Agridoce
2 Dois
Notas iniciais
LOUISE
Eu havia feito bingo naquela rodoviária.
—Caminhar por todas as plataformas.
—Comer um enrolado de salsicha suspeito, que acabou me levando a:
—Usar o banheiro horrível, fedorento e decadente.
Como as pessoas poderiam andar felizes depois de se deparar com um ambiente daqueles.
Se bem que o banheiro estava praticamente vazio, o que provavelmente significava que as pessoas eram mais espertas do que eu e evitavam usar os banheiros.
Assim que saí de uma das cabines, outra mulher entrou na adjacente.
Não consegui ver seu rosto, nem ouvir sua voz direito porque aparentemente ela estava falando no celular.
Na verdade, a pessoa do outro lado fazia o papel de falar, a mulher só ouvia os gritos.
— Juro! Você é louca! Mas fique sabendo que quando encontrarem seu corpo numa vala, eu não vou ao IML para confirmar que é você, então pelo menos fique com a identidade no bolso para não ser enterrada como indigente.
— Eu…– A pessoa no banheiro tentou argumentar.
— Onde já se viu? Já não bastava o emprego medíocre, as tatuagens e agora colocando um estranho para morar dentro de casa!
— Mãe…– A voz da mulher soava cansada. — Eu vou desligar.
— Claro que vai! Não aguenta ouvir as verdades sobre ter responsabilidades como uma pessoa adulta e…
Um bipe indicou que a ligação tinha terminado e eu saí do banheiro depressa.
Reviver traumas com família não era algo que eu gostaria de fazer no momento.
DIANA
Depois da conversa animadora com minha mãe no banheiro, fui direto para a sessão de entregas na rodoviária.
Como Bela Ventura era um tanto inacessível para encomendas, a maioria das pessoas deixavam o endereço de entrega como o da rodoviária.
— Olá, Dia.
— Olá, seu Carlos, vim buscar uma encomenda que chegou para mim hoje e… — Reparei o homem prestando atenção em algo atrás de mim e me virei para ver o que era.
Uma mulher vestida com uma roupa social muito bem alinhada, andava de um lado para o outro na plataforma C.
— Isso é o que o orgulho faz com as pessoas. — Franzi a testa, voltando a encará-lo. — Essa moça desembarcou há algum tempo num mal humor que só. Está indo para Bela Ventura, mas parece que ou pregaram uma pegadinha nela ou ninguém avisou que a cidade fica lá em cima. Desceu do ônibus falando os maiores impropério possíveis, fez careta para meia dúzia de pessoas, e xingou a cidade umas cem vezes quando descobriu que só dá para subir de carro.
— Não era só pedir uma carona?
— Do jeito que ela irritou todo mundo? Acho que ficou envergonhada com sua atitude.
Voltei a analisar a mulher.
Ela prendeu os cabelos cacheados no alto da cabeça em um coque. Seu blazer grafite com listras brancas fininhas combinava com sua calça social que fazia suas pernas parecerem longuíssimas.
Abanou-se algumas vezes, olhando o relógio de pulso impaciente.
Parecia estar lívida e inquieta. Num impulso tirou o blazer ficando apenas com uma regata branca. Sua pele marrom clara, mesmo ao longe parecia brilhar de suor.
Ela poderia muito bem estar fazendo uma sessão de fotos ali, não fosse por sua expressão contrariada.
— Basta ela entrar em Bela Ventura que o humor dela vai mudar, tenho certeza. — comentei quando o seu Carlos colocou a minha caixa sobre o balcão. — Eu poderia oferecer uma carona para ela.
Carlos estalou a língua.
— Parece que ela pediu para trazerem seu carro, Deus sabe quando vai chegar.
— Se ela ainda estiver aqui à noite, me ligue, está bem? Posso ser hospitaleira com a visitante mal humorada e ser uma de boa samaritana.
— Combinado, mas acho é a única coisa que a curaria seria uma passada no Café Mágico, se ela passar por lá, não esqueça de fazê-la entrar.
Sorri com carinho e mexi na minha bolsa.
— Você sabe que eu nunca esqueço. — Coloquei um pacotinho simples sobre o balcão depois de assinar a encomenda. — Aqui está seu Cookie da Felicidade, seu Carlos. Não esqueci.
— Receita nova? — Ele abriu um sorriso enorme.
— O senhor sabe que é sempre o primeiro no meu coração.
LOUISE
Vinícius não chegou com meu carro.
Seu irmão gêmeo, Vitinho, chegou. No meio da tarde.
Com sua bermuda caída no meio da bunda e o boné para trás.
Pelo amor de Deus, o que estava acontecendo?
Meu carro parecia intacto por fora, mas eu não sabia qual era o verdadeiro estado dentro já que consegui ver um saco de salgadinho de cebola aberto no banco carona e, pelo visto, Vitinho tinha vindo o caminho todo suado e sem camisa no meu banco.
Consegui respirar fundo umas três vezes antes que ele saísse do carro, dando uma bela olhada no seu traseiro.
Era um traseiro até bonito, mas aquela não estava valorizando muito.
— Perdão pela demora, dona. Vinizinho teve um imprevisto com o caminhão de transporte e pediu para o Vitinho o socorrer, ha-ha.
Contive a vontade de olhar para os lados e conferir se realmente não estava dentro de alguma pegadinha.
Ele estava falando de si mesmo na terceira pessoa.
E qual era o problema com os apelidinhos, hein?
Com que tipo de pessoas Carolina estava se envolvendo?
— Sem problemas, Victor. Seu pagamento. — Abri a carteira e as notas, sentindo o acessório ficar mais leve. Me confortei pensando que faria meu chefe pagar com o sangue dele quando chegasse a hora. — Ahñ, como você vai voltar para casa, Vitin…Victor.
Ele deu um sorriso flerteiro.
— Pode me chamar de Vitinho, gatinha. Todo mundo me chama assim. E vou pegar o ônibus das 16h30, Vinizinho vai me recompensar quando eu chegar em casa.
— Claro. — respondi, sem graça. Não sabia se achava mais ofensivo o "dona" ou o "gatinha" — Muito obrigada mais uma vez. Salvou minha vida.
Me inclinei para abrir a porta do carro e levei um tapa na bunda.
Um.
Tapa.
Na.
Bunda.
— Que é isso, princesa. Adoro salvar uma donzela em perigo. — Ele piscou.
Eu me virei prestes a dar um bom esculacho nele quando observei o senhorzinho atrás do balcão me analisando com sua expressão de julgamento desde a hora que cheguei.
Talvez fosse Jesus disfarçado de funcionário de rodoviária para ver até onde minha paciência iria, então recalibrei e dei um sorriso amarelo para Vitinho.
Minha mãe tinha me ensinado a ser uma boa católica, no final das contas.
— A gente se vê. — Ele acenou quando entrei no carro, que estava cheirando a suor e cebola mais o delicioso aroma de vômito do meu cabelo que persistia.
Acenei de volta e saí da maldita rodoviária.
No semáforo que me separava da subida até Bela Ventura aproveitei para responder a mensagem que D. D'ávila tinha mandado mais cedo.
Eu havia visto a carinha feliz e começado a rezar para não ser uma daquelas pessoas intrometidas que se achavam no direito de ser só porque estava dividindo um quarto.
Ou, como ela disse, uma casa.
Mandei um "OK" porque não estava mesmo a fim de ficar rodando fedendo pela cidade esperando ela sair do trabalho. Prometi a mim mesma que faria um esforço para conversar com ela no jantar e acertarmos tudo.
Isso é, se eu não desmaiasse assim que chegasse na cama.
Quando o semáforo ficou verde, resolvi ligar o rádio para relaxar e aparentemente Vitinho tinha deixado mais uma marca: o som no último volume, enquanto alguém berrava sobre paredão, sentar e galopar.
Não necessariamente nessa ordem.
Desliguei o rádio, respirei fundo e comecei a subida, ponderando se não seria mais fácil dirigir até a extremidade e me jogar junto com o carro.
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