Agridoce
9 Círculo de ouro
Notas iniciais
AGRIDOCE
Escrita por Coffee
Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce
9. Círculo de ouro
Ela permaneceu paralisada por alguns minutos. Depois seu corpo começou a tremer e ela se escorou na cadeira ao lado para permanecer em pé. O anel reluzia sobre a mesa branca.
— Está...
Começou, mas nada saiu, além disso. O rosto de Sasuke era calmo, sereno tão ao contrário dela naquele momento.
— Está...
Tentou novamente, mas não obteve sucesso.
Sua garganta arranhava e ela quase praguejou por Sasuke não ser mais direto.
— ‘Me pedindo em... — Pigarreou duas vezes — Casamento?
O moreno deu os ombros como se aquele não fosse um grande feito. Ressabiada encarou o anel sobre a mesa e depois o pegou nas mãos. Era um pouco pesado e dentro havia o sobrenome Uchiha gravado.
Olhou-o em uma pergunta silenciosa.
— Era dos meus pais.
Sua mão tremeu e a aliança quase caiu. As lágrimas voltaram. Mordeu o lábio inferior tentando se controlar. Há quanto tempo sonhava com aquilo? Desde que se lembrava era apaixonada por ele, sonhou grande parte da sua infância e adolescência em tê-lo para si, para que ele a amasse e deixasse ser amado. Para... Casar e construir uma família ao lado dele.
Sentou-se na cadeira em que estava apoiada. A palma da mão aberta segurando o anel. A fala sumiu novamente e ela ficou em dúvida se não deveria visitar a fonoaudióloga do hospital.
Em seguida veio à insegurança. O medo de que ela acordasse a qualquer minuto e perceber que nada passara de um sonho.
Perceber que Sasuke continuava afogado em vingança e ódio, longe do seu alcance.
Porém, superando suas expectativas, Sasuke se levantou e andou até ela. A mão dele segurou a sua, roubando o anel da sua palma. Depois ele olhou-a diretamente nos olhos e tombou levemente a cabeça como em um pedido silencioso.
Ela sorriu, decidindo seguir a “linha Uchiha Sasuke – poucas palavras, muitos significados” e também respondeu em um aceno de cabeça (um tanto entusiasmado demais).
Pensou ter visto um projeto de sorriso nos lábios do moreno antes dele colocar a aliança em seu dedo anelar direito.
Não se controlando após admirar o modo como anel se encaixara perfeitamente no seu dedo ela se levantou em êxtase beijando-o sem nem ao menos pensar antes.
De todo modo seus lábios foram bem recebidos, ele retribuiu seu beijo, a mão dele puxando seus cabelos no final (quando o beijo começou a ficar quente demais).
Ela passou o resto do dia olhando constante para sua mão e cantarolando.
Algumas enfermeiras passavam ao seu lado, estranhando seu entusiasmo, mas nenhuma delas pareceu notar a aliança reluzindo em seu dedo.
Quando contaram aos seus pais eles imediatamente se ofereceram para fazer uma festa de noivado, onde contariam a seus amigos. Mesmo Sasuke não gostando de festas eles não tiveram como recusar diante os olhos brilhantes de seu pai e o sorriso em expectativa de sua mãe (que parecia já estar planejando todo o cardápio).
Seus amigos mais próximos foram chamados para comparecer à casa de seus pais no sábado à noite, embora eles não tivessem dado muitos detalhes do motivo, ela retirou a aliança do seu dedo para não dar bandeira, e guardou-a para colocá-la depois do anúncio.
Naruto foi o primeiro a chegar, trouxe flores para agradar sua mãe e logo se enfunou em uma conversa sem nexo com seu pai que fez com que Sasuke a perguntasse novamente se ela tinha certeza que eles não eram irmãos.
Em seguida chegaram Ino acompanhada de Sai, Shikamaru, Temari e depois Hinata que acabava de chegar de missão.
O mais atrasado, é claro, foi Kakashi.
Tsunade estava em viagem com Shizune e por isso ela já adiantara em carta o motivo para o jantar. Sua shishou garantiu a ela que estaria presente no casamento e desejou felicidades e sakê.
Após todos terem chegado sua mãe passou com uma bandeja com taças de champanhe e Ino não aguentando finalmente perguntou:
— Champanhe hum? Qual o motivo do jantar?
Sentiu as bochechas arderem e o coração acelerar. Compartilhar aquilo com Sasuke era uma coisa, falar em voz alta parecia outra completamente diferente (e mais assustadora).
Quando abriu a boca para responder – porque imaginou que isso sobraria para ela devido a política de poucas palavras de Sasuke, foi interrompida por seu pai.
— Você está grávida.
Ele afirmou e ela o olhou em horror. Os burburinhos começaram antes que ela pudesse conter e logo a sala estava com vários muxoxos de gravidez.
— Sakura grávida?
— Sasuke foi rápido!
— Essa testuda... E o Uchiha hãm? ‘Se faz de sonso mais—
— Não! — Ela disse, um pouco alto demais — Não estou grávida.
Passou a mão – a que não segurava o champanhe – em frente ao corpo negando.
— Desde que vocês contaram que estavam noivos que tenho desenvolvido essa teoria. — Seu pai deu com língua nos dentes.
— Espera! Vocês estão noivos?
— Como você não me contou nada?
— ‘Me sinto traído!
— Eu li em um livro que—
Passou as mãos nos cabelos desesperada. Sasuke ao seu lado encarava o teto e não parecia estar com vontade e ânimo para esclarecer qualquer coisa.
— Calma! Gente! Por favor!
Mas nada parecia calá-los. Olhou para Sasuke, furiosa.
Ou você resolve isso agora, ou—
— Fiquem quietos.
Foi tudo que ele disse, com aquela voz que deixava até surdos assustados. Até mesmo seu pai tremeu sentado no sofá e ela temeu pela benção dele.
O Uchiha olhou para ela, como se dissesse “agora você pode falar” e foi o que ela se concentrou em fazer.
— Obrigada! — Sorriu sem graça — Papai, eu não estou grávida.
— Não mesmo, não sei como acreditei na possibilidade... Eles são tão puritanos que me dá gastura.
A Yamanaka comentou já tendo bebido praticamente todo o champanhe que deveria ser guardado para o brinde.
Seu pai sorriu ao ouvir Ino chamá-los de puritanos como se por causa daquela palavra ela voltava a ser a filhinha do papai de cinco anos de idade.
— Noivos... Ninguém me contou...
O loiro continuava resmungando encostado na parede da sala com feição de traído. A namorada tentava consolá-lo. Shikamaru e Temari olhavam para ela, como se esperassem que ela continuasse e Kakashi observava as plantas de sua mãe (não que estivesse realmente interessado).
— Bem... — Ela sorriu novamente, amarelo, olhando para Sasuke — Marcamos esse jantar para anunciar que decidimos nos casar — Quando percebeu que Naruto abrira a boca, continuou — Ninguém sabia ainda Naruto, somente meus pais.
Escondeu que Tsunade sabia para que o loiro não reclamasse, porque até ela explicar o motivo de sua shishou ter ficado sabendo, ele provavelmente estaria rolando aos prantos no meio da sala.
O jinchuriki riu em alívio e depois ergueu o copo, derrubando metade da bebida no tapete de sua mãe, e começou a gritar:
— Noivos... Noivos... Dá pra acreditar, Hina-chan?
Sasuke ao seu lado olhou para os presentes em dúvida, como se pensasse o porquê de ter aceitado fazer parte daquele jantar e depois tocou em seu copo, lembrando-a de anunciar o brinde.
Provavelmente ele queria acabar com aquilo o quanto antes.
— Depois conversaremos mais sobre isso, mas vamos fazer um brinde, para podermos comer depois...
— ‘Me deixe anunciar! ‘Me deixe anunciar!
O Uzumaki berrou fazendo com que a própria companheira se afastasse alguns centímetros dele. Mesmo sabendo que iria se arrepender daquilo, deixou que o loiro seguisse.
— Então, proponho o brinde, para a Sakura-chan e o teme! Que eles encontrem a felicidade e que a Sakura-chan consiga melhorar o humor do teme!
Eles ergueram os copos e ela se alegrou por ele não ter falado nenhuma asneira.
— Todos aqui sabemos como ela pode fazer isso!
Seu copo rachou em sua mão, Sasuke ficou pálido ao seu lado, seu pai sussurrou “e a parte dos puritanos?”, sua mãe, Kakashi e Ino soltaram uma risadinha (que ela não queria saber o que significava) e os demais presentes, piscaram.
— Esqueçam os brindes, vamos jantar.
Falou, puxando o seu noivo em direção à cozinha.
Talvez comendo eles calem a boca.
Parem de falar essas coisas vergonhosas.
Quero enfiar minha cabeça nessa panela de macarrão.
Ou abrir um buraco e me enfiar lá dentro.
Sasuke podia me ajudar falando alguma coisa, pra variar.
Continuou ralhando mentalmente até que todos se sentaram em volta da mesa e iniciaram a refeição. Como o esperado todos se mantiveram em silêncio e ela quase chorou em glória.
Após comerem, quando sua mãe com a ajuda de Temari retirava os pratos para servir a sobremesa, o momento de paz terminou.
— Nem acredito que vocês vão se casar!
Naruto gritou batendo tão forte nas costas de Sasuke que ele foi jogado para frente e depois olhou mortalmente para o loiro.
— Com toda aquela confusão sobre gravidez nem tive como dar os parabéns!
A Yamanaka falou já se levantando e indo em direção a eles. Então eles também se levantaram para receber os cumprimentos dos amigos. Sasuke retribuiu a todos um pouco ressabiado, até mesmo a seu pai bateu vezes seguidas nas costas do moreno.
— Papai, eu já cansei de falar que Sasuke-kun não gosta muito que o toquem.
— Ele quer levar minha princesinha embora e eu não posso tocá-lo? É bom que ele se acostume!
— Isso mesmo senhor! Coloque uma coleira no teme! — Naruto gritou alto demais.
Os dois estouraram em uma risada, e o moreno se mexeu incomodado ao seu lado.
— Tenho tanta coisa para arrumar! Já pensou no modelo do seu vestido? — Ino perguntou.
— Na verdade... Não...
— E já pensou em qual tipo de lingerie vai usar na su—
— Vamos à sobremesa!
Gritou nervosa cortando a amiga. Todos se sentaram novamente aproveitando o doce feito por sua mãe, exceto seu noivo que se recusou a sequer experimentar.
Noivo...
A simples palavra parecia uma utopia, era impossível crer que era real, que tudo aquilo estava realmente acontecendo. Ela estava noiva de Sasuke, o homem que amara sua vida inteira. Ele havia a enxergado, havia retribuído seu amor e agora eles passariam o resto das suas vidas juntos.
Vou me casar...
Vou me casar com Sasuke...
Vou vomitar...
Seu coração batia descompassado toda vez que pensava nisso, então ela abandonou o doce, nervosa com a constatação.
Sasuke ao seu lado pareceu notar sua confusão mental e olhou-a em dúvida.
Os demais estavam distraídos parabenizando sua mãe pela sobremesa então ela pode sussurrar baixinho:
— Mal posso acreditar que vamos nos casar.
Esclareceu o que se passava em sua mente. O moreno acenou positivamente como se entendesse e compartilhasse do mesmo sentimento.
— Parece algo utópico...
E maravilhoso demais para ser verdade.
— Ei! O que vocês dois estão cochichado aí?
O Uzumaki perguntou, após comer quatro pedaços de doce.
— Nada, Naruto.
Sorriu amarelo.
— Então Sakura, não vai nos contar como foi o pedido? — Ino perguntou.
— Oh! É mesmo, ela não contou nem para mim!
Sua mãe completou e ela corou.
Seus momentos com Sasuke pareciam algo único e incrivelmente particular. Momentos que somente eles dois entendiam a dimensão e extensão de tudo. Não era algo se sentia a vontade em compartilhar, as outras pessoas não entenderiam.
Ainda sim se limitou a dizer:
— Ele me deu o anel.
— Só? Sai, se você só me entregar o anel eu jogo ele na sua cabeça.
O pintor olhou para a namorada em dúvida, balbuciou algumas palavras e depois voltou para o seu doce.
Exatamente como previra: as outras pessoas não entendiam.
Não entendiam o esforço que Sasuke teve que fazer para se abrir daquele jeito, para entregar a ela o anel que um dia pertenceu aos seus pais. Para propor dividir a casa, a intimidade, a vida.
Ela entendia, e apreciava todo o esforço que ele fizera, primeiramente para sair com ela, os encontros, para beijá-la pela primeira vez, para pedi-la em casamento.
O homem machucado havia encontrado redenção, e aos poucos se abria para ela, permitindo que ela ocupasse espaço em sua casa, em sua vida.
Para os dois tudo era muito novo, muito íntimo, e por esse motivo ela não se importava com o que os outros achavam sobre a relação deles, se achavam que ela era dada demais e ele frio demais. Pois sabia que era exatamente assim que os outros os enxergava.
Mas ela não se importava. Ela sabia e sentia o carinho, a preocupação, o amor disfarçado em pequenos atos e ações. Por isso ela deixara o passado para trás, o sofrimento e a dor que passaram, deixara a opinião dos outros para lá e aceitou o pedido sem pestanejar.
E sabia que se ele a pedisse em casamento em outras mil vidas, em todas, ela diria sim.
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