Agridoce
5 Bochechas vermelhas
Notas iniciais
AGRIDOCE
Escrita por Coffee
Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce
5. Bochechas vermelhas
— Não que eu não goste de comida de graça, mas eu estranhei o convite de vocês!
Foi a primeira fala (berro) de Naruto quando ele e Sakura chegaram.
Começou a pensar o que diabos estavam fazendo ali e tentando lembrar como Sakura o convencera que aquilo teria chances de dar certo.
— Ainda mais porque você teme, é um puta de um egoísta que gosta de guardar toda a grana Uchiha pra si próprio, e a Sakura-chan prefere ficar cheirando éter a vir comer ramén comigo e—
— Naruto...
Sakura gemeu, com uma mão massageando a testa e ele teve vontade de se virar para ela e falar “eu avisei, disse que era uma ideia estúpida”, mas achou que talvez aquilo fosse insensível demais, e escolheu o silêncio.
Uma moça veio até eles recolher os pedidos. Estavam sentados em uma mesa mais afastada do Ichiraku e ele começava a concordar que Sakura estava certa e que eles deveriam ter chamado Naruto para uma conversa em casa, mas ele havia dito a ela que não, porque não queria o loiro sujando a sua casa com os sapatos sempre imundos, nem queria que ele explodisse e quebrasse sua mesa de centro.
Mas, perto do provável escândalo que Naruto faria (maior do que já estava fazendo) ele entendeu que deveria mesmo tê-lo convidado para conversar em casa. Mas pelo menos a mesa quebrada seria do Ichiraku e não da sua residência.
— Pode trazer uns nove raméns de porco, só pra começar! — O Uzumaki gritou, passando mão na barriga e sorrindo — Traga também sakê e... Bom... Depois eu escolho mais! Quero comer pra semana inteira que hoje é boca livre!
O Uzumaki gritou tão alto que a atendente deu dois passos para trás e as outras pessoas que estavam ali, se voltaram para eles. Sakura abaixou-se ao seu lado, com as bochechas vermelhas feito fogo, e o loiro explodiu em uma gargalhada.
— E vocês?
A jovem perguntou ainda em dúvida.
Sakura estava abaixada, desesperada e não parecia hábil para responder a pergunta, então ele tomou o lugar.
— Dois raméns de legumes.
Ele definiu, porque era o que eles sempre pediam quando iam até ali. Ele quis pedir sakê, mas achou que seria melhor ele e Sakura se manterem sóbrios para as reações do jinchūriki.
A moça acenou positivamente, ainda olhando em dúvida para o loiro e saiu de lá o mais rápido que pode. A iryou-nin limpou a garganta, e se ajeitou na cadeira, enquanto suas bochechas aos poucos voltavam à coloração normal.
Antes que ele ou Sakura pudessem falar alguma coisa, o loiro começou a contar da última missão que havia feito. Vangloriando-se, e provavelmente, contando mais mentiras do que a verdadeira história.
A comida foi servida. A médica abriu a boca para falar assim que a garçonete se foi, mas o loiro se escondeu atrás de uma das nove tigelas de macarrão postas a sua frente, se afogando nela.
Observou Naruto comer horrorizado (mesmo depois de tantos anos ele nunca se acostumaria) e quis vomitar. Sakura ao seu lado olhou para a própria comida incerta, comeu uma ou duas vezes, e depois, colocou os hashis ao lado e olhou para o loiro que em questão de segundos já estava na terceira vasilha.
— Então, Naruto...
Ela começou, observou-a morder os lábios em dúvida, fechar as mãos vezes seguidas... Ela até olhou para ele como se pedisse por ajuda ou piedade, mas ele não sabia como fazê-lo.
Vê-la tão desesperada daquele jeito o deixava desesperado também.
O loiro olhou para ela por alguns segundos, com a boca suja, e depois mudou a atenção novamente para a refeição.
— Então... Bem... Nós queríamos dizer que nós estamos — Ela limpou a garganta mais uma vez — Nos vendo...
— Sim, eu também estou vendo vocês, é meio difícil não ver, afinal estamos um de frente pro outro... Depois eu que sou babaca...
Sakura olhou para ele, em derrota, e depois fitou Naruto. Ela fechou as mãos em punho, furiosa, como se estivesse pronta para levantar e socar o loiro, mas ela permaneceu sentada, respirando alto.
— Naruto — Ela recomeçou — Estamos saindo...
— Sim, eu também, tive que sair de casa para vir até aqui. Nem tive tempo de tomar banho.
O loiro cheirou a própria blusa e fez uma careta. Ainda com o macarrão intocado em sua frente, ele fez menção de se levantar, mas a rosada segurou seu braço o puxando para baixo um pouco brusca demais.
Ela olhou-o raivosa, como se gritasse: “Resolva isso”.
Não era experiente em relacionamentos, por isso não sabia o papel que cabia a ele, mas com ela ali, gritando pelos olhos, ele desconfiou que deixar as coisas claras para Naruto era uma tarefa dele.
Por que não pediu sakê mesmo?
Até cogitou a ideia de pegar a bebida do Uzumaki, mas ele estava se afogando em comida e sakê de tal maneira que ele queria ficar distante de qualquer resquício dele.
Respirou fundo (e percebeu que talvez tenha ficado algum tempo sem fazê-lo, porque seus pulmões pareceram aliviados) e depois soltou de repente, antes que perdesse a coragem.
— Eu e Sakura estamos tendo um relacionamento.
Os hashis do loiro tintilaram ao cair, o copo de sakê virou, e Sakura empurrou sua própria cadeira para trás para que não se molhasse.
— Um relacionamento — O loiro repetiu como se testasse a palavra em sua boca.
Ele quis levantar novamente e sair dali, mas resistiu à vontade.
— Naruto — Sakura chamou, com a voz mais amena, e procurou a mão do loiro sobre a mesa para segurá-la. — Estamos namorando.
Naruto olhou-os horrorizado. Ele apostava que se tivessem dito que tinham incendiado o prédio do Hokage ou roubado o único banco de Konoha a reação do loiro seria mais amena do que aquilo.
Olhos arregalados, a boca (ainda com restos de comida) aberta, a mão que não estava sendo segurada por Sakura, caída ao lado do corpo.
Os olhos azuis vagaram entre Sakura, ele e o nada.
Sakura virou-se para ele, largando a mão do loiro, e cochichou baixinho.
— Acha que ele está em estado de choque? Talvez devêssemos levá-lo para casa? Ou para o hospital?
Acenou negativamente, e voltou o olhar para a criatura em sua frente.
— Uau.
Foi tudo que ele disse um tempo depois.
— Kakashi-sensei e Sai tinham dito algo, mas eu não coloquei muita fé...
A rosada olhou para ele, como se esperasse a benção de seu próprio pai.
— Naruto... Está tudo bem? Quer dizer—
— Isso é tão incrível!
Foi o que o loiro gritou, de repente, e mais uma vez todas as cabeças presentes se viraram para eles.
O jinchūriki se levantou rapidamente, trombando na mesa, e ele segurou-a para que ela não caísse em cima deles. Naruto levantou Sakura da cadeira, fazendo com que a cadeira dela tombasse para trás, enquanto ele girava Sakura pelo ar, sufocando-a, e para ele sobrou novamente à tarefa de segurar a cadeira para que não caísse.
Quando o Uzumaki colocou Sakura no chão, começou a andar em direção a ele, mas ele mexeu as mãos no ar, como forma de deixar o loiro longe de si, mas ele não entendeu (ou fingiu não ter entendido).
Levantou-se antes que o loiro fizesse uma cena ridícula, rodopiando-o pelo ar como fizera com Sakura. Naruto finalmente pareceu perceber seu desconforto, e limitou-se a bater em suas costas algumas vezes, antes de se sentar.
— Hina-chan vai adorar saber! Podemos sair, nós quatro em um—
— Naruto — Chamou, os olhos vibrantes se viraram para ele. — Menos.
Os olhos azuis pareceram sofrer uma queda na taxa de felicidade. Sakura também percebeu.
— É que... Nós estamos começando isso ainda... Naruto... — Sakura explicou — Ainda nem falamos com os meus pais e...
As bochechas dela mais uma vez ganharam coloração.
— Posso ir? — O loiro pediu.
A rosada olhou-o em dúvida.
— O dia que forem falar com os seus pais. Posso ir? — Uma gargalhada veio — Adoraria ver esse filho da puta do teme tremendo na base! Ele vai se arrepender de rir quando eu o contei sobre mim e Hiashi e—
A iryou-nin gemeu novamente em frustração ao seu lado.
— Nós achamos que deveríamos te contar porque bem, você é nosso amigo, e nós temos muita consideração por você.
Sakura sorriu, e ele quis virar para ela e dizer “fale por você”, mas não disse nada.
O loiro começou um discurso estúpido, agradecendo pela consideração, falando que achava que aquilo nunca aconteceria, e enumerando os motivos pelos quais ele tinha que cuidar bem de Sakura.
— O teme é um bundão. Eu não sei como você pode gostar dele, mas já que gosta... Fico muito feliz por vocês.
E sorriu, radiante como se não tivesse acabado de diminuí-lo na frente da sua... namor- companheira, voltando a comer mesmo com a mesa revirada.
Sem graça ele viu a mão de Sakura procurar a sua por de baixo da mesa. A mão pequena pegou a sua, delicadamente, apertando-a como um carinho, como um afeto, como se dissesse “estou aliviada”, ou “ele quebrou menos coisas do que esperávamos”.
Talvez, fosse apenas um segurar de mãos, mas ele sentia que conhecia Sakura o suficiente para saber o que ela queria dizer mesmo que a voz não se fizesse presente.
— Espera aí!
O loiro gritou, de repente, os olhos azuis voltando ao sentimento de horror.
Algumas pessoas pularam se seus acentos com o grito do loiro, e a médica abanou a mão sem graça para os outros, pedindo desculpas.
— Fale baixo.
Sakura advertiu Naruto, e ele nunca imaginou que fosse se sentir tão grato pelo pedido dela depois de ouvir o que o loiro tinha a falar.
— Vocês namorando assim de repente! Sakura-chan! Você está grávida!
A médica colocou a cabeça entre as mãos, como se quisesse chorar.
— Ela não está grávida Naruto.
Ele disse, porque ela não parecia poder negar nada.
— Sei! Teme, eu espero realmente que você não tenha enfiado essa sua serpente imunda na minha doce e inocente Sakura-ch—
A cadeira de Sakura quase virou com ela junto, e ele (novamente) segurou-a no lugar.
Falar de sexo com um casal recente, ou, um casal que ainda não tinha desfrutado dele, não era algo inteligente. Mas o loiro nunca fazia coisas inteligentes, e pareceu não pensar antes de falar algo como aquilo (não que ele pensasse geralmente).
A rosada mantinha as mãos em frente ao rosto, como se quisesse desmaiar.
Agora ele entendia porque a companheira de Naruto, Hinata desmaiava tanto. Não era de amor, e sim pelas besteiras que o Uzumaki falava.
Dessa vez ele se levantou, puxando Sakura ainda horrorizada pelo braço. Enquanto eles se afastavam do Ichiraku, Naruto começou a berrar.
— Heeeeey! O que foi que eu fiz? Heeeeey! Teme seu filho da puta! Você disse que ia pagar a conta! Heeeeeeeeeey!
Ele fingiu não ouvir. Porque realmente não voltaria lá pagar Naruto por ter colocado ele e Sakura novamente na fase do desconforto justo quando eles estavam superando-a.
Sakura olhou para ele, quando eles já estavam longe o suficiente da presença do loiro, e a única coisa que ele reservou para dizer a ela foi:
— Eu te avisei.
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