Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

No ano de mil novecentos e oitenta e nove no interior do Ceará, em Juazeiro do Norte, nascia uma garota de três quilos e cheia de fios de cabelo. Nascida à meia noite, herdou a negritude do céu esculpida em sua pele e a luz da lua nos seus olhos castanhos, iguais aos de sua mãe, uma mulher branca e magricela. O pai da garota deixou sua mãe grávida e sumiu pelo Brasil, indo embora com os dizeres de que seria rico na cidade grande.

Anos se passaram e a garota foi batizada como Antônia Francisca de Aquino, ela viveu com sua mãe uma vida não cem por cento confortável, mas também não era miserável. Dona Marília vendia quentinhas e doces caseiros, principalmente bolos de pote. Antônia sempre apaixonada por estudar era uma aluna impecável mesmo enfrentando as mazelas da escola pública. A menina, às vezes, perguntava pelo pai e sua mãe contava sempre a mesma coisa:

— Ele queria que você se chamasse Natália, ou alguma coisa assim. Eu não gostava, não. Era diferente e não gostava do jeito que escrevia.

E mesmo criança Antônia era madura o suficiente para entender algumas coisas da vida, tal como o abandono paterno. E isso não a afetava de maneira alguma, ela tinha todo o amor, carinho e cumplicidade em sua mãe. E sobre seu pai, a menina tinha informações ínfimas como um nome -— e uma foto velha sem qualidade, onde seu rosto nem aparecia.

Quando Antônia completou doze anos de idade uma desgraça lhe acometeu. Dona Marília faleceu. O câncer havia levado uma grande mulher novamente. A órfã foi obrigada a se mudar para Barbalha, município vizinho de Juazeiro do Norte, onde vivia sua tia viúva Amélia com uma filha da mesma idade de Antônia, seu nome era Maria Paula. Amélia não tinha condições muito diferentes das que Antônia já conhecia, mas foi ali, no lar de sua tia e de sua prima que a garota viveu o que comumente chamamos de pão que o diabo amassou. Ecertamente ela não o comeria com um copo de leite quente.

Antônia ia para a escola pela manhã e à tarde quando chegava à casa de sua tia, ela servia de empregada, lavando banheiros, janelas e louças. Ouvia também todos os tipos de agressões verbais caso reclamasse de algo e também nunca podia comer as sobremesas da casa e ela adorava pudim. Às vezes até sem carne ficava.

— Criança nenhuma precisa mais que arroz e feijão para crescer. — dizia Amélia enquanto ela e sua filha comiam carne de carneiro fresca.

A garota também era sujeita aos caprichos de Maria Paula. Antônia chorava quase todas as noites e quando rezava antes de dormir ela pedia para a alma de sua mãe estar em paz e não se preocupar com o que estava acontecendo com ela na casa de sua tia.

Mainha, eu não vou deixar que elas fiquem me aperreando por muito tempo. Mainha, eu vou embora.

Antônia sussurrava agarrada às suas cobertas e depois rezava. Pedia também força a Deus. Ou a qualquer entidade misericordiosa que a ouvisse.

Aos quinze anos Antônia arrumou um trabalho de meio período numa loja de sapatos, remendando solas e consertando enfeites dos calçados. Isso não agradou muito sua tia, mas Amélia não poderia impedir. Antônia nunca deixou de estudar, ela sentia que além de ser a única coisa que lhe dava prazer, também era o único jeito de ser grande na vida. Finalmente ela fez dezoito anos e estava se tornando uma linda mulher. Alta, de cabelos encaracolados e cheios, negros como sua pele. Após três anos de trabalho na sapataria, e de poupança também, ela disse adeus ao bom homem que a acolheu dando-a não apenas um trabalho, mas uma forma de liberdade, e à meia noite do dia três de novembro de dois mil e sete, Antônia enfiou pouquíssimas mudas de roupa em duas sacolas de mercado, algumas roupas íntimas e um sapato que havia ganhado do seu antigo patrão e bateu a porta da casa de sua tia. Pela última vez.

Mais tarde naquela mesma noite Antônia foi até a rodoviária mais próxima e com as economias de três anos de trabalho somadas ao que tinha restado de quando sua mãe ainda era viva, – o que ela conseguiu esconder de sua tia Amélia –, ela deixou Barbalha, interior do Ceará, e foi em direção a cidade do Rio de Janeiro, grande metrópole brasileira.

***

Vicente Matías Braga de Carvalho nasceu na capital de São Paulo em meio à riqueza e poder. Menino dos olhos verdes e cabelo castanho escuro que tem a face tímida que carrega bochechas avermelhadas e com covinhas. O garoto viveu o verdadeiro significado de berço de ouro a vida inteira, mas a crueldade que presenciava dentro de sua casa grã fina numa das ruas mais movimentadas da cidade, ninguém imaginava. Nem mesmo os clientes ricos da empresa de seu pai, ou os grandes sócios ou as pessoas que sussurravam sobre a grande e rica família Carvalho. Ninguém poderia imaginar que Osmar de Carvalho, fundador da grande empreiteira Di Carvalho, era um monstro que quando sozinho em sua casa espancava sua mulher até que ela desmaiasse. Diana de Carvalho viva sob medo todos os dias, não queria fugir, não queria pedir ajuda, queria somente rezar todos os dias para que Osmar não acordasse de ovo virado ou para que nada na empresa o estressasse.

Uma obra mal finalizada. Um contrato que não foi fechado. Um funcionário incompetente. Tudo isso eram motivos para Osmar chegar à sua casa, afrouxar sua gravata cara, tirar os sapatos e puxar Diana pelos cabelos. Vicente observava tudo aquilo chorando escondido, baixinho, temendo que a mão pesasse nele também. Mas houve um dia, aos dez anos de idade, que foi demais para o pequeno garoto.

— Solta a minha mãe! — Vicente empurrou seu pai.

Pequeno demais, Vicente deu um empurrão na barriga do pai que estava agarrado ao pescoço de sua mãe. Osmar o olhou com ódio, mas fez o que ele pediu, soltou sua mãe, e agarrou-o pelo braço. Neste dia, o braço de Vicente foi quebrado e Diana fez seu filho prometer que jamais tentaria ajudá-la novamente.

— Minha vida com seu pai é problema meu, Vince. — ela disse enquanto separava os analgésicos do seu filho.

O garoto assentiu e nunca mais tocou no assunto. Mas não demorou pra as agressões retornarem e Vicente se esforçar para obedecer a sua mãe. Os anos se passaram e Vicente estudava para um dia tomar controle da empresa, não apenas na escola, mas fazia cursos de computação, administração e linguagens, tendo acesso a todo tipo de tecnologia de ponta para sua formação, mesmo não querendo cursar engenharia nem nada que o permitiria assumir a Di Carvalho um dia. Osmar e Vicente não tinham relação alguma e jamais entravam num consenso sobre nada, diferentemente de Diana e seu filho que eram grandes amigos. Com o tempo, Vicente acostumou-se com a brutalidade de seu pai que agora batia muito menos em sua mãe. Mas os bate-bocas eram constantes dentro da casa dos Carvalho, principalmente entre pai e filho.

— Sua mãe, aquela vagabunda. — Osmar cuspiu a Vicente. — Mulheres casam por dinheiro, menino! Não há exceções!

Neste dia Vicente desferiu um soco certeiro no rosto do seu pai.

— Nunca mais fale da minha mãe dessa forma, seu verme. — o garoto disse e partiu.

Vicente passou duas semanas desaparecido quando tinha apenas dezessete anos. Retornou apenas quando viu que não seria possível ignorar as ligações da sua mãe, em desespero, e de sua avó materna, dona Isabel. Vicente retornou à Rua do Barão de Itapetininga, relutante, e decidiu ir viver com sua avó até o fim do ensino médio.

O momento de ir para a faculdade chegou e Osmar queria mandar seu filho à Harvard. Para estudar para comandar a empresa, o homem repetia. Uma parte do coração de Vicente desejava ir para o mais longe possível para ficar distante de seu pai e da política brasileira que o dava náuseas. Entretanto, o garoto temia deixar sua mãe. Mas enfim, Diana pediu ao filho que fosse embora e que vivesse seus quatro anos universitários longe daquela vida cheia de luxos e riquezas, e ainda assim tão pobre de amor e afeto. Vicente decidiu então que iria e sendo esperto suficiente, trocou de curso sem muito esforço. Matriculado em engenharia civil, Vicente na verdade cursou psicologia.

O garoto temia o que aconteceria ao contar para o pai o que estudou de verdade, mas, infelizmente ou não, Vicente nunca precisaria dizer nada. O rapaz recebeu uma ligação de sua mãe quando estava ainda no quinto semestre da faculdade nos Estados Unidos, aos vinte e um anos, avisando-o que seu pai havia falecido e que ele precisava voltar imediatamente para tomar controle da empresa. Foi-se tarde, ele pensava. O medo de Vicente era a administração da empreiteira, afinal Di Carvalho era renomada e precisava ser tocada para frente. Então, sem hesitar, Vicente entrou em contato com Alberto de Mendanha, engenheiro respeitado e cheio de renome, braço direito do seu pai e o maior sócio da empreiteira, e ouviu palavras de confiança do homem.

— Vince, retorne ao Brasil. — disse o engenheiro no outro lado da linha. — Irei guiá-lo a comandar a Di Carvalho, conte comigo, filho.

Vicente desligou a ligação e no dia três de novembro de dois mil e nove, estando ainda em seu quinto semestre de psicologia, ele retornou ao Brasil. Aterrissando diretamente na grande capital de São Paulo.

Com uma missão importante em mãos e alívio no peito por ver a vida de sua mãe liberta do monstro que a aprisionava.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.