Notas iniciais
salut ! minha primeira história por aqui, espero que gostem

LOUISE

Se eu recebesse mais um sorrisinho alegre, eu entraria no meu carro, assim que ele chegasse, e atropelaria a pessoa que pensou em me ofender lançando um sorriso.

Bela Ventura era um pesadelo, eu deveria saber. Um nome irritante para uma cidade irritante. Um destino irritante definido por um chefe irritante.

— Sabe que se for presa também vai perder o emprego, não sabe? — Carolina, minha melhor amiga, disse do fone único conectado na minha orelha esquerda.

Eu mal tinha percebido que tinha chegado no ponto de fazer minhas ameaças em voz alta.

— Você ainda está aí?

— A-hã. E ouvi cada um dos trezentos novos palavrões que você acabou de inventar. Anotei todos, achei super criativos.

Bufei.

— Criativa vai ser a maneira que eu vou matar o desgraçado do Ricardo. Vai ser lentamente, mas vai ser bem criativo.

Meu querido chefe era um pilantra de marca maior, preguiçoso do cacete, que não queria saber de levantar a bunda do escritório por cinco segundos.

Quando o superior dele, que só Deus sabia porque ainda não tinha o demitido, lhe deu a tarefa de avaliar imóveis que valiam a pena naquela cidadezinha, com passagem garantida não só para ele, mas toda a sua família e um bônus astronômico, eu deveria ter desconfiado quando Ricardo passou a bomba para mim.

Claro que o chefão amou a notícia de cortar as despesas com toda a família de Ricardo por uma mulher solteira que caberia em qualquer quarto que desse para esticar a perna.

"Tudo visando o bem-estar da empresa", Ricardo disse na reunião que tivemos para acertar as coisas.

Claro, eu e o meu bem-estar que se foda.

E pensar que o que deveria ser meu bônus astronômico teria que ser dividido com aquele sem-vergonha desgraçado.

— Sem-vergonha…Des..gra.çado. — Carol falou como se estivesse escrevendo em um papel.

— Será que você pode parar? — pedi, impaciente e ela riu do outro lado da linha.

— Está bem, Ranzinza, essa Smurfette aqui vai descansar um pouco e depois te liga para saber as novidades.

— Não precisa. Com certeza, você será minha única ligação disponível quando eu estiver na cadeia.

Apertei o botão do fone para que ele desligasse e o tirei da orelha com certa brutalidade.

Até o gasto do avião aquele pão-duro do meu chefe tinha convencido o superior de que poderia ser cortado.

Depois de quase um dia de viagem, ao lado de uma criança que tinha refluxo do meu lado e vomitou pelo menos a comida que ingeriu desde que tinha nascido, desci na rodoviária com minhas pernas e costas doendo, e o cheiro horrível de comida azeda e, sei lá, suco gástrico no meu cabelo.

Eu precisava de um banho. De uma cama. De paz. De uma carta de demissão. Ou de uma arma.

Acho que a arma seria mais eficaz.

Grande foi minha surpresa ao descobrir que a Rodoviária de Bela Ventura não ficava em Bela Ventura, e a cidadezinha que eu observei no Google Maps ao redor era na verdade a cidade vizinha.

Bela Ventura ficava na mini-serra que se erguia à minha frente que (mais uma grande surpresa) não era acessível a pé e que (outra grande surpresa) nenhum ônibus subia, só carros.

O Uber estava dando o preço do meu seguro de vida, que não era muito para um seguro, mas era muito para uma viagem de vinte minutos, e as pessoas ao meu redor já não estavam tão simpáticas assim com a moça carrancuda que desceu do ônibus xingando todas as gerações das pessoas que passaram por ali.

Era até vergonhoso eu pensar em me aproximar da menina que eu tinha fingido dar um empurrão sem querer para pegar minha mala e pedir uma carona.

Por sorte, Carolina conhecia o amigo do irmão do ex dela que fazia transporte de carros e estava, naquele momento, cobrando menos do que um Uber. O homem me garantiu que conhecia um atalho que colocaria a chave em minhas mãos em no máximo quatro horas.

Se era suspeito ele fazer um percurso de 20 horas em 4? Sim, era.

Se esse "transporte de carros" era ilegal? Sim, provavelmente.

Se ele poderia muito bem pegar meu carro e sumir pelo país? Com certeza.

Mas…Cavalo dado não se olha os dentes.

Além disso, se alguém fosse querer um Argo de quase treze anos de uso, perdendo a cor e com a manutenção atrasada…bem, provavelmente essa pessoa estava bem mais necessitada do que eu.

Bem, há uma hora, Vinícius, o amigo do irmão do ex de Carolina, disse que pegou o meu possante maneiro e que estava "metendo o pé na estrada".

Só mais três horas e vinte minutos e eu estaria numa cama desconhecida, mas ainda assim numa cama.

DIANA

— Por que está correndo tanto? — Manu perguntou sugando o canudo do seu shake emagrecedor inexistente com aquele barulhinho de final de bebida.

Passei uma flanela pelo balcão embora ele já estivesse limpo.

Quer dizer, limpo, mas não organizado.

O que não tinha problema porque aquela era a estética que eu amava no Café Mágico: tudo parecia meio entulhado, porém deixava o clima aconchegante.

Pelo menos, era o que diziam e era bom para mim porque quando ganhei aquele lugar, ele já estava entulhado e acho que eu nunca criaria a coragem de começar a limpar e achar um lugar para toda aquela parafernalha.

Minha mãe olharia para mim com o mesmo desgosto enquanto eu estivesse atrás daquele balcão, estivesse ele arrumado ou não.

Eu também gostava de um pouco de bagunça, dava uma noção de movimento.

— Preciso passar na rodoviária no meu intervalo antes do horário de almoço. As encomendas chegaram bem em cima da hora e por sorte a hóspede também se atrasou. — respondi, me direcionando para as mesas e limpando-as também. Tinha que aproveitar os momentos em que ninguém colocava a cabeça para dentro perguntando se ainda estávamos servindo.

— Sabe que posso ficar aqui enquanto você vai lá, não sabe? Eu já aprendi a medida de cada coisa e gravei até alguns pedidos.

— Você sozinho no horário de almoço? Nem pensar!

Eu que trabalhava ali há anos ainda me perdia nos horários de almoço, imagine Manu.

Ele fez um biquinho.

— Não confias no meu potencial?

Fui até ele, apertei suas bochechas e me virei para que ele tirasse o nó do meu avental.

— Claro que confio, mas o horário de almoço é desesperador. Além do mais vai ser rapidinho, são só alguns lençóis, toalhas, e coisinhas pessoais, caso ela seja daquele tipo de pessoa que viaja só com as roupas do corpo.

— Ela é gata?

Rolei os olhos e me virei para Manu, que me olhava com um sorrisinho safado.

— Eu não sei, não vi a foto. E não aluguei o outro quarto para pegar ninguém.

— E quem falou que estava perguntando com você em mente? — Mostrei a língua para ele. — Mas sério, Dia, tem certeza que isso é seguro? Pode ser algum psicopata, alguém querendo te roubar, você nem sabe como é a pessoa.

Suspirei, checando meu celular para ver se tinha alguma mensagem nova. A última que tinha recebido de L. Martins, o nome de usuário dela, foi:

Estou bem perto da cidade, mas tive um imprevisto e vou atrasar algumas…muitas horas. Você mencionou que estará trabalhando o dia inteiro. Se preferir, eu dou uma volta pela cidade até o fim do seu expediente para não te deixar desconfortável entrando na sua casa sem ninguém estar lá.

E minha resposta foi:

Sem problemas! Imaginei que poderíamos nos desencontrar e deixei a sua chave dentro do vasinho de flores. Imagino que foi uma viagem longa e você vai querer descansar. E não se preocupe, eu disse quarto, mas seremos mais como vizinhas de porta rs. A casa foi dividida em duas graças a uma história divertida de divórcio. :)

Esperei que ela fosse responder pelo menos um "ok" ou "adoraria saber essa história" (ninguém resistia à minha isca para fofoca. Exceto ela.)

Me senti meio idiota por ter colocado a carinha no final do texto. Meus pais diziam que eu era "informal" demais e isso irritava as pessoas.

Enfiando o celular no bolso, falei para Manu.

— Sei tudo o que preciso. Ela é dois anos mais velha do que eu. Seu nome é Louise Martins. Sei sua data e local de nascimento, seu RG e seu CPF. Além disso, o aplicativo é super confiável e ela é verificada lá, com umas trocentas hospedagens pelo país. Então a menos que a nossa polícia seja ineficiente ao ponto de não ligá-la aos hipotéticos assassinatos que ela pode ter cometido por onde passou…

— O que não seria surpreendente…— Manu murmurou e eu continuei.

— …Acho que estou bastante segura. — Troquei a plaquinha de aberto na porta para "Fechado para o almoço". — Cuida do Zorro para mim. Já volto.

Notas finais
salut, de novo!!
espero que tenham gostado do capítulo (pode ter alguns errinhos porque só dei uma primeira revisada no meio da madrugada kkkkk)

não deixem de comentar

vejo vocês em breve