Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
17 Capítulo XVI: A Gaveta das Lâmpadas
Notas iniciais
Parte II: Luz
Antônia ajoelhou defronte à quinta gaveta trancada, colocou a chave no lugar e girou-a. O som do destrancar fez seu coração dar uma pontada e suas mãos suarem. Abriu a gaveta e viu muitos envelopes endereçados à Fernanda Beatriz de Castro Melo de um remetente chamado José Carlos de Alcântara. Ali haviam dois bolos de cartas, Antônia tocou-os e sentiu medo, mas muita, muita curiosidade. Tirou as cartas da gaveta. O tempo estava paralisado.
Tatiana ainda não estava lembrada das portas que deixou abertas. Infelizmente, ou não, Nanda decidiu passar na costureira Célia — sua amiga – antes de voltar pra casa.
Com as mãos tremendo, Antônia passou a mão na gaveta empoeirada, muitos documentos e papéis sem importância a enchia. O coração de Antônia estava acelerado desde o momento que entrou no quarto, porém, num breve instante seu coração simplesmente parou de bater – por uns três segundos. Uma fotografia de Carlinhos estava no fundo da gaveta.
— Por Deus. — Antônia sussurrou com a voz quebrando.
Fotos de Carlinhos mais novo e também atuais estavam ali. Não apenas dele, mas também de Vicente e de uma garota – bonita, de olhos castanhos, cabelo cheio de cachos e pele negra. Com urgência, Antônia pegou a foto da menina, com os dedos trêmulos, e sentiu vontade de chorar. Quando viu o verso da fotografia, leu um nome.
— Natasha. — Antônia sussurrou novamente.
Os olhos de Antônia estavam cheios. Viu na gaveta mais fotos de Natasha. Fotos dela grávida, fotos dela na escola, fotos dela criança. E mais e mais fotos de Carlinhos e Vicente. Algumas de José Carlos. Atrás de todas as fotos tinham nomes e datas.
— Preciso.... preciso pegar o voo. — a voz de Antônia estava embargada e ela se sentia tonta.
Jogou todas as fotos na gaveta e a empurrou. Sem pensar, enfiou todas as cartas que achou dentro de sua bolsa. Antônia sabia onde estavam as respostas e sabia mais ainda que estava prestes a destruir para sempre a confiança da mulher que a cuidou como uma mãe. Sem dar corda aos próprios pensamentos, ainda que eles borbulhassem questionamentos e teorias, Antônia desceu as escadas mais rápido que as subiu e deixou a pensão com rapidez. Teve doze segundos – o tempo de atravessar o pequeno jardim de Nanda do lado de fora da casa e passar pelo portão — até chegar ao carro de Vicente.
— Vamos? — ele sorriu perguntando.
Seu sorriso tão bonito a fez lembrar de uma das fotos que tinha visto minutos atrás. Reuniu força.
— Vamos! — sorriu de volta.
Antônia entrou no banco do carona e imediatamente fechou o zíper de sua bolsa. Naquele momento ela reparou que tinha para sempre se tornado uma fingidora nata.
— Nanda não estava, vou ter que ligar pra ela. — Antônia disse controlando a tremedeira na voz.
Vicente deu partida no carro e olhou no retrovisor, Carlinhos cochilava na cadeira.
— Pegou os lenços? — ele perguntou.
— Aham. — Antônia assentiu e ligou o rádio.
Canções aleatórias embalaram a viagem até o aeroporto.
***
Antônia não levou muito tempo para despachar a mala e fazer o check-in. Sentou-se numa daquelas cadeiras de plástico e colocou o celular para carregar, mas ao mesmo passo o desligou quando viu seis ligações perdidas de Nanda. A dona da pensão já deveria ter chegado em casa, entrado em seu quarto e dado falta de coisas importantes. Antônia sabia que muita coisa na sua vida iria mudar dali pra frente.
— Quase não achamos o banheiro. — Vicente disse enquanto se aproximava com Carlinhos. — Aeroportos são lugares que parecem estar mudando o tempo inteiro.
Antônia apenas assentiu. Estava tensa. Vicente pegou sua mão.
— Está tudo bem? — ele perguntou.
Antônia o olhou nos olhos e sentiu calma, ainda que passageira. Fingiu um sorriso.
— Sim. — ela disse com firmeza e olhou Carlinhos. — Potter, vem cá.
Ela estirou a mão e Carlinhos a pegou, juntos caminharam até a parede de vidro longa que dividia o aeroporto da pista de decolagem.
— É muito grande! — Carlinhos encostou o nariz no vidro enquanto olhava os aviões com fascínio.
Antônia agachou-se ao seu lado e tentou lembrar-se qual foi a última vez que sentiu a felicidade de deslumbrar-se com algo.
— Quando você for piloto de avião vai voar lá em cima com eles, né? — ela perguntou olhando a criança com um sorriso.
Carlinhos alisava o vidro como se pudesse atravessá-lo.
— Vou! E vou levar você e o papai pra voar. — ele disse sem conseguir conter o sorriso. — O meu vovô também.
Antônia tentou não quebrar ao ouvir a menção à José Carlos. Levantou-se e ouviu o chamado do seu voo.
***
Nanda cogitou estar tendo uma crise de pânico.
Sempre que entrava em seu quarto a primeira coisa que enxergava era a janela e automaticamente via a chave que deixava ali, nem escondida, nem escrachada, apenas existindo. Naquela tarde de sábado, a porta do seu quarto estava destrancada e quando abriu a porta, e olhou a janela, de longe já não via a pequena chave ali. Automaticamente levou o olhar até a gaveta, a chave estava perfeitamente acoplada à fechadura.
— Não. — Nanda gemeu já sentindo-se sem ar.
Puxou a gaveta e viu as fotos remexidas. Seu coração doeu fisicamente quando notou que as cartas não estavam ali.
— Ah. — Nanda apertou o peito e, sentada no chão, encostou as costas na cama.
A dona da pensão chorou por que sabia. Puxou o celular e ligou diversas vezes para Antônia que não atendeu nenhuma vez, quando se preparava para ligar a oitava vez, uma chamada entrou.
— José... José. — Nanda atendou com a voz tremendo e sem conseguir conter o choro cheio de soluços. — José, me perdoe. Por favor.
Do outro lado da linha José Carlos já fechava os olhos com pesar.
— O que aconteceu? — ele perguntou mantendo-se estável.
Nanda continuou chorando.
— Fernanda, pare de chorar. — ele pediu pacientemente. — O que aconteceu?
— As cartas, sumiram todas. As fotos estavam mexidas. — Nanda explicou enquanto suspirava para conseguir respirar em meio ao choro. — José... perdão.
O homem respirou fundo e sentou-se na cadeira da cozinha de sua casa que ficava há quilômetros de distância de Fernanda.
— Meu amor... — era a primeira vez em um longo tempo que ele falava daquela forma com Fernanda. — Calma.
Nanda não conseguia parar de chorar.
— Ela vai contar? — José perguntou.
Nanda fungou.
— Eu não sei o que a Antônia vai fazer. Eu não sei. Eu não sei. Eu não sei. — ela repetia na mesma frequência que suas lágrimas inundavam seu rosto. — Eu fiz por medo, José. Foram péssimas escolhas, mas foi medo.
— Eu sei, Fernanda. — José a tranquilizou.
Os vinte minutos seguintes daquela chamada foram de soluços pesarosos de Fernanda Beatriz.
***
Vicente beijou Antônia por longos segundos antes dela entrar na fila de embarque.
— Faça boa viagem, meu bem. — ele disse com carinho. — Depois me passa direitinho os detalhes da volta, eu venho te buscar.
Antônia assentiu ainda que contragosto.
— Tudo bem. — ela olhou Carlinhos e abaixou-se para dar um beijo em seu rosto. — Não esquece de mim, tá bom, piloto? Vou voltar rápido.
— Tá bom, tia. — Carlinhos disse entusiasmado e quando Antônia virou a bochecha, ele lhe deu um beijo molhado infantil.
Antônia riu e levantou-se ajeitando a bolsa no ombro.
— Vou sentir saudade. — ela os olhou com um sorriso. — Mas são apenas três dias.
— Apenas três dias. — Vicente confirmou.
Antônia virou-se de uma vez e seguiu a fila de embarque. Vicente e Carlinhos ficaram ali até ela sumir de vista.
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