Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
16 Capítulo XV: A Mais Infame de Todas as Escolhas
Notas iniciais
Era quase uma da manhã quando Eduarda e Helena deixaram a casa de Antônia. Vicente acordou Carlinhos, que cochilava no sofá e o levou no banheiro e escovou os dentes com a escova nova que Antônia providenciou. Em seguida, ele deitou Carlinhos na cama de Antônia e o menininho caiu no sono novamente com rapidez. Depois foi ao banheiro, escovou os dentes, lavou o rosto e finalmente tirou os sapatos, seus pés já doíam. Quando chegou na sala, Vicente viu Antônia arrumando o sofá com cobertas e travesseiros, por sorte era um longo sofá cama verde musgo. Para ele, parecia o lugar mais confortável do mundo.
— Ele já dormiu? — Antônia perguntou deitando-se no sofá.
— Como um bebê. — os dois riram.
Vicente aconchegou-se no sofá também. Em silêncio, eles se abraçaram encostados confortavelmente na montoeira de cobertas e travesseiros. Encararam por minutos os cômodos agora vazios e silenciosos, iluminados apenas pela luz da lua que entrava pela longa janela que ficava acima do sofá. Antônia se sentia segura e certa. Aquele momento parecia certo em tantas maneiras, era inexplicável. E de repente, Antônia pensou numa pessoa incomum naquele momento: Natasha. Sem explicação, a figura da mãe de Carlinhos preencheu o lugar.
— O Carlinhos fala muito da mãe? — Antônia quebrou o silêncio.
Vicente pigarreou.
— Nunca falamos dela.
Antônia desvencilhou-se dos braços de Vicente para olhá-lo nos olhos.
— Como assim, Vicente? — ela perguntou num tom baixo, mas indignado.
Vicente ajeitou-se no sofá.
— Seu José Carlos me cobra muito isso também. Sei que estou errado. Mas meu filho tem seis anos, eu não sei explicar a morte pra ele. — ele parecia tirar um peso das costas ao dizer aquelas palavras.
Antônia respirou fundo.
— Ele nunca perguntou nada?
— Perguntou. Eu me acostumei a dizer a ele que as crianças especiais tinham ou pai ou mãe por que elas eram poderosas demais e não precisavam...
— Você só pode estar de sacanagem comigo, Vicente! — Antônia irritou-se por completo. — Isso é um absurdo! Como Natasha se...
— Por que você está tão brava, Antônia? — Vicente a cortou com seriedade.
Antônia se recompôs. Também não entendia todo aquele fervor no peito ao descobrir que Carlinhos não sabia nada sobre a mãe, entretanto, no fundo aquilo a despertava algo.
— Você está errado, Vicente. — Antônia manteve-se firme. — Carlinhos teve uma mãe, ele merece ver o rosto dela numa fotografia, ouvir sobre ela. Você não pode tirar isso dele. Ele vai crescer...
— E quando ele crescer, ele entenderá. — Vicente encerrou o assunto.
Antônia ia pestanejar, mas calou-se. Encostou-se no sofá e ficou quieta, de braços cruzados.
— Eu falo pelo bem. — após alguns segundos ela voltou ao assunto. — De vocês dois.
Vicente pegou na mão de Antônia.
— Comprei um presente pra você. — ele contou na tentativa de sair do assunto de uma vez. — Eu não planejava, mas era tão lindo e me lembrou você por algum motivo.
Antônia o olhou com curiosidade. Vicente pôs a mão no bolso e tirou um saquinho bonito de pano, deste saquinho ele tirou um belo anel fino e com uma pedra modesta — o anel era todo de prata e a pequena pedra era um topázio azul.
— Mal fez um mês que nos conhecemos, o que...
Vicente riu.
— Não estou te pedindo em casamento. — ele deixou claro. — Isso será apenas daqui um tempo.
Antônia o olhava sem quase nenhuma cor no rosto. Depois olhou o anel – o belíssimo anel — e olhou Vicente de novo.
— Hoje em dia as pessoas chamam de anel de compromisso e tal. Não um casamento, mas um compromisso. Não temos dezoito anos, Antônia... eu gosto de você. Estou apaixonado por você e não quero esperar. Quero que você ande na rua e quando olharem pra você, e te acharem linda demais para deixar escapar, eles olhem sua mão, bem aí. — Vicente disse observando o anel. — E vejam que você já deu seu coração pra alguém.
O peito de Antônia queimou e ela sentiu que já não sabia mais respirar. Aquelas breves palavras sussurradas ali, naquela sala escura, naquele sofá macio e logo depois de um desentendimento. Antônia sabia que devia dizer algo, mas sua boca permaneceu fechada. Vicente suspirou e pôs o anel na mão de Antônia, na palma da mão dela.
— Tudo bem se você não se sentir assim. — ele disse como se já estivesse preparado para aquilo. — De qualquer forma ele é seu. Faça o que quiser.
Antônia apertou o anel na mão e seu coração doía de tão forte que batia em seu peito. Estava tão feliz, mas infelizmente o sentimento não transparecia em seu rosto. Pobre mulher, sempre tão ruim com as emoções do amor. Antônia devolveu o anel á Vicente que a olhou com a expressão trágica, porém, logo em seguida ela lhe estirou a mão — esquerda, por que sabia que não era a do casamento – e balançou o dedo anelar. Vicente sorriu e colocou o anel na bela mão de Antônia que o beijou depois.
— Estou apaixonada por você, inteiramente. — ela finalmente disse olhando-o nos olhos bem de perto.
Deitaram-se, mas demoraram a dormir. Beijaram-se a noite inteira.
***
Antônia despertou cedo, ainda não era nem sete horas. Estava virada de lado abraçada numa almofada e Vicente estava virado para o outro, apenas seus pés se encostavam. Antônia espreguiçou-se e levantou-se, deu uma puxadinha na cortina e olhou o dia lá fora – o céu estava limpo e o sol já iluminava a rua. Já que estava acordada cedo aproveitou para organizar todos os detalhes finais antes da viagem. Em passos leves para não acordar ninguém, ela penteou os cabelos, escovou os dentes e lavou o rosto. Olhou o anel no dedo, pela primeira vez na manhã, era o objeto mais lindo do mundo.
Devagar, Antônia entrou no quarto e encontrou Carlinhos em sua cama, deitado de barriga pra cima e boca aberta. Ficou parada ali longos segundos apenas o olhando e depois sentou-se na beirada da cama.
— Hmm...
Carlinhos murmurou inaudível despertando devagar.
— Oi, oi, bom dia. — Antônia sorriu com a voz mansa e ligou a luz do quarto.
Carlinhos esfregou os olhos.
— Papai. — ele gemeu.
Antônia sentou-se ao seu lado na cama.
— Seu papai ainda tá dormindo. Você quer seu chocolate? — ela fez carinho no cabelo bonito da criança.
Cheio de sono, Carlinhos apenas balançou a cabeça. Ambos se levantaram e deram as mãos, saíram do quarto devagar e foram até a cozinha em silêncio. Antônia ajudou Carlinhos a se sentar na cadeira alta e depois começou a misturar seu chocolate com leite.
— Tia, você é a narmodada do meu pai?
A criança perguntou com inocência. Antônia soltou uma risada baixa e entregou o copo de plástico para Carlinhos e o olhou com ternura.
— Eu sou. O que você acha disso?
Carlinhos colocou o copo na boca e olhou engraçado para Antônia.
— É legal. — a criança riu.
— Quer ver televisão? — Antônia perguntou estirando a mão para Carlinhos que desceu desajeitado da cadeira e assentiu.
Antônia ajeitou Carlinhos no sofá do lado do pai e ligou a televisão. Saiu devagar da sala e trouxe sua mala pra sala, deixando-a num canto. Passou um café e foi para o banho, tomou um rápido e frio. Estava terminando de se vestir quando a porta do quarto abriu.
— Bom dia. — Vicente entrou devagar no quarto.
Antônia deu um breve sorriso de lábios e terminou de vestir sua blusa.
— Oi, bom dia. Dormiu bem?
Vicente assentiu e olhou a hora em seu relógio de pulso.
— Acho melhor a gente sair.
Antônia pegou sua última bolsa e colocou no ombro. Olhou-se no espelho com rapidez e passou a mão de leve nos cachos.
— Só preciso passar na pensão. Tudo bem? — ela perguntou e logo depois beijou Vicente no rosto.
— Claro. — ele concordou com um breve sorriso.
Os dois tomaram uma xícara de café rapidamente e Antônia terminou de conferir a mala enquanto Vicente levava Carlinhos no banheiro antes de saírem de vez.
***
Tatiana estava limpando o corredor do último andar quando ouviu a porta da sala da bater, a pensão estava vazia até então: todos trabalhando ou resolvendo alguma coisa na rua. Antônia, que era quem chegava, viu a sala vazia assim como a cozinha, porém, tinha em mente que logo o lugar estaria cheio devido ao horário do almoço.
— Oi, Antônia. — Tatiana descia as escadas segurando um balde, um rodo e uma vassoura.
— Oi, Tati! — Antônia deixou sua bolsa no sofá e apressou-se para ajudar Tatiana, pegou o rodo e a vassoura.
— Obrigada, querida. — a diarista da pensão agradeceu.
— Nanda tá no escritório? — Antônia perguntou.
Tatiana negou.
— Ela saiu faz um tempinho já, acho que foi no hortifrúti.
Antônia assentiu.
— Ah, queria me despedir dela. Vou viajar. — ela disse com pesar.
Tatiana uniu as sobrancelhas grossas.
— Minha filha, assim de repente? — ela questionou.
— Foi uma emergência, mas nada grave. — Antônia foi sucinta e pegou sua bolsa. — Vou pegar umas coisas no meu quarto, se ela não chegar até a hora que eu for embora, ligo pra ela pra avisar que já estou indo pro aeroporto.
Tatiana assentiu pegando o rodo e a vassoura.
— Isso, faz isso. — e seguiu para cozinha.
Antônia subiu com pressa, pois Vicente e Carlinhos a esperavam no carro. Tirou a chave do bolso e quando foi destrancar a porta, notou que ela estava aberta antes, deduziu por fim que Tatiana poderia ter a esquecido aberta. Sem se importar, entrou no quarto e pegou no cabide escuro, que adorava, seus lenços coloridos para cabelo e os enfiou na bolsa. Saiu do quarto, bateu a porta e a trancou. Antes de descer o último lance de escadas e sair da pensão de vez, Antônia parou no corredor e olhou a escada que a levaria ao segundo andar, e logo depois pensou no que a levaria para o terceiro e enfim o quarto de Nanda. Daria a sorte grande de Tatiana ter esquecido mais quartos abertos naquele dia?
Respirou fundo e subiu os lances de escada de dois em dois degraus, ao chegar no corredor do quarto de Nanda quase correu para tocar a porta dele e quando o fez, era isso: a porta estava aberta e quando pisou no quarto sentiu o cheiro de desinfetante recém passado.
As mãos de Antônia tremeram, mas não pararam. Ela sabia que Nanda poderia chegar a qualquer momento e por isso sua mente já trabalhava com pressa pensando nas desculpas que daria a ela. Antônia largou a bolsa no chão e se pôs perante a velha cômoda de madeira clara que Nanda tinha no quarto. Primeira gaveta, roupas. Segunda, roupas. Terceira, documentos. Quarta, vazia. Quinta, fechada de chave e isso foi o suficiente para levar Antônia a loucura. Com cautela, ela revirou o lugar – com delicadeza o suficiente para não denunciar que alguém esteve ali mexendo em algo. Travesseiro, debaixo da cama, dentro do banheiro, atrás de um quadro feio que ficava acima da cama. Antônia já estava ali há quase quinze minutos. Seguiu rápido até a janela, tocou o vidro devagar e viu o carro de Vicente, o observou de longe, ele estava tranquilo, não demonstrava pressa. Antônia abaixou o olhar como que por um instinto e do lado de dentro do parapeito de madeira, ela viu uma chave, pequenina e enferrujada. Tocá-la foi o início de um pecado infame e libertador – para muitos nesta história.
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