Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo

9 Capítulo VIII: Piedade e Misericórdia


Notas iniciais
Sejam bem vindos.

A semana passou devagar. Todo o drama entre Antônia e Nanda parecia estar morto, ainda que uma ou outra ainda pensasse no assunto de vez em quando, cada uma com seus motivos, é claro. A sexta feira tinha acabado de chegar e ela se passava com normalidade, salvo o fato de que naquela noite Antônia jantaria na casa de Vicente.

— Não acredito que vou pegar um ônibus para ir na casa desse cara. — Antônia riu falando ao telefone com Duda enquanto apagava o quadro.

Duda fazia compras num petshop quando Antônia ligou.

— Mas ele se ofereceu pra te buscar. Você que é burra. — Eduarda disse enquanto escolhia ração de gato.

Antônia revirou os olhos.

— Eu não sou burra. — ela pontuou. — Eu só acho desnecessário...

— Você pensou na logística, Antônia? — Duda questionou de forma afiada.

A professora franziu a testa.

— Esse cara mora lá na casa do..., ai, prometi que ia largar os palavrões. — Eduarda suspirou. — Enfim, ele mora longe. Você vai sair da escola, vai pegar um ônibus pra casa e depois um ônibus pra casa dele. Você vai dormir lá? Por que adivinha... você vai pegar outro ônibus pra voltar pra casa! Tarde da noite!

Antônia sentou-se melancolicamente numa das carteiras das crianças.

— Eduarda, eu não pensei em nada quando aceitei. — a professora se esmoreceu. — Ele faz eu me comportar como uma adolescente!

Duda riu.

— Ignora a logística, amiga. Ele seguiu para um endereço totalmente desconhecido pra te procurar. — ela disse logo após sair do petshop. — Seja essa adolescente inconsequente.

Houve um pequeno silêncio na chamada.

— Tudo bem. — disse Antônia num fio de voz.

— Depois quero meus detalhes, beijinho. — e assim Duda desligou o celular.

Antônia guardou o apagador na gaveta de sua mesa e botou a bolsa marrom no ombro, respirou fundo, apagou as luzes da sala e pegou um ônibus direto pra Freguesia. No meio do caminho recebeu uma mensagem.

Quero seu endereço. Vou buscá-la, não seja orgulhosa.

Antônia sorriu ainda que se repreendesse por isso. Passou o endereço e desligou o celular.

***

Eduarda chegou em casa depois das cinco da tarde. Passou no petshop, trouxe a ração do gato – o Biscoito com Leite. Foi ao mercado, trouxe azeite e sabão em pó. Passou numa lojinha de jardinagem que ficava perto do zoológico e comprou novas sementes de coentro, iria plantá-las no final de semana. Bateu a porta da casa pequena e confortável que vivia com Helena e colocou as compras em cima da mesa da cozinha. Helena ainda estava na faculdade naquele horário. Trabalhava durante o dia num restaurante de esquina e estudava à noite, administração, queria ter um negócio um dia.

Eduarda suspirou de cansada e apertou os próprios ombros, totalmente tensos. Pensou em ligar pra melhor amiga, mas lembrou que Antônia naquele momento estava se arrumando para encontrar o galã irresponsável. Eduarda soltou uma risada e logo em seguida a campainha tocou, Biscoito com Leite esgueirou-se pelas portas no segundo que ouviu o som que denunciava que um estranho entraria em casa. Eduarda franziu as sobrancelhas finas e foi abrir a porta, um rosto familiar surgiu.

— Gabriela? — Eduarda perguntou com incredulidade.

— Oi. — a voz da mulher tremeu. — Posso entrar?

Eduarda abriu espaço.

— Mas é claro. — Gabriela passou e Eduarda fechou a porta. — Você nunca vem aqui.

Gabriela entrou com os olhos baixos. O seu cabelo dourado semelhante ao de Eduarda estavam longo e bem alinhado. A saia comprida e a ponta da bíblia saindo pra fora da bolsa de couro falso deixavam claro que Gabriela estava indo ou voltando da igreja.

— Eu sei. — ela admitiu e sentou timidamente no sofá.

Eduarda respirou fundo.

— Não precisa agir como se estivesse na casa de um estranho. — Eduarda reclamou e sentou-se ao lado de Gabriela. — Você é minha irmã.

Gabriela levantou os olhos pela primeira vez. A semelhança das duas irmãs era muito grande, os mesmos olhos mel e os cabelos loiros, cheios e iluminados. Gabriela era dois anos mais velha e ficou ao lado dos pais quando Eduarda foi expulsa de casa.

— O que aconteceu, Gabi? — Eduarda perguntou com carinho pegando na mão da irmã.

Gabriela segurou o choro.

— Fala alguma coisa, estou ficando preocupada. — Eduarda apertou a mão da irmã.

A porta abriu e as duas olharam imediatamente. Helena surgiu com uma sacolinha na mão no formato de duas quentinhas, era o jantar.

— Amor, acre... ah, oi. — ela se interrompeu quando viu as irmãs sentadas no sofá. — Oi, Gabriela, tudo bem?

Helena sorriu desajeitada para a cunhada que virou o rosto.

— Boa noite. — Gabriela respondeu.

Eduarda respirou fundo. Helena assentiu e seguiu para a cozinha. As irmãs estavam sozinhas novamente.

— Você não pode vir aqui e ser tão mal educada com a...

— Eduarda, estamos precisando muito de ajuda. — Gabriela despejou palavras olhando nos olhos da irmã.

Eduarda sabia onde aquilo ia chegar.

— Meu pai voltou a jogar e deixou de ir à igreja de novo. — Gabriela continuou. — O emprego da minha mãe não tá dando conta, eu perdi o meu faz algumas semanas. E meu pai perdeu o dele... há alguns meses.

Eduarda soltou a mão da irmã e levantou exasperada do sofá.

Nossa mãe e nosso pai. — corrigiu. — Eu acho um absurdo isso! Vocês todos me enxotam de casa, minha mãe cuspiu na minha cara dizendo que eu ia pro inferno! E quando as coisas apertam você vem na minha casa, destrata a minha namorada e me pede dinheiro?!

Gabriela levantou com pressa, deixando a bolsa no sofá. As mãos tremiam.

— A gente queria o melhor pra você, queríamos que você largasse essa vida! — Gabriela insistiu e começou a chorar. — Não queremos esse destino pecaminoso e impuro pra você, Duda!

Eduarda gargalhou com deboche e sentia-se a ponto de explodir.

— Eu sou uma mulher apaixonada por outra mulher e vocês me apontam o dedo de uma forma cruel e mesquinha, e ainda dizem que fazem em nome de Deus! — Eduarda gritou e também chorou. — Meu pai gasta o dinheiro de vocês em bares e jogos, vão expulsar ele também ou na escala de pecado isso ainda não é tão grave?!

Gabriela grunhiu inconformada.

— Por favor, irmã, tente entender...

— Não, Gabriela! — Eduarda levantou a mão num sinal de basta. — Faz quase um ano que nenhum deles fala comigo e quando você fala é para me julgar! Ou para mentir, já que da última vez que eu liguei você disse que estava tudo bem!

Gabriela sentou no sofá, enterrou o rosto nas mãos e chorou. Helena entrou na sala sutilmente e colocou dois copos d’água em cima da mesinha de centro. O tilintar dos copos na madeira fez o rosto de Gabriela erguer-se.

— De quanto você precisa, Gabriela? — Helena a olhou nos olhos.

Gabriela olhou Eduarda.

— Helena, não...

— Você lembra que tem um sobrinho de sete anos, não lembra? — Helena olhou Eduarda. — É sua família.

O coração de Eduarda apertou ao lembrar-se de Bernardo, filho de Gabriela e abandonado pelo pai aos três anos. Gabriela derramou mais lágrimas ao ouvir o nome do filho.

— Temos contas de água e luz atrasadas. Compra do mês não foi feita, faltam algumas coisas em casa. — Gabriela contou, sentindo-se humilhada.

Helena assentiu e abriu uma porta inferior da estante da sala, pegou uma caixa de sapato bastante e gasta, a abriu. Tirou algumas notas de valor expressivo e juntou-as. Colocou a caixa no lugar e virou-se para Gabriela.

— Aqui. — Helena disse.

Gabriela pegou o dinheiro desconfiada e guardou na bolsa.

— Muito obrigada. — ela olhou a irmã e a cunhada nos olhos.

Eduarda segurava o choro.

— Ok. — ela não conseguiu dizer mais que isso.

Helena segurou a mão de sua namorada. Gabriela ajeitou a bolsa no ombro e foi em direção à porta.

— Fiquem com Deus, boa noite. — e foi embora.

Quando sua irmã saiu pela porta, Eduarda sentou-se no tapete velho da sala e desatou a chorar. Helena sentou ao seu lado, abraçando-a.

— Eu não ia deixar de dar o dinheiro, eu só estava inconformada! — ela desabafou. — Eu os amo muito, muito. Não queria que isso tivesse acontecendo, nada disso.

O choro intenso vinha de um interior muito profundo de Eduarda, doía tudo chorar por aquilo. Helena a abraçou com mais força.

— Você não precisava ter entregado parte do dinheiro das nossas economias, tem dinheiro seu lá...

— Dinheiro nosso, meu amor. — Helena pôs a mão carinhosamente no rosto de Eduarda.

Eduarda chorou mais e Helena lhe deu um beijo na testa. Ficaram abraçadas sentadas no tapete durante longos minutos.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.