Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
12 Capítulo XI: A Primeira de Todas as Escolhas
Notas iniciais
Eduarda acordou às nove com um beijo carinhoso de Helena que saía mais cedo que ela aos sábados, pois tudo tinha que estar em ordem para meio dia o restaurante onde trabalhava, como auxiliar de gerente, pudesse abrir para o almoço. E como era sábado, Eduarda se deu ao luxo de dormir mais um pouco e às dez se levantou. Checou o celular e viu a mensagem de Antônia:
Foi tudo ótimo. Depois te ligo.
Eduarda sabia que alguma coisa não ótima tinha acontecido apenas pela escolha de palavras da amiga, mas sabia que até o final do dia ela entraria em contato. Então colocou o celular pra carregar e tomou um café preto com três colheres de açúcar. Lavou o rosto, escovou os dentes e prendeu os cabelos loiros num rabo de cavalo bonito. Já era quase meio dia quando Eduarda pegou três longos vasos retangulares e os levou para a entrada da casa, onde a bióloga cultivava pequenas hortaliças e ervas. Ajoelhou-se em frente aos tomateiros e pés de pimenta, começando a mexer com sua pá de jardinagem na terra de outros vasos onde a horta não vingou, sorriu quando começou a ver várias minhocas passeando pela terra.
— Eca. — Eduarda riu enquanto dividia a terra cheia de húmus de minhoca dentre os vasinhos pequenos.
Quando terminou, a bióloga tirou do bolso as sementes de coentro e começou a plantá-las em fileiras. O portão de entrada fez barulho tomando sua atenção.
— Amor, está plantando o jantar? — Helena riu aproximando-se trazendo consigo duas sacolas com o almoço.
Eduarda tirou o cabelo do rosto sujando-o de terra.
— Não seja debochada, tá? Minha horta está dando certo. — disse voltando a concentrar-se na fieira de sementes.
Helena assentiu observando os vasos maiores.
— Ok, nossa próxima refeição é sopa de tomate com pimenta e chá de hortelã. — ela riu e limpou a terra do rosto da namorada com delicadeza. — Vamos almoçar, tenho boas notícias.
Eduarda largou a pá e levantou-se.
— Tomara que a boa notícia seja que hoje o restaurante estava servindo estrogonofe. — a bióloga resmungou limpando as mãos sujas de terra na blusa que usava.
Juntas elas entraram na casa. Eduarda foi lavar as mãos enquanto Helena servia os pratos com a comida que trouxe do restaurante.
— Ah, batatas coradas. — Eduarda sorriu sentando-se à mesa. — Quais são as notícias?
Helena colocou os talheres na mesa e sentou-se também.
— Uma das atendentes pediu demissão hoje. — a estudante de administração começou a dizer. — E uma das moças que trabalha na cozinha está de licença maternidade. Precisamos de funcionários novos no restaurante.
Eduarda juntou as sobrancelhas garfando suas batatas.
— E isso é bom por que...? — perguntou.
— Podemos dar um emprego pra Gabriela. — Helena sorriu. — O que você acha?
Eduarda mastigou devagar e assentiu.
— Isso seria ótimo. — ela disse olhando a namorada nos olhos. — Você acha que ela aceitaria?
Helena suspirou.
— Eu não diria que ela tem muita escolha, Duda. — disse sem graça. — Liga pra ela no final do dia e diz que eu posso ajudá-la a trabalhar no restaurante.
A bióloga sorriu com os lábios e pegou na mão da namorada.
— Você é maravilhosa. Amo você. — disse com carinho.
Helena sorriu largo.
— Você me faz ser a melhor de mim. Te amo.
***
Antônia insistiu em pegar um ônibus. Sabia bem que sua despedida de Vicente tinha sido fria e totalmente diferente dos momentos que passaram juntos na noite anterior. Sentia tristeza ao pensar nisso enquanto entrava num ônibus lotado num sábado de manhã. Mas como poderia ser diferente? Ernesto e José Carlos eram a mesma pessoa agora. Avô do Carlinhos. Quanto mais Antônia pensava nisso e na relação disso tudo com Nanda sua cabeça dava um nó. Chegou em casa com uma dor de cabeça incessante.
Ao bater a porta jogou a bolsa no chão e foi correndo tomar um banho quente ainda que no Rio de Janeiro fizesse trinta e cinco graus. Debaixo da ducha quente, Antônia se recordava da noite anterior, dos momentos antes da manhã nebulosa. Bons momentos, de toque, de beijo e de encontro. Fazia tanto tempo que não sentia aquelas coisas boas.
Saiu do banho e vestiu um roupão. Pegou o celular e viu uma mensagem de Vicente.
O que aconteceu? Você sabe que mudou de repente.
Antônia fechou os olhos com força. Não sabia o que fazer. Até onde era justo mentir para Vicente? Antônia gemeu de agonia. Afinal, o que Antônia sabia de fato? Quase nada. Tinha mais dúvidas do que qualquer outra coisa.
Antônia foi até o quarto e abriu a terceira gaveta do guarda roupa, tirou de lá um pacotinho de incenso que tinha trago do centro espírita na última vez que o tinha visitado. Voltou à sala, desligou as luzes e o celular. Abriu as janelas e acendeu os incensos, espalhando-os pela casa. Após isso sentou-se no tapete e respirou fundo, meditou profundamente por longos minutos. Rezou. Pensou em sua mãe. Pediu conselhos aos espíritos de luz. Ao fim da meditação, Antônia tinha tomado uma decisão: precisava descobrir os segredos de Nanda por completo.
Antônia abriu as cortinas e jogou fora o incenso usado. Seu celular tocou e era Eduarda. As amigas compartilharam suas novidades, boas e ruins, e as duas deixaram de lado partes desconfortáveis: Eduarda não contou que chorou por horas por causa da irmã e Antônia também não disse que Ernesto e o avô de Carlinhos eram a mesma pessoa.
— E agora? — Eduarda perguntou após Antônia terminar de contar como foi sua noite na casa de Vicente.
— Não faço ideia. — Antônia foi sincera.
— Você deveria dar uma chance. — Duda disse com displicência.
— Mas eu dei uma chance. — a professora disse como se fosse óbvio. — Dei mais do que chances pra ser sincera.
Eduarda gargalhou alto do outro lado da linha.
— Caralho, você é muito fora da casinha as vezes. — disse rindo.
— Achei que tinha parado de falar palavrões. — Antônia chamou a atenção da amiga.
Duda respirou fundo.
— Estou tentando, tá legal? — falou com grosseria.
Antônia deu uma risada fraca e o celular fez barulhos estranhos, quando checou a tela viu uma outra ligação em curso, era Vicente.
— Duda, vou desligar aqui, tá bom? — Antônia avisou. — Te amo, beijo.
— Hmm, beleza. Beijo amiga, amo você.
Antônia desligou e atendeu Vicente.
— Oi. — atendeu com a voz nervosa.
Estavam finalmente se falando desde a manhã estranha.
— Oi, Antônia. Olha só, eu entendo se você não tiver gostado de alguma coisa, se eu tiver assustado você, eu sinto muito se eu fiz alguma coisa que te chateou, magoou, te faltei com respeito? Eu sinto muito, Antônia. Eu...
— Meu Deus do céu, do que você tá falando? — Antônia se segurou pra não dar uma risada. Vicente disparava as palavras com rapidez e cheio de nervosismo.
— Eu não sei! Você agiu tão estranha hoje de manhã, não respondeu minhas mensagens. O que aconteceu? Parecia tudo tão bem aqui ontem. — Vicente se explicou.
Antônia sentiu um peso no peito.
— Desculpa por isso, Vicente. — ela começou a dizer com pesar. — Não foi por mal. Você não fez nada. Me desculpa mesmo.
Vicente suspirou do outro lado da linha.
— Você está bem? — ele perguntou devagar como se pudesse ofender.
Antônia apertou as mãos. Teria de mentir.
— Sim, claro. — ela disse e até sorriu mesmo que ele não pudesse ver.
Um silêncio rápido perdurou durante a chamada.
— Vem jantar aqui na próxima sexta, com o Carlinhos. — Antônia o convidou impulsivamente e não se arrependeu. — Vou convidar um casal de amigas.
Vicente sorriu aliviado.
— Está combinado. — ele disse.
Antônia sorriu.
— Depois eu mando uma mensagem com o endereço certinho. — disse. — Agora preciso desligar. Boa noite.
— Tudo bem. Boa noite, dorme bem. — Vicente respondeu ainda com um sorriso de lábios insistente.
— Você também. — Antônia enfim desligou.
Faria um jantar legal na próxima sexta. Convidaria Eduarda e Helena. Mostraria seu apartamento para Vicente e seus livros velhos de Harry Potter seriam um encanto para Carlinhos. O coração de Antônia se aqueceu e durante breves minutos esqueceu do que a agoniava.
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