Agridoce

6 Muxoxos irregulares


Notas iniciais
Muito obrigada pelos maravilhosos reviews! Boa Leitura!

AGRIDOCE

Escrita por Coffee

Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce

6. Muxoxos irregulares

Sasuke estava já há alguns minutos em frente a porta da casa dos pais de Sakura, indeciso se deveria bater, tocar a campainha, chamar o nome dela ou apenas esperar que ela notasse seu chakra.

Um conjunto de vozes podiam ser ouvidos lá dentro, mas ele não se atentou em tentar entender a conversa, não queria ficar mais nervoso do que já estava, nem mais patético. Ele era, provavelmente, motivo de chacota de toda sua família onde quer que eles estivessem.

Ridículo.

Por fim, ele decidiu que Uchihas não deveriam sentir receio, e ergueu uma das mãos para tocar a campainha, mas ele ouviu a voz feminina gritando “sejam gentis” e em seguida a porta foi aberta por uma Sakura corada.

Ele podia jurar que ela tropeçou na escada que ficava há alguns metros atrás dela antes de abrir a porta, porque ela passou a mão rapidamente alisando as roupas e arrumou o cabelo, depois, por fim, sorriu para ele.

— Tão pontual. — Foi tudo que ela disse, revirando os olhos.

Tão ao contrário de você.

Ele quis responder, mas uma figura masculina despontou no topo da escada da sala de estar e ele preferiu o silêncio.

Sakura pareceu finalmente notar que ele ainda estava fora e deu espaço para que ele entrasse. Incomodado e sentindo o olhar masculino sobre ele, enfiou as mãos nos bolsos (porque não sabia o que deveria fazer com elas) e entrou.

A casa dos pais de Sakura parecia pequena por fora, mas a sala de estar que o acolheu era arejada e iluminada, tinha um conjunto de sofás marrom, uma mesa de centro de tampão de vidro com um único vaso de lírios no meio. A escada ficava a esquerda, quase de frente para a porta, espiral e branca, e ele podia facilmente imaginar Sakura correndo por aquela sala, sentada no sofá assistindo televisão, e até mesmo pulando os degraus da escada quando mais nova.

Era estranho estar pela primeira vez na casa em que Sakura crescera em que ela aprendera a andar e falar as primeiras palavras. Apesar dela já não morar mais ali, com os pais, parecia que cada canto que ele olhava, tinha um pedaço dela.

Desde os vasos de flores espalhados por todos os cantos, até o conjunto de quadros familiares.

Ele se sentiu desconfortável (ainda mais, porque o pai dela continuava a lhe encarar), mas não pelo olhar direcionado a ele, e sim porque tudo ali parecia intimo demais, ele parecia estar entrando em um mundo secreto. Tudo ali parecia muito intimo, desde as fotos de Sakura correndo na grama, sentada na praia comendo areia e até mais velha recebendo seu diploma de médica-nin graduada até o modo como as almofadas no sofá parecia milimetricamente organizadas.

A casa cheirava a comida, mas ele podia facilmente sentir também o cheiro de flores em meio ao outro, e ele sabia que se a mãe dela não estivesse cozinhando, o cheiro daquela casa seria de flores.

— Pai.

Sakura chamou, em um tom de reprovação, quando ela pareceu notar (depois do que pareceram anos) que o pai dela não tirava os olhos dele.

O mais velho pareceu não ter notado o que fazia até então, e foi tirado do transe, tirando o olhar dele, e enviando para filha. O homem sorriu, sem graça, coçando os cabelos em um gesto muito parecido com o de Naruto e acabou de descer as escadas.

— Bem vindo, Sasuke. É muito bom conhecer o homem das fotos que a minha filha espalhava pelo quarto dela desde os oito anos.

Sakura se limitou a soltar um gritinho agudo, e corar feito um tomate. Em seguida ela reprovou a fala do pai em um conjunto de muxoxos irregulares e sem sentido.

— Não ligue para ela, Sasuke, vamos tomar alguma coisa.

O mais velho andou até ele, colocando uma mão em suas costas e o empurrando em direção a uma porta.

Ele quis desviar do toque, porque nunca fora muito receptivo a afetos alheios, mas achou que não seria bom para a primeira impressão que teriam dele, e decidiu apenas continuar andando.

Sabia que ele não era o genro que todo pai pediu para deus, ele tinha uma ficha pra lá de suja, um reputação não muito aceita e uma corja de cochichos sobre suas ações, por isso quando menos ele falasse, ou agisse, melhor.

Passando pela porta ele entrou na cozinha, assim como a sala era arejada, bem iluminada, e milimetricamente limpa. Havia panelas no fogão e a mãe de Sakura observando uma delas.

— Querida, olha quem chegou! Tão pontual! O oposto da nossa Sakura! — O mais velho (ainda com a mão em suas costas) estourou em uma gargalhada.

A mulher olhou para trás, limpou as mãos no avental azul que usava, o reservou um sorriso discreto e fez uma mesura educada.

— Bem vindo, Sasuke.

Acenou positivamente, em dúvida do que ao certo deveria dizer, mas antes que pudesse decidir o homem falou novamente.

— Então, sakê ou shochu?

Antes que pudesse responder o mais velho saiu andando até um armário, pegou ambas as garrafas e copos, e voltou até ele.

Quase tão impulsivo quanto à filha.

Foi o que decidiu.

— Venha, venha!

Ele gritou, andando até uma porta de vidro, que parecia acabar em um jardim.

— Papai! Sasuke não gosta que o toq—

A até então esquecida Sakura saiu em sua defesa, mas não surtiu efeito.

— Ignore-a Sasuke, venha! — Ele chamou novamente — Sakura fala demais.

Como o senhor.

Sua língua coçou para comentar, mas achou que seria mais inteligente não fazê-lo.

A médica o olhou, com o rosto em pânico, como se esperasse que a qualquer momento ele ativasse o sharingan, e destruísse sua casa. Os olhos dela pareciam transbordar em pedidos de desculpas.

— Deixe seu pai, Sakura, vá arrumar a mesa.

A mãe a advertiu quando ela deu dois passos para acompanhá-los até a varanda.

Por fim, lá foi ele, com aquela sensação estranha dentro de si (vergonha talvez) até a varanda dos fundos com o pai dela. Como imaginou havia um pedaço do chão coberto de pedras ornamentais, uma pequena mesa redonda com três cadeiras, e o resto, era jardim.

Um espaço pequeno, mas com uma combustão de cores e variedade de flores que pareciam saltar em seus olhos.

— Elas gostam de flores, eu falei que era exagero...

Kizashi cortou o silêncio, colocando as garrafas e o copo sobre a mesa.

Sem graça, e sem saber ao certo como se comportar, limitou-se a sentar.

Estar ali, sozinho, com o pai dela, o deixava ansioso. Sentia-se como um cachorrinho, que precisava de aprovação para receber um novo lar. Ele nunca havia feito aquilo antes, não sabia o que deveria falar ou como se comportar e ele sentia vontade de sair dali e voltar para o conforto de sua silenciosa (e não habitada) casa.

O copo bateu em sua frente.

— Vamos! Beba! Você não tem epilepsia, tem? Sakura disse que passou por tempos difíceis, ficou fora de si... Isso não tem haver com bebida tem?

A vergonha o abateu instantaneamente.

— Não senhor.

— Eu imaginei. Sabia que ela estava falando aquilo apenas para amenizar as coisas que ouvimos de você pelas ruas de Konoha.

Ficou sem fala. Como concertaria algo como aquilo?

Era melhor pular o pequeno muro e sumir dali enquanto havia tempo.

— Não se preocupe com isso agora, beba.

Fez o que o era pedido, sentindo a bebida descer em sua garganta e caindo em seu estômago revirado em ansiedade.

— Você gosta de pescar? Eu adoro...

O mais velho começou a falar sobre pesca, sobre iscas, e uma variedade de peixes (um assunto ao qual ele não tinha nenhuma intimidade) então ficou apenas acenando com a cabeça como forma de incentivo, e falando uma palavra ou outra, quando ele o dava espaço para falar.

Agora eu sei porque Sakura fala tanto...

Algum tempo passou até que a médica finalmente apareceu.

— Papai, você está sufocando Sasuke-kun...

— Ele está adorando minha conversa!

— Eu imagino pai. Mamãe está acabando o almoço... Vou... Mostrar a casa para Sasuke, sim?

Ele sabia que a única coisa que Sakura estava tentando fazer era tirá-lo de perto do pai.

— Desde que não fique muito tempo no quarto...

— Pai...

Sakura gemeu em desespero e ele quis perguntar se ela tinha certeza que Naruto não era seu irmão.

Mas ela segurou sua mão, puxando-o para dentro, passando rapidamente pela cozinha, até parar na sala de estar novamente.

— Eu sinto muito.

Ela falou em um tom claramente ninja.

— Eu... Meu pai é um pouco... Espontâneo demais e... E... Eu ouvi o que ele o disse, eu sinto muito mesmo... Ele... Ele não pensa muito antes de falar, mas é uma boa—

— Está tudo bem.

Ela não pareceu satisfeita.

— Eu sinto muito eu—

— A comida está na mesa!

A voz feminina gritou, e Sakura se calou.

— Vamos — Disse a ela, porque realmente não sabia o que era pior, ficar ali, sozinho com ela afogada em desespero, ou ficar desesperado junto com o pai dela.

Voltaram para a cozinha. A mesa estava posta. O pai de Sakura estava sentado na ponta da mesa e a mãe dela do lado direito.

— Sente-se aqui! — Kizashi apontou, para a cadeira do lado esquerdo dele, em frente à Mebuki.

Foi onde ele sentou, sentindo-se pressionado e intimidado ali.

Que piada. Ele que sempre foi o responsável por intimidar pessoas, agora estava se sentindo intimidado por meros civis.

Patético.

Sakura sentou-se ao seu lado, pode notar que as mãos dela tremiam, e ele quase se ofereceu para colocar comida para ela antes que ela derrubasse o prato.

Mas apenas comeu, degustando do sabor da refeição. A mãe de Sakura era uma ótima cozinheira, e ele descobriu de quem ela herdara seus dotes culinários.

O pai dela ficou em silêncio enquanto comiam, apenas soltando uma piada vez ou outra que parecia não surtir o efeito de fazê-lo rir, e sim deixá-lo ainda mais descontente. Quando acabaram, Sakura levantou-se para retirar os pratos, e quando fez menção de fazer o mesmo, Kizashi o parou.

— Sente rapaz.

Obedeceu. Ele ouviu o tintilar de pratos que Sakura empilhava, e sabia que aquela não fora uma ideia muito inteligente por parte dela.

— Então. Agora podemos conversar.

Sakura deu-o as costas, andando até a pia há alguns metros de onde estavam.

— O que você e minha filha estão tendo?

Os pratos baquearam sobre a pia, um pouco fortes demais, e Sakura virou para trás, para eles, sem graça.

— Não tem nada quebrado!

Ela se reservou a dizer para a mãe.

— Sente aqui, Sakura.

Mebuki chamou, e ela prontamente o fez.

— Papai, já disse, estamos namorando e—

— Sakura...

Ela se calou. Limpou a garganta, incomodo.

— Nós estamos... Tendo um relacionamento, senhor. Com todo o respeito e—

— E você está bem? Quer dizer... Voltou de vez, ou vai sumir de novo e deixar minha princesa chorando pelos cantos?

Seu interior se revirou, e ele quase pediu licença para vomitar. Sabia que suas partidas deixaram Sakura devastada, mas nunca era confortável ouvir as pessoas falando sobre aquilo.

— Não vou senhor.

— Sakura agora que aprendeu a quebrar pedras com a Godaime acha que é durona, mas ela não é. Só pensa, coitada. Ela é uma florzinha delicada que precisa de amor, carinho e de cuidados para não murchar—

— PAPAI!

Ela interveio, gritando horrorizada, envergonhada.

Olhou-a, querendo dizer “está tudo bem”, e ela pareceu entender, porque respirou fundo e aquietou-se.

— Menos querido.

Mebuki também pediu. E ele quase a agradeceu.

Kizashi limpou a garganta e continuou.

— Sakura disse que vocês estão namorando, e bem, todo mundo sabe que dizem de você por aí, nenhum homem em sã consciência entregaria sua princesinha para... Bem... Sem querer ofender, você. Mas minha filha tem uma disfunção, coitada, ela até sussurra seu nome enquanto dorme, e, se ela não se importa com o que os outros dizem sobre você, eu também não me importo.

Pela primeira vez desde que entrara ali ele sentiu alivio.

O cachorrinho havia ganhado aprovação.

Notas finais
Não, esse almoço ainda não acabou. No próximo teremos mais interação entre eles! Aguardem!