Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo

22 Capítulo XXI: O Retrato do Meu Amor


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

"Não lembrar é uma dádiva. Sem o esquecimento é bem possível que jamais sairíamos do plano de provas e expiações. Talvez poderíamos sujar novamente nossa mão com o mesmo sangue que julgamos inimigo, afinal seria extremamente difícil perdoar e amar sem esquecermos do passado."

— O Evangelho Segundo o Espiritismo

***

Em Barbalha o dia amanheceu morno, menos quente que o usual. Antônia estava guardando suas coisas na sua mala de rodinhas pequena e cor de rosa quando ouviu batidas na porta.

— O Julio já tá aí na porta pra te levar. — Amélia avisou.

Antônia assentiu e colocou a mala no chão.

— Estou pronta. — ela disse puxando sua bolsa e colocando-a no ombro.

Amélia adentrou no quarto e aproximou-se da sobrinha, a abraçou com força e a sentiu retribuiu.

— Muito obrigada por ter vindo, minha filha.

Antônia deixou as lágrimas caírem no meio do abraço apertado que carregava muito mais do que só saudade e dor.

— Eu que agradeço, esses três dias me fizeram muito bem.

Elas se afastaram e Amélia afagou o braço da sobrinha.

— Queria poder amenizar o nosso passado. — Amélia a olhava no fundo dos olhos.

Antônia limpou as lágrimas e esboçou um sorriso de lábios verdadeiros.

— Tia, é passado, já foi. O que vale é o agora e agora está tudo bem. — sua voz era calma como um domingo de manhã.

A buzina do carro de Julio soou.

— Vá com Deus, minha filha.

— Que a senhora fique com Ele.

Era mais ou menos meio dia quando Antônia seguiu para o aeroporto de Juazeiro do Norte.

***

José Carlos tinha muitos motivos para ser apaixonado por sua casa. Morava ali há muitos anos, num lugar tranquilo da Zona Oeste do Rio de Janeiro — Jacarepaguá para ser mais específico -, bastante arborizado e com pessoas educadas, também possuía fácil acesso até o Maracanã, o rubro-negro gostava de visitar os estádios aos domingos e aproveitar sua gratuidade garantida por ser velho. José Carlos puxou o último cigarro do maço e sentou-se em sua cadeira de balanço na varanda, observou seu quintal espaçoso com dois pés de jambo e muito mato para aparar. Olhou para o seu portão e mais além olhou para a rua, observou os carros passarem de um lado pro outro. Acendeu o cigarro e dei o primeiro trago, encostou as costas na cadeira e balançou um pouco.

José Carlos tinha acabado de chegar do mercado com as compras para o jantar daquela noite, havia convidado Vicente e Carlinhos para comer uma galinhada com baião — seu prato preferido. No fundo, José Carlos sabia que a verdade estouraria e que talvez nunca mais pudesse conviver com Vicente de forma amável e pacífica como sempre foi, então, talvez inconscientemente, José Carlos estava tentando aproveitar o máximo possível de tempo que tinha em paz.

José Carlos não costumava pensar em seu passado. Remexeu-se desconfortavelmente na cadeira de balanço, bateu as bitucas de cigarro no chão e enfim, pensou.

***

Abraços longos e rostos molhados marcaram a despedida de Antônia e sua prima Maria Paula, o mesmo aconteceu quando se despediu de sua mais nova prima de segundo grau, Nayane.

— Me visitem no Rio. Esperarei por vocês. — Antônia disse tentando não chorar em demasiado.

— Eu vou. — Nayane riu.

Maria Paula negou e puxou a prima para mais um abraço.

— Obrigada por ter vindo pela minha mãe.

— Obrigada por ter me dado um motivo para vir.

Acenou brevemente para Julio que assentiu de volta. Puxou a mala de rodinha e ajeitou a bolsa no ombro, deu um último beijo nos rostos das primas e virou as costas. Adentrou na sala de embarque e respirou fundo, iria finalmente voltar para casa e voltar para todos os seus dramas. Antônia despachou a mala e sentou-se para esperar o chamado do voo, desbloqueou a tela do celular e notou que Nanda não havia tentado mais nenhum contato. Havia duas mensagens de Vicente.

Oi, amor. Saudades.

Vou levar você pra jantar hoje e sei que você vai gostar do cardápio haha.

Antônia tinha um sorriso de lábios ao imaginar aonde Vicente a levaria. Respirou fundo mais uma vez e guardou o celular, apertou a alça da bolsa onde carregava muitos pertences íntimos de Nanda e novamente o sentimento de culpa se fez presente.

***

O voo atrasou na conexão fazendo Antônia chegar no Rio de Janeiro quase às dez da noite. Exausta, arrastava sua mala leve pelo aeroporto enquanto procurava em todos os cantos Vicente e Carlinhos, até que os viu perto de uma saída. Carlinhos a viu primeiro e alarmou-se, correu até ela.

— Tia!

Antônia abaixou-se já de braços abertos e recebeu o abraço marcado pelos braços curtinhos ao redor do seu pescoço. Bem apertado e cheio de carinho, os abraços daquela criança faziam Antônia sempre se sentir melhor.

— Oi, Potter.

Afastaram-se segundos depois.

— Ele sempre na minha frente. — Vicente balançou a cabeça em negação.

Antônia riu e pôs as mãos no rosto de Vicente puxando-o para um leve beijo nos lábios. Vicente sorriu.

— Você tá exausta demais, eu aposto. — ele disse com preocupação e começou a puxar a mala de rodinhas com uma mão e Carlinhos com a outra. — Só não sei se podemos adiar o jantar.

Antônia piscou com um pouco de força tentando despertar-se enquanto caminhavam para fora do aeroporto.

— Tô cansadinha, mas nada demais. — amenizou. — Aonde vamos?

— Vovô! — Carlinhos saltitou.

Antônia esforçou-se para não travar imediatamente.

— Seu José fez uma jantinha com comida do nordeste e me chamou, aí eu decidi levar você por que além de ser comida da sua terra, eu preciso te apresentar pra ele. — Vicente explicou. — Eu não sei o que ele pensa, mas é como se fosse um pai pra mim.

Aquelas palavras fizeram Antônia sentir desespero, sentiu que precisava contar tudo naquele momento, mais uma vez deu tudo de si para não ficar parada onde estava e não sair nunca mais. Carlinhos começou a tagarelar sobre aviões preenchendo o silêncio entre o casal, mas Antônia não disse mais nada até o momento que chegaram no carro. Apertava os dedos incessantemente enquanto Vicente acomodava a mala no banco de trás e Carlinhos se acomodava ao lado dela.

— Contou a ele que vai me levar?

Vicente enrijeceu as sobrancelhas e pendeu a cabeça pro lado sutilmente como se não entendesse a pergunta.

— Sim, comentei, ué. Tá tudo bem?

Antônia não parava de apertar as próprias mãos e não conseguia olhar nos olhos de Vicente.

— Vicente...

Não estava pronta, mas ia contar naquele instante, sem nem mesmo saber quais palavras usaria. Mas ao abrir a boca, foi interrompida.

— Tia, olha, olha! — Carlinhos disparou para fora do carro erguendo um papel em sua mãozinha.

— Ah, isso. — Vicente olhou o filho e sorriu.

Antônia logo percebeu que não era um papel, mas uma foto revelada.

— Tia, olha aqui! — a criança insistiu dando pulinhos.

Pegou a foto e o coração pulou uma batida. Uma linda mulher de cabelos longos e sorriso bonito estava sentada em um sofá cheio de almofadas, usando um vestido branco e sem sapatos. Ao lado do sofá, sendo parcialmente cortada pelo enquadramento da câmera, havia uma árvore de natal com uma estrela torta. Antônia já conhecia aquela fotografia, tinha a visto na gaveta infame de Nanda.

— É minha mamãe! Ela foi passear, não sei quando ela volta. — Carlinhos contou.

Os olhos de Antônia se encheram d'água e a fez perceber que estava chorando muito facilmente nas últimas semanas. Ela olhou Vicente.

— Influência sua, isso aí. Dei a foto pra ele logo depois daquela nossa conversa.

Antônia piscou com rapidez para as lágrimas não descerem e depois abaixou-se para ficar na altura de Carlinhos.

— Potter, sua mamãe é muito bonita, igual você. — ela devolveu a foto.

Carlinhos sorriu e abraçou a foto com força.

— Papai disse que talvez ela não volte do passeio, por que ela tá muito ocupada, mas ela pensa em mim. — a criança falou com tranquilidade.

Antônia sorriu largamente e fez carinho no cabelo de Carlos Henrique que era tão parecido com o da mãe.

— Sim, pensa. Todos os dias.

Vicente os observava com ternura. Mais uma vez, Carlinhos abraçou Antônia com força. No meio do estacionamento do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, o espírito de Natasha fazia uma visita.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui ♥