Agridoce
7 Animal exótico
Notas iniciais
AGRIDOCE
Escrita por Coffee
Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce
7. Animal exótico
— E então, Sasuke, está gostando de estar de volta a Konoha?
Ela observou ele se remexer inquieto no sofá diante a pergunta de sua mãe. Era de conhecimento universal que Sasuke ainda se sentia desconfortável na vila, principalmente após passar tantos anos fora, mas seus pais insistiam em perguntar coisas que aparentemente eram visíveis.
— Sim senhora.
— Imagino que é uma adaptação difícil.
— Sasuke está lidando muito bem!
Resolveu interromper tentando confortá-lo. Seu pai apenas observava tudo com um olhar calmo e ameno, e ela agradecia por ele ter deixado de lado as perguntas infames.
Olhou para Sasuke. Tudo aquilo era muito estranho, mas ele parecia calmo e centrado desde que entrara ali, ao menos, se estava nervoso ele não transparecia. Tão ao contrário dela, que estava à beira de uma sincope. Já havia tropeçado em tapetes, quase caído da escada e quase derrubado uma pilha de pratos.
Ter Sasuke ali era como um sonho, mas ao mesmo tempo em que tinha medo de acordar ela queria sair daquilo logo para que pudesse parar de suar frio, de ter aquela sensação estranha na barriga de pura ansiedade.
Ela já havia imaginado aquele dia tantas e tantas vezes em sua mente, quando criança, quando adolescente e até mesmo quando adulta. Imaginando o dia em que Sasuke finalmente voltaria e iria à casa de seus pais para oficializarem seu namoro, porém, na realidade aquilo era muito diferente (e mais estranho) no que na ficção de sua mente.
Sasuke parecia grande demais para aquela casa, e selvagem demais. Algo como um animal exótico que tentava virar um animal doméstico (e não estava tendo sucesso). Ela sabia que ele estava se esforçando, mas suas respostas eram pequenas demais, e secas demais e seus pais nunca pareciam satisfeitos o suficiente.
Queria fazer algo para ajudá-lo, mas não conseguia, nem sabia o quê. Sasuke era como um pássaro, ela sabia, livre, ele odiava tumultos, conversas alheias e odiava se sentir preso, testado, e ela sabia que era exatamente como ele estava se sentindo naquele momento.
Tudo por sua culpa.
Sentia-se culpada, mas de certo modo, contente, por ele estar se esforçando tanto para agradá-la. Era um passo e tanto, ao menos para ele, e ela ficava muito agradecida por tudo aquilo.
Ela perdeu alguma pergunta (mais uma) que sua mãe havia feito a Sasuke até que decidiu dar um basta.
— Nós vamos indo.
Disse, levantando-se.
— Querida, está tão cedo, tenho certeza que Sasuk—
— Eu tenho um plantão daqui a pouco, e Sasuke precisa descansar para uma missão.
Ela era uma péssima mentirosa e tinha consciência disso, sabia pela expressão deles que eles não haviam caído em sua teia, mas Sasuke interrompeu-a antes que ela tentasse fazer outra afirmação mais convincente.
— Sakura tem razão.
Ele soltou de repente, e, diferente dela, ninguém podia duvidar, porque ele parecia tão seguro de si e tão convincente que seus pais facilmente (como se estivessem hipnotizados) concordaram com um aceno de cabeça.
Seu pai se levantou, assim como sua mãe. Ele colocou novamente as mãos nas costas de Sasuke (embora ela tivesse repetido incontáveis vezes que ele não gostava de toques) e foi o acompanhando até a porta em um passo lento.
— Venha mais vezes, Sasuke. É bom conversar com você, embora você esteja precisando treinar mais palavras...
Bateu na própria testa. Sua mãe ao seu lado não fez mais do que soltar uma risadinha. Quando finalmente chegaram a porta ela gentilmente tirou a mão de seu pai das costas do seu... Namorado (essa palavra ainda parecia surreal) e se postou ao lado dele.
— Bom, eu vou para o meu apartamento trocar de roupa e pegar minha bolsa...
Seu pai acenou positivamente, deu-lhe um beijo na testa, tão carinhoso que ela quase o perdoou por toda vergonha que ela a fizera passar naquele dia, e, sua mãe deu um beijo em sua bochecha.
Já Sasuke preferiu a distância.
— Senhor, senhora Haruno, foi um prazer.
— O prazer foi nosso, querido. — Sua mãe deu um sorriso sincero e gentil, como se por um momento se desculpasse pelos impropérios do marido e os seus próprios — Volte sempre que quiser.
Sasuke fez uma mesura educada, e ela teve um pequeno vislumbre dos modos de um homem pertencente a um clã rígido.
Alguns segundos depois eles se viraram, lado a lado rumo ao seu apartamento.
— Sasuke-kun... — Começou mais corada e mais nervosa do que realmente gostaria — Eu sinto muito... Eu... As perguntas... O meu pai... Eu sinto muito por ter te feito ficar desconfortável e—
— Está tudo bem.
Era não se contentou com a resposta dele, e permaneceu pedindo desculpas. Quando estavam próximos do apartamento dele, que ficava algumas quadras antes do dela, alguns pingos caíram sobre si.
Olhando para cima ela viu as nuvens escuras sobre eles.
— Oh! Está começando a chover!
Estava tão preocupada assim em pedir desculpas que não percebera que iria chover?
Eles apressaram o passo, se molhando um pouco antes de chegarem frente ao prédio dele.
— Eu vou para o meu e—
— Entre.
Coçou as mãos em dúvida, vendo a chuva ficar mais forte, respirou fundo, e entrou. Não havia porteiro. Eles subiram as escadas em silêncio, um pouco úmidos pela chuva, até finalmente pararem em frente à porta.
Ele colocou as mãos no bolso, pegando uma chave única, sem nenhum chaveiro, e abrindo a porta.
Já havia estado lá outras vezes. Mas todas elas com Naruto ou Kakashi, logo que Sasuke voltara, em uma pequena comemoração, e em alguns encontros do time sete. Mas, sozinha, era a primeira vez.
O apartamento era simples e elegante. Minimalista. Poucos móveis, nenhuma decoração e incrivelmente limpo. Ela deixou os sapatos sujos na porta, tendo os pés recebidos pelo chão frio e entrou.
Todo ele tinha cheiro de limpeza e de Sasuke. Era bom. E ela soube que, mesmo que sentisse aquele cheiro um dia inteiro, uma semana toda ou o resto da vida jamais enjoaria.
Entrou ainda sem graça. Sasuke parou no meio da sala, parecendo e dúvida sobre o que fazer. Olhou-o querendo que ele dissesse qualquer coisa para quebrar o gelo, mas sabia que isso não aconteceria. Então disse a primeira coisa que veio em sua mente, sem pensar antes se aquilo parecia oferecido demais.
— Que tal um café?
Ele acenou positivamente com a cabeça. E eles seguiram rumo à cozinha. Ela não teve muita dificuldade em achar os itens necessários porque já havia feito café uma vez quando Naruto e Kakashi também estavam ali. Então ela se moveu livre, e firme, embora suas mãos ainda tremessem e estivessem a ponto de derrubar as coisas.
O Uchiha permaneceu sentado na cadeira, e, pela primeira vez ela não se sentiu tão intimidada com o olhar dele sobre si. Aquilo, de certo modo agora parecia incrivelmente natural.
Quando terminou foi ele quem pegou duas xícaras brancas com pires e colocou sob a mesa. Em uma xícara ele colocou três colheres de açúcar (o tanto que ela sempre colocava embora ela não soubesse como ele sabia daquilo) e a outra, deixou sem nada.
Despejou o café, e então foram até a sala. Ela se sentou no sofá, e ele na poltrona de frente para ela. Tomaram o café em silêncio.
Ao terminar ficou em dúvida se deveria ou não colocar a xícara na mesa de centro. Ele pareceu perceber sua dúvida, porém em resposta apenas colocou sua própria xícara sobre a mesa, como forma de mostrar que ela estava autorizada a colocar a sua também.
Lá fora a chuva caia forte, e ela, inquieta como sempre foi levantou-se começando a andar pela sala de estar dele. Não havia muito que ver, mas, sobre um aparador havia dois únicos porta retratos, ela se aproximou, pegando a foto do time sete nas mãos e sorrindo involuntariamente.
— Você ainda tem a sua!
Quando se virou para ele, ainda com o objeto nas mãos tudo que recebeu de volta foi um aceno de cabeça e um projeto de sorriso.
O outro porta retratos era delicado demais. Algo que a deixava em dúvida se poderia ou não pegá-lo nas mãos, mas, ainda sim o fez.
Era a família dele, ela sabia. Seu pai, sua linda mãe, Itachi e ele próprio quando mais novo.
— Sua mãe era tão linda...
Disse admirando a mulher na foto. Para sua surpresa, ele respondeu.
— Sim, ela era.
Observou-o. Ele tinha um olhar vago, mas sentimental ao mesmo tempo. Como se lembrasse de momentos bons.
— Você era muito apegado a ela.
Foi o que concluiu. Ele pareceu voltar a si, e acenou positivamente.
Voltou a olhar o retrato.
— Você... Acha que eles teriam... Gostado de mim?
Ele a olhou surpreso, como se não esperasse uma pergunta daquela.
— Oh! Eu... Não sou de um clã, é isso, não é?
A sua voz saiu mais chateada do que ela realmente gostaria.
— Meu pai era um homem muito rígido.
— Eu imagino que sim.
Deixou o retrato novamente sobre o aparador, na mesma posição em que o encontrara, e andou até a janela vendo a chuva.
— Mas acho que ele teria gostado de você.
Ele respondeu um tempo depois, surpreendendo-a.
— Você é determinada. E esforçada.
Ele gostava disso.
Ela entendeu.
Era a primeira vez que ele falava algo assim dela, destacando alguma qualidade e ela se sentiu tão bem, tão reconhecida que ela sabia que se tivesse ouvido aquilo de um Daimyo não teria tanto efeito quanto ouvir dele.
Ela sorriu mais do que realmente gostaria e corou mais também.
Porém, finalizou o assunto porque sabia como era doloroso para ele falar sobre a família.
Eles passaram mais algum tempo, falando de banalidades, como missões, seu trabalho no hospital e outros assuntos, ela mais falando do que ele, mas se entendiam bem assim.
Por fim, quando a chuva passou já anoitecia e logo ela teria um plantão. Quando disse que iria embora ele insistiu em acompanhá-la. Então despontaram novamente para a rua, rumo ao seu apartamento.
Havia poucas pessoas nas ruas, mas todas elas olhavam para eles descaradamente. Ao contrário dela, Sasuke parecia não se importar e apenas se limitava a continuar andando, elegantemente e em linha reta, agindo como se ser tão lindo fosse normal.
Quando chegaram a frente ao seu apartamento, eles subiram juntos, porque, segundo ele, iria esperá-la trocar de roupa e acompanhá-la até o hospital. Quando o indagou o porquê de tudo isso, o que ela recebeu de resposta foi um “não tenho nada para fazer” embora ela soubesse que havia muito mais dentro daquele gesto.
Deixou-o sentado no sofá, enquanto tomou uma ducha rápida e vestiu seu uniforme branco. Penteou os cabelos, e logo estava de volta a sala.
— Pronto Sasuke-kun.
Pegou-o em pé, perto da parede, onde havia alguns quadros com fotos, da sua família, do time sete, de amigos. Ele parecia em especial, entretido com uma de seus pais.
Coçou a cabeça sem graça se aproximando.
— Sasuke-kun... Espero que não tenha levado a sério as coisas que meus pais te disseram, apesar de tudo eles gostaram sim de você, acredite se não tivessem gostado você não teria nem passado pela porta...
— Pare de ser desculpar, Sakura.
Ele se virou para ela, se aproximou, tocou seu braço, parecendo um pouco incerto, e depois a puxou mais para frente.
Seus lábios se tocaram em uma carícia suave de início. Depois seus lábios se abriram e suas línguas se acariciaram mutuamente. Calmo e quente. Do modo que fazia seu coração palpitar, uma quentura gostosa percorrer pelo seu corpo e pelas suas bochechas.
Era real todo aquele amor?
Era possível alguém amar tanto assim a outra?
Quando se separaram, em parte por falta de ar, e parte porque aquilo estava ficando quente demais e Sasuke sempre fora respeitoso ao extremo, ele voltou a ficar de costas para si e observar novamente o quadro.
— Eu sei que você não quer que eu peça mais desculpas, mas—
— Obrigado.
Ele disse de repente, tirando-a as palavras.
— Obrigado? Por quê?
Ele não se virou para responder, ela agradeceu por isso.
— Eu tinha esquecido como era ter uma família.
Ela entendeu.
E agora eu lembrei.
Ela não conseguiu segurar as lágrimas.
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