Agridoce

10 Terno negro


Notas iniciais
Calma, isso não é um sonho! Sim, é um capítulo novo de Agridoce e é real! Escrito com muito carinho e dedicado a querida RaaLinda que deixou uma recomendação incrível para a história, muito obrigada mesmo! Obrigada também a todos que comentam na história e apoiam a escrita. Boa leitura!

AGRIDOCE

Escrita por Coffee

Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce

1O. Terno negro

Sasuke não sabe o que lhe deu na cabeça no momento em que tinha aceitado tudo aquilo. Talvez o motivo fosse saber que Sakura estava abrindo mão de muita coisa ao seu casar com alguém como ele, e talvez essa culpa fosse o motivo.

Sakura estava passando por cima da opinião de incontáveis pessoas que diziam para ela não se casar com ele, que ele era perigoso e ruim demais para alguém como ela. Estava abrindo mão de um casamento grande e escandaloso (porque aquilo não era o estilo dele), estava abrindo mão de uma vida pacífica e tranquila, porque a vida de dois ninjas como eles seria tudo, menos monótona.

Era por isso que ele aceitara aquela estúpida ideia de jantar de noivado que mais parecia um purgatório. Não por ela, mas sim pelos seus “amigos”. Na verdade a presença da médica era o que aliviava e relaxava o ambiente, embora ela estivesse mais nervosa do que o normal, tentando mudar de assuntos vergonhosos, tentando parecer segura e casual.

Mas ele sabia que ela estava tão nervosa quanto ele. Desesperada, talvez. Com todas aquelas pessoas, falando todas aquelas coisas sem sentido, todas aquelas coisas vergonhosas e todas aquelas coisas sem graça.

Não era uma novidade, afinal.

Desde pequeno estava acostumado com a inconstância de Naruto e Ino, e a falta de vergonha na cara de Kakashi. Porém ter todos eles juntos, acompanhados de seu sogro e do infernal Sai, não ajudava em nada.

Após a sobremesa eles foram para a sala de estar. Cheios da refeição eles se espalharam pelo sofá, e ele e Sakura tiveram que se espremer em um pequeno sofá de dois lugares. Tentou disfarçar a vergonha e o mau jeito, porque seus braços estavam esmagados com os dela, suas pernas se tocando, e eles olhavam para frente, mas, se virassem o rosto seus lábios se encontrariam sem nenhum esforço.

Ninguém comentou nada, eles eram noivos, afinal. Mas ainda sim ele se sentia desconfortável com aquela proximidade perigosa.

As peles em contato faziam seu sangue ferver, e seus pensamentos se tornarem incoerentes.

— Precisamos preparar a despedida de solteiro!

O Uzumaki berrou fazendo até mesmo a namorada ao lado dele pular.

— Naruto, isso realmente não é necessário... Será uma cerimônia peque—

— Sakura-chan! É claro que precisa! Só se é solteiro uma vez na vida! Depois o máximo que vocês vão ser serão viúvos ou desquitados!

O shinobi explodiu em uma gargalhada acompanhada dos demais, e tudo que ele e a médica fizeram foi revirar de olhos.

— Naruto, você prepara a despedida do Sasuke, e eu da Sakura! Se bem que eles são tão chatos que duvido que vão relar em um gogo boy ou uma strip.

— Ino, por favor...

A rosada gemeu em insatisfação. As bochechas estavam vermelhas, e os lábios estavam sendo mordidos com força.

A Yamanaka estava preparada para dizer mais alguma coisa (provavelmente algo sem cabimento como tudo que ela falava), quando Shikamaru e Temari se levantaram avisando que iriam embora e ele e a rosada os acompanharam até a porta.

Depois de desejos de felicidade e prosperidade, os dois partiram.

Voltaram para conversas triviais (quase suspirou em alívio), até que todos eles foram saindo um a um. O Uzumaki e a Yamanaka prometeram que a despedida seria muito bem planejada mesmo após as insistentes suplicas de Sakura para esquecerem aquilo.

No fim sobraram os Harunos e ele.

— Bom, acho que apesar de tudo... Ocorreu tudo bem.

Sakura suspirou em alívio, mais confortável agora com somente os pais e ele.

Acenou positivamente, embora ele achasse que jamais pudesse classificar tudo aquilo que acontecera como bem.

Ele usaria outras palavras como: purgatório, inferno, penitência para seus pecados mais sombrios.

Contudo, preferiu o silêncio.

— Querida, acho que talvez seu noivo—

Sakura (assim como ele) previu que seu pai iria voltar para o terreno perigoso, para a areia movediça da vergonha e se levantou rapidamente.

— Papai estamos indo! Preciso descansar para o meu plantão e Sasuke para uma missão.

Eles estavam de folga, mas, pela primeira vez na vida, a médica foi tão convincente em uma mentira desesperada que ele pensou se realmente não havia uma missão.

— Oh querida, está cedo! Mas acho que você deve estar cansada.

A mãe de Sakura se levantou gentil, acariciando os ombros da filha e os acompanhando até a porta. Kizashi deu um tapa forte em suas costas e um beijo carinhoso na testa da herdeira.

— Volte logo Sakura, você tem o costume de sumir por viver enfunada naquele hospital.

— Voltarei sim papai, nos veremos com mais frequência agora com os preparativos do casamento.

A mãe de Sakura fez uma mesura educada para ele, acompanhada de um sorriso caloroso, tão parecido com o da filha. Despediu-se do mesmo modo, embora provavelmente o pequeno e contido sorriso dele deva ter parecido mais uma careta.

Eles partiram lado a lado. Era fim de tarde e havia poucas pessoas na rua. Ao todo os habitantes de Konoha já estavam praticamente acostumados com o herdeiro Uchiha e a médica Haruno andando por aí juntos e ninguém mais (ou quase ninguém) virava a cabeça para observá-los.

Era confortável e reconfortante.

— Foi melhor do que imaginei, é claro, tirando Ino e Naruto...

Sakura continuou o monólogo sem realmente se importar pela falta de resposta da parte dele que se limitava em um aceno de cabeça ou um revirar de olhos.

Chegaram ao apartamento dela quando o sol já sumia.

— Por que não sobe um pouco?

Ele acenou positivamente, subindo as escadas atrás dela. Aquilo deveria ser algo normal, afinal eles eram noivos e deveriam passar uns tempos sozinhos, mas aquilo tudo era novo demais para ele e o trazia um frio na barriga que sentira poucas vezes na vida.

Entraram.

— Quer que eu prepare um chá? Um café sem açúcar?

— Estou bem.

— Hum, hum, certo...

Ela parecia tão sem jeito quanto ele e andou desconfortável sentando-se no sofá de dois lugares cor creme. Para não parecer mal educado ele fechou a porta e fez o mesmo.

O sofá era menor do que ele gostaria e consequentemente eles ficaram mais perto que o necessário. O maldito perfume dela continuava tão convidativo como se tivesse acabado de passar.

— Sasuke-kun, há algo que eu queria falar para você e...

Ela continuou falando, mas o cheiro do perfume dela estava tirando sua concentração, assim com a visão dos pequenos lábios se mexendo ao falar.

Não soube dizer o que o levou a fazer aquilo.

Um impulso, talvez.

Ou talvez tenha sido premeditado.

Seus lábios coloram no dela.

A primeira visão que teve foi dos olhos verdes arregalados em surpresa, depois eles fecharam relaxados, assim como os dele.

Ela se aproximou dele, relando suas peles, seus braços, suas pernas e moveu a boca sobre a sua, aprofundando o beijo. Eles nunca tinham se beijado daquele jeito, tão... Quente.

E ele queria mais, embora não soubesse definir exatamente o quê ou como.

Não sabia também o que fazer com suas mãos, se tinha permissão para tocá-la mais intimamente, ou se deveria encerrar tudo ali e correr para sua casa (o mais longe dela possível).

A médica parecia ter a mesma dúvida, porque colocou as mãos tremulas em seu ombro e em seu peito, parecendo incerta do que fazer.

Eles trocaram alguns beijos, parando para tomar fôlego. E, quando a mão pequena entrou na sua camiseta, ele se afastou em um rompante.

— Eu devo ir.

Foi tudo que conseguiu dizer, ofegante pelo beijo recente.

Não esperou uma resposta, apenas saiu apartamento a fora, escutando a risada da médica.

Três semanas se passaram desde o noivado. Eles tinham marcado a data para dois meses, e os preparativos da simples cerimônia e recepção já tinham começado principalmente incentivadas por seus amigos mais próximos.

A campainha soou alta no apartamento silencioso.

Eram dezenove horas e ele se perguntou quem estaria do outro lado da porta. Sakura estava trabalhando no hospital e Naruto em missão. Aproximou-se da porta, o chakra era de um civil, baixo e leve.

Abriu a porta sem conter o franzir de testa.

— Senhora Haruno?

Não conseguiu esconder a curiosidade e o estranhamento na voz. Sua sogra parecia incerta, carregando uma sacola grande nas mãos e um sorriso contido no rosto.

— Estou em um horário ruim? Talvez devesse voltar amanhã?

— Não, não, entre.

Colocou-se de lado na porta para que ela pudesse passar. Tudo não passou de educação, porque ele realmente não entendia o que ela estaria fazendo ali. A mãe de Sakura, Mebuki era uma mulher discreta (tão diferente do marido), quase não falava, principalmente com ele. Tudo não passava de um bom dia, tarde ou noite e meia dúzia de palavras educadas.

Isso só o deixava mais intrigado em saber o que ela estaria fazendo ali.

Fechou a porta, virando-se para ela. Estava em pé, a sacola que carregava postada no seu sofá.

— Parece que viu um fantasma.

Ela comentou. Não havia ironia ou sarcasmo na voz, apenas constatação.

— Desculpe, é apenas uma surpresa.

Ver a senhora aqui. Quis completar, mas quanto menos falasse, melhor.

A mulher a sua frente adquiriu uma tonalidade cor-de-rosa nas bochechas, parecida com a da filha quando ficava envergonhada.

— Eu sei que talvez devesse ter avisado, mas... Assim que ficou pronto quis trazê-lo para você.

Uma sobrancelha negra se ergueu instintivamente. Mebuki sorriu e tocou a sacola, puxando uma capa de tecido fino, escondendo algo por detrás dela.

— Bem... Eu imaginei que você não teria quem você atrás disso com você... E como Sakura sempre diz que você é meio consternado a lojas e outros lugares muito... Populosos, tomei a liberdade para isso.

Ela tirou a capa de cima da peça, mostrando um terno negro de tecido elegante e sóbrio.

Entendeu imediatamente o que ela queria dizer.

“Você não tem uma mãe para te ajudar com isso”.

Não ficou irritado nem ofendido, na verdade ficou ainda mais surpreso.

— Eu mandei fazer em um tamanho que achei que serviria... Você e Naruto são mais ou menos do mesmo tamanho e o alfaiate tinha as medidas dele. É claro que precisará de uns ajustes e eu trouxe para podermos marcar.

O silêncio preencheu o ambiente e ela o entendeu da maneira errada.

— Eu fui muito intrusiva, não fui? Oh, eu sinto muito, quando Sakura descobrir que eu fiz isso ela vai ficar muito chateada. Eu devo ir, você mesmo pode ir atrás da sua roupa para a cerimônia e...—

Ela estava prestes a guardar o terno dentro da sacola quando ele a interrompeu.

— Não, não. Foi muito... Gentil da sua parte. Desculpe-me pela minha expressão, eu só estou surpreso.

Mebuki olhou-o atônita.

— Isso quer dizer que... Você pode prová-lo?

Acenou positivamente. Ela o entregou a peça e ele se virou para vesti-la no quarto, deixando um simples “com licença” no ar.

Serviu quase completamente. Somente a barra da calça estava um pouco curta demais, e precisava de alguns ajustes na camisa. Andou até a sala um pouco sem graça.

— Oh! Ficou tão bonito!

Sua quase sogra sorriu feliz, aproximando-se dele com alguns alfinetes nas mãos. Ela pediu licença para tocá-lo, e depois começou a dispor os alfinetes nos lugares que precisavam de ajuste.

— Acho que assim ficará bom, não? Talvez possamos afinar mais essa manga para que ela não se movimente muito...

Ela comentou concentrada, tocando o lugar onde deveria estar seu braço. Por um momento ele se sentiu envergonhado, desejou ter o membro de volta para mostrar-se a altura da filha dela (uma coisa que jamais seria). Ela pareceu notar sua inquietação.

— Querido, não se preocupe com isso. Sakura o ama de qualquer jeito. Ela já me contou que você não quis a prótese como uma forma de sempre se lembrar dos seus — ela pigarreou — pecados... E ela realmente não se importa com isso.

Não respondeu. A mais velha continuou com o trabalho, e depois disse que ele podia retirar a peça do corpo.

Voltou à sala com sua roupa normal, segurando o terno na mão. Entregou-o a ela que tratou com a maior delicadeza (típica de uma mãe preocupada) colocando-o na embalagem de tecido e posteriormente na sacola.

— Mandarei fazer esses ajustes, e quando tiver pronto trago para uma prova final, sim? Novamente peço desculpas pela minha intromissão...

Não foi intromissão.

Teve vontade de dizer, mas a única coisa que conseguiu fazer foi acenar negativamente com a cabeça.

— O que eu gostaria que você soubesse com isso é que pode contar conosco a partir de agora. Comigo e com o meu marido. Sei que Kizashi é um pouco... Intenso, mas ele gosta muito de você. E eu também, sei que não conversamos muito, mas ao contrário do que muitos pensam eu acho você um bom homem para minha filha.

Ela comentou quando estava se aproximando da porta.

— Sakura o ama e nós também. Agora você fará parte da nossa família e nós cuidaremos de você.

A mulher soltou um sorriso antes de passar pela porta.

— Boa noite querido, e desculpe novamente pela intromissão.

Ela não esperou sua resposta, apenas se aproximou do elevador, e, quando estava preste a entrar nele, foi que ele conseguiu externar aquilo que sentia. A palavra que raramente falava, e, nas poucas vezes que foram pronunciadas foram dedicadas à filha dela.

— Obrigado.

Mebuki sorriu, satisfeita e entrou no elevador. Quando as portas se fecharam, ele repetiu para si mesmo:

— Obrigado.

“Agora você fará parte na nossa família. E nós cuidaremos de você”.

As palavras ecoaram em sua mente e seu peito se aqueceu. Há muito tempo que alguém sem ser Sakura ou Naruto mostrava algum sentimento por ele. Principalmente pessoas mais velhas e com maior grau de noção de seus erros.

As palavras da sua quase sogra trouxeram um sentimento bom e uma quentura no peito.

Plenitude.

Notas finais
Oh Mebuki, assim você quebra o meu coração! Hahaha! Leiam também minha nova série de drabbles: https://fanfiction.com.br/historia/707679/Pedacos/