Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos.

Parte I: Sombra

Vivendo aos arredores da Ilha do Governador, zona norte da grande cidade do Rio de Janeiro, Antônia Francisca se deslumbrava um dia após o outro com as maravilhas da cidade grande. A garota, com o pouco dinheiro que lhe sobrou, quase nada, negociou com Nanda, dona de uma pensão que se localizava nas margens de uma das praias da Freguesia. A mulher compadecida com a história de Antônia decidiu permitir que a menina ficasse um tempo na pensão até conseguir um emprego para pagar a hospedagem, mas Antônia negou e insistiu em trabalhar no quiosque que Nanda possuía — o Bumba Meu Boi –, que ficava logo em frente à casa e detinha de uma grande movimento até mesmo nos dias de semana. Antônia o fez para pagar sua estadia durante os primeiros meses até que conseguisse um emprego regular e enfim pudesse pagar como todos os outros hóspedes. Nesse espaço de tempo, a nordestina, que aos poucos foi perdendo o jeito nordestinês e pegando o sotaque irritante carioca, descobriu que gostava muito de praia, areia e sol – que agora era seu companheiro de trabalho. Antônia trabalhava no quiosque pela tarde e pela noite, e durante a manhã a garota estudava para o vestibular, algumas vezes antes de dormir ela ainda dava uma olhada em seus livros que com muito esforço conseguiu por meio de doações. No meio do ano, ela conseguiu um emprego de carteira assinada, ironicamente numa loja de sapatos, mas agora como vendedora e sem precisar ficar mexendo em cola de sapateiro para colocar solas ou adereços no lugar. A loja que ela trabalhava ficava na bastante próxima da praia, do Bumba Meu Boi e da então amada pensão da dona Nanda.

Agora pagando devidamente a estadia na pensão e juntando dinheiro que sobrava todo mês, Antônia conseguia focar melhor em seu estudo. Fez amizade com os hóspedes da casa e tinha dona Nanda, proprietária da pensão, senhorinha da pele enrugada e dos cabelos louros lisos, como uma amiga. A época do vestibular passou, assim como Antônia. A garota, agora mais para mulher, conseguiu vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro para cursar história, sua matéria preferida na escola, para se tornar aquilo que ela admirou tanto quando criança: professora. Todos na pensão da dona Nanda ficaram felizes pela vitória de Antônia, que era muito querida. Houve um bolo para a comemoração.

— Isso é muito importante pra mim. — a garota sorria olhando os rostos de todos naquela sala. — Dona Nanda, a senhora fez muito por mim, me dando oportunidade e confiança. Muito obrigada!

Antônia beijou o rosto da dona da pensão e partiu o bolo. Aquela noite foi incrível e inesquecível. O ano seguinte teve início e agora totalmente uma mulher da cidade grande, Antônia trabalhava como vendedora de dia e estudava a noite. Quando chegava exausta à pensão, dona Nanda sempre a esperava com uma limonada gelada e frango à passarinho frito na hora. Ao chegar ao terceiro período da faculdade, Antônia conseguiu um estágio remunerado e largou o emprego de vendedora, muito grata como sempre, e começou a estagiar como monitora numa escola particular na Freguesia. Em alguns domingos, junto à Nanda, Antônia visitava um centro espírita no bairro de Jacarepaguá, e embora sua mãe fosse católica e esta fosse a única religião que conheceu a vida inteira, o espiritismo lhe fazia bem.

A vida de Antônia era uma guinada atrás da outra, ela sequer se lembrava da vida miserável que teve ao viver com sua tia Amélia, mas sempre pensava em sua mãe e no quanto desejava que ela estivesse orgulhosa. Antônia se sentia muito próxima de realizar seu sonho, a faculdade chegava ao fim e seu estágio também. A vida como educadora estava próxima e o magistério a encantava. Ao se olhar no espelho agora, a visão era avassaladora. Seu cabelo estava bem cuidado e com os cachos perfeitos, seu corpo se tornou formoso pela boa alimentação, sua pele bem tratada e seus olhos escuros cheios de vivacidade. Não trazia mais no rosto a expressão de tristeza e sofrimento que a havia acompanhado a vida inteira. Agora era uma mulher da capital, jamais se esquecendo do seu amado nordeste ao qual almejava retornar num futuro próximo. Agora, Antônia estava formada na faculdade e seu sucesso era emergente. Bem vestida e bem calçada, unhas feitas. Espirrou em si mesma um perfume novo.

— Nunca esquecer quem sou e do onde eu vim. — disse Antônia ao se olhar no espelho numa manhã de dezembro.

O curso de história acabou e o estágio também, a pós-graduação em história da arte era um desejo constante. Mas era o momento de desfrutar do seu primeiro emprego como professora, aos vinte e três anos. Onde antes era monitora, Antônia se tornou professora efetivada e aquilo era apenas o início.

***

Quando Vicente retornou ao Brasil, o funeral de seu pai já tinha acontecido. Teve de lidar com o luto de sua mãe, mas mesmo que a entendesse ele não encontrava sensibilidade o suficiente para chorar junto com ela, então apenas a abraçava e dormia ao seu lado. Passou três semanas dormindo com a mãe, em seu próprio quarto, até que ela se sentisse forte o suficiente para dormir sozinha no quarto onde seu falecido marido dormia.

Vicente era incapaz de entender por que sua mãe amava tanto o homem que a fez mal a vida inteira, mas decidiu não questionar, mais por dó do que por respeito. Não tinha respeito pela memória do pai, inclusive se estivesse presente em seu enterro teria cuspido em seu caixão quando ninguém estivesse olhando. Quando sua mãe estava recuperada da morte de Osmar, Vicente mudou-se sozinho para um dos grandes prédios da Praça da República, mas sempre visitava sua mãe e sua avó, que moravam mais afastadas do centro. Com a ajuda do engenheiro Alberto, Vicente coordenava a empresa que financiava naquele ano diversas obras públicas pela grande São Paulo.

A verdade era que Vicente odiava todos os assuntos da empreiteira e na mesma intensidade odiava participar daquilo. Sentia-se arrasado por não ter podido concluir sua faculdade de psicologia e ainda desejava cursar ciências políticas. Maldito, até na hora de morrer atrapalhou a minha vida, ele pensava.

Um dos seus reencontros marcados para Vicente ao retornar ao Brasil era com Natasha. Natasha de Alcântara Almeida foi namorada de Vicente desde a adolescência e após um determinado momento a relação virou comodismo, para Vicente obviamente, já que Natasha sempre foi completamente apaixonada pelo herdeiro da Di Carvalho. O término já estava na mente de Vicente por uns meses, mas ainda não tinha tido tempo para pensar em como agiria com a garota, pois a morte do pai, o luto da mãe, a administração da Di Carvalho e a vontade de trocar de carro, entraram na frente de sua relação com Natasha. Portanto, Vicente a levou por mais alguns meses como já levava há anos e durante o café em uma manhã de dezembro ele decidiu acabar com tudo. Tinha retornado dos Estados Unidos há cinco anos e estava com Natasha desde então.

— Vince. — Natasha disse com a voz embargada de sono ao sair do quarto.

Apenas de camisola ela sentou-se à mesa. Vicente já estava vestido para ir à Di Carvalho, só lhe faltava os sapatos sociais feios.

— Bom dia, Nat. — ele tentou sorrir enquanto terminava de colocar o ovo frito dentro do pão quente. — Eu quero conversar.

O semblante sério de Vicente não assustou Natasha, ela apenas encheu uma xícara de café.

— Eu também. — sua resposta surpreendeu Vicente que arqueou as sobrancelhas por um momento.

Eles se olharam por um instante e Vicente observou com delicadeza os traços de sua namorada de uma vida toda. A pele bonita e bem cuidada, os olhos negros e grandes, seu cabelo cheio de ondas e cor de café. Natasha tinha se tornado uma mulher belíssima e era, de fato, uma pessoa incrível. Pela primeira vez, Vicente sentiu culpa por ter a prendido por anos, fazia tanto tempo que ele não amava aquela mulher, na verdade, ele amou a menina que ela foi um dia.

— Fala, Vince. — Natasha insistiu colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha denunciando um nervosismo atípico.

Vicente suspirou e levantou-se, andou de um lado pro outro.

— Eu quero morar aqui. — ela disparou impulsivamente e levantou-se também.

Vicente parou e a olhou. Negou devagar.

— Eu quero terminar, Natasha. — ele nunca foi muito bom em rodeios. — Eu sinto muito, estamos juntos há tanto tempo. Estou desgastado.

A honestidade ferina de Vicente não era maldosa, mas ainda assim doía. Natasha sentiu um peso no peito e sentou-se. Seus olhos não se encheram d’água de imediato.

— Estou grávida. — ela contou.

Nesse momento todas as prioridades de Vicente viraram pó. Agora, antes de herdeiro e filho, ele era pai.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.