Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

"Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim."

— Clarice Lispector

***

Antônia tinha oito anos de idade quando perguntou pelo pai pela primeira vez.

Uma tarde quente de dezembro começava. A casa da infância de Antônia era toda bege e o quintal era de cimento queimado vermelho. Tinha muitas janelas de madeira velha que viviam abertas, mas ainda assim fazia muito calor. Marília batia um bolo de fubá na cozinha quando Antônia – magricela e baixinha – aproximou-se devagar.

— Ei, mãe.

Marília levantou o olhar e continuo batendo a massa.

— Diz, Antônia.

A garota sentou-se na cadeira de plástico e ficou olhando o chão.

— Desembucha, menina, fala logo. — Marília exclamou batendo a massa com mais força.

Antônia respirou fundo e olhou a mãe.

— Cadê meu pai? — ela foi sucinta.

Marília soltou um suspiro desapontado e parou de bater o bolo.

— Ele foi embora. — também foi sucinta.

— Mas e eu? Ele...

Marília deu a volta na mesa e puxou uma cadeira, sentou-se ao lado da filha.

— Ele foi embora, Antônia. Ponto final. Me desculpe, minha filha. — a mãe da menina dizia com a voz cheia de ressentimento.

Antônia sentiu dor nos olhos, mas não chorou.

— Ele não gostava de mim?

— Nem de você e nem de mim. — Marília balançou a cabeça em negação. — Mas ele não importa, você não precisa dele.

Marília levantou-se e voltou a bater o bolo. Antônia ficou com o olhar vagando pela cozinha.

— O que foi, Antônia? — Marília questionou sentindo-se culpada pela forma como havia falado do pai da menina, ainda que acreditasse que era melhor dizer a verdade do que inventar um conto de fadas para a filha.

Antônia olhou a mãe.

— Então eu não tenho pai? — a menina concluiu.

— Você tem mãe e isso basta. — Marília começou a despejar a massa do bolo na forma untada.

— Basta. — Antônia concordou.

Foi a última vez que José Carlos foi mencionado dentro da casa onde Antônia nasceu. Depois de dois minutos inteiros olhando o próprio reflexo no espelho do banheiro segurando aquela corrente velha, Antônia piscou com mais afinco e mexeu-se. Sua garganta estava seca e por alguma razão seu corpo todo doía. Apertando o crucifixo rabiscado na palma da mão, Antônia finalmente deixou o banheiro, caminhou devagar no corredor escuro e enfim chegou à sala de jantar. Ela observou José Carlos e Vicente jogando conversa fora e parou rente à cabeceira da mesa, e apoiou-se na cadeira, pois seu corpo pesava muito.

— Amor, você demorou muito, tá tudo...

— Marília... — a voz fraca e rouca de Antônia interrompeu a fala de Vicente que a olhava agora de sobrancelha juntas.

— O que? — ele questionou.

José olhava Antônia com o rosto indecifrável. A enfim troca de olhares entre os dois foi forte demais para Antônia que desabou a chorar. A noite inteira tinha se passado com os dois dissimulando a boa convivência, sempre fugindo de olhares fixos para não se sentirem culpados, mas naquele momento o pacto invisível que haviam selado poucas horas antes acabava de ser destruído. José levantou da cadeira devagar e Vicente olhava de um para o outro sem conseguir encontrar uma lógica naquela situação.

— Amor, por que...

— Marília da Silva de Oliveira. — Antônia conseguiu com esforço pronunciar o nome completo da mãe.

Os olhos de José arregalaram com sutileza.

— Você a deixou pra trás, ela estava grávida e sozinha, e doente. — a cada palavra eram incontáveis lágrimas que jorravam, Antônia apertava com cada vez mais força o crucifixo em sua mão.

— Como você fala de Marília? Marília... — José Carlos calou-se e deu um passo pra trás. Como numa epifania, agora ele compreendia todas as coisas. — Marília grávida. Marília...

Antônia abaixou o rosto e chorou de forma inaudível, jogou com raiva a corrente na mesa que ficou teatralmente jogada contra o vidro. José Carlos passou a mão no rosto e cambaleou mais pra trás, como se fosse desmaiar. Vicente estava como uma estátua, apenas mexendo os olhos observando um e outro.

— Assim, você. Desse jeito. — José murmurava as palavras de forma embolada apontando para Antônia. — Você. Ah, não diga. Você.

Vicente não sabia o que fazer. Antônia levantou o rosto e começou a se dar conta de tantas coisas.

— Não dizer? Não dizer? — Antônia dizia cada palavra com raiva. — Você me abandonou para viver um sonho de rei no Rio de Janeiro. Para ter... ter outra filha... para ter... ah meu Deus.

Antônia cambaleou pro lado e Vicente finalmente mexeu-se para segurá-la, e quando ele a tocou, Antônia sentiu dor no peito. A voz de Carlinhos gritou em sua mente, todas as vezes que ele a chamou de tia inocentemente e depois a abraçou com os bracinhos mais fofinhos do mundo. Todas as vezes que Antônia sentiu-se estranhamente acalentada pela presença de Carlos Henrique. Tudo lhe doía naquele instante.

Tia, ela parece você!, Carlos Henrique esbravejava ao olhar uma foto de sua mãe. Natasha.

Antônia olhou Vicente com desespero e depois José Carlos que estava mais branco que uma folha de papel.

— O que está acontecendo? — Vicente sussurrou com urgência.

Antônia desvencilhou-se dos braços de Vicente e caminhou pela sala.

— O Potter é meu... meu de verdade, meu de verdade. — Antônia não conseguia dizer “sobrinho”. — Todo esse tempo. Todo esse tempo.

José Carlos aproximou-se com urgência com as mãos erguidas como se quisesse pegar algo.

— Não me toque! — Antônia exasperou-se e Carlinhos começou a chorar no sofá.

— Puta que pariu. — Vicente murmurou e foi até a criança assustada.

Antônia olhou nos olhos de José Carlos e sentiu mais dor.

— Você escolheu a mulher e a filha que queria. — Antônia sussurrou. — Escolheu Fernanda e escolheu Natasha. Minha mãe morreu e eu fui pagar pelos meus pecados ainda criança, completamente sozinha.

José Carlos passava a mão pelo peito como se fosse ter um infarto. Respirou fundo e apoiou um braço na cadeira.

— Marília está morta? Há quanto...

— Não ouse fingir que se importa! — Antônia berrou com insanidade. — A minha mãe morreu desgostosa e abandonada, sabendo que deixava a filha para trás sozinha. Seu imundo!

Antônia batia na cadeira com a força que queria bater na cara de José Carlos. Com Carlinhos no colo, Vicente retornou à sala.

— Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo aqui, mas o meu filho está com medo. — ele reclamou enquanto balançava Carlinhos no colo vagarosamente.

Antônia olhou a criança e chorou mais. Depois voltou a olhar o velho.

— Algum dia sua consciência pesou? Algum dia você pensou que eu estava por aí, em algum lugar? Pensou em mim de qualquer forma? — Antônia parou de chorar por instantes.

José Carlos fechou os olhos e respirou fundo. Sentou-se por que sentia tudo girando muito rápido.

— Pensei em você hoje a tarde. — ele contou olhando pro chão. — Não em você, você. Mas a filha que...

— Cale a boca. — Antônia cuspiu. — Vai se foder.

José Carlos respirou fundo e continuou massageando o peito. Antônia assentiu e pegou sua bolsa onde estava o celular e documentos. Respirou fundo.

— Eu fui uma criança incrível. — ela olhou o pai nos olhos. — Eu era a melhor na escola, eu aprendi a andar de bicicleta sozinha e era goleadora no futebol. Minha mãe ia em todas as apresentações de dia dos pais e ficava me mandando beijo o tempo todo.

Pela primeira vez em muito tempo José Carlos abaixou a cabeça diante de alguém.

— A primeira palavra que eu falei foi feijão por que minha mãe ficava debulhando feijão verde perto de mim toda hora quando eu era pequena. — Antônia soltou um sorriso ao falar da mãe. — Eu comecei andar com menos de um ano. Eu fui uma criança sensacional e sou uma mulher incrível, e a filha que você escolheu está morta.

O fel queimou na boca de Antônia que olhou Vicente em seguida.

— Você não tinha o direito. — ele disse em tom baixo pois Carlinhos já dormia em seu colo.

Antônia deu um sorriso escárnio.

— É mesmo? — ela continuou a desdenhar. — Você tem questões de menino mimado, Vicente. A empresa milionária que você não queria herdar, os quatro anos nos Estados Unidos que você foi obrigado a aceitar, a sua vida que mudou drasticamente por que alguém chegou nela. Como você tem coragem de dizer que eu não tenho direito?

A pergunta era retórica.

Carlinhos gemeu, mas não acordou. Vicente olhava Antônia com angústia, uma lágrima solitária rolou no rosto dele. José Carlos não conseguia achar palavras, ele continuava com a cabeça baixa. Antônia respirou fundo, limpou as lágrimas e caminhou devagar até Vicente.

— Na minha bolsa de mão que ficou no carro tem dois bolos de cartas. — Antônia contou. — Eu achei todas elas na gaveta da Nanda.

Vicente juntou as sobrancelhas.

— Nanda, da pensão? Que cartas? Por que está me dizendo isso?

A mulher riu sem graça e olhou José Carlos mais uma vez.

— Clarice Lispector falava sobre tempos de morangos, pois eu diria que agora eles acabaram para sempre. Boa sorte com as suas mentiras. A minha vida está acabada a partir de agora.

E com a certeza de que nem Nanda nem Vicente jamais a olhariam novamente e que tinha perdido tudo o que amava, Antônia atravessou a porta da bela casa de José Carlos e chamou um táxi.

Notas finais
Muito obrigada por chegar até aqui.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.