Notas iniciais
Sejam bem vindos.

Na manhã seguinte da viagem de Antônia, que incisivamente tinha mexido com a vida de todos ao seu redor, fez um sol forte. Rio de Janeiro aos trinta e oito graus, Ceará aos quarenta e dois. Nanda levantou cedo e a primeira coisa que fez depois de lavar o rosto e escovar os dentes foi – com o cabo de uma faca – quebrar a fechadura da gaveta que guardava as cartas e as fotos que escondia. Após isso, desceu as escadas e com um sorriso levemente forçado encheu todos de bom dia e tomou café. Às onze da manhã um velho conhecido entrou pela porta da frente.

— Bom dia. — ele foi seco.

Um coro de bom dia soou pela boca de todos os hóspedes que estavam na sala da pensão, e comunicando-se apenas pelo olhar, Nanda e o velho e bom homem misterioso seguiram juntos pelo final do corredor e trancaram-se no escritório de Fernanda. O escritório funcionava também como uma biblioteca, longas prateleiras cheias de livros velhos e gastos cobriam os quatro cantos daquela sala e ao fundo dela havia uma mesa de madeira sempre bem arrumada com duas cadeiras ao redor.

— Vicente...

— Ele não sabe. — José Carlos foi direto.

Tirou o chapéu escuro que usava e o repousou na mesa. Começou a observar de perto os livros nas prateleiras. Fernanda sentou-se na cadeira que ficava atrás da mesa.

— Antônia não fala comigo desde ontem. — Nanda contou. — Acho que ela está em choque demais ou com bastante raiva, talvez os dois.

José girou os tornozelos vagarosamente e encarou Nanda.

— Por que, exatamente? Nada disso tem...

— Ah, por favor, José. — Nanda soltou uma risada sarcástica quase inaudível. — Estão apaixonados. O que você não faria por alguém que você ama?

José desviou o olhar claramente irritado.

— É uma mentira que foi longe demais. — ele disse aproximando-se da cadeira vaga e sentando-se. — O motivo que fez a gente esconder tudo já não existe há muito tempo.

Nanda respirou fundo.

— Tem razão. — ela assentiu. — Mas quando eu decidi que seria assim eu já sabia que nunca poderia voltar atrás.

José esmoreceu na cadeira.

— Não temos mais escolha. Já é tempo de parar de viver por fotos e cartas, meu amor.

O coração de Fernanda acelerou e sentiu-se uma jovem mulher novamente.

— Eu sei. — sua voz pesou como se carregasse centenas de pedras.

***

A manhã acordou agitada na casa de Amélia. Maria Paula e Antônia levantaram cedo, fizeram café da manhã e deram início aos afazerem normais da casa. Nayane foi a última a acordar e lavou a louça. Por volta das dez da manhã, Maria começou a descongelar uma galinha inteira que estava no congelador há quase uma semana, Antônia sentia tanta saudade da comida de sua terra natal que seu coração até bateu mais forte. Às onze da manhã a cozinha já estava cheia com Amélia e Nayane ajudando a fazer o almoço. Antônia nunca tinha se sentido tão em família desde que sua mãe morreu.

— Nane, desliga o fogo do arroz. — Amélia pediu e sentou-se à mesa respirando fundo. — Cansei.

Maria Paula encheu um copo d'água e deu à mãe. O cheiro bom da galinha cozida se dissipava pela casa. O celular de Antônia tocou no quarto onde dormiu na noite anterior, ela secou a mão no pano de prato, abaixou o fogo da galinha que terminava de cozinhar e foi atender a ligação.

— Oi, tia! — a voz elétrica de Carlinhos invadiu os ouvidos de Antônia e imediatamente lhe arrancou um sorriso.

— Oi, Potter! — quase cantarolou de tanta animação ao ouvir a voz da criança.

— Saudade! — Carlinhos disse.

— Muita saudade também! — Antônia falou alto.

Ela ouviu sua risada infantil do outro lado da linha e automaticamente pôs a mão no coração.

— Meu amor, oi. — a voz de Vicente surgiu na linha e foi o suficiente pra fazê-la lembrar de tudo o que desejava não saber. Seu sorriso sumiu.

— Oi, meu bem. Como vocês estão? — Antônia sentou-se na cama.

— Estamos bem. Com saudade, é claro, mas bem. E como tá aí? — Vicente perguntou.

— Tudo ótimo. Estou cheia de saudade também. — ela disse respirando fundo. — Amanhã à noite já estou de volta.

— Que horas seu voo chega?

— Está previsto para às oito da noite.

— Então vejo você amanhã às oito, meu amor. — Vicente garantiu.

Antônia sorriu, amava a voz de Vicente chamando-a de "meu amor".

***

A primeira semana de Gabriela no novo trabalho estava terminando. O expediente de domingo já estava no fim e ela limpava as duas últimas mesas ocupadas por clientes, quando o fez retornou à cozinha para terminar a louça.

— Oie. — Helena desceu as escadas de ferro no fundo da cozinha e chamou a atenção da cunhada.

Helena trabalhava com a parte burocrática e administrativa do restaurante.

— Boa tarde. — Gabriela limitou-se a dizer enquanto lavava os pratos.

— Está gostando do emprego? — Helena aproximou-se com um sorriso largo.

Gabriela a olhou e sentiu vontade de sorrir também, mas conteve-se. Ela é o pecado da sua irmã, ela repetia para si mesma.

— Preciso de dinheiro e não de ser agradada. — Gabriela foi sucinta.

Helena sentou-se numa das cadeiras da cozinha e ficou em silêncio observando sua cunhada de costas, lavando a louça. Helena detestava ficar olhando as pessoas de costas, passou uma vida inteira precisando se esforçar para ler os lábios de outrem a fim de compreender do que falavam. Mas naquele início de tarde de domingo sua preocupação era outra.

Outros funcionários do restaurante passaram retirando o lixo ou guardando ingredientes espalhados. Gabriela terminou a louça e virou-se para Helena.

— Por que você não gosta de mim? — Helena questionou passivamente.

Gabriela secou as mãos no pano de prato.

— Minha irmã...

— Ela me ama, Gabriela. — Helena disse quase com pesar. — Por que você não consegue ficar feliz por que ela está feliz?

Gabriela fechou os olhos por um momento e respirou fundo, sua cunhada levantou-se da cadeira com rapidez.

— Eu entendo que isso te intrigue, por causa da sua mãe, por causa da igreja, por causa de tudo o que você acredita. — Helena começou a sentir sua voz quebrar levemente. — Mas a Duda ama você e sente sua falta, ela sofre todos os dias por que a sua mãe não fala com ela há mais de um ano. Gabi, ela sofre por que você está distante, por causa do seu filho, do seu pai...

— Pare. Por favor. — Gabriela interrompeu o jorro de palavras emboladas pelo nervosismo de Helena.

Ambas se sentiam à beira de um choro forte.

— Eu rezo todos os dias pra minha irmã sair dessa vida e finalmente voltar pra casa. — Gabriela admitiu sentindo as lágrimas machucarem os olhos. — Eu rezo todos os dias pra você sair da vida dela.

Aquele momento foi a primeira vez na vida de Helena na qual ela desejou ter podido simplesmente não entender o que foi dito. Ela sentou-se, mas de uma forma dramática, como se uma pedra de vinte mil toneladas a puxasse pra baixo, como se a gravidade pudesse engoli-la, como se tivesse levado um soco na barriga. Helena passou a mão pelo próprio pescoço e puxou pra fora seu escapulário que usava todos os dias há mais de dez anos, leu os dizeres de uma das medalhinhas dele.

— Que o Senhor te abençoe e te guarde. — Helena leu com a voz carregada de choro, mas ainda assim o segurando.

Gabriela a observava em silêncio.

— Eu amava frequentar a igreja, me deixava feliz quando criança. — Helena contou com a voz embargada. — Durante a minha adolescência, quando eu me apaixonei perdidamente pela minha colega de turma, Deus segurava minha mão e me ajudava, era o meu maior refúgio.

Helena levantou-se da cadeira.

— Tiraram isso de mim quando me excluíram por ser quem sou. — ela disse olhando Gabriela no fundo dos seus olhos idênticos aos de Eduarda. — Eu rezo todos os dias pra você se libertar.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.