Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo

23 Capítulo XXII: O Que é Bom e Terrível ao Mesmo Tempo


Notas iniciais
Sejam bem vindos! ♥

Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa
Sigo o roteiro
Mais uma estação
E a alegria no coração

— A Vida de Viajante, Luiz Gonzaga

***

Depois da ilustre e totalmente inesperada visita de Sérgio, Eduarda retornou para o trabalho e mal conseguiu se concentrar em nada o dia inteiro. Chegou em casa era oito da noite, largou a mochila na mesa da cozinha totalmente intocada, o que era estranho pois Helena sempre preparava o jantar quando estava em casa – e aquele era um daqueles dias. Eduarda caminhou até a sala já procurando pela namorada e enfim a viu, sentada no sofá com o cabelo amarrado num coque, apenas de sutiã e calça jeans, com as pernas estiradas em cima da mesa de centro. O olhar de Helena estava fixo na televisão onde passava a novela e sua expressão estava fechada, Eduarda conseguia perceber que a namorada tinha apenas tirado a blusa e se sentado no sofá depois que chegou em casa, poderia apostar que ela estava naquela posição há horas.

— Você nem gosta de novela. — Eduarda brincou sentando ao lado de Helena no sofá.

Helena mal se mexeu.

— Talvez se eu entendesse o que eles dizem eu gostasse. — foi rude.

Eduarda juntou as sobrancelhas e esticou o braço para pegar o controle em cima da mesa de centro, desligou a TV. Helena olhou pra baixo. Eduarda respirou fundo e sentou-se um pouco mais perto, até conseguir tocar Helena.

— O que aconteceu? — Eduarda perguntou.

Helena levantou o rosto e olhou a namorada.

— Você é infeliz. — ela se levantou do sofá e num supetão Eduarda fez o mesmo.

Helena se afastou em passos duros para o outro lado da sala

— O que?! — exasperou-se indignada.

Helena revirou os olhos e soltou os cabelos, estava exausta.

— Sua família não fala com você há quase um ano, você nem vê o seu sobrinho. — ela começou a dizer com voz de choro. — Eu vejo você mexendo no facebook só pra ver o perfil da sua mãe, e...

— Não! Eu vejo outras coisas lá, óbvio!

— Só a sua mãe usa facebook, Eduarda! — Helena gritou cheia de gestos com as mãos que tremiam. — E você está longe de todos eles por minha causa!

Eduarda negou e aproximou-se de Helena.

— Isso não é verdade, eu falo com a Gabriela. — tentou amenizar.

Helena riu descrente.

— Você briga com a Gabriela, Eduarda. Briga!

Eduarda tapou o rosto com as mãos e respirou fundo. Um silêncio pairou. Helena foi em direção à cozinha e sentou-se à mesa, Eduarda a seguiu.

— Meu pai veio aqui hoje, para se reaproximar. — ela contou e sentou-se na cadeira ao lado.

Helena olhou a namorada e desviou o olhar de novo.

— Fico feliz. — ela limitou-se a dizer. — Mas mesmo assim, tudo o que te faz infeliz é por minha causa. Se eu for embora você consegue sua família de volta.

Eduarda sentiu-se sendo engolida pelo universo ao ouvir aquelas palavras, encostou-se na cadeira dramaticamente sentindo o peso do que tinha ouvido.

— Lena, meu Deus. Do que você tá falando?

Helena chorou se sentindo em crise e apoiou os braços na mesa, olhou pra baixo como se fosse vomitar, mas só chorou mais. Eduarda pegou o rosto de Helena com cuidado e o levantou.

— Você acha que sou infeliz? — perguntou com firmeza.

— Sim. — Helena não deu rodeios.

Eduarda enrijeceu o maxilar e depois o relaxou.

— Está querendo ir embora de verdade e procurando desculpas, Helena? — Eduarda questionou com as sobrancelhas tensas e voz baixa.

Helena balançou a cabeça confusa.

— Está querendo ir embora de verdade e procurando desculpas, Helena? — Eduarda repetiu com o mesmo tom de voz, contudo, mais pausadamente.

Helena levantou-se da cadeira com violência.

— Como você se atreve?! — ela gritou novamente. — Eu amo você!

Eduarda levantou-se também, porém, devagar.

— Se acha que sou infeliz experimente ir embora. — ela disse ainda com a voz em seu mais baixo volume. — Estou com você, Helena. Você não me custa minha família, mas escolher minha família me custa você. Escolho você.

Helena chorou mais forte e deixou a cozinha, pegou sua blusa largada em cima da cama e a última coisa que Eduarda ouviu foi a porta da frente batendo.

***

José Carlos organizava mesa para receber seus convidados e cada vez que posicionava um prato se perguntava: será que é esse que vai voar na minha cara hoje?. Há duas horas Vicente havia ligado para informar que levaria sua namorada Antônia para conhecer a casa do avô de seu filho e estava totalmente animado com a ideia. José Carlos, por outro lado, via aquele jantar como o início do caos que se acometeria sobre as vidas de muitos nessa história. Porém, harmonioso e comedido como sempre foi, José Carlos disse para Vicente ao telefone:

Sim, será um prazer conhece-la. Ainda mais uma conterrânea.

A galinhada estava pronta e o baião quase pronto, estava apenas terminando de secar e a mesa já estava posta. Desligou o fogo do baião e a campainha tocou. Do lado de fora da porta, Antônia estava inquieta, passou a mão nervosamente pelos cabelos e os arrumou com uma faixa azul logo antes de descer do carro. Vicente a olhou e pegou em sua mão que tremia.

— Não precisa ficar nervosa, ele só parece carrancudo, no fundo é uma pessoa...

— Estou bem. — Antônia o cortou.

Vicente assentiu devagar.

— Eu amo quando você arrumar seu cabelo assim.

O coração de Antônia se aqueceu, ela puxou a mão de Vicente e a beijou. A porta abriu.

— Boa noite! — José Carlos abriu a porta com animação.

Carlinhos correu para abraçá-lo, o avô pegou a criança no colo. Antônia e Vicente entraram logo após Carlinhos e fecharam a porta.

— Vovô, olha! — cheio de animação Carlinhos mostrou a foto de Natasha para José Carlos que automaticamente olhou Vicente.

Vicente apontou para Antônia.

— Achei um absurdo quando ele me contou que Carlinhos não sabia nada sobre a mãe. — e assim como José Carlos estava fazendo, Antônia decidiu agir o mais trivial possível.

José Carlos sorriu e olhou o neto.

— E quem é essa na foto? — o avô perguntou cheio de brilho nos olhos.

— É a minha mamãe! Ela tá passeando, muito ocupada, por isso não voltou ainda. — Carlinhos explicou a lógica inventada para lhe explicar a morte.

José Carlos deu uma boa risada jogando a cabeça para trás e depois pegou a foto.

— Linda, a sua mãe. Muito linda.

Carlinhos sorriu e pegou a foto de volta, fez uma cara engraçada ao olhar a foto e depois olhar Antônia.

— Tia, ela parece você! — a criança falou com a voz aguda.

Antônia soltou uma risada e aproximou-se, chegou bastante perto de Carlinhos e de José Carlos, observou a foto na mão da criança.

— Você acha que a gente parece? — ela perguntou tirando risinhos de Carlos Henrique.

— Sim! — ele confirmou com afinco.

Todos na sala riram e José Carlos colocou a criança no chão que logo correu pra sala gritando "desenho!" e segundos depois já tinha esquecido o que havia falado.

— Ai, crianças. Eu não acreditaria que elas são assim se não tivesse uma só pra mim. — Vicente falou enquanto sentava-se à mesa.

Antônia e José Carlos fizeram o mesmo.

— Então, Antônia! — José Carlos a chamou pelo nome pela primeira vez. — Você é do Ceará também? De onde?

Antônia assentiu.

— Eu sou. Inclusive voltei de lá hoje, fui visitar minha tia que está doente. — ela contou. — Sou um pouquinho de Barbalha, um pouquinho de Juazeiro.

Naquele momento, José Carlos e Antônia haviam selado um pacto secreto e invisível que garantia todo o fingimento que juntos estavam despejando naquela noite, e de vez em quando ambos se espantavam com a sua própria capacidade de dissimular as coisas.

— Que coincidência! Somos mais conterrâneos do que eu imaginava, sou de Juazeiro também.

Vicente os observava. Antônia assentiu novamente.

— Ó, fiz um baião e uma galinhada. Você gosta? — José Carlos estirou o braço por cima da mesa e destampou as panelas que estava no centro dela.

Antônia sorriu com o cheiro da comida e sua barriga roncou.

— Eu adoro, meu Deus do céu. — ela olhou as panelas com um sorriso verdadeiro.

— Então vamos comer. — José Carlos começou a serviu seu próprio prato.

Vicente começou a colocar comida num prato de plástico e Antônia serviu-se.

— Carlinhos. — a criança foi chamada e chegou com rapidez. — Você come sozinho, filho?

Carlinhos apenas balançou a cabeça, Vicente então entregou-o o prato com uma colher e ele voltou correndo para a sala a fim de não perder seu desenho.

— Morei metade da minha vida em Juazeiro, mas aí me mudei pro Rio. — José Carlos começou. — Quando você veio pra cá?

Antônia engoliu a primeira garfada de sua comida que estava deliciosa.

— Eu tinha dezoito anos. — ela respondeu e José Carlos a olhou cheio de surpresa.

— Muito cedo! — ele disse espantado. — Veio sozinha?

Vicente começou a servir os copos com o suco amarelo que estava na jarra ao lado das panelas. José Carlos tomou um gole.

— Sim. Minha mãe morreu cedo e eu morava com minha tia em Barbalha, muitas coisas aconteceram e eu quis ir embora, queria ir pro mundo. — Antônia deu uma risada sem graça ao lembrar-se da juventude. — Acho que era isso que mais se passava na minha cabeça de adolescente, queria um tipo de liberdade.

José Carlos sorriu e concordou com a cabeça.

— Eu também sou exatamente assim. Fui embora do Juazeiro por que queria o mundo. — o avô de Carlinhos sorriu melancólico.

— Deu certo pro senhor? — Antônia questionou e por um breve momento sentiu que aquela pergunta não fazia mais só parte do teatro que estavam encenando juntos.

José Carlos deu de ombros.

— Um pouco, eu acho. Quer dizer, na maior parte sim. — o senhor soou confuso e também verdadeiro. — Na verdade querida, eu não sei. As coisas foram muito diferentes do que eu planejava.

Antônia apenas balançou a cabeça e olhou Vicente que naquela conversa era apenas um bom ouvinte.

— Eu me senti assim quando voltei dos Estados Unidos. — Vicente comentou após tomar um gole do seu suco que descobriu ser de cajá. — Eu queria fazer muitas coisas no Brasil que não fiz, Carlinhos mudou tudo pra mim.

José Carlos e Antônia assentiram e surgiu um silêncio que vagamente era preenchido pelo tilintar das louças e o som do desenho animado que Carlinhos assistia no cômodo ao lado. Todos terminaram de jantar e tiraram seus pratos da mesa.

— Gostam de baralho? — José Carlos retornava da cozinha com duas caixas de cartas de baralho em mãos.

Vicente fez uma cara preocupada.

— Eu sou ruim.

Antônia ajeitou-se na cadeira.

— Só sei jogar tranca.

José Carlos sentou-se e tirou as cartas das caixas.

— É o melhor que tem, na minha opinião. — ele olhou Antônia. — Vamos?

Todos concordaram e José Carlos deus as cartas, onze para cada um mais o morto. Pegaram as cartas e deram início ao jogo, e se foi uma partida, e mais outra, e outra, animaram-se enfim com o jogo de cartas. Após a terceira ou quarta partida uma garrafa de vinho foi aberta.

— Puta que pariu, com o teu duzentos na mão, Vicente! — José Carlos riu batendo a mão na mesa.

Antônia olhava para as próprias cartas e sentia vontade de dar risada.

— Não consigo fazer nada com o que tenho aqui, que jogo horrível.

Vicente olhava das suas cartas para as de José Carlos.

— Ó, se me der a mesa eu quero, hein. — ele disse e logo depois deu mais um gole na sua taça de vinho.

Antônia abaixou as cartas e observou os dois, e como se acordasse de um transe, sentiu-se suja. Estava ali, há horas, fingindo que estava num jantar legal conhecendo a família do seu namorado, do homem que amava. Estava há horas fingindo que tudo estava bem de uma forma tão excepcional que a fez questionar o próprio caráter. Levemente bêbada, Antônia levantou-se exasperada da mesa fazendo um barulho na cadeira.

— Meu amor, tudo bem? — Vicente a olhou.

Antônia travou.

— Ah... ah... — respirou fundo. — Onde é o banheiro?

José Carlos a olhou com desconfiança. Apontou para o corredor.

— É a última porta.

Antônia andou cambaleando um pouco, o vinho entorpeceu seus sentidos levemente. Olhou para a sala de relance e viu Carlinhos dormir no sofá, com o rostinho na almofada. Seguiu em frente e incomodou-se que as luzes do corredor estavam desligadas, mas logo tateou a última porta e deslizou sua mão até o trinco, entrou no banheiro, trancou a porta e acendeu a luz. Respirou fundo e pegou o celular no bolso, já era duas horas da madrugada.

— Puta merda.

Tinha duas mensagens de Eduarda, uma de Helena e nada de Nanda. Antônia deixou o celular sobre a pia do banheiro e levantou o rosto, se olhou no espelho. Se envergonhava de si pela primeira vez na vida.

— Droga.

Lavou o rosto e foi fazer xixi, levantou-se mais uma vez tonta e encostou-se um pouco na parede. A culpa que não a abandonava começou a ferver em seu peito. Estava ali, ao lado de Vicente e Carlinhos, em frente à José Carlos, e sabia de tantas coisas que deveria contar ou simplesmente não saber. Antônia correu os dedos pelo próprio couro cabeludo e fechou os olhos com força. Imagens borradas das cartas que leu no avião passavam pela sua cabeça.

— Meu Deus, meu Deus, eu não sei o que fazer. Meu Deus, meu Deus, eu não consigo, é muita coisa, eu não consigo...

Calou-se. Rendeu-se ao choro ali mesmo, encostada na parede gelada do banheiro de um estranho. Antônia abriu os olhos e sua visão turva levou apenas alguns minutos para focar. O banheiro era todo branco com o jogo de toalhas preto. Antônia ajeitou sua postura e parou de chorar, em seguida procurou pelo seu celular e o viu em cima da pia, perto de uma escova e de uma pasta de dente. Aproximou-se, lavou as mãos e as secou, depois pegou seu celular e olhou-se novamente no espelho, num segundo de relance Antônia abaixou o olhar e algo que estava sobre a pequena prateleira abaixo do espelho chamou sua atenção, um embolo brilhante e uma cruz. Antônia enrijeceu as sobrancelhas e piscou algumas vezes, pegou o objeto com a ponta dos dedos e deixou a corrente se desembolar, era um cordão dourado comprido com um exagerado pingente de crucifixo.

Eu lembro que ele apareceu com uma corrente de ouro, menina, com uma cruz pendurada e escrito nela "58 Zé".

A voz de Amélia tomou conta da mente de Antônia. Ela observou detalhadamente a corrente e olhou minuciosamente o crucifixo dourado na extremidade dela, e tinha algo gravado lá, levemente surrado pelos anos passados, os dizeres: 58 Zé.

Antônia começou a arfar com força e suas duas mãos tremiam com total insegurança e angústia. Olhou o próprio reflexo no espelho e se viu com os lábios tremendo querendo gritar sem conseguir pronunciar uma só palavra. Apertou a corrente em sua mão e encostou-se na parede do banheiro mais uma vez, imersa no mais profundo e absoluto choque que era saber que seu pai estava no cômodo ao lado.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.