Agridoce: o que é doce e amargo ao mesmo tempo

5 Capítulo IV: Ao Fim das Memórias Malquistas


Notas iniciais
Sejam bem vindos!

Será que algum dia desses você vai dizer

Que se cansou das minhas aventuras

Que tá na hora de viver as suas

E já não pode me acompanhar?

Mallu Magalhães

***

Antônia vivia no apartamento de número quatrocentos e doze no quarto andar do prédio Maribella. Quando entrou em casa, bateu a porta devagar e pendurou a chave no chaveiro de metal que ficava pregado ao lado da porta. Jogou sua bolsa cheia de papéis no sofá e tirou as sandálias. Naquele sábado, seu apartamento estava bem arrumado e as cortinas abertas, o sol iluminava a sala. Antônia respirou fundo e foi até seu quarto pintado de rosa, sua cor preferida. Abriu seu guarda-roupa de madeira e olhou a prateleira que ficava abaixo das roupas penduradas no cabide, puxou então as roupas emboladas ali embaixo.

Blusas, casacos, bermudas. Várias peças de roupa de João Guilherme. Sem hesitar, Antônia levou-as pra cozinha, pegou um saco preto de lixo, enfiou todas as peças dentro dele e amarrou o saco, por fim jogou-o debaixo da pia. Não poderia jogar fora e muito menos ficar olhando sempre que abria seu guarda-roupa. A campainha tocou fazendo um barulho desagradável. Antônia fungou o nariz e foi até a porta.

— Fala, gatinha. — a mulher na porta abriu um sorriso.

E isso automaticamente fez o dia de Antônia mais feliz, a voz energizada de cabelos dourados e olhos cor de mel invadiu o apartamento quatrocentos e doze. Eduarda Gonçalves era a melhor amiga de Antônia desde a faculdade. Ambas se conheceram no primeiro período do curso e enquanto Antônia estudava história, Eduarda estudava biologia e hoje trabalhava no zoológico da Quinta da Boa Vista.

— Oi. — Antônia respondeu com um sorriso torto.

Duda a abraçou com os braços que carregavam pesadas compras de super mercado.

— E aí, vamos ao jogo hoje? — a amiga perguntou casualmente enquanto deixava as compras perto da porta e pegava um copo d´água na cozinha. — Nem sei se ainda conseguimos ingressos, mas tudo bem.

Antônia negou em silêncio e foi até o sofá. Sentou-se nele de pernas cruzadas – perninha de chinês – e descansou as costas.

— Você parece arrasada. — Eduarda falou com sinceridade encostada na soleira da passagem entre a sala e a cozinha. Tomou um gole d’água. — O que aconteceu?

Antônia segurou o rosto com as duas mãos e respirou alto, segurando o choro. Eduarda caminhou depressa e sentou-se ao lado da amiga, deixando o copo d’água na mesinha de centro.

— Acabou, Duda. — a professora contou com a voz amargada. — De uma vez por todas.

Eduarda nunca suportou João Guilherme, sempre o achou irritante, preconceituoso e completamente brega. Mas não suportava mais ainda ver a dor estampada no rosto de sua melhor amiga com o coração partido. Antônia deitou no colo de Eduarda e chorou com força.

— Foi o melhor pra você, meu amor. — Duda dizia enquanto passava a mão pelo rosto molhado de Antônia. — Você merece mais e melhor.

A professora não dizia nada, não conseguia parar de chorar. Ficou nesse estado por mais ou menos cinco minutos, estava desaguando de uma vez por todas.

Antônia enfim lavou o rosto e respirou fundo, sentiu ódio de si mesma por sentir tanto diante de uma situação como essa, mas, no fundo, ela sabia que a dor fazia parte da vida e sem ela não significaríamos nada. Após muita insistência de Eduarda, a professora pegou a sua melhor blusa alvinegra e saiu do seu apartamento em direção ao estádio São Januário. Fazia muito tempo que as duas haviam feito o seu programa preferido: assistir a jogos do seu time do coração, o Vasco da Gama. Futebol era uma das grandes paixões de Antônia desde menina, ficava acordada até tarde para ouvir no rádio os jogos do Ceará contra qualquer time que fosse. Mas foi no Rio de Janeiro que ela se apaixonou de verdade por um time.

Antônia ajeitou seus óculos escuros enquanto Eduarda pegava dois copos largos de cerveja. Era dia de clássico, Vasco e Flamengo.

— Hoje eu espero mais do que nunca uma goleada em cima desses caras. — a professora disse enquanto dava a primeira golada em sua cerveja.

João Guilherme veio à sua mente durante uns instantes, mas seu rosto sumiu quando a torcida começou a cantar.

***

Carlinhos entregou o celular exageradamente grande ao seu pai. Vicente olhou a tela que dizia que a ligação havia durado doze minutos.

— O que o vovô disse? — Vicente perguntou casualmente colocando o celular na bancada e terminando de guardar a louça.

Carlos Henrique sentou no sofá desajeitado e piscou os olhinhos pro seu pai.

— Ele me disse que vem visitar semana que vem. — ele contou com um sorriso. — E ele disse que tá na hora de você arrumar uma namordada.

Vicente riu. Já fazia anos que José dizia a mesma coisa.

Namorada, filho. — Vicente corrigiu.

A criança assentiu sem se importar. O celular de Vicente voltou a apitar e o suspiro longo veio com força.

— Carlinhos, vai ver desenho, eu já vou ficar com você. — o pai falou enquanto atendia o celular.

Carlos Henrique partiu pro seu quarto de brinquedos onde tinha uma televisão enorme enquanto seu pai sentava-se à mesa de jantar e abria seu laptop, na tela havia notificações de chamadas de vídeo não atendidas. Ligou novamente.

— Bom dia, Vicente! — o sorriso amarelo de Alberto surgiu na tela após o terceiro toque.

Vicente assentiu.

— Bom dia, Alberto. — ele cumprimentou simplório. — Quais são as novidades?

Alberto pigarreou e ajeitou a gravata vinho que usava. Aquela situação sempre dava um frio na espinha em Vicente, ele sempre desgostou da presença de Alberto nos altos cargos da Di Carvalho, mas após a morte de Osmar, o herdeiro não teve muito escolha já que tomar conta da empresa sozinho estava fora de cogitação, tinha náuseas só de se imaginar engravatado numa sala gelada todos os dias ainda vivendo em São Paulo.

— Acabei de conversar com um franqueador educacional. — o vice presidente da construtora começou. — Uma rede de ensino carioca quer montar sua primeira unidade na Avenida Paulista e nos quer no trabalho. Será uma obra grande e se tudo der certo, eles ainda querem contar com os novos serviços para futuras unidades aqui em São Paulo.

Alberto contava com um sorriso no rosto.

— Que ótimo. — disse Vicente. — Entrarei em contato com a Cíntia hoje mesmo e a pedirei para marcar uma reunião entre eu e o...

— Não há necessidade, Vicente, ora eu mesmo posso...

Eu sou o presidente e o dono desta construtora, Alberto. — Vicente o cortou de imediato. — Mas já que está cheio de disposição, marque minha reunião você mesmo. Quero esse horário pontuado na minha agenda ainda hoje. Obrigado.

Vicente abaixou a tela do laptop cinza e descansou as costas na cadeira. Não suportava Alberto desde que era novo e com o passar dos anos – e da maldita convivência — tudo só ficava pior. Respirou fundo e seguiu até o quarto de brinquedos de Carlinhos onde achou o menino deitado no seu tapete de bichinhos observando a televisão com os olhinhos brilhando.

— Papai, lê pra mim. — a criança levantou astuta no instante em que o pai entrou no cômodo.

Vicente sorriu.

— Claro. — e sentou-se no tapete enquanto o filho lhe entregava um livro fino.

Carlinhos se esticou todo e apertou o botão da televisão, desligando-a. Agarrou sua almofada cor de rosa e deitou-se confortável no tapete de frente para o pai que limpou a garganta e começou a leitura.

— Capítulo um, o menino que sobreviveu...

***

O jogo chegou ao fim com um placar amargo aos rubros negros.

— É isso aí mesmo, seus pedaços de...

Antônia gritava em polvorosa, mas não chegou a terminar sua frase porque, por sua sorte, Eduarda estava lá para impedi-la. Após noventa minutos repletos de gritos e cervejas, Antônia estava, no mínimo, muito alterada.

— Que isso, Duda, me deixa falar. — a professora reclamava enquanto saía das arquibancadas trocando as pernas.

Eduarda riu enquanto a segurava pelo braço.

— Só torce pra nenhum pai de aluno seu estar por aqui. — Eduarda disse enquanto elas deixavam as arquibancadas de uma vez por todas.

Antônia estava imersa na boa e velha sensação de estar bêbada. Não pensava em nada além da vontade de comer macarrão instantâneo e tomar um banho gelado, pelo menos era só isso que se passava por sua cabeça até Eduarda mencionar “pais de alunos”.

— Eu conheci um homem ridículo essa semana. — Antônia praguejou apoiando-se na amiga.

As duas já deixavam o estádio com a multidão.

— Homem e ridículo é quase redundante. — Eduarda pontuou enquanto se esgueiravam de um grupo que bloqueava a passagem. — Mas fala aí, o que ele fez?

Antônia ponderou como se estivesse tentando se recordar.

— Esqueceu o filho na escola! — ela exclamou com força e pendeu com o corpo pro lado.

Eduarda puxou-a de volta pelo braço.

— Ele deixou uma criança de seis anos esperando por horas, Eduarda! — Antônia enfatizou com irritação. — Horas! Ho-ras!

Eduarda riu e quando tentou fazer um comentário foi impedida pela contínua falação de Antônia.

— E ainda mais quis se justificar, me dizendo que era difícil ser um pai solteiro! — ela continuou. — Era todo pomposo e cheio de relógios caros no pulso! Tudo bem, tudo bem! Era um relógio só! Mas era um absurdo, um absurdo!

Eduarda assentiu enquanto se aproximavam do ponto de ônibus e novamente tentou falar algo, mas foi interrompida.

— Ridículo, ridículo. Podre. — Antônia continuou e pôs a língua pra fora como uma criança para demonstrar seu completo desgosto por Vicente.

A bióloga a olhou com vontade de rir.

— Colocou pra fora? — ela perguntou finalmente.

Antônia assentiu e cruzou os braços.

— Com certeza vou vomitar em casa. — a professora afirmou e encostou a cabeça no ombro de Eduarda que a abraçou com um braço. — Te amo, amiga.

— Também te amo, gatinha.

O ônibus chegou alguns minutos depois, e pela primeira vez naquele dia, Antônia pensava em tudo – até em Vicente – mas a memória de João não a incomodava.

Notas finais
Obrigada por chegar até aqui.