Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
6 Capítulo V: Résistance
Notas iniciais
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
— O Pequeno Príncipe
***
Eduarda ajudou Antônia a chegar em seu apartamento e esperou a amiga tomar banho, enquanto isso ela recolhia as compras do mercado que tinha deixado lá mais cedo. Olhou a hora em seu celular e já beirava oito e meia da noite.
— Espero que Helena não me odeie pra sempre por ter te roubado o dia inteiro. — Antônia murmurou com a voz meio grogue.
Eduarda negou.
— A Lena te adora. Inclusive, ela vive dizendo que você nunca mais foi lá em casa. — a bióloga contou enquanto guardava o celular na bolsa.
Antônia deu um longo suspirou.
— Essa semana farei uma visita. — prometeu.
Helena e Eduarda já moravam juntas há quase três anos, e até o presente momento, era a história de amor mais bonita que Antônia conhecia. Ambas enfrentaram o preconceito dos pais fervorosamente religiosos de Eduarda, que a expulsou de casa na mesma época que descobriram o relacionamento das duas, levando-a a morar na pensão de Nanda durante alguns meses. Algum tempo depois, elas conseguiram um quartinho para morarem juntas e depois uma casa de aluguel. A família de Helena sempre foi tranquila em relação a tudo e tratava Eduarda com carinho e respeito, o que as vezes a matava de tristeza ao lembrar-se de seus pais. As vezes parecia que o universo as forçava a desistir uma da outra, mas elas nunca o fizeram.
— Tem falado com a sua mãe? — a pergunta de Antônia surgiu com espontaneidade.
Eduarda suspirou e negou.
— Não. — ajeitou as compras no braço. — Mas eu tenho falado com a minha irmã. Tá tudo bem lá em casa, pelo menos é o que ela me diz.
Antônia assentiu e deu um forte abraço na amiga que retribuiu.
— Então te espero essa semana. — Eduarda disse com um sorriso forçado.
— Pode esperar. — Antônia também sorriu.
Eduarda deixou o apartamento e o silêncio engoliu o lugar depois disso. Antônia respirou fundo, e já sentindo-se melhor, seguiu até a cozinha para preparar qualquer besteira que enchesse a sua barriga. O resultado foi um misto quente e um copo longo de achocolatado. Enquanto comia, no silêncio da cozinha, algumas coisas vieram a sua mente. Seu trabalho, sua amiga, a pós que queria fazer, o natal na pensão, sua mãe e por fim Potter, o menininho de seis anos com quem tinha criado um laço de vinte minutos. Quando terminou de comer, escovou os dentes e deitou no sofá, por ali mesmo dormiu pelo resto da noite.
***
A semana começou com um domingo chuvoso e uma segunda nublada. Na terça feira o tempo começou a melhorar, quarta-feira fez quarenta graus no Rio de Janeiro e Antônia mergulhou no mar da Freguesia. Quinta-feira teve uma reunião na escola e choveu no final do dia, quando chegou em casa uma ventania forte acometia o bairro, o sinal da internet caiu e um pouco depois a luz também, ficou lendo O Alquimista — pela vigésima vez — à luz de velas. Sexta-feira fez sol e Antônia saiu mais cedo da escola, foi direto para a residência confortável e bem arrumada de Eduarda e Helena, e juntas tomaram café da tarde.
— Ela desceu das arquibancadas gritando super bêbada e cuspindo nos outros. — Eduarda estava contando da semana anterior quando foram ao estádio.
Helena prestava atenção nas palavras de Eduarda para não perder nenhum detalhe da história e por fim gargalhou alto enquanto passava requeijão nas torradas. Antônia negou devagar.
— Eu estava descarregando energias ruins, só isso. — a professora de história se justificou colocando açúcar no seu café preto. — E os caras que frequentam o estádio sempre estão bêbados e cuspindo em alguém.
— Ai, cafézinho pra mim não dá, a gente precisa marcar um boteco. — Helena reclamou amarrando seu cabelo longo num coque bonito, deixando à mostra os mais novos aparelhos auditivos que adquirira.
Eles eram mais finos e sutis, também funcionavam melhor que os anteriores que Helena tinha tido. Antônia assentiu dando uma golada no café que queimou sua garganta.
— E depois comer um podrão, aqueles hambúrgueres nojentos, sabe? — a professora disse. — Com alto risco de intoxicação alimentar.
Eduarda olhou da melhor amiga para a namorada e negou. Tomou o resto do seu café com bastante leite.
— E eu levo todo mundo pro UPA depois, né? — Eduarda fez cara de nojo.
Uma risada leve e uníssona de Helena e Antônia contagiou a pequena cozinha vermelha e foi cortada por um telefone tocando.
— Alô? — Antônia atendeu no segundo toque.
— Oi, meu bem, então... tem uma coisa esquisita acontecendo aqui. — a voz começou a sussurrar.
Antônia ouviu murmúrios ao fundo da ligação, como se fosse uma conversa paralela.
— Solange? — a professora perguntou. — O que aconteceu?
— Estou ligando por que a Nanda teve que sair. — a hóspede disse. — Mas tem um homem aqui com uma criança, estão procurando por você.
As sobrancelhas de Antônia se juntaram na hora.
— Como assim, Solange? — ela questionou confusa. — É aluno meu? Mas o que eles estão fazendo aí?!
— Querida, eu não sei. O homem disse que conheceu você na escola e disse que você se lembraria. — Solange disse. — Ele se...
— Vicente. — Antônia disse com os dentes levemente cerrados. — Mas que coisa! Já estou indo para aí.
E desligou o telefone.
— O Vicente está na pensão! — Antônia exclamou exasperada levantando-se da cadeira.
Mais cedo ela tinha contado a história para Helena que a olhou boquiaberta.
— Você quebrou o cara, Antônia. — Helena riu. — Ele gostou de você.
A professora revirou os olhos e colocou a bolsa de couro marrom no ombro.
— Eu vou ter é que cortar as asinhas desse maluco. — ela disse com rispidez.
Eduarda deu risadinhas discretas e Helena negou também risonha. Antônia deu um beijo no rosto das amigas e saiu de lá em disparada. Por conta do estresse – e com paciência nenhuma para o transporte público — pegou um táxi em direção à Pensão da Dona Nanda.
***
— Ela está vindo. — Solange avisou à Vicente que estava confortavelmente sentado no sofá.
A hóspede observou o homem com curiosidade e saiu da sala devagar. Naquele horário, geralmente, todos estavam ocupados fora de casa então a pensão estava majoritariamente vazia. Carlos Henrique estava encantado com as estantes de vidro cheias de porta retratos e objetos de decoração, ele se sentia no lugar mais aconchegante do mundo. Depois, a criança se sentou no sofá que era coberto por uma manta amarela e sentiu vontade de cochilar.
— Filho, vem cá. — Vicente chamou e Carlinhos sentou ao seu lado. — Não mexe em nada não.
— Aqui é engraçado. — a criança comentou. — Tem o cheiro lá de casa.
Vicente riu.
— Como assim? — o pai perguntou cruzando os braços.
— Tem um cheiro, pai. — Carlinhos repetiu balançando as pernas no ar, era pequenino demais para alcançar o chão. — Cheiro bom.
Vicente fez carinho no cabelo enrolado de Carlinhos e nesse instante a porta de entrada – que já teve dezenas de almas a atravessando ao longo dos anos – fez um barulho enferrujado e revelou Antônia, com o cabelo totalmente solto naquele dia.
— Tia! — Carlinhos correu e abraçou as pernas de Antônia.
A professora passou o caminho inteiro desde a casa de suas amigas até a pensão resmungando consigo mesma sobre como seria grosseira com Vicente assim que o visse, mas aquele carinho que recebeu a amoleceu por completo.
— Olá, Potter. — ela sorriu e se abaixou para abraçá-lo.
Carlinhos envolveu o pescoço de Antônia com os bracinhos e a apertou. Quando o abraço acabou, Antônia olhou Vicente nos olhos. Olhos verdes e diferentes.
— Ele queria ver você. — foi a primeira coisa que ele disse.
Antônia respirou fundo e deixou sua bolsa na poltrona, sentando-se no sofá. Carlinhos já estava distraído com os detalhes da casa mais uma vez.
— Desculpa o inconveniente, te procurei na escola a semana inteira. — o pai continuou e sentou-se ao lado de Antônia. — Mas...
Antônia negou e cruzou as pernas.
— Meus horários são diferentes dos do Carlinhos. — a professora explicou. — Você só me viu naquele dia por que...
— Por que eu fui um péssimo pai, eu sei. — Vicente esfregou a testa.
Antônia assentiu.
— Eu não ia dizer exatamente isso, mas é verdade. — ela admitiu e segurou um sorriso. — Espero que tenha pensado bastante sobre isso.
Vicente respirou fundo.
— Você não faz ideia o quanto.
Um silêncio breve aconteceu. Carlos Henrique estava observando os quadros da sala como se fosse um crítico de arte.
— Janta comigo hoje? — Vicente soltou por impulso. — Pode me mostrar um bom restaurante com cardápio infantil.
Antônia ficou observando Vicente, um homem que acabou de chamá-la para jantar e levaria o filho junto.
— Olha, Vicente, eu...
Risadas audíveis foram ouvidas vindo do segundo andar junto com passos na escada. Antônia virou-se e viu, descendo os últimos degraus, primeiro Clara e depois João. Antônia sentiu algo agudo no peito.
— Boa noite. — Clara sorriu e acenou.
— Boa noite. — Vicente respondeu de volta.
João Guilherme e Antônia preferiram o silêncio e a desconfortável sensação de ficar encarando alguém por alguns segundos. Clara puxou João pela camisa devagar e levou-o para a cozinha. Antônia piscou devagar como se saísse de um transe e virou-se para Vicente.
— Claro. — Antônia disse com a voz baixa.
O empresário juntou as sobrancelhas.
— Claro, vamos jantar. — Antônia terminou a frase e olhou a hora no seu relógio de pulso e depois olhou a rua através da grande janela da sala, era o início da noite começando a cair.
Vicente a observou e reprimiu os lábios, não ia dizer o que estava pensando.
— Tudo bem. — concluiu com ternura.
Antônia assentiu um pouco envergonhada.
— Só preciso de alguns minutinhos.
E assim subiu até o seu quarto. Vicente encostou-se no sofá e passou a mão na barba, estava pensativo.
— Filho, senta aqui um pouquinho.
Carlinhos veio com rapidez e sentou ao lado do pai.
— Tô ficando com fome, papai. — o menino reclamou com a mão na barriga.
— Que beleza, pois eu acabei de tirar um bolo de milho do forno, é uma receita especial da dona da casa. — Solange saía da cozinha com um pano de prato em mãos. — Você gosta?
Ela sorriu para a criança que pendeu a cabeça pro lado.
— Não sei, nunca provei. — ele disse com a voz manhosa.
Vicente riu.
— É aquele bolo fofo e amarelo, o mesmo que o seu avô faz quando vem visitar. — o pai explicou com paciência.
Carlinhos sorriu.
— Eu quero! — ele disse animado.
— Vem. — Solange chamou a criança estendendo-o a mão e depois olhou Vicente. — O senhor quer um pedaço?
Vicente negou enquanto seu filho corria para segurar na mão de Solange que o levou até a cozinha. O empresário se aconchegou novamente no sofá e cruzou os braços.
— Vai levá-la pra jantar? — uma voz masculina soou.
Vicente olhou o rapaz jovial encostado na soleira da porta que dividia a sala e a cozinha.
— Sim. — foi sucinto.
João Guilherme pigarreou.
— Ela é apaixonada por mim. — o surfista falou com deboche. — Desde sempre. Nada irá mudar isso.
Vicente riu.
— Paixão é uma febre. — ele disse com paciência. — Não é como o amor.
João negou, sempre odiou caras sérios que usavam calça jeans.
— Ela me ama. — ele insistiu.
Vicente levantou-se do sofá e antes que pudesse reagir às palavras de João, Antônia chegou à sala e estava vestida de forma simplória, com um mom jeans e uma blusa azul marinho com os dizeres “resistência” em francês. Résistance. Seu cabelo escuro levava um arco sutil na cor azul. Quando a viu, João saiu da sala. Vicente a observou e desviou o olhar.
— Vocês vão sair? — Solange surgiu na sala com um copo de leite com achocolatado.
— Sim. — Antônia respondeu ajeitando a bolsa preta no ombro.
Por algum motivo, Antônia sentia que tudo aquilo era um sonho estranho. Solange sorriu.
— Onde está o Carlinhos? — Vicente perguntou.
— Ah, o rapazinho está no segundo pedaço de bolo. — a hóspede disse. — Podem ir tranquilos. Eu fico com ele.
No final da frase, Solange lançou um olhar pontual para Antônia.
— Não precisa, dona... Como a senhora se chama? — Vicente perguntou finalmente.
Solange riu.
— Solange. — ela respondeu sorrindo. — Não se preocupem, Carlinhos e eu temos receitas de bolo para discutir.
E assim ela retornou para a cozinha. Vicente e Antônia se encararam.
— Vamos? — a professora perguntou.
— Vamos.
Saíram juntos pela porta da frente da pensão minutos antes de Nanda voltar para casa.
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