Agridoce
2 Cinco quarteirões
Notas iniciais
AGRIDOCE
Escrita por Coffee
Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce
2. Cinco quarteirões
Seus pés latejavam como se estivessem quebrados. Suas pernas ardiam, suas costas doíam e tudo que ela queria era encher a banheira com água bem quente e descansar.
Sua bolsa parecia pesar toneladas nos seus ombros cansados, e se aparecesse mais uma única pessoa machucada em sua frente ela vomitaria. Não que não gostasse de ajudar, pelo contrario, mas ficar a manhã, tarde e parte da noite curando um esquadrão ANBU era muito – muito – cansativo.
Parecia ter andado horas, mas ela inda podia ver o hospital caso virasse para trás.
Mais cinco quarteirões.
Mais cinco quarteirões.
Pense na banheira.
Quente e relaxante.
Pense na banheira.
Banheira.
Banheira.
Sakura?
Banheira.
Sakura?
Ban-
— Sakura?
Sasuke a olhava abismado. Ela pensou nunca ter ouvido a voz dele tão alta.
— Sasuke-kun...
Suas pernas – doloridas – fracassaram, e se ela não fosse uma ninja sabia que teria caído no chão, caso não tivesse se equilibrado rápido.
Ela só percebeu que havia parado totalmente quando ele começou a andar. Deu dois passos para acompanhá-lo.
— Tudo bem?
Ele perguntou.
— Oh! Sim... Não... Quer dizer, mais ou menos... Um esquadrão ANBU chegou hoje, muitos feridos e... Muitas cirurgias e...
— Hum.
Fazia três dias desde o seu encontro, e ela ainda se sentia envergonhada.
Ela notou um peso saindo de seus ombros, e apenas o viu segurando sua bolsa com todas as suas parafernálias pessoais e médicas.
— Oh! Realmente... Não precisava... Eu... Eu-
— Sakura?
— Sim?
— Está tudo bem.
— Oh! Certo! É claro que está! Eu... É... Estava em missão?
— Sim, cheguei hoje à tarde.
— E como foi?
— Normal.
Eles ainda seguiram em silencio durante alguns minutos.
— Eu estava pensando se... Talvez... Nós-
— Quer ir ao Ichiraku.
Ele afirmou.
— Como? Como sabe?
Ele ignorou a sua pergunta, ou talvez apenas não quisesse confessar a ela que além de poder ocular ele também tinha a habilidade da vidência.
— Sexta? – Foi tudo que ele disse.
— Sexta é bom.
Ela sorriu. Ele a deixou em frente sua casa, devolvendo-lhe a bolsa. Ela sorriu, agradecendo novamente. Aproximou-se, beijando sua bochecha, e, ao contrário do que pensou que ele faria não se afastou, aceitou seu beijo de bom grado, e depois sumiu pelas ruas.
♥
Ela alisou o vestido verde.
Ok. Pela décima sétima vez.
Saiu de casa, fechando a porta e tentando não tropeçar com os saltos.
Andou o caminho – não muito longo – tentando respirar calmamente. Quando chegou ao Ichiraku Sasuke estava sentado em uma mesa afastada, que os daria um pouco de privacidade longe dos olhos curiosos. Ainda sim o lugar preferido de Naruto não estava muito cheio, e ela agradeceu por isso.
— Oi...
Sorriu sem graça sentando em frente a ele.
Ele acenou, pediram a refeição.
As poucas pessoas que estavam ali, assim como o único ajudante não esconderam a surpresa em ver o poderoso Uchiha Sasuke sentado em uma cadeira claramente pequena demais para ele, e justamente em frente ela.
No inicio ela se sentiu sem graça, envergonhada até, e não podia imaginar como ele estava se sentindo, em ser o centro das atenções. Depois de um tempo, conversando enquanto a comida não vinha, ela conseguiu relaxar um pouco.
E no fim parecia ser apenas os dois. Ele e ela, sem ninguém em volta.
Aos poucos ela sentia o coração bater mais lento, acalmando-se. Sentia as mãos pararem de suar e suas pernas pararem de tremer.
Amar Sasuke nunca fora uma tarefa fácil. Sempre foi algo como correr uma maratona sob o sol escaldante sem água e sem lugares para se apoiar. Era difícil, exaustivo, cansativo, mas ainda sim não podia deixar de fazê-lo.
Afinal seu coração sempre fora tolo, idiota, e sempre acaba batendo mais forte quando ele se aproximava, quando pensava nele, ou quando alguém falava o nome dele. Era idiota e ela gostaria de mudar, de ser diferente, mas tudo na sua vida girava em volta dele, em torno dele.
E agora lá estava ele, andando entre as pessoas da vila como se nunca tivesse saído de lá. Fazendo missões – algumas demoradas demais em sua opinião – mas que ajudava de alguma forma a humanidade.
E ela não se importava se ele passava muito tempo fora, ou o fato de quase não conversarem, porque apenas saber que ele estava de volta, ali, tão perto dela era o suficiente, era o que lhe dava forças para se levantar todos os dias de manhã e encarar o mundo pós-guerra.
Aqueles encontros, aquela aproximação... Talvez por isso aquilo a deixava tão nervosa. No fundo, ela tinha medo, medo de ser rejeitada novamente, de cometer algum deslize e ele achá-la patética.
Eles comeram em silêncio, e no inicio aquilo a incomodou, mas depois lhe pareceu natural, começou a sentir como se aquilo fosse um hábito, como se eles sempre jantassem juntos, em silêncio, apenas com a companhia um do outro.
Depois eles conversaram, sobre assuntos triviais, como missões, hospital, jutsus, reconstrução, próteses... E quando a conta foi colocada sobre a mesa, ela pegou a bolsa que descansava sobre a cadeira.
Ele nem ao menos deixou que ela abrisse.
Sasuke balançou a cabeça negativamente, e quando ela abriu a boca para reclamar, ele já havia jogado as notas sobre a mesa. Ela percebeu que o melhor remédio era aceitar, por enquanto.
Após algum tempo eles decidiram que era hora de ir. Levantaram-se e andaram rumo a casa dela. Ela sabia que aquele não era o caminho dele, e se sentiu feliz por ele querer deixá-la na porta de casa, assim como fizera dias atrás.
— Obrigada por pagar a minha parte.
Foi o que ela disse, porque se sentia realmente grata. Não pelo dinheiro, mas sim pela gentileza que ele teve com ela. Mesmo que parecesse insensível ela jamais havia imaginado algo assim vindo dele.
— Sakura?
— Sim?
— Não sou tão egoísta assim.
Ele disse. E ela sabia que o que ele queria dizer é:
Eu sei ser gentil com uma mulher.
Ela apenas sorriu.
— Sasuke-kun?
— Hum?
— Por que está fazendo isso? Digo... Aceitando sair comigo?
De imediato ele não respondeu nada, apenas continuou a andar, assim como ela.
Depois ele parou. De repente.
E ela parou também.
E antes que pudesse perceber seus lábios estavam colados, com eles bem ali no meio da rua escura, embora não tivesse ninguém nela.
Suas pernas tremeram, um arrepio percorreu seu corpo, seu coração bateu ainda mais acelerado.
Ela entreabriu os lábios, incerta, deixando que ele acariciasse sua boca com dele. Seus lábios se encaixaram, se abriram, e suas línguas se tocaram, incertas.
De súbito ela se separou.
Mas ele pareceu não ligar, ele levou a única mão até seu rosto, puxando-a novamente em contato com a boca dele.
Seus lábios se chocaram, suas línguas se chocaram, e tudo parecia fora do controle. Pelo menos para ela.
Você também se sente assim? Sasuke-kun?
Com o coração descompassado, o corpo tremendo... A mente em transe?
— Até que enfim!
Ela se separou de Sasuke tão rapidamente que quase foi a chão.
Kakashi os observava. E ela queria abrir um buraco e enfiar sua cabeça dentro.
Viu Sasuke passar o peso de uma perna para outra, e cruzar o braço, como se não estivessem passando aquela cena vergonhosa na frente de seu sensei.
— Kakashi-sensei, eu... Nós... Quer dizer... Estávamos...
— Sakura, ele lê coisa muito pior.
O comentário de Sasuke a fez ficar ainda mais envergonhada. Tudo aquilo era novo demais para ela. Jantar junto, tentar agradar o outro, aproximação... Beijo... E ser pega em flagra.
— Eu estava pensando quanto tempo os hormônios de vocês aguentariam. Excederam minhas expectativas. Vocês ainda os têm?
— Kakashi-sensei!
O shinobi riu.
— Fico feliz por vocês estarem juntos.
Ela abriu a boca para dizer, para explicar que eles não estavam realmente juntos. Talvez nem acabassem juntos, talvez ela morresse de vergonha antes, mas ele já havia desaparecido em uma nuvem de fumaça.
Ela se virou para o Uchiha sem graça. Eles voltaram a andar rumo a sua casa, de vagar, e nada mais foi dito.
— Sasuke-kun... Obrigada pelo jantar, e por ter me acompanhado e-
— Sakura?
— Sim?
— Tente relaxar.
— Oh! Relaxar! É isso, é claro, eu estou muito relaxada, Sasuke-kun.
Ele lhe jogou um sorriso de canto, aquele que ela adorava e que atrapalhava o funcionamento fisiológico do seu corpo.
Andaram mais alguns metros, até finalmente chegarem em frente sua casa. Ela não sabia se sentia alívio, ou tristeza. Alívio por não passar mais vergonha, ou tristeza por ficar longe dele, por ter acabado.
Tente relaxar.
Ele havia pedido. E ela estava tentando, jurava que estava tentando. Mas ela tinha vontade de perguntar, — desesperada – quando se veriam de novo, quando se encontrariam de novo...
Relaxar. Relaxar.
Ela sabia que estava sendo muito apavorada nesses encontros. Mas era algo que fugia do seu controle.
Você acaba com o meu controle.
— Eu... Desculpe.
Ela disse por fim.
— Isso é... Tudo... Muito novo para mim.
Ele acenou positivamente com a cabeça, e se aproximou.
Ao contrário do que esperou, ele não encontrou seus lábios, e sim sua testa, roçando os lábios sobre ela. Parecia ser a forma dele de dizer:
Pra mim também.
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