Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
10 Capítulo IX: This Can't Be Love, Ella Fitzgerald
Notas iniciais
Vicente chegaria a qualquer momento. Antônia usava um vestido comprido e escuro, bastante simples e com um decote sutil. Seus cachos totalmente altivos estavam dispersos e iluminados. Não usava maquiagem, odiava sentir sua pele pesada. Um batom ou um brilho labial lhe era o suficiente. Antônia sentou-se no seu sofá e questionou o que estava fazendo, sem tempo de criar qualquer tipo de paranoia seu celular vibrou e antes mesmo de checar a mensagem, seu coração acelerou incomumente.
— Mas que coisa. — Antônia apertou as mãos e olhou o celular.
Vicente estava em frente ao prédio. Antônia respirou fundo, pegou sua bolsa, trancou a porta e entrou o elevador. Apertou o T. Olhou-se no espelho e ficou, os quatro andares que a separava do térreo, olhando-se. E não pela primeira vez, estava imaginando o que Vicente pensaria quando a visse. Inconscientemente, queria que fossem coisas boas.
O elevador abriu e ela saiu. Disse alguns “boa noite” e seguiu andando pelo estacionamento. De longe ela o viu, estava de costas, encostado no grande carro branco estacionado na calçada. Mexia de vez em quando no cabelo e quando Antônia atravessou os portões, ele virou-se. Vicente sorriu.
— E aí. — Antônia cumprimentou.
— Boa noite. — ele respondeu dando a volta e abrindo a porta do carro para que ela entrasse.
Antônia riu.
— Você puxa a cadeira, abre a porta do carro pra mim... não me trouxe flores? — ela questionou ironicamente.
Vicente riu e entrou no carro. Ambos colocaram o cinto.
— Eu sou contra isso, sabia? — ele comentou e deu partida.
— Por que? — Antônia perguntou e cruzou as pernas.
A fenda sutil do vestido deixou uma parte mínima de sua perna amostra. Vicente olhou de relance e se repreendeu, não queria ser mal educado.
— Ah, é. — ele travou por um momento. — A gente arranca as flores para presentear alguém e as flores vão eventualmente morrer, não vejo sentido. Dá pra mostrar carinho e consideração de outras formas, não acha?
Antônia ponderou.
— Dá pra colocar a flor na água. — ela tentou achar um meio termo.
— Mas ela morre muito rápido. — ele argumentou.
Antônia assentiu.
— É verdade.
Vicente ligou o rádio e começou a tocar música popular brasileira. Antônia não discerniu de imediato se quem cantava aquela versão de Sonhos era Caetano Veloso ou Peninha.
— Onde está o Carlinhos? — Antônia questionou e automaticamente olhou o banco de trás.
Vicente riu.
— Achei que não ia notar. — ele brincou. — Ele está com o avô desde ontem, foram pra casa de praia. Carlos Henrique adora brincar na areia.
Antônia sorriu.
— Como se chama o avô dele? — ela demonstrou interesse.
— José Carlos. — Vicente respondeu. — Ele é um senhor muito legal, mas as vezes eu fico curioso. Nunca me conta nada da vida dele.
Antônia soltou uma risada sem graça.
— Mesma coisa com a Nanda. — disse com um leve quê de pesar.
Vicente a olhou de relance.
— Nanda é a dona da pensão, ela me recebeu quando eu mais precisava. Se tornou minha família. — Antônia foi sucinta. — Mas ela sempre parece estar escondendo coisas, a vida dela é um mistério. Duvido bastante que ela seja só a dona de uma pensão e um quiosque.
Vicente ponderou.
— Ser dona de um quiosque é bastante maneiro. — ele concluiu.
— Concordo.
O resto do caminho foi embalado pelo doce som da música que vinha do rádio. Quando chegaram à casa de Vicente já era quase oito da noite. Antônia desceu do carro e observou o grande portão branco da casa. Vicente tirou a chave do bolso e o abriu. O grande jardim de grama perfeita, duas árvores e um balanço, encantou os olhos de Antônia.
— É muito bonito aqui. — disse com um sorriso.
Vicente assentiu.
— Obrigado.
Ele abriu a porta de vidro e eles adentraram na casa. A sala espaçosa, com uma grande TV e dois sofás, uma estante alta de livros e um tapete macio cor de creme. Uma mesa de vidro longa estava com uma toalha branca rendada. Antônia repousou sua bolsa numa poltrona e questionou se deveria ter tirado as sandálias antes de entrar.
— Fique à vontade. — Vicente disse e acendeu as luzes.
Mas era difícil. Era um lugar muito refinado e Antônia não se lembrava de ter estado numa casa assim antes, mas ela só assentiu às palavras de Vicente. Os dois seguiram para a cozinha. Uma travessa média estava sobre o balcão, coberta por um pano e algumas verduras cortadas estavam numa tigela de vidro com tampa. A cozinha era compacta, no balcão de madeira tinha duas taças.
— Gosta de vinho? — Vicente perguntou pegando uma garrafa na geladeira.
— Do barato, sim. — Antônia admitiu e sentou-se num dos bancos próximos ao balcão.
Vicente sorriu.
— Eu também. — e serviu as duas taças pela metade.
Sentou-se também num dos bancos do balcão e os dois bebericaram o vinho.
— Eu não sabia do que você gostava, então apostei na comida em comum da humanidade. — Vicente disse e descobriu a travessa.
Era lasanha à bolonhesa. Antônia olhou-o com seriedade.
— Vicente, sou vegetariana. — ela disse.
Vicente arregalou os olhos minimamente.
— Ah, mas... droga, Antônia. E agora? — ele questionou, pegando o celular no bolso. — Vamos pedir uma pizza... de quatro queijos! Sinceramente, eu...
Vicente já pesquisava por números de pizzarias próximas e foi interrompido pela risada audível de Antônia.
— É brincadeira, calma! — ela disse entre risos. — Adoro lasanha. Acertou em cheio.
Vicente a olhou incrédulo e largou o celular em cima do balcão.
— Que maluca. — ele disse e riu em seguida. — Vai ter que comer a travessa inteira.
— Será um prazer. — Antônia disse e com uma golada só terminou sua taça.
Vicente a acompanhou. Em seguida, pegou pratos e talheres, colocou-os no balcão. Antônia preencheu as taças de vinho.
— Qual a sua história, Antônia? — Vicente questionou enquanto servia os pratos.
Ela suspirou pegando um garfo.
— Vim morar no Rio aos dezoito anos, foi quando conheci Nanda. Ela me ajudou, eu não tinha lugar pra ficar. Aí a Pensão se tornou o meu lar e Nanda minha família. — ela começou a dizer poupando maiores detalhes. — Antes de tudo, eu fugi da casa da minha tia, alguns anos depois que minha mãe morreu.
O olhar de Antônia deixava claro para Vicente que ele não deveria perguntar detalhes, então apenas deu a primeira garfada na sua lasanha, ela fez o mesmo.
— Aí eu comecei a trabalhar e estudar. Fiz uma vida, sabe? — ela continuou a dizer. — Tem algumas coisas que hoje são tão passado que já não sei se aconteceram ou se tudo foi uma ilusão.
Antônia deu os ombros e tomou uma longa golada de vinho.
— Eu entendo bem como é isso. — Vicente assentiu compreensivo.
Antônia mastigou devagar e engoliu.
— Qual sua história, Vicente? — ela perguntou olhando-o nos olhos.
Ele pigarreou e tomou um gole da bebida quente.
— As coisas ficaram esquisitas depois que eu voltei pro Brasil. — ele começou. — Meu pai estava morto, minha mãe deprimida. Natasha estava grávida. A empresa era minha responsabilidade. Eu senti que tinha caído de paraquedas numa vida que não era minha.
Antônia assentiu.
— Na época, tudo que eu queria era terminar minha faculdade e terminar com Natasha. Com a morte do meu pai e a gravidez dela, perdi todas as possibilidades de viver a vida que eu queria. — ele desabafou. — Aí vieram as tragédias.
Vicente tinha muito mais facilidade de falar do que Antônia e ambos estavam percebendo isso naquele momento.
— Natasha morreu e depois minha mãe e minha avó. Parecia que estava tudo desmoronando, mas aí eu lembrava que eu tinha meu filho e que eu tinha que permanecer por ele. — Vicente falou e se segurava para não chorar. — Então vim embora para o Rio para recomeçar.
O ar ficou tenso e tudo se dissipou quando Antônia apertou carinhosamente a mão de Vicente.
— Tudo bem, já passou. — ela disse com uma doçura incomum. — As coisas são diferentes agora, percebe?
Ele assentiu e apertou sua mão de volta. Depois, as separaram.
— Percebo. — ele disse.
Num espaço de silêncio eles terminaram de jantar na quietude. Antônia juntou as louças e levou-as à pia.
— Não precisa...
— Será rápido. — ela disse enquanto começava a lavar os pratos. — Por que você nunca retornou para a faculdade?
Vicente enchia novamente as taças e colocou uma na pia. Antônia tomou um gole.
— Por falta de tempo hábil, eu acho. — ele disse. — Tem a empresa, tem o Carlinhos. Preciso ser perfeito em tudo.
Antônia negou e secou as mãos no pano de prato.
— Não é possível ser perfeito, Vicente. — ela disse aproximando-se novamente.
Vicente a observou com cuidado e suas palavras ecoaram em sua mente levemente embriagada. Percebeu que gostava muito da forma que ela pronunciava seu nome.
— Gosta de músicas velhas? — ele perguntou tomando a taça de vinho num gole só.
Antônia o imitou.
— Menos as clássicas. — ela disse com a voz embargada. — São insuportáveis.
Vicente riu e foi até a sala, começou a remexer numa das portas de madeira da estante. Antônia o seguiu, com as taças cheias novamente.
— Achei. — ele disse tirando um porta-CD de plástico velho.
— O que é? — ela perguntou entregando-lhe uma das taças.
Vicente colocou o CD num som antigo que tinha na sala. Antônia tomou um gole e ele também, repousaram suas taças na mesa de vidro de centro que tinha na sala. A música começou a tocar. Antônia riu.
— Música velha. — ela disse entre risos.
— Ella Fitzgerald. — Vicente disse e puxou Antônia pela mão devagar. — Minha mãe adorava e me mostrou várias músicas. Essa é a minha preferida.
Tocava ThisCan’t Be Love. Antônia sorriu e deixou-se ser puxada com carinho. Vicente pegou-a pela mão e pela cintura, começaram a dançar de forma desajeitada pela sala. Antônia não conseguia parar de rir.
— O que é tão engraçado? — Vicente questionou, apertando devagar a cintura de Antônia enquanto dançavam.
— Eu não sei. — ela disse parando de rir finalmente. — Isso é tão... incomum. É bom.
Vicente esticou o braço e girou Antônia devagar, a puxou de volta trazendo pra bem perto. A música estava no ápice. Pararam de dançar, ficaram apenas parados e próximos o suficiente para ser constrangedor.
— A música não acabou. — Antônia disse baixinho como se não estivessem sozinhos. — Que comentário idiota.
Ela desviou o olhar. Vicente sorriu.
— Já tenho mais de trinta anos. — Antônia fechou os olhos tentando buscar sua típica racionalidade. — Por que estou agindo como uma adolescente? Dançando, bebendo, são quase dez e meia da noite, estou longe de...
Calou-se. Enquanto estava de olhos fechados dissertando sobre o quanto aquilo era incabível, Vicente nunca a viu mais bela e doce, totalmente distinta e avassaladora. Era um pecado não a beijar naquele dado instante perfeito. Então ele beijou. Tocou o rosto de Antônia com as duas mãos e tocou seus lábios devagar, fazendo-a engolir todas as palavras de razão e certeza. A música acabou.
Thiscan’tbelovebecause I feelsowell.
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