annabeth estiver feliz, eu estou feliz também.

Ela sorriu novamente.

– O que você quer, Cabeça de Alga? – ela perguntou. Espera... Cabeça de Alga? Ninguém nunca me chamou de Cabeça de Alga... Já chamaram coisas piores que até ofenderam minha mãe, mas Cabeça de Alga? Essa é nova.

Eu tinha que dizer a verdade. Não tinha saída. Eu fui até ali com a intenção de convidá-la pra sair, ir à festa da Calipso, comigo. Eu não poderia inventar uma desculpa qualquer e sair correndo dali.

Mesmo que ela tivesse namorado, agora eu não poderia fazer mais nada. Teria que ouvir um não, a explicação do por que o uso do não, e ficar de cara lavada, só para deixar de ser idiota e pensar antes mais de fazer as coisas. Preparei-me, e respirei fundo.

– É que uns amigos me chamaram pra uma festa que vai rolar daqui há pouco, aí eu lembrei que você tava sozinha em casa, e queria saber se você queria ir comigo, tipo, pra se divertir e tal. – falei, e não me pergunte como.

COM A BOCA. – disso eu já sei, cérebro. Ah, vocês entenderam.

Annabeth não expressou nenhuma reação. Eu comecei a me preocupar. É agora, a hora donão. Uhul. Que emoção.

– S-se você não quiser, eu entendo, até por que nos conhecemos ontem e tal, e... — eu dizia, porém Annabeth me interrompeu, calando minha boca com o dedo indicador direito. Me surpreendeu de novo.

E aí, a Annabeth sorriu. Isso mesmo, a Annabeth sorriu. ELA SORRIU, CARALHO! Isso com certeza é um bom sinal.

OU PODE SER APENAS PENA. – meu cérebro me lembrava, mas eu prefiro a minha primeira hipótese.

– Claro que eu quero ir com você. – ela falou. Me surpreendendo novamente, não é, Sabidinha?

E foi assim que eu ganhei o dia, e ele ainda nem havia terminado.