Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
21 Capítulo XX: Zé
Notas iniciais
Maria Paula e Nayane voltaram pra casa depois do almoço, pois Maria Paula iria trabalhar e sua filha tinha dever de casa. Amélia e Antônia assistiram novela, bateram um bolo e Amélia ensinou para a sobrinha como fazer um ponto cruz.
— Mas que negócio complicado, tia. — Antônia riu enquanto tentava fazer um "x" no pano com a linha preta.
Amélia riu e tomou o pano de suas mãos.
— Tá vendo? — ela mostrou para o início do ponto e o costurou depressa logo formando um "x". — Simples!
Antônia gargalhou.
— Tenho pra mim que é magia! — a professora disse levantando-se. — Vou passar um café.
Amélia assentiu e continuou a fazer seus pontos, mas seu olhar foi para as gavetas do armário da sala por algum motivo. Levantou-se, desligou a TV e abriu as gavetas devagar, puxou de lá vários álbuns velhos de fotografias velhas. Amélia sorriu.
— Chega aqui, Antônia, pra você ver. — chamou a sobrinha.
Antônia ligou a cafeteira na tomada e voltou à sala, sentou ao lado de sua tia no sofá e olhou os álbuns em seu colo. Não conseguiu evitar lembrar-se das fotos amassadas no fundo de bolsa de viagem. Respirou fundo.
— Deixa eu ver. — Antônia pediu.
Pegou um álbum aleatório e o folheou. Viu diversas fotos de lugares aleatórios da cidade, algumas roças, açudes e muita mata.
— Muito ruim não poder selecionar as fotos que quer revelar, nessa época se revelava qualquer coisa. — Antônia jogou o álbum no sofá e pegou outro.
A primeira foto era Maria Paula bebê. Deu um sorriso sem graça.
— Olha. — Amélia chamou sua atenção e ergueu uma fotografia.
Antônia sentiu vontade de chorar imediatamente. Era sua mãe, bem jovem, num vestido bonito e sandálias engraçadas.
— Minha mãe era tão bonita. — Antônia pegou o álbum da mão de sua tia e olhou de perto a foto de sua mãe.
Amélia assentiu.
— E sofreu o que não merecia, minha filha. — a tia disse com cautela. — Pra começar, seu pai... ah. Vou nem dizer. Mas eu avisei, Deus é testemunha.
Antônia fechou os dois álbuns que tinha em mãos e ponderou durante poucos segundos.
— Eu não sei nada sobre o meu pai. — ela desabafou. — Zé. Ele se chama assim, né?
Amélia balançou a cabeça devagar em afirmação.
— Eu tenho uma foto, eu acho que é ele, de costas, com chapéu de palha, com um pé numa pedra e o lugar parecia uma roça. — Antônia descreveu a fotografia. — É tudo o que eu sei.
A tia incorporou um olhar de dúvida e depois o desviou.
— Ele sempre andava com um chapéu de palha mesmo. Um cretino, sempre falei pra sua mãe. — Amélia afirmou. — Mas depois que ele sumiu daqui do Ceará eu não soube mais nada dele também. Na época, minha filha, também era difícil né, não tinha um celular, um nada, dava pra saber de nada.
Antônia assentiu devagar e sentiu-se curiosa.
— Mas tia, ele sumiu de repente? Do dia pra noite? — ela perguntou.
Amélia deu de ombros e cruzou as pernas virando-se de frente pra sobrinha, como se preparasse para uma fofoca.
— Ó, na época, diziam as más línguas que ele ganhou um dinheiro bom no jogo do bicho e eu acho que é verdade. — ela começou a contar. — E também né, era ilegal, o jogo do bicho.
Antônia enrijeceu as sobrancelhas.
— É mesmo, tia? Por que a senhora acha que é verdade?
Amélia quis dar risada, mas conteve-se.
— Ele aparecia com umas coisas novas, aí. Foi bem perto da tua mãe engravidar de tu. — Amélia contou. — Eu lembro que ele apareceu com uma corrente de ouro, menina, com uma cruz pendurada e escrito nela "58 Zé".
Antônia continuava com as sobrancelhas juntas.
— Cinquenta e oito é o ano que ele nasceu? — ela perguntou.
Amélia deu de ombros.
— Minha filha, eu não sei, mas era o que tinha na corrente. Ele andava com ela pra todo canto naquele tempo. Mas aí pouco depois ele foi embora, dizia que ia fazer fortuna na cidade grande e sumiu do Juazeiro. — Amélia contou. — Diziam que ele saiu da cidade pedindo carona em beira de estrada.
Antônia assentiu devagar e encostou-se no sofá, era muito mais do que sempre soube sobre seu pai. Ficaram em silêncios por alguns segundos.
— Saber que eu nunca vou encontrá-lo é bom e terrível ao mesmo tempo. — Antônia admitiu como se tirasse um peso das costas.
Amélia respirou fundo e pegou na mão da sobrinha.
— Nunca é uma palavra muito forte.
Antônia não disse mais nada, apenas pegou os álbuns e os guardou. Depois, tia e sobrinha, seguiram juntas para a cozinha e tomaram seu café da tarde.
***
Eduarda estava virando a esquina da sua rua quando notou uma figura incomum parada no seu portão. Quanto mais se aproximava piscava os olhos com mais frequência e inconscientemente apertava com mais força as alças da sua sacola ecológica cheia de verduras frescas. Botou a mão no bolso e puxou a chave, quando faltava seis passos para chegar em seu portão o homem que estava parado lá finalmente virou-se e Eduarda olhou-o nos olhos. Ela parou há menos de um metro de distância e percebeu que estava prendendo a respiração desde que virou a esquina.
— Pai. — Eduarda disse finalmente relaxando os ombros.
Sérgio sorriu e aproximou-se.
— Dudinha.
Ele a abraçou e beijou sua testa.
— Pai. — ela repetiu.
O homem se afastou e pegou a bolsa que ela trazia deixando Eduarda segurando apenas sua chave.
— Oi, filha. Podemos entrar?
Eduarda assentiu e respirou devagar.
— Sim, claro. Vamos.
Abriu a porta de casa e entrou primeiro, seu pai a seguiu e juntos caminharam pelo pequeno quintal de terra cheio de plantas baixas.
— Você que tá plantando? — ele perguntou.
Eduarda soltou um sorriso relaxado.
— Sim. E tá dando certo. — falou como se fosse uma vitória importante.
Ele balançou a cabeça devagar e Eduarda cogitou estar sonhando. A porta de entrada foi aberta e atravessaram juntos, seguiram até a cozinha e Sérgio deixou a bolsa em cima da mesa, depois puxou uma cadeira e sentou-se. Eduarda balançou a garrafa de café.
— Fiz antes de sair de casa. O senhor quer?
Sérgio assentiu. Eduarda pegou uma xícara no escorredor de louça e serviu seu pai. Pegou a sacola de verduras e colocou em cima do armário, sentou-se à mesa em frente ao seu pai. Sérgio bebericou o café com gosto. Eduarda perguntava-se o que devia dizer.
— Como você está? — o pai perguntou.
Eduarda apoiou os braços na mesa e olhou o pai.
— Estou bem. — foi sucinta e mentiu um pouco, para ela era insustentável conviver todos os dias longe dos pais, da irmã e do sobrinho.
— E Helena, como está?
Eduarda estava surpresa do seu pai lembrar-se do nome de sua namorada.
— Está ótima.
Sérgio tomou o resto de café num gole. Houve um breve silêncio.
— A Gabi tá trabalhando no restaurante...
— Eu sei. — o pai disse com um sorriso. — Fiquei tão feliz, minha filha.
Eduarda sorriu.
— Estou há uma semana sem beber nem jogar. — Sérgio contou orgulhoso. — Fiz uma promessa lá na igreja.
— Fico muito feliz por você, meu pai.
Sérgio continuou sorrindo.
— Estava pensando em você e na Gabi quando fiz a promessa. — ele contou. — Pedi à Deus que ele permitisse eu ver suas alegrias. Casamentos, filhos, bons empregos. Pedi para que ele me deixasse ver tudo de bom que ia acontecer na vida de vocês.
Eduarda sentia seus olhos doerem com as lágrimas que se insinuavam. Mas segurou.
— Aí eu me toquei que deveria vir te ver o mais rápido possível.
Ela balançou a cabeça em dúvida. Sérgio riu.
— Estava com medo de você casar e não me convidar.
Os dois riram juntos depois da fala de Sérgio e, naquele momento, Eduarda percebeu que o pai carregava uma energia bonita.
— Eu nunca faria isso, pai. O senhor ainda vai me entregar de vestido branco e grinalda. Vai me entregar pra minha mulher.
Sérgio assentiu e estirou a mão pela mesa, Eduarda a segurou.
— Do jeito que você quiser, eu farei.
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