Notas iniciais
Sejam bem vindos.

Antônia não resistiu. Seu corpo esmoreceu de pouquinho em pouquinho até estar completamente entregue e o beijo suave deixar de ser apenas um beijo suave. O toque no corpo e o toque dos corpos fizeram com que a melodia lenta já não acompanhasse seus movimentos. Soltaram-se durante segundos apenas para se olharem nos olhos e sorrirem. Muitos sentimentos regiam aquele momento: dúvida, incerteza, esperança, tesão, libertação e saudade. Embora Antônia e Vicente nunca tivessem estado juntos antes, aquele momento pioneiro parecia ser um retorno, a cada toque, a cada beijo no pescoço, era como uma saudade sendo saudosamente assassinada.

Deitados no sofá pequeno o bastante para estarem quase caindo no tapete, Vicente deslizou, com sutileza, a mão pela perna de Antônia, por debaixo de seu vestido preto, chegando ao seu quadril. Como se tivesse dezesseis anos, seus dedos tremeram ao tocar as roupas íntimas de uma mulher. Antônia deixou. A noite terminou no andar de cima e o CD antigo tocou algumas vezes até o dia amanhecer.

***

O quarto de Vicente era, como o resto da casa, bastante grande. Uma luz agradável atravessava a cortina de manhã. Antônia acordou às nove e estava confortavelmente abraçada com o braço de Vicente, encostando o rosto em seu ombro. Quando abriu os olhos, recordou-se da noite anterior. Desvencilhou-se com cautela de Vicente e se sentou na cama, deslizando suas pernas pelo lençol caro. Observou o quarto viu seu vestido preto no chão. Estava apenas de calcinha, então puxou o lençol e cobriu-se.

Antônia olhou Vicente que dormia de bruços virado para o outro lado e tocou seu cabelo cheio e castanho escuro. Os fios macios estavam completamente bagunçados sem um pingo do gel caro que costumeiramente usava. Antônia abraçou as próprias pernas e refletiu sobre o que tinha a levado até ali, até a cama de um homem que conheceu há pouco mais de três semanas e para sua surpresa não sentiu nada de ruim, apenas coisas boas.

— Ei. — a voz cheia de sono de Vicente despertou.

Antônia o olhou. O sol que atravessava a janela refletia no rosto de Antônia e na posição que Vicente estava deitado conseguia enxergava perfeitamente a luz em sua pele. Aquela imagem o fazia querer apreciá-la durante horas.

— Olá. — ela disse. — Está com a cara amassada.

Vicente riu, sentando-se também.

— E você está linda. — ele disse.

Ficaram sorrindo um pro outro sabendo exatamente o aquilo significava. O celular de Vicente tocou e ele atendeu no terceiro toque.

— Oi, seu José. — Vicente levantou-se indo em direção ao banheiro e Antônia desviou o olhar para não vê-lo em suas roupas íntimas. Depois aquilo lhe pareceu uma idiotice.

— Bom dia, Vicente. Já estou chegando. — José Carlos avisou.

Vicente arregalou os olhos um pouco e pigarreou.

— Ahn, claro. Tudo bem. — ele disse um pouco rápido. — Até daqui a pouco.

José Carlos notou o tom na voz do pai do seu neto, mas ignorou.

— Até. — e desligou o celular.

Vicente deixou o celular na pia e começou a escovar os dentes. Antônia levantou-se e começou a colocar seu vestido de volta, automaticamente começou a arrumar a cama. Cobriu-a, arrumou os travesseiros e alinhou os lençóis.

— Não precisa fazer isso. — Vicente disse saindo do banheiro enquanto vestia uma blusa branca.

Antônia deu os ombros.

— Ajudei a bagunçar. — ela riu dando os ombros.

Vicente lhe deu um beijo duradouro na bochecha e depois um singelo nos lábios.

— Carlinhos está chegando, vou descer e preparar alguma coisa para o café. — Vicente disse e viu a expressão de Antônia mudar. — O que foi?

A professora sentou-se na cama.

— O que vamos dizer à ele? — ela perguntou assustada. — É uma criança esperta.

Vicente respirou fundo vestindo a calça.

— Não precisamos dizer nada já que não dissemos nada nem um pro outro ainda. — ele foi sensato. — Diga que veio visitar.

Antônia assentiu devagar.

— Tem uma escova nova em cima da pia pra você. — Vicente avisou parado na soleira da porta. — Vou passar um café.

E então ela ficou sozinha naquele quarto enorme. Segurou o rosto com as mãos e respirou fundo. Foi ao banheiro e olhou-se no espelho, suas feições eram tranquilas como as de alguém que teve uma noite incrível. Lavou o rosto e escovou os dentes, era uma escova amarela. Deixou o quarto e desceu as escadas devagar, ao chegar na sala sentiu o cheiro de café e achou sua bolsa no mesmo lugar que tinha deixado na noite anterior, na poltrona da sala. Abriu-a e pegou um elástico, amarrou o cabelo totalmente emaranhado deixando alguns fios caindo pelo rosto. Pegou o celular e viu algumas mensagens de Eduarda que responderia mais tarde.

— Algo cheira bem aqui. — ela disse ao entrar na cozinha.

Toda a casa era muito bem iluminada, as longas janelas da cozinha deixavam o cômodo cheio de luz.

— Meu café é o melhor que vai tomar na vida. — Vicente afirmou enquanto colocava pães e queijos na bancada.

Antônia riu.

— Você é bastante convencido. — ela disse enquanto pegava pratos e xícaras. — Posso arrumar a mesa?

— Eu arrumo, não...

— Pare de me tratar como madame. — Antônia disse com firmeza. — Vou arrumar a mesa.

Vicente levantou as mãos como em rendição arrancando um sorriso de canto de boca de Antônia. Ela pegou xícaras e pratos, levou-os à mesa de oito lugares. Arrumou apenas quatro, colocando as louças e depois trouxe o pão, queijo e alguns biscoitos. Por fim, Vicente trouxe a cafeteira quente e quando ela tocou a mesa de vidro, a campainha tocou.

— Chegaram. — ele disse e foi em direção à porta.

Antônia retornou a cozinha e pegou um copo d’água.

— Papai! — Carlinhos abraçou a perna do pai com força.

Vicente o pegou nos braços e deu um beijo no rosto. José Carlos estava com uma mochila infantil no ombro.

— Olá, meu amor. — beijou o rosto do filho. — Bom dia, seu José. Entra aí.

Vicente deu espaço para o antigo sogro entrar e fechou a porta.

— Carlinhos me disse que você nunca o leva na praia, Vicente. — José disse com a voz arrastada de sempre. — Ficou dizendo que não queria voltar pra casa.

Carlinhos negou.

— Não, papai. Eu disse que queria morar na praia. — a criança negou com a voz aguda. — Mas queria você lá, vovô também.

Antônia os observou da cozinha, sentindo vergonha num primeiro momento. Conseguia enxergar apenas Vicente com Carlinhos nos braços, a imagem de José Carlos estava fora do seu campo de visão. Antônia respirou fundo e começou a sair da cozinha. Ao pisar na sala, ela viu o famigerado avô de costas colocando a mochila do neto no sofá e tirando o chapéu vintage e escuro que usava, repousando-o na poltrona onde estava sua bolsa. Antônia deu dois passos pra trás.

— Tem uma mulher aqui? — José Carlos perguntou com um sorriso malicioso ao ver a bolsa e finalmente virou-se.

Vicente abaixou o olhar e riu. Antônia apertou o copo d’água com força observando o rosto de José Carlos e logo depois o chapéu na poltrona. O rosto do homem, seus olhos escuros, seu chapéu velho, José Carlos era familiar para Antônia e de onde ela vinha ele tinha outro nome: Ernesto. Seus lábios tremeram. Carlinhos virou o rosto repentinamente e olhou-a bem nos olhos.

— Tia Antônia! — a criança gritou com um sorriso assim que a viu na cozinha.

Antônia tremeu e deixou a água no balcão.

— Potter! — ela foi até a sala evitando olhar nos olhos de outra pessoa que não fosse Carlinhos.

A professora ajoelhou-se e Carlinhos a abraçou com força.

— O que você tá fazendo aqui? — Potter perguntou com um sorriso.

Vicente riu com a sinceridade da criança.

— Vim visitar você. — Antônia mexeu no cabelo de Carlinhos com carinho. — Você foi me visitar, lembra?

Carlinhos assentiu.

— Vamos tomar café? — Vicente perguntou.

— Vamos! — a criança disse num grito e saiu correndo até a cozinha. — Cadê meu chocolate?

Vicente o seguiu até a cozinha.

— Podem ficar à vontade. — ele disse para Antônia e depois olhou José, indicando a mesa. — O senhor já é de casa.

Antônia ficou de pé e olhou José Carlos nos olhos pela primeira vez. O homem não deixou de encará-la desde o momento que a viu entrar na sala.

— Ernesto? — Antônia perguntou num sussurro urgente.

José Carlos continuou calado. Não fazia ideia do que dizer. Estava olhando para a menina dos olhos de Nanda, a tal de Antônia de quem ela sempre falava e que para ela era como uma filha. Nunca tinha conversado com ela, talvez apenas trocado alguns cumprimentos de bom dia, boa tarde ou boa noite.

— Tudo bem? — Vicente retornou com um copo de achocolatado em mãos.

Carlinhos correu até a cadeira da cabeceira da mesa longa.

— Sim, claro. — José Carlos disse e seguiu até uma cadeira vazia.

Antônia imitou o ato e sentou-se. Vicente enrijeceu as sobrancelhas por um momento, mas também se sentou. José Carlos enviou um olhar indecifrável para Antônia que apenas passou a fingir que ele não estava à mesa. Aquele foi o café da manhã mais intragável de sua vida.

***

José Carlos, ou Ernesto, não ficou no café da manhã por muito mais que vinte minutos. Trocou palavras vazias com o Vicente, enquanto Antônia desviava o olhar comendo biscoitos. Vicente achou que ela estivesse envergonhada. Antônia deixou a casa uma hora depois que José Carlos, com a desculpa de que tinha muitos trabalhos pra corrigir e morava longe – ambos fatos verídicos, porém, não era por isso. José Carlos disse que tinha que acertar contas com o locador da casa de praia antes de voltar para sua casa em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro.

Em pouco tempo, uma casa antes cheia, voltava a ouvir apenas o som da TV do quarto de brinquedo de Carlos Henrique tocar melodias infantis.

— Você disse que ela ia se afastar dele em pouco tempo. — José Carlos disse quando foi atendido no segundo toque.

O homem tinha acabado de bater a porta da frente de sua casa de praia e colocar seu chapéu num cabide cor de madeira escura quando pegou no celular.

— Do que você está falando? — a voz feminina do outro lado da linha falhou.

— Você amenizou. Disse que eu não precisava me preocupar por que tinha certeza de que eles não iam se envolver de verdade. — José Carlos engrossou a voz.

— O que aconteceu? — a voz quebrou de vez.

— Antônia estava na casa de Vicente hoje pela manhã. — José Carlos contou. — Tomamos café da manhã juntos, Fernanda.

Nanda sentou-se na cadeira na cozinha e pôs a mão na testa.

— Você deveria ter garantido que isso não ia acontecer. — José Carlos respirou fundo. — Ele não pode saber que escondi você. Vicente não pode saber disso, saber que tirei coisas do...

— Não. — Nanda o cortou. — Eu vou resolver essa situação. Conheço Antônia, ela irá me confrontar. Vou dar um jeito.

Um silêncio pairou na ligação.

— E é bom mesmo. — ele disse com a voz ferina. — Isso tudo é coisa sua. Culpa sua e das suas péssimas escolhas.

Nanda sentiu as lágrimas machucarem os olhos.

— Cala a boca, eu...

— Tá, tá. — José Carlos perdeu a paciência. — Dá um jeito.

E desligou a ligação e tacou o celular no sofá. O sol ficou frio após o meio dia.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.