Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo

13 Capítulo XII: As Raízes Que Clamam Por Mim


Notas iniciais
Sejam bem vindos.

A segunda-feira amanheceu com o sol quente e era enfim o início de novembro.

Antônia arrumou-se em rápidos minutos – tinha levantado atrasada naquele dia -, tomou um suco de laranja velho que estava na geladeira e partiu. Naquele dia da semana trabalhava numa escola pública na Freguesia.

Eduarda tinha um encontro especial naquela segunda, sua irmã iria encontrá-la numa padaria perto da igreja por volta das seis da tarde, ou talvez às sete, uma leoa estava pronta pra parir no zoológico e a presença de Eduarda poderia ser requisitada por mais tempo.

Vicente levantou às seis e logo ligou seu notebook, tinha uma reunião em trinta minutos com Carlos Alberto e isso já era o bastante para lhe dar um nó na garganta. Às sete e meia acordou Carlinhos, serviu seu café da manhã e o levou para a escola. Estupidamente esperou ver Antônia por lá, mas logo foi embora. Tinha muito trabalho a fazer.

Nanda foi ao mercado, conversou com Solange durante boa parte da manhã e regou suas plantas. Logo depois de fazer o almoço — um bom arroz e feijão com carne ensopada – ela se trancou no seu quarto, durante longos minutos ficou remexendo nas coisas guardadas à chave lá dentro, consumindo-se daquilo tudo que carregava há anos. Os últimos dias tinham sido difíceis.

José Carlos se preparava pra deixar sua casa de praia e retornar à Jacarepaguá o mais rápido possível para enfim estar de volta ao seu negócio — que não o deixou rico como ambicionava –, mas o fez feliz. Mas naquela manhã de segunda, felicidade não o definia.

Naquela manhã de segunda, todos estavam por um fio por alguma coisa.

***

Pouco depois da hora do almoço Antônia finalmente deixou a escola. A manhã tinha sido cheia, turmas barulhentas e crianças agitadas. A escola municipal da Freguesia a fazia pensar. Todas as vezes que seu salário de servidora pública atrasava – um, dois, três meses -, Antônia pensava. Quando seus alunos compartilhavam histórias tristes, ela pensava. Queria fazer mais por aquelas crianças que de uma forma ou de outra, durante algumas horas, eram sua inteira responsabilidade.

Antônia espantou os pensamentos pesados quando entrou no ônibus. Checou seu celular e mandou mensagem para Eduarda convidando Helena ela para um jantar legal na sexta-feira à noite, mencionando displicentemente que Vicente também iria. Eduarda respondeu com “aaaaaaaaaaa”. Antônia sorriu e guardou o celular. Desceu do ônibus na esquina da rua da pensão que ficava ao fim dela. Caminhou pela areia com seu tênis e sentiu a brisa gostosa do início de tarde. Passou pelo Bumba Meu Boi que estava movimentado e viu Solange e Dirceu tomando cerveja numa mesa na areia. Antônia deu um sorriso singelo e atravessou a rua. Abriu a porta da pensão e tudo o que ouvia era a conversa alta que acontecia na cozinha. Largou a bolsa no sofá e seguiu.

A mesa longa estava posta e cheia de gente. Quase todos os hóspedes estavam em casa, tinha gente comendo até no balcão de tão cheia que a cozinha estava naquela tarde.

— Boa tarde, boa tarde! — Antônia cumprimentou com um sorriso e logo sentou-se num lugar vago no balcão.

Um coro de “boa tarde” foi ouvido em resposta. Nanda entregou um prato para Antônia.

— Você viu a Sol e o Dirceu lá fora? — Luciana perguntou pra Antônia que riu enquanto se servia de carne ensopada.

— Eu vi, menina! — respondeu colocando uma porção de arroz. — Cerveja às duas da tarde? Estão apaixonados!

Todos riram.

— Nem ficaram pra comer o pudim. — Nanda disse decepcionada tirando a sobremesa da geladeira.

— Ai, a gente ficou, não tem problema. — Rafael levantou-se logo e pegou um pratinho menor para o doce.

Tatiana, a moça que trabalhava na limpeza da pensão há sete anos, entrou na cozinha em meio ao alvoroço. Ouvindo a conversa, ela deu risadas.

— Tati, pode falar, o que você viu? — Amanda perguntou curiosa.

Todos olharam Tatiana que estava colocando seu almoço.

— Eu vi beijo! — ela contou como se fosse uma informação secreta.

A cozinha toda ficou boquiaberta e um silêncio engraçado surgiu. Todos se olharam com vontade de gargalhar.

— Quando foi isso? — Nanda olhou Tatiana com interesse e segurando um risinho.

— Hoje cedo. Lá no portão. Dirceu estava saindo pra trabalhar e Solange foi com ele até o portão. — Tatiana arrumou um lugar na mesa e sentou para comer.

Rafael começou a estalar os dedos como quem se lembrava de algo.

— Na hora do café eu bem percebi que alguém tinha comido antes de todo mundo. Os biscoitos estavam mexidos. — ele disse como se fosse um perito.

Amanda o olhou incrédula e depois olhou todo mundo.

— Olha as coisas que esse doido repara, meu pai amado. — disse e em seguida começou a se servir de pudim.

A cozinha voltou a ficar imersa em seus assuntos e fofocas da pensão. Nanda pegou sua bolsa que estava na cadeira e deu um beijo em Antônia antes de deixar o cômodo. Antônia esgueirou o rosto e viu Nanda bater a porta da frente, deixando a pensão. Voltou a almoçar e imergiu-se nos assuntos comuns da cozinha. Pouco a pouco todos terminaram suas refeições, lavaram seus pratos e dispersaram-se até a cozinha ficar vazia. Antônia sentou-se no sofá preguiçosa pós almoço, Rafael a acompanhou junto com vários deveres de casa que estava corrigindo.

— Sempre quis aprender inglês, sabia? — Antônia espiou as tarefas que ele corrigia. —Mas muita enrolação de língua.

Rafael deu uma risada.

— Que isso, boba. — o professor riu enquanto marcava um 8,4 num dos trabalhos. — Eu posso te ajudar se você quiser. Se bem que a enrolação de língua que a senhora tá curtindo ultimamente é outra, né.

Antônia riu e desviou o olhar. Solange provavelmente se encarregou de algumas fofocas. A professora de história não respondeu e o assunto morreu, o silêncio na pensão de Nanda soou suave. Antônia olhou o relógio de parede e já eram mais de duas da tarde, Nanda já devia estar a caminho de casa. Sem dizer nada mais para Rafael, Antônia levantou-se e foi em direção às escadas.

Subiu o primeiro lance e sentiu suas mãos suarem “sem” motivo. Não sabia bem o que estava fazendo, apenas estava. Subiu o segundo lance de escadas. Daí, subiu o terceiro. Olhou a última porta, que ficava logo no fim do corredor e que guardava o quarto da dona da casa. Andou até ela sem pestanejar e tocou a maçaneta, a forçou com suavidade e aconteceu: estava trancada. Antônia quis rir de si mesma.

— Ai, sinceramente. É óbvio. — ela sussurrou sem acreditar na própria imbecilidade.

Naquele momento Antônia se deu conta de que se realmente quisesse descobrir alguma coisa teria que ser um pouco mais esperta.

— Antônia. — uma voz a chamou no corredor.

Virou-se e viu Tatiana se aproximando com uma vassoura, um rodo e um balde. Uma lâmpada acendeu em sua cabeça naquele instante.

— Tati! — Antônia abriu um sorriso. — Você mesma quem eu procurava.

Tatiana se aproximou e encostou o que carregava na parede.

— O que aconteceu? — Tati perguntou franzindo as sobrancelhas.

Antônia revirou os olhos pra si mesma.

— Fui uma idiota! — ela disse teatralmente. — Sei que Nanda tem uma foto nossa guardada e queria pegá-la para fazer uma cópia e uma surpresa. Colocar num porta-retrato sabe, bem bonito. Por isso ia entrar escondido, mas nem pensei que estaria trancado!

Antônia gesticulou e sentiu seu tom de voz mudar, depois do que disse também reparou que poderia ter usado uma palavra melhor que “escondido”. Era uma péssima mentirosa e estava na cara. Tatiana a olhou desconfiada.

— Ai, Tati. — Antônia concentrou-se para agir naturalmente. — Nanda é como uma mãe pra mim, eu só quero fazer uma surpresa pra ela. Me ajuda, por favor.

Tatiana suspirou e deu uma risadinha. Tirou um molho de chave do bolso e pegou uma com uma fita vermelha, colocou na fechadura e a rodou. A porta estava aberta.

— Muito obrigada, você é uma querida. — Antônia deu-lhe um beijo na bochecha.

— Você que é. — Tatiana sorriu.

Antônia colocou a mão na maçaneta e antes que pudesse abrir a porta, foi interrompida por ouvir seu nome ser gritado do pé da escada.

— Antônia! — era a voz de Rafael. — Telefone pra você e diz que é urgente!

Antônia largou a porta e um milhão de coisas ruins passaram pela sua cabeça. Nanda foi atropelada, assaltada, sequestrada. Um estranho buscou Carlinhos na escola e agora Vicente precisava de ajuda. Vicente tinha desaparecido e a última pessoa que falou com ele foi Antônia. Alguma coisa tinha acontecido com Eduarda e Helena estava desesperada, alguma coisa tinha acontecido com as duas. Antônia largou a porta e desceu as escadas com pressa, quando chegou à sala Rafael a entregou o telefone fixo e com as pernas tremendo Antônia sentou-se na poltrona.

— Alô. — sua voz tremeu ao atender.

Demoraram pra responder.

— Alô! — Antônia repetiu quase gritando.

Houve um barulho do outro lado da linha.

— Antônia? — disseram com receio.

Ela franziu a sobrancelha reconhecendo aquela voz de muito longe.

— Sou eu. Quem tá falando? — Antônia perguntou.

Seu coração já batia disparado.

— Antônia Francisca? De Oliveira? — a pessoa continuou. — É você?

Os olhos de Antônia cerravam-se e suas as mãos suavam conforme a voz soava em seus ouvidos, e não apenas a voz, o sotaque também, tudo se tornava familiar. Família. Antônia empertigou-se na poltrona imediatamente.

— Maria Paula?! disparou cheia de urgência.

— Sim. — ela disse. — Prima, quanto tempo.

Antônia encostou as costas na poltrona e suspirou incrédula.

— Muito, muito tempo. Oi. — estava confusa e não sabia o que dizer. — Como conseguiu meu número?

Maria Paula suspirou.

— Internet, oxi. — ela disse com naturalidade. — Achei teu facebook e lá tinha onde você trabalha, né. Liguei lá e eles me deram uns números. Tu só atendeu nesse aí. Tu é professora, é?

Antônia estava em choque ainda que tudo fosse muito simples.

— Eu sou, sim. — ela disse. — E você, como vai?

— Menina, fui estudar no Juazeiro, aqui em Barbalha não consegui. — Maria Paula começou a contar.— Eu me formei em nutrição.

Antônia sorriu.

— Nossa, que maneiro. — ela disse. — E tia Amélia? Tudo bem com ela?

Antônia perguntou com dificuldade mesmo que tudo já fosse superado — graças a uns dois anos de terapia. Um silêncio rápido se passou.

— Minha mãe adoeceu, Antônia. — A voz de Maria Paula murchou. — Ó, eu sei por que tu fugiu. Eu entendo, de verdade. Mas, escute, mainha tem câncer, igual tia Marília. E, Antônia, mulher, tudo o que ela quer é te ver. Diz que quer muito te ver antes de morrer.

Maria Paula disse a última palavra cheia de pesar. Antônia, num momento raro de sua vida, fechou os olhos devagar e sentiu que ia chorar.

— Vou tá aí no final de semana. — Antônia disse segurando o choro. — Tá morando no mesmo lugar?

— Sim. — Maria Paula confirmou. — Obrigada, prima.

— De nada. Até breve.

Sem esperar despedidas, Antônia desligou o telefone. Tapou o rosto com as mãos e chorou com força, bem alto. Rafael levantou-se imediatamente e abaixou-se do seu lado.

— Amiga, o que foi?! — ele perguntou preocupado. — Quem era?

Antônia só negou e levantou-se. Deu um forte abraço em Rafael, pegou suas coisas e saiu da pensão com os olhos inchados, coração pesado e saudade do Ceará.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.