Agridoce
8 Encontro letal
Notas iniciais
AGRIDOCE
Escrita por Coffee
Que tem em simultâneo sabor amargo e doce ou ácido e doce
8. Encontro letal
Seus amigos (não que ele os considerasse, jamais, eles que se autonomeavam assim) eram inconstantes. Isso era o mais perigoso deles, o mais letal.
Por isso que ele relutou tanto frente ao convite de sair em uma sexta-feira à noite. Ele e Sakura ainda eram um... — ... Companheiros recentes. E desde a semana passada (o encontro com os pais dela) descobriram que ainda não estavam prontos para sair em público como um... — ... casal.
Nem essa palavra estava pronta para ser falada (nem ao menos pensada). E ele sabia que colocar Naruto, seguido de Ino, e toda a corja que os acompanhavam diante deles não seria uma boa ideia. Mas mesmo assim, os pedidos insistentes de Naruto, e até mesmo os olhos brilhantes de Sakura frente ao convite os venceram pelo cansaço.
Porém, em toda a caminhada até o apartamento de Sakura sua mente repetia: má ideia, má ideia. E ele não podia fazer nada além de concordar: eu sei, eu sei, eu sei.
Ele não precisou bater nem duas vezes antes da médica abrir a porta sorridente. Ela usava uma saia preta relativamente curta e uma blusa branca, mas ele não ficou reparando muito, porque aquilo seria constrangedor, então apenas esperou que ela fechasse a porta antes de saírem pelas ruas.
Ela tagarelava alguma coisa que ele não prestou muita atenção porque o cheiro dela estava o deixando incomodado. Não de um modo ruim. Mas era o cheiro de alguém que tinha tomado banho recentemente e que havia se perfumado especialmente para ocasião. O cheiro era convidativo e isso o deixava incomodado.
Sua não experiência com mulheres o deixava incomodado. Porque ele não tinha muita noção de até que ponto ou até qual extensão era normal chegar aquele desejo... E aquele perfume realmente não estava ajudando. Muito menos as pernas de fora, desfilando sobre o salto (não muito alto), mas o suficiente para deixar Sakura batendo no seu ombro.
— Você não acha?
Ela perguntou. Olhou-a. Ele não fazia a mínima ideia do que ela falava, estava tão distraído tentando recusar o convite que o perfume fazia que não havia ouvido sequer uma palavra que ela dissera.
Ele cogitou apenas concordar, mas concordar com Sakura não era algo muito seguro. Muito menos quando não havia ouvido o que ela tinha dito.
Mas ele não precisou falar que não ouviu nem ao menos uma palavra, ela percebeu.
— Oh! Você não ouviu nada não é? — Ela parecia desapontada e ele quase se sentiu mal. Só quase.
Deu os ombros, embora soubesse que ela interpretaria do modo certo. Ela sempre interpretava.
— Estava dizendo que se nós nos sentirmos mal, vamos para casa, sem problemas, ok? Apenas me avise...
Concordou. Ele quis dizer que nem ao menos queria ter vindo, mas não achou que seria muito delicado. Deixou pra lá.
Eles andaram alguns quarteirões até chegarem ao lugar marcado. Era um pub, com música tão alta que eles podiam ouvir ali de fora, e já havia gente bêbada no meio fio. Ele quis dar meia volta naquele momento, mas a rosada previu sua intenção e segurou-o pelo braço.
Entraram.
Estava tão escuro que se não fossem ninjas ele podia jurar que não veriam nada ali dentro com toda aquela fumaça e aqueles jovens encavalados.
Ele viu Sakura morder o lábio inferior após perceber sua careta, mas ela insistiu, puxando-o em direção a um canto mais afastado onde se encontravam seus amigos.
— E não é que a Sakura-chan conseguiu arrastar o teme mesmo?
Naruto gritou alto, provavelmente já baqueado pelo álcool.
Ino veio correndo até eles, abraçando a amiga forte e a rodopiando pelo ar. Ela colou sua boca na orelha da rosada, tentando cochichar um segredo, mas com a altura da música e o álcool no organismo, todos em um raio de dez quilômetros ouviram a loira:
— Huuuum testuda, o que você fez para que ele viesse, hum?
A voz da loira ela carregada de malícia.
Sakura olhou sem graça para ele, vermelha de vergonha, batendo Hinata facilmente no quesito corar.
Ele quis dizer que já era o suficiente e que eles deveriam ir embora, mas não o fez.
Você quis vir, agora aguente...
Uma parte mais demoníaca do seu ser queria falar para ela. Mas também não o fez.
Após cumprimentar todos (Sakura, ele apenas maneou a cabeça) eles se sentaram apertados entre Sai, Ino, Naruto, Hinata, Kiba e alguns outros ninjas.
— Vocês juntos...
Kiba começou, mas não acabou. Em um muxoxo ele sussurrou para si mesmo “bem que mamãe dizia que pessoas bonitas namoram pessoas bonitas...”.
— Bem que eu sabia que você não resistiria a Sakura por muito tempo. — Ino disse para ele — Sim, eu sou mais bonita, mas agora que estou comprometida com o Sai você teve que se contentar com ela...
— Ino!
— Mas me conte, você—
— Vamos pegar algo para beber!
Sakura gritou, levantando-se da mesa rapidamente, puxando Ino e Hinata para o bar. Naruto começou a discutir algo com os outros, mas ele se desligou momentaneamente daquela falação.
Quando voltaram, com copos para todos, Sakura se sentou ao seu lado ainda vermelha, assim como Hinata e ele se perguntou mentalmente o que diabos Ino havia dito.
Eles permaneceram sentados um ao lado do outro, bebendo suas bebidas. Eles não se importavam com o silêncio, Sakura se importava um pouco na verdade, quando ele se estendia muito, mas naquele momento ela parecia confortável com ele.
De todo modo não estavam em um silêncio total, porque seus amigos gritavam sandices aos sete ventos e a música era ensurdecedora.
Em uma conversa com Kiba, Naruto de repente gritou:
— Heeeeey, sou sim, pode perguntar pra Hina-chan, ela vai te contar como sou viril! Não é Hina-chan?
A morena ganhou uma coloração roxa, mas o loiro não deu tempo a ela de responder.
— Ao contrário do teme, que não pode provar se é viril ou não porque eu não vou o deixar enfiar a serpente na Sakura-chan! ‘ttebayo!
— NARUTO!!! — Sakura gritou em horror.
Ele permaneceu petrificado, tentando não corar feito uma garotinha.
— Como é? Vocês ainda não...? Oh meu kami, vocês são muito puritanos! — Ino gritou mais bêbada do que seria recomendável — Você tem que botar esse Uchiha para quebrar Sakura! Tem que descobrir se os dotes dos Uchihas são verdadeiros ou apen—
— Nós vamos dançar!
Sakura gritou tão alto e se levantou tão de pressa que levou algum tempo para se firmar. Depois o puxou rapidamente pelo braço, usando tanto chakra que ele ficou em dúvida se ela estava tentando descontar a raiva nele.
Ela o arrastou até o meio da pista. Passando por todos aqueles jovens pulando feito loucos. Estava claro que ele não se encaixava naquele lugar, mas ninguém pareceu notar, deduziu que aquilo fosse efeito do álcool.
Quando estavam longe o suficiente da mesa infernal, Sakura se virou para ele, colocou as mãos ao redor do pescoço dele, e o olhou.
Ela estava vermelha como ele pensou nunca tê-la visto.
— Ino e Naruto são...
Sakura não continuou a praguejar, parecia em dúvida de qual emoção a dominava mais: a vergonha ou a raiva.
Eu disse que não era uma boa ideia...
Sua língua coçou. Ele também estava envergonhado, nunca havia dito um relacionamento antes, tudo era muito novo, muito surreal e ouvir os loiros falando de sexo tão abertamente não era algo que o deixava confortável.
Eles nunca haviam conversado sobre aquilo, nem chegado perto de praticá-lo e ele ficava em dúvida do que Sakura pensava sobre aquilo, se ela achava um absurdo eles quererem que eles avançassem o sinal ou se achava um absurdo o fato deles ainda não terem avançado.
— Sasuke... Se mova um pouco...
Só ai ele percebeu que ela se mexia lentamente, sem realmente mexer os pés.
Os Uchihas tinham aulas de danças, mas ele não era o que mais se destacava naquela época.
Então se moveu lentamente, como ela, tão sutilmente que quem olhasse de longe pensaria que estavam parados, e praticamente estavam, apenas se moviam de um lado para o outro, lentamente, embora a música que tocava fosse agitada.
E barulhenta.
Ainda sim era melhor estar aqui, do que na mesa infernal e vergonhosa.
A Haruno continuou com as mãos em seus ombros, mas as dele permaneceram ao lado do corpo. Não por maldade. Apenas queria manter as mãos longes dela.
Após a vergonha passar um pouco, assim como a raiva, quando a rosada se aproximou mais e apoiou sua cabeça com os olhos fechados em seu peito, ele voltou a sentir o perfume tentador.
Seus corpos estavam mais colados do que estiveram em qualquer outra vez, e para piorar, estavam em público.
Eles permaneceram assim, por algum tempo. E depois ela ergueu a cabeça, totalmente recuperada do momento anterior. Ela se aproximou, como se fosse beijá-lo, mas depois mudou de ideia.
— Desculpe.
Ela sussurrou. Provavelmente se referindo por tê-lo tentando o beijar em público. Já tinham vergonha o suficiente para a semana, para o mês inteiro.
— Vamos tentar novamente?
Não.
Ainda sim ele foi atrás dela quando ela voltou para a mesa.
— Teme você dança muito mal...
Naruto saia da fase da euforia e entrava na fase depressão. Ele estava desanimado, com a cabeça encostada no ombro da Hyuuga.
— Não tem problema, a Sakura também é um desastre!
A Yamanaka completou, também meio desanimada.
— Vocês vão ter muita ressaca amanhã...
Sakura avisou.
— Ainda bem que eu tenho uma amiga médica.
O jinchūriki sorriu.
A médica sussurrou um “não vou cuidar de você”, mas o loiro não chegou a ouvir. Ele e Sakura tomaram mais uns goles de sakê, e quando Naruto começou a ficar alegre de novo devido ao efeito de “cura” da raposa, eles se levantaram.
— Está na hora de irmos! — Sakura disse, já pressentindo as coisas que poderiam vir.
Ela se despediu dos amigos e eles seguiram pelas ruas escuras. Não era tarde, ainda havia alguns casais nas ruas e ninjas chegando de missões.
— Entre um pouco.
Ela convidou quando eles chegaram a frente a casa dela. Ele o fez. Subiram as escadas devagar e logo estavam na sala aconchegante, recheada de porta-retratos e outras quinquilharias.
— Estou com fome, não comemos nada, o que acha de comermos um macarrão com tomates?
Acenou positivamente e eles partiram para a cozinha. O cômodo era pequeno, mas bem equipado, a rosada gostava de cozinhar e aquilo estava explícito devido aos vários utensílios eletrodomésticos espalhados pela cozinha.
Ele se sentou na cadeira, não era um bom cozinheiro, as comidas que ele fazia não passavam de massas grudentas que somente ele era capaz de ingerir, então achou mais prudente ficar apenas a observando.
Ela foi até o canto da cozinha, tirou os sapatos de salto ficou descalça com os pés brancos no chão, também prendeu os cabelos róseos em um coque mal feito. Desviou o olhar, porque em algum momento passou na sua mente que aquela era uma cena perigosa.
A saia, os pés descalços, a blusa solta e o cabelo deixando o pescoço nu. Talvez devido à conversa da boate, tudo agora parecia perigoso e convidativo.
A rosada se aventurou pela cozinha, preparando a refeição parecendo totalmente confortável agora que eles estavam ali, sozinhos. Ele concordava. Tirando os momentos em que ficavam com vergonha, os primeiros encontros, ficar na companhia dela era sempre algo agradável. Bom.
Eles conversavam quando achavam que deviam, mas também podiam ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se preocupasse com aquilo. Estar com Sakura era algo leve, fácil (na maioria das vezes) e de certa forma aquilo parecia o preencher.
Esquecer-se de todos os males, de todas as dificuldades e loucuras que vivera e passara. O modo como ela olhava para ele como se ele fosse único, o modo como ela andava despreocupada com ele ali, como se não houvesse nada de ruim no mundo, perigo nenhum...
O modo como ela parecia se sentir segura ao lado dele... (Ele também se sentia seguro com ela).
Tudo isso foram pontos somados que o levaram a tomar aquela decisão. Que ele já estava repassando em sua mente há muito tempo.
Enquanto ela tagarelava sobre um problema do hospital, ele ainda sentado, tirou a peça do bolso e a colocou sobre a mesa.
A Haruno pegou os pratos para colocar sobre a mesa, e quando ela se aproximou ele arrastou a mão até a outra extremidade da mesa onde ela colocaria o prato, e a tirou, descobrindo a peça, como se aquilo não fosse importante.
O prato caiu imediatamente em um baque, ele observou (sentado), as lágrimas descerem, enquanto ela olhava chocada para a aliança de ouro em cima da mesa.
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