Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
19 Capítulo XVIII: Como Pode Ser Difícil Voltar Pra Casa
Notas iniciais
Já não dá mais pra perder você toda vez que eu erro.
— Zimbra, Toda Vez Que Eu Erro
***
Antônia chorou o voo inteiro. Quando o avião pousou, seu rosto estava abatido e sua cabeça doía. Após ler as cartas, ela chegou à conclusão de que tudo tinha sido uma má ideia, porém, uma má ideia necessária — Antônia convenceu-se de que estava fazendo aquilo por Vicente e Carlinhos. Enfiou as cartas o mais fundo possível na bolsa, pegou sua bagagem de mão e desceu do avião. Enquanto caminhava pelo aeroporto de Juazeiro – que era bastante pequeno — Antônia limpava sua mente, seu objetivo era fingir, pelo menos durante aquela viagem, que não sabia de nada.
Quando saiu do desembarque, ligou o celular e limpou as notificações de Nanda – a última ligação perdida tinha sido realizada há duas horas. Antônia enfiou o celular no bolso e continuou caminhando em direção ao estacionamento do aeroporto, assim que colocou os pés do lado de fora respirou fundo o ar quente do Ceará. Sentiu-se em casa.
— Prima! — surgiu uma mulher de braços abertos na frente de Antônia.
Maria Paula estava ainda mais bonita. Os cabelos compridos e ralos, os olhos castanhos cheios de luz e o sorriso bonito.
— Oi, Maria. — Antônia sorriu e a abraçou com força.
— Como foi a viagem? — Maria Paula perguntou depois que se afastaram, pegando a bagagem de mão de Antônia para ajudá-la.
Começaram a caminhar lado a lado pelo estacionamento, Antônia apenas seguia a prima enquanto puxava sua mala.
— Foi tranquila. — ela mentiu e disfarçou um sorriso.
Maria Paula sorriu de volta.
— Olha, minha filha e meu marido. — ela apontou para as duas pessoas encostadas num carro preto há alguns passos de distância.
Antônia sorriu verdadeiramente pela primeira vez desde que aquele dia começou.
— Prima... que família bonita. — ela disse com sinceridade.
O marido de Maria Paula acenou tímido e a filha também.
— A prima Antônia aí, Nayane. — Maria disse para a filha que segurava um embrulho pequeno na mão.
Fazia dias que Nayane estava animada para conhecer a prima distante.
— Ela tava doida pra conhecer você. — o homem disse pegando a mala de Antônia e colocando no carro. — Julio, prazer.
— Oi, Julio. — Antônia apertou a mão do marido da prima. — Oi, Nay.
Sorriu para a prima de segundo grau que sorriu de volta. Puxou-a para um abraço.
— Comprei pra senhora, ó. Lá na lojinha perto de casa. — Nayane entregou o pequeno embrulho.
Antônia abriu um sorriso e abriu o presente depressa. Era um par de brincos de estrela, prateado.
— Que coisa mais linda. — Antônia olhou para Nayane e depois para Maria Paula. — Obrigada gente, eu adorei.
— De nada. — Nayane sorriu ainda tímida.
— Vamos, vai ter engarrafamento ainda. — Julio alertou e todos ajeitaram-se no carro.
A viagem breve até a casa de Amélia foi repleta de histórias, pois enfim Antônia queria saber tudo sobre a vida nova de sua prima Maria Paula – o casamento, a filha, a profissão. Por um momento Antônia sentiu que não tinha feito muito na vida além de se formar na faculdade e trabalhar em bons empregos.
— Foi uma luta pra escolher o nome dessa menina. — Maria Paula apontou para a filha que deu risada. — Já faz treze anos que a vó dela só chama ela de Nane.
Julio riu e Nayane também.
— Minha vó diz que meu nome é nome de gente metida. — a garota riu e Antônia percebeu que ela usava aparelho com borrachinhas coloridas.
— Qual sua matéria preferida na escola? — Antônia perguntou animada.
Julio riu.
— Essa aí gosta é de faltar aula, Antônia. Todo dia é uma dor de cabeça, uma cólica...
Maria Paula deu gargalhada.
— Pai! — Nayane reclamou com a voz aguda. — Eu gosto de história e de matemática.
Antônia sorriu.
— Que ótimo, mas geralmente essas duas não andam juntas. — ela disse. — Sou professora de história, sabia?
Nayane sorriu.
— Que legal. Eu quero ser dentista. — a primai mais nova disse. — Depois quero ir morar no Rio de Janeiro.
Maria Paula negou devagar.
— Arrasou. — Antônia deu força. — Você pode passar as férias comigo, menina.
Os olhos de Nayane se iluminaram.
— Não dá corda pra essa menina, Antônia. — Maria Paula advertiu rindo.
— Se me chamar eu vou mesmo. — Nayane confirmou.
Antônia observou Julio através do retrovisor e o viu segurando o riso.
— Está convidada, prima. — a professora levantou o punho e deu um soquinho entre mãos com a prima mais nova.
***
Fernanda passou o dia inteiro trancada no quarto, ninguém foi procurá-la, afinal a única pessoa que sempre fazia isso estava há muitos quilômetros de distância — e se chamava Antônia. Quando já se passava das sete da noite e a hora do jantar se aproximava, a dona da pensão tomou um banho rápido e desceu as escadas em direção à cozinha. Estava aglomerada e um cheiro de feijão recém temperado tomava conta do lugar enquanto Solange tomava conta das panelas.
— Oi, Nandinha. — Rafael deu um beijo no rosto dela que forçou um sorriso.
— Boa noite, queridos. — Nanda disse com a voz cansada, arrastando uma cadeira e sentando-se.
— Você conseguiu falar com a Antônia? — Tatiane colocava os pratos na mesa. — Mais cedo antes de ir pro aeroporto ela esteve aqui procurando por você.
— Nossa, ela viajou? — Luciana questionou também sentando-se à mesa. — Assim, do nada?
Nanda assentiu devagar.
— Ela me ligou quando pousou. — a dona da pensão mentiu. — Ela está bem, foi apenas resolver uma questão de família. Vamos jantar.
E assim Fernanda puxou um prato pra si e todos fizeram o mesmo, começaram a se servir. Poucos minutos depois Dirceu chegou fazendo todos os olhares pairarem sobre o suposto casal da pensão e isso distraiu a mente de Fernanda por algumas horas – que infelizmente eram finitas.
***
Quando enfim chegou ao município de Barbalha, já era quase onze horas da noite.
— Amanhã de manhã eu pego vocês. — disse Julio para Maria Paula enquanto desciam do carro.
Ele ajudou a descer com as malas e deu um beijo na filha e na esposa, abraçou Antônia por fim.
— Boa noite. — ele disse ao voltar pro carro.
— Tchau, pai. — Nayane acenou.
— Boa noite, amor. — Maria acenou também.
O carro partiu deixando as três paradas em frente ao portão de ferro da casa de Amélia. Ao olhar para a casa como um todo, Antônia sentiu vontade de sair correndo o mais rápido possível. Observou a calçada, a rua. Pouca coisa tinha mudado nos últimos treze anos. Maria Paula afagou o braço de Antônia.
— Eu sabia que ia ser difícil pra você. — ela disse com a voz baixa.
Nayane as observava em silêncio. Antônia suspirou e puxou a mala.
— Tá tudo certo. — ela disse quase sussurrando.
Maria Paula abriu o portão de ferro que rangeu. Primeiro entrou Nayane e depois as duas primas. Seguiram pelo quintal que hoje em dia tinha duas cadeiras de balanço e uma rede, Nayane abriu a porta de vidro da sala que também era barulhenta.
— Boa noite!
A voz de Amélia logo soou. Ela estava sentada numa poltrona na sala com um gato gordo no colo que saltou de imediato quando a porta abriu. Amélia estava diferente, mais velha, mais magra e com os olhos mais fundos, porém, suas feições eram mais felizes. Abriu um sorriso largo quando viu o rosto da sobrinha Antônia.
— Oi, tia! — Antônia sorriu de verdade e com os braços abertos foi ao encontro da mulher.
Abraçaram-se e Antônia pôde sentir a fragilidade do corpo de sua tia. Beijou seu rosto com carinho e a olhou.
— Soube que a senhora queria me ver, então eu vim! — a professora continuou a sorrir.
Amélia pegou na mão da sobrinha e deu um beijo, puxou-a devagar para o interior da casa chamando a neta e a filha com a outra mão.
— Fiz tapioca de tardinha, ainda tem goma. Ainda gosta de tapioca, Tônia? — Amélia perguntou.
— Com certeza e eu tô cheia de fome. — Antônia disse sentindo a barriga roncar.
Maria Paula levou as malas de Antônia até o quarto e depois seguiu até a cozinha com Nayane. Todas sentaram-se à mesa enquanto Amélia assava as tapiocas.
— Vó, vou querer também. — Nayane disse ajeitando-se na cadeira.
— Maria vai querer? — Amélia perguntou despejando a goma na frigideira.
A filha negou.
— Vou esquentar o arroz pra mim daqui há pouco. — disse encostando-se na cadeira da cozinha.
Antônia observou aquela cena silenciosa. Estava na casa de sua tia sendo tratada com carinho, aquele momento lhe era extraordinário.
— Diz Antônia, tu gostou do Rio? — Amélia perguntou e virou a primeira tapioca no prato.
Nayane a pegou e começou a passar manteiga. Antônia sorriu.
— Tia, eu gostei demais, parece que nasci lá. — a professora sorriu.
Amélia colocou a segunda tapioca num prato e entregou para a sobrinha que a dobrou devagar.
— Quando tu foi embora eu fiquei triste demais, fiquei culpada. — Amélia falava com tranquilidade enquanto Maria Paula parecia sentir um resquício de vergonha. — Olha, me desculpe, minha filha, eu...
— Tia, deixa. — Antônia cortou Amélia com calma. — Vamos deixar pra lá, tudo bem? Já passou.
Sutilmente, Maria Paula mandou Nayane deixar a mesa e assim ela o fez.
— Sim, passou. — Amélia concordou e começou a fritar um ovo. — Maria deve ter falado, estou doente igual minha irmã. Vou morrer...
— Mãe. — Maria Paula estava quase chorosa.
Antônia observou a prima com as sobrancelhas murchas.
— Oxe, Maria Paula. — Amélia disse controversa. — Eu vou, minha filha, já falei pra você e já falei pra Nane, vocês têm que se conformar igual eu me conformei.
Antônia respirou fundo.
— Mas tia, a senhora pode tentar um doutor lá no Rio, pode ficar comigo na minha casa. — sugeriu a primeira coisa que veio à mente.
Amélia colocou o ovo na tapioca e a fechou, sentou-se em frente à sobrinha.
— Meu médico lá no Juazeiro é muito bom, eu já tô toda cuidada. — ela disse com firmeza. — Mas a gente sabe da hora da gente.
Mordeu a tapioca com ovo e ficou quieta. Um silêncio desconfortável passou pela cozinha.
— Olha, Tônia, eu queria você aqui por causa disso. — Amélia deu continuidade. — Quando você fugiu eu fiquei muito preocupada. Me desculpe, viu? Sua mãe vai me matar de novo quando eu fizer a passagem.
De alguma forma aquilo fez Antônia rir e contagiou Maria Paula a fazer o mesmo.
— Tia, já passou e está tudo bem. — Antônia disse com tranquilidade.
Já era mais de meia noite quando foram dormir. Antônia no antigo quarto da prima, Maria Paula com a mãe no outro quarto e Nayane no sofá — onde viu mais TV do que dormiu de fato. Antes de pegar no sono, Antônia zanzou pela casa em silêncio. Tocou nos móveis de madeira e nas paredes amarelas. Observou o chão vermelho de cimento queimado que compunha o quintal. Olhou a rede que parecia a mesma de anos atrás. Notou também as diferenças, agora a casa de tia Amélia tinha internet e uma TV de plasma, uma geladeira degelo e um fogão inox de seis boca. Era uma mistura de passado e presente de uma forma agridoce que invadia o coração de Antônia. Pela primeira vez naquele lugar, sentia-se em casa.
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