Notas iniciais
Sejam bem vindos.

O dia amanheceu e era sábado. Como de praxe, Antônia levantou-se cedo, escovou os dentes e ajeitou os cabelos. Era uma manhã de sol e outubro tinha acabado de chegar. Ao sair do quarto, Antônia sentiu o agradável cheiro de café e pão quente que se dissipava pela casa. A conversa na cozinha era alta.

— Eu acho que todo mundo deveria dividir. — Amanda pontuou.

O assunto era a decoração de natal. Dali a dois meses seria dezembro, a época que deixava a pensão de Nanda em polvorosa, os hóspedes regulares deixavam presentes embaixo da árvore e compravam os ingredientes da ceia e Nanda cozinhava. As luzes de natal cercavam o exterior da casa e preenchiam as janelas. A guirlanda mais bonita que pudesse ser encontrada ficava na porta da frente. Houve um ano que teve até um Papai Noel, pois, uma hóspede da época tinha três filhos pequenos. Mas antes de toda a harmonização natalina acontecer sempre havia um atrito ou outro sobre o que seria feito até lá.

— A gente pode passar uma lista com o que precisa ser comprado. — Rafael sugeriu enquanto servia-se de suco de maracujá.

Antônia aproximou-se de Nanda que manuseava a cafeteira e deu-lhe um beijo no rosto.

— Mas aí não é justo. — Fabiana rebateu Rafael e Amanda concordou com a cabeça.

— Uns vão pagar mais caro que outros. — ela completou.

Antônia encheu uma xícara de café e pôs três colheres de açúcar. Sentou-se à mesa e mesmo que os óculos ajudassem a disfarçar, ela sabia que todos repararam em seus olhos inchados, mas ignorou o fato.

— Vou comprar uma árvore nova. — a professora se pronunciou pela primeira vez naquela manhã e logo depois pegou o queijo e o pão. — O que vocês acham daquela que é verdinha com detalhes brancos, como se fosse neve?

Antônia perguntou e mordeu o pão.

— Ai, eu acho essas uma gracinha. — Solange entrou na cozinha pegando a conversa no ar.

— Eu também gosto. — Rafael disse. — Eu posso convidar meu namorado para vir esse ano? Por que finalmente eu tenho alguém pra convidar de fato.

O professor de inglês sorriu de canto e a mesa riu baixinho. Rafael veio de Porto Alegre sozinho para estudar no Rio e trabalhar numa escola de idiomas da cidade, deixando seus pais e irmãos pra trás e também podendo enfim ser quem era.

— Claro que pode. — Nanda sorriu para Rafael e colocou o café à mesa.

Os minutos seguintes se emergiram no assunto de decorações de natal e nos preparativos da ceia, mesmo que ainda faltasse mais de um mês. Ao terminar seu café, Antônia saiu da mesa sorrateiramente e retornou para o seu quarto. Fechou a porta e focou sua mente em cada ação que faria naquela manhã: pegou sua escova e pasta, foi até o banheiro e escovou os dentes; retornou ao quarto, trocou de blusa, arrumou a cama, achou sua sapatilha, prendeu seu cabelo com um lenço amarelo e abriu as cortinas. Respirou fundo. Antônia concentrava-se o máximo possível para não pensar na noite anterior.

A professora pegou sua bolsa cheia de trabalhos para corrigir e deixou o cômodo. O quarto de Antônia era no segundo andar logo após o banheiro, não demorou muito para que ela pisasse no primeiro degrau da escada e se preparasse para descê-la.

— Já está indo? — uma voz doce soou no corredor silencioso.

Antônia virou o rosto e segurou mais forte no corrimão da escada. Clara estava saindo do seu quarto que era o último do longo corredor, ela estava de camisola e com sua escova em mãos. Seu belo cabelo dourado ainda estava emaranhado.

— Sim. — a professora respondeu com a voz desafinada.

Lembrou-se logo de ver Clara e João Guilherme conversando na noite anterior. A nova funcionária do Bumba Meu Boi estava morando na pensão há três meses e estudava Direito na mesma faculdade onde Antônia se formou anos antes.

— Eu soube que você e o...

— É, sim. — Antônia a cortou.

— Eu soube que vocês terminaram. — Clara não aceitou ser interrompida. — Está tudo bem?

Antônia suspirou devagar.

— Sim, tudo bem. — ela deu um sorriso estranho. — Não foi um término, nós não tínhamos nada sério.

Clara assentiu.

— Entendi. — ela disse e ponderou por alguns segundos. — Bom, se precisar conversar...

— Claro. — Antônia a cortou de novo sem nenhum peso na consciência. — Bom dia, Clara.

A professora desceu as escadas de imediato, sem dar brechas para nenhuma continuidade no assunto. Ao chegar ao andar debaixo, os hóspedes já estavam dispersos e a sensação de manhã de sábado já se alastrava.

— Já vai, florzinha? — Solange olhou Antônia por cima do jornal que lia.

Solange era a mulher mais velha que vivia na pensão, sempre dizendo que preferia viver entre várias pessoas de várias idades a ir morar num asilo. Seus filhos se mudaram para o exterior há seis anos.

— Vou sim. — Antônia respondeu ajeitando a bolsa no ombro. — Tenho muitos trabalhos de casa para corrigir.

— Eu também. — Rafael esmoreceu-se no sofá e afundou sua cara no celular.

Pela janela, Antônia viu Nanda molhando as plantas que ficavam em frente a pensão.

— Então já vou, até depois gente. — deu um aceno geral e deixou a casa.

Antônia fechou a porta e andou dentre as plantas de Nanda até chegar até ela que molhava as samambaias. Não apenas as plantas molhavam como também Nanda tinha o rosto úmido, quando sua mais querida hóspede se aproximou a dona da pensão enxugou as lágrimas com sutileza.

— Já vai, querida? — ela perguntou colocando o regador no chão.

A voz de Nanda estava claramente embargada pelo choro, Antônia a observou com desconfiança. Aquele comportamento de Nanda era, infelizmente, comum. A senhorinha de vez em quando chorava pelos cantos ou se trancava num quarto para lamuriar, quando mais nova Antônia já a tinha visto sentada na sala durante horas observando uma fotografia velha que não conseguia enxergar do que se tratava. Na primeira e única vez que perguntou por que Nanda estava chorando Antônia nunca a viu tão séria.

— Não pergunte mais. — a dona da pensão pediu.

E Antônia acatou, nunca mais tornou a questionar.

— Sim, estou indo. — a professora respondeu ignorando o estado da senhora, exatamente como a mesma gostava.

Nanda lhe deu um abraço.

— Qualquer coisa você pode vir correndo pra casa. — a dona da pensão disse após sair do abraço. — Você tem um lar, Antônia. Não se esqueça.

Antônia sorriu e beijou o rosto enrugado de Nanda.

— Eu amo a senhora. — ela disse.

— Também a amo, meu bem.

Antônia pegou o ônibus às onze da manhã em direção ao seu apartamento solitário.

***

Era uma casa de novela. Uma longa piscina, um belo jardim na frente, uma garagem comprida, dois andares e três quartos espaçosos. Mas, na verdade, a piscina vivia sempre vazia – fazendo jus à quando dizem que quem tem piscina em casa geralmente não a usa como deveria –, a garagem guardava apenas um carro, o segundo andar era desnecessário e somente um quarto era de fato usado.

Carlos Henrique tinha seis anos e possuía quarto próprio com uma cama de solteiro, parede pintada de azul com adesivos de carrinhos, uma prateleira alta de brinquedos e alguns livros de colorir. Carlos amava aquele ambiente, mas ainda não dormia sozinho. Todas as noites ele se arrastava até o quarto do pai e dormia com ele em sua grande e fria cama de casal.

— Carlinhos, é o vovô. — Vicente sorriu entregando o celular ao filho que assim que colocou o aparelho no ouvido abriu um sorriso largo.

— Vovô! — o menininho disse com a voz macia.

Vicente e Carlos Henrique viviam naquela casa desde que o menino tinha três anos de idade, mudaram-se após Vicente perceber que viver em São Paulo após tantas perdas era insustentável. Até hoje o homem que comandava uma poderosíssima construtora nacional não sabia como estava vivo. Tudo veio como uma avalanche na vida de Vicente.

Natasha não teve uma gravidez fácil. As complicações foram se tornando cada vez mais frequentes e incontroláveis. Sangramentos, dores, desmaios, quedas de pressão e tudo isso mais uma vez. Aos sete meses, o inevitável aconteceu: Carlos Henrique precisava nascer e com isso sua mãe partiria. E ela partiu. Natasha segurou seu bebê e beijou seu rosto.

— Ele se chama Carlos Henrique. — a mãe disse com o sorriso mais bonito do mundo e com os olhos cheios de lágrimas. — Eu sei que você não me ama mais, Vince. Mas por favor, por favor, ame o meu filho.

Nas suas últimas palavras saíram seus últimos suspiros. Os olhos marrons de Natasha se apagaram, mas ficaram marcados pra sempre no olhar do seu filho que se tornou o ser humano que Vicente mais amava no mundo todo. Seria o pai que nunca teve. E foi. Isabel e Diana, avó e mãe de Vicente, foram seu suporte e lhe ensinaram tudo. Trocar fraldas, alimentar, vestir, banhar e cuidar. Pegar no colo com jeitinho. Saber o que fazer se ele chorar. Vicente sentia que nasceu praquilo.

Mas aí aconteceu. Sábado à noite, jantar chique na casa de um casal de amigos de Diana. A mãe de Vicente já não era mais convidada para esses eventos uma vez que não era mais uma mulher casada, mas uma mulher viúva. Melhor que uma divorciada, eles diziam. Animada, Diana levou sua mãe Isabel, que ainda era uma mulher de porte ainda que já de idade e juntas foram até a residência dos Amaral para o tal jantar. Nunca chegaram.

— Mãe, eu não posso levá-las. — Vicente lamentou. — Você sabe, o Carlinhos está dormindo e já é tarde.

— Sim, meu filho. Eu imaginei. — Diana disse compreensiva enquanto colocava brincos caros de ouro branco. — Iremos de táxi.

— Tudo bem, me avisa quando chegar. — Vicente pediu. — Beijo pra minha avó. Amo vocês.

— Beijo pra você, Vince. — Diana disse com ternura. — Amamos você.

Naquela noite choveu muito na cidade de São Paulo. O taxista perdeu o controle na pista molhada, mas retomou o carro. Mas o ônibus que vinha na mesma pista não teve a mesma felicidade, este se descontrolou e jogou o táxi para fora da pista, capotando por fim. Doze pessoas morreram no ônibus, duas pessoas morreram no táxi.

Vicente nunca se perdoou. Dois meses após a tragédia, Carlos Henrique completou três anos e recebeu a visita rara da avó materna Patrícia que ligava sempre nas datas especiais e mandava bons presentes. Patrícia, na verdade, não era mãe de Natasha, mas sim madrinha e mulher que a criou e amou. Após isso, decidiu que era o momento de viver em novos ares e se mudou para a zona sul do Rio de Janeiro, deixando Alberto no comando presencial da Di Carvalho, mas sempre participando das movimentações da empresa ainda que de longe. Ao chegar ao Rio de Janeiro, Vicente recebeu o contato que não esperava: o avô materno de Carlinhos, José Carlos, o procurou, primeiramente por telefone. Natasha sempre falava do pai que vivia no Rio de Janeiro, mas Vicente nunca o tinha conhecido. José Carlos ligava com frequência para a filha, quanto ao neto, ele nunca tinha o procurado.

— Bom dia, Vicente. — José Carlos disse com a voz rouca. — Soube que está vivendo no Rio com o meu neto.

— Bom dia, seu José. — Vicente estava desconfiado. — Sim, é verdade. Estamos morando em Laranjeiras no momento, ainda não sei se...

— Ele se parece com a minha filha? — a voz de José era inabalável mesmo que mencionasse um assunto sensível.

Vicente deu uma pausa breve.

— Completamente. Os olhos, a pele, o sorriso. Tudo. — o pai sorriu ao observar o filho dormindo com serenidade.

José Carlos soltou uma risada.

— Eu quero seu endereço, rapaz. — ele pediu. — Irei visitá-los na próxima semana.

Após isso, as visitas foram constantes assim como as ligações de manhã nos fins de semana.

— Papai! — Carlinhos chamou a atenção de Vicente e deixou o celular de lado. — Qual o nome da tia de ontem? Eu vou contar dela pro meu .

Vicente sorriu e negou.

— Por favor, não diz que eu demorei tanto pra buscar você na escola! — Vicente pediu enquanto recolhia a louça suja da cozinha. — O nome dela é Antônia.

Carlos Henrique assentiu e sussurrou, afastando o celular:

Antônia vivia no apartamento de número quatrocentos e doze no quarto andar do prédio Maribella. Quando entrou em casa, bateu a porta devagar e pendurou a chave no chaveiro de metal que ficava pregado ao lado da porta. Jogou sua bolsa cheia de papéis no sofá e tirou as sandálias. Naquele sábado, seu apartamento estava bem arrumado e as cortinas abertas, o sol iluminava a sala. Antônia respirou fundo e foi até seu quarto pintado de rosa, sua cor preferida. Abriu seu guarda-roupa de madeira e olhou a prateleira que ficava abaixo das roupas penduradas no cabide, puxou então as roupas emboladas ali embaixo.

Blusas, casacos, bermudas. Várias peças de roupa de João Guilherme. Sem hesitar, Antônia levou-as pra cozinha, pegou um saco preto de lixo, enfiou todas as peças dentro dele e amarrou o saco, por fim jogou-o debaixo da pia. Não poderia jogar fora e muito menos ficar olhando sempre que abria seu guarda-roupa. A campainha tocou fazendo um barulho desagradável. Antônia fungou o nariz e foi até a porta.

— Fala, gatinha. — a mulher na porta abriu um sorriso.

E isso automaticamente fez o dia de Antônia mais feliz, a voz energizada de cabelos dourados e olhos cor de mel invadiu o apartamento quatrocentos e doze. Eduarda Gonçalves era a melhor amiga de Antônia desde a faculdade. Ambas se conheceram no primeiro período do curso e enquanto Antônia estudava história, Eduarda estudava biologia e hoje trabalhava no zoológico da Quinta da Boa Vista.

— Oi. — Antônia respondeu com um sorriso torto.

Duda a abraçou com os braços que carregavam pesadas compras de super mercado.

— E aí, vamos ao jogo hoje? — a amiga perguntou casualmente enquanto deixava as compras perto da porta e pegava um copo d´água na cozinha. — Nem sei se ainda conseguimos ingressos, mas tudo bem.

Antônia negou em silêncio e foi até o sofá. Sentou-se nele de pernas cruzadas – perninha de chinês – e descansou as costas.

— Você parece arrasada. — Eduarda falou com sinceridade encostada na soleira da passagem entre a sala e a cozinha. Tomou um gole d’água. — O que aconteceu?

Antônia segurou o rosto com as duas mãos e respirou alto, segurando o choro. Eduarda caminhou depressa e sentou-se ao lado da amiga, deixando o copo d’água na mesinha de centro.

— Acabou, Duda. — a professora contou com a voz amargada. — De uma vez por todas.

Eduarda nunca suportou João Guilherme, sempre o achou irritante, preconceituoso e completamente brega. Mas não suportava mais ainda ver a dor estampada no rosto de sua melhor amiga com o coração partido. Antônia deitou no colo de Eduarda e chorou com força.

— Foi o melhor pra você, meu amor. — Duda dizia enquanto passava a mão pelo rosto molhado de Antônia. — Você merece mais e melhor.

A professora não dizia nada, não conseguia parar de chorar. Ficou nesse estado por mais ou menos cinco minutos, estava desaguando de uma vez por todas.

Antônia enfim lavou o rosto e respirou fundo, sentiu ódio de si mesma por sentir tanto diante de uma situação como essa, mas, no fundo, ela sabia que a dor fazia parte da vida e sem ela não significaríamos nada. Após muita insistência de Eduarda, a professora pegou a sua melhor blusa alvinegra e saiu do seu apartamento em direção ao estádio São Januário. Fazia muito tempo que as duas haviam feito o seu programa preferido: assistir a jogos do seu time do coração, o Vasco da Gama. Futebol era uma das grandes paixões de Antônia desde menina, ficava acordada até tarde para ouvir no rádio os jogos do Ceará contra qualquer time que fosse. Mas foi no Rio de Janeiro que ela se apaixonou de verdade por um time.

Antônia ajeitou seus óculos escuros enquanto Eduarda pegava dois copos largos de cerveja. Era dia de clássico, Vasco e Flamengo.

— Hoje eu espero mais do que nunca uma goleada em cima desses caras. — a professora disse enquanto dava a primeira golada em sua cerveja.

João Guilherme veio à sua mente durante uns instantes, mas seu rosto sumiu quando a torcida começou a cantar.

***

Carlinhos entregou o celular exageradamente grande ao seu pai. Vicente olhou a tela que dizia que a ligação havia durado doze minutos.

— O que o vovô disse? — Vicente perguntou casualmente colocando o celular na bancada e terminando de guardar a louça.

Carlos Henrique sentou no sofá desajeitado e piscou os olhinhos pro seu pai.

— Ele me disse que vem visitar semana que vem. — ele contou com um sorriso. — E ele disse que tá na hora de você arrumar uma namordada.

Vicente riu. Já fazia anos que José dizia a mesma coisa.

Namorada, filho. — Vicente corrigiu.

A criança assentiu sem se importar. O celular de Vicente voltou a apitar e o suspiro longo veio com força.

— Carlinhos, vai ver desenho, eu já vou ficar com você. — o pai falou enquanto atendia o celular.

Carlos Henrique partiu pro seu quarto de brinquedos onde tinha uma televisão enorme enquanto seu pai sentava-se à mesa de jantar e abria seu laptop, na tela havia notificações de chamadas de vídeo não atendidas. Ligou novamente.

— Bom dia, Vicente! — o sorriso amarelo de Alberto surgiu na tela após o terceiro toque.

Vicente assentiu.

— Bom dia, Alberto. — ele cumprimentou simplório. — Quais são as novidades?

Alberto pigarreou e ajeitou a gravata vinho que usava. Aquela situação sempre dava um frio na espinha em Vicente, ele sempre desgostou da presença de Alberto nos altos cargos da Di Carvalho, mas após a morte de Osmar, o herdeiro não teve muito escolha já que tomar conta da empresa sozinho estava fora de cogitação, tinha náuseas só de se imaginar engravatado numa sala gelada todos os dias ainda vivendo em São Paulo.

— Acabei de conversar com um franqueador educacional. — o vice presidente da construtora começou. — Uma rede de ensino carioca quer montar sua primeira unidade na Avenida Paulista e nos quer no trabalho. Será uma obra grande e se tudo der certo, eles ainda querem contar com os novos serviços para futuras unidades aqui em São Paulo.

Alberto contava com um sorriso no rosto.

— Que ótimo. — disse Vicente. — Entrarei em contato com a Cíntia hoje mesmo e a pedirei para marcar uma reunião entre eu e o...

— Não há necessidade, Vicente, ora eu mesmo posso...

Eu sou o presidente e o dono desta construtora, Alberto. — Vicente o cortou de imediato. — Mas já que está cheio de disposição, marque minha reunião você mesmo. Quero esse horário pontuado na minha agenda ainda hoje. Obrigado.

Vicente abaixou a tela do laptop cinza e descansou as costas na cadeira. Não suportava Alberto desde que era novo e com o passar dos anos – e da maldita convivência — tudo só ficava pior. Respirou fundo e seguiu até o quarto de brinquedos de Carlinhos onde achou o menino deitado no seu tapete de bichinhos observando a televisão com os olhinhos brilhando.

— Papai, lê pra mim. — a criança levantou astuta no instante em que o pai entrou no cômodo.

Vicente sorriu.

— Claro. — e sentou-se no tapete enquanto o filho lhe entregava um livro fino.

Carlinhos se esticou todo e apertou o botão da televisão, desligando-a. Agarrou sua almofada cor de rosa e deitou-se confortável no tapete de frente para o pai que limpou a garganta e começou a leitura.

— Capítulo um, o menino que sobreviveu...

***

O jogo chegou ao fim com um placar amargo aos rubros negros.

— É isso aí mesmo, seus pedaços de...

Antônia gritava em polvorosa, mas não chegou a terminar sua frase porque, por sua sorte, Eduarda estava lá para impedi-la. Após noventa minutos repletos de gritos e cervejas, Antônia estava, no mínimo, muito alterada.

— Que isso, Duda, me deixa falar. — a professora reclamava enquanto saía das arquibancadas trocando as pernas.

Eduarda riu enquanto a segurava pelo braço.

— Só torce pra nenhum pai de aluno seu estar por aqui. — Eduarda disse enquanto elas deixavam as arquibancadas de uma vez por todas.

Antônia estava imersa na boa e velha sensação de estar bêbada. Não pensava em nada além da vontade de comer macarrão instantâneo e tomar um banho gelado, pelo menos era só isso que se passava por sua cabeça até Eduarda mencionar “pais de alunos”.

— Eu conheci um homem ridículo essa semana. — Antônia praguejou apoiando-se na amiga.

As duas já deixavam o estádio com a multidão.

— Homem e ridículo é quase redundante. — Eduarda pontuou enquanto se esgueiravam de um grupo que bloqueava a passagem. — Mas fala aí, o que ele fez?

Antônia ponderou como se estivesse tentando se recordar.

— Esqueceu o filho na escola! — ela exclamou com força e pendeu com o corpo pro lado.

Eduarda puxou-a de volta pelo braço.

— Ele deixou uma criança de seis anos esperando por horas, Eduarda! — Antônia enfatizou com irritação. — Horas! Ho-ras!

Eduarda riu e quando tentou fazer um comentário foi impedida pela contínua falação de Antônia.

— E ainda mais quis se justificar, me dizendo que era difícil ser um pai solteiro! — ela continuou. — Era todo pomposo e cheio de relógios caros no pulso! Tudo bem, tudo bem! Era um relógio só! Mas era um absurdo, um absurdo!

Eduarda assentiu enquanto se aproximavam do ponto de ônibus e novamente tentou falar algo, mas foi interrompida.

— Ridículo, ridículo. Podre. — Antônia continuou e pôs a língua pra fora como uma criança para demonstrar seu completo desgosto por Vicente.

A bióloga a olhou com vontade de rir.

— Colocou pra fora? — ela perguntou finalmente.

Antônia assentiu e cruzou os braços.

— Com certeza vou vomitar em casa. — a professora afirmou e encostou a cabeça no ombro de Eduarda que a abraçou com um braço. — Te amo, amiga.

— Também te amo, gatinha.

O ônibus chegou alguns minutos depois, e pela primeira vez naquele dia, Antônia pensava em tudo – até em Vicente – mas a memória de João não a incomodava.

Nosso segredo, papai. — e o menininho aproximou novamente o telefone. — Então, vovô eu conheci uma tia na escola que me chama de Potter, o nome dela é Antônia...

Vicente observou seu filho contar com fervor sobre Antônia, falando seu nome de uma forma engraçada, e começou a lavar os pratos sujos. O sol queimou mais forte naquela manhã.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.