Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo
7 Capítulo VI: Em Nome Das Minhas Razões Erradas
Notas iniciais
Sou Deus, tua deusa, meu amor.
— Cássia Eller
***
Com ajuda de Solange – que ficou perfeitamente satisfeita em tomar conta de Carlos Henrique -, Antônia e Vicente seguiram para um bar restaurante afastado do centro da Freguesia. Um lugar aberto, com mesas de madeiras e música baixinha que deixava as pessoas conversarem sem terem que gritar uma na cara das outras. Como um gentleman, Vicente puxou a cadeira para Antônia que riu dele sem disfarçar.
— Por que você tá rindo? — Vicente perguntou sentando-se em seu lugar.
Antônia se ajeitou na cadeira.
— Não sei, você puxou a cadeira pra mim. — ela disse aquilo como se fosse uma justificativa.
Vicente deu um sorrisinho de canto e chamou o garçom.
— E aí parceiro, quais são os drinques...
— Eu tomo cerveja. — Antônia cruzou os braços observando Vicente.
— Ok, uma cerveja pra ela e um drinque de limão pra mim. — ele disse e o garçom assentiu. — Sem álcool.
O homem afastou-se. Vicente encarou Antônia.
— O quanto ele te machucou para você aceitar sair comigo só para chateá-lo? — ele perguntou com sutileza.
Antônia enrijeceu a testa.
— Do que você está falando? — ela questionou sabendo bem a resposta.
Vicente respirou fundo.
— Aquele rapaz. — o empresário disse com naturalidade. — Você é apática comigo desde que me conheceu e foi só ele estar por perto que você decidiu que ia aceitar o jantar.
Vicente não dizia aquelas palavras com agressividade, mas sim como se estivesse narrando uma história. As bebidas chegaram e Antônia deu uma longa golada na sua cerveja gelada.
— Se me acha tão apática por que quis sair comigo? — ela fugiu da pergunta.
Vicente coçou a barba e deu um gole no seu drinque bonito.
— Por que eu gostei de você. — ele foi sincero.
Antônia poderia ouvir a risada de Helena.
— Mas eu sei que você aceitou vir comigo só por que ele apareceu, você mudou de comportamento subitamente...
— Por que está me analisando? — Antônia o interrompeu batendo a cerveja na mesa.
Vicente soltou uma risada.
— Estudei psicologia nos Estados Unidos, talvez seja isso. — ele disse bebericando seu drinque cheio de gelo. — Mas não cheguei a terminar o curso.
— Por que não? — finalmente Antônia achou uma brecha para mudar de assunto.
Vicente respirou fundo.
— Eu deveria estar estudando administração e francês, meu pai me mandou pra lá com esse propósito. — ele começou. — De fato comecei um curso de francês, mas cursei psicologia escondido.
Antônia arregalou os olhos e Vicente riu.
— Seu pai deve ter arrancado sua cabeça fora. — ela disse ainda com as sobrancelhas arqueadas.
Vicente negou.
— Eu não terminei a faculdade por que ele morreu e eu tive que voltar ao Brasil para assumir a empresa. — ele contou com passividade.
Antônia arfou sem som. Um silêncio constrangedor tomou conta da mesa e foi bem na hora que o músico parou de tocar.
— Sinto muito, Vicente. — Antônia disse enfim.
Vicente bateu o copo vazio na mesa.
— Ele era um desgraçado. — ele disse com um sorriso maldoso. — Fiquei aliviado quando ele morreu.
Antônia arqueou as sobrancelhas.
— Eu nunca conheci o meu pai. — ela começou a contar balançando o copo de cerveja quase vazio. — Perdi minha mãe muito cedo.
— Sinto muito.
O silêncio retornou à mesa. O músico voltou a tocar.
— O que aconteceu com a mãe do Carlinhos? — Antônia perguntou e depois tomou o último gole da sua bebida.
Vicente respirou fundo.
— Ela faleceu no parto. — contou com tristeza. — Foi muito difícil quando o Carlinhos começou a frequentar a escola, ele sempre me perguntava por que os coleguinhas tinham mamãe e ele não.
O coração de Antônia apertou.
— E avós? — a professora perguntou.
Vicente respirou fundo.
— Natasha, a mãe dele, foi criada pela madrinha e recebia algumas visitas do pai. A mãe dela morreu quando ela era recém nascida, não chegou sequer a conhecê-la. — Vicente disse gesticulando suavemente com as mãos como de costume. — Minha mãe faleceu um pouco depois do Carlinhos nascer.
Antônia respirou fundo e apertou os dedos.
— O avô dele vem visitar sempre, pelo menos. — Vicente aliviou a tensão com um sorriso.
E pela primeira vez, Antônia sorriu de volta.
— O Potter é uma criança ótima. — ela disse. — E você é um bom pai que cometeu um erro.
Vicente se sentiu aliviado.
— E respondendo sua pergunta... Bastante. — Antônia disse sem graça.
Vicente franziu a testa.
— O João Guilherme me magoou muito e eu realmente aceitei esse jantar para incomodá-lo. — ela admitiu.
— Tudo bem. — disse Vicente. — E eu usei meu filho de desculpa para me aproximar de você. Estamos os dois errados.
Ambos riram com vontade. Uma infinidade de conversas surgiu, falaram sobre as férias dos sonhos, países que queriam conhecer, comidas que odiavam e o tom preferido da cor azul. Falaram de futebol, de samba e carnaval. Trocaram números de telefone. Contaram histórias do passado e ambições para o futuro. Antônia bateu a quarta cerveja na mesa e seu corpo já pesava um pouco. Vicente chamou o garçom e pagou a conta.
— Ei, o que você tá fazendo?! — Antônia questionou enquanto o garçom se afastava da mesa.
— O convite foi meu. — Vicente disse com naturalidade.
Antônia levantou-se.
— Você é um rico insuportável. — ela reclamou e abriu a carteira, tirou de lá algumas notas de vinte. — Toma.
Vicente lhe deu as costas.
— Vamos, está tarde.
Contrariada, Antônia o seguiu para fora do restaurante e entrou no carro. Bateu a porta com força.
— Ei, cuidado com a porta do carro. — Vicente reclamou em tom de brincadeira.
Antônia cruzou os braços.
— Você não pode sair por aí pagando a conta das pessoas. — ela pestanejou.
Vicente deu partida.
— Não foi a conta das pessoas, foi a sua. Foi uma gentileza, Antônia. — ele disse com calmaria. — Por que está tão na defensiva?
A professora respirou fundo e se aconchegou no banco.
— Não estou na defensiva. — ela murmurou.
Vicente a olhou de soslaio e ficou em silêncio, assim eles seguiram até chegarem à pensão.
— Venha jantar na minha casa, na próxima sexta. — Vicente estacionou o carro e olhou Antônia. — Aceite ou negue pelos motivos certos, por favor.
Antônia o observou com cautela. A barba bem feita, o cabelo baixo e os olhos verdes mascarados pelas sobrancelhas grossas.
— Tudo bem. — ela aceitou.
— Eu bus...
— Eu vou de ônibus. — ela disse e desceu do carro ajeitando sua bolsa no ombro.
Vicente desceu em seguida e juntos passaram pelo jardim da pensão até chegar à porta de entrada que estava entreaberta. Quando entraram, a primeira visão que tiveram foi de Solange sentada na poltrona e Carlinhos cochilando no sofá, coberto com uma manta amarela.
— Ele caiu no sono faz vinte minutos. — Solange sussurrou.
— Muito obrigada dona Solange, desculpa o incômodo. — Vicente falou baixo.
Solange fez um sinal com as mãos como quem diz “deixa pra lá”. Antônia ficou observando o rostinho pacífico do seu amigo Potter. Vicente pegou Carlinhos no colo com jeitinho para que ele não acordasse.
— Vejo você na sexta? — ele sussurrou.
Carlinhos se mexeu um pouco, mas sem despertar. Antônia assentiu.
— Aham.
Vicente sorriu.
— Até. — ele disse e depois olhou Solange. — Boa noite, Solange. Muito obrigado.
— Por nada. Boa noite, Vicente.
E ele deixou a pensão rapidamente. Antônia se jogou no sofá e suspirou.
— Aconteceu uma coisa estranha. — Solange falou sussurrando ainda que não houvesse mais ninguém dormindo.
Antônia a olhou.
— O que houve? — perguntou.
Solange sentou ao lado da professora.
— A Nanda chegou um pouco depois que você saiu. — a hóspede contou. — Ela entrou na cozinha e lá estava eu, Carlinhos e Clara. Ela nos olhou e sem dizer nada saiu. Está trancada no quarto até agora.
Antônia olhou para a escada.
— Amanhã eu tento conversar com ela. — ela ponderou. — É melhor.
Solange assentiu e subiu para o seu quarto. Antes de fazer o mesmo, Antônia ficou encostada no sofá pensando durante algumas horas.
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