Agradável Ameaça
3 Cap. 3: Primeira Instrução
Notas iniciais
Meu corpo inteiro tremia no caminho de volta para casa.
Aquela ameaça deixava-me tensa e zangada ao mesmo tempo. Porque aquele idiota lindo tinha de falar justamente comigo? Com tantas outras garotas naquele colégio, por que eu?
Cheguei em casa um pouco atrasada. E para acabar com o resto
de animo que eu tinha, lembrei-me que hoje era dia quinze. Droga!
Abri a porta e, como já esperava, a casa estava uma bagunça.
Coisas jogadas, cadeiras reviradas. Dia quinze é o dia do aniversário de minha mãe. Ou era... Logo, meu pai surtara! Fui em direção ao quarto de meu pai. Ele estava jogado na cama, dormindo e babando. Uma garrafa vazia de vodika ao seu lado. Ouvi um gemido e percebi que meu irmão estava atrás de mim, encolhido.
-Oi. – falei, abaixando-me a abraçando-o – Calma. Ele
aprontou muito hoje?
-Mais do que o normal! – ele disse, sem chorar, mas com a
voz tremula.
-Desculpe, devia não ter ido aula. Me esqueci que dia era
hoje.
-Sem problemas. Fui para casa do Diego enquanto ele destruía
a casa.
Sabia que ele não estava com raiva de nosso pai, mas aguenta-lo
já era outra história.
-Bem, então, vamos arrumar essa bagunça?
-Fazer o que. – respondeu ele, indiferente.
Começamos pela cozinha, depois pelos quartos (ele desarrumou
todos também) e por último o banheiro, que estava com um cheiro horrível de vomito com urina. Assim que terminamos, falei para meu irmão ir tomar banho.
-Nada disso! –discordou ele.
-Não, você vai tomar banho agora. Daqui a pouco cortam a
água, ai já viu. – falei, bagunçando seus cabelos.
Ele seguiu para o banheiro, arrastando os pés. Ri de sua
atitude e fui para meu quarto. Assim que vi minha mochila, lembrei-me da ameaça e sentei-me na cama, vencida. Aquilo perturbava minha cabeça e me fazia querer chorar. E as instruções? O que eram? Quando chegariam?
-TERMINEI! – gritou Pedro (meu irmão).
-Ok. – respondi, pegando meu pijama e seguindo para o
banheiro.
-------Na Manhã Seguinte------
Minha noite foi bem perturbadora. Meu pai acordou aos gritos
e tive de leva-lo para o banho. Meu irmão, que também acordou, me ajudou, mas, como eu estava muito cansado, o despachei. Depois de dar um copo de leite para ele, falou:
-Desculpe.
-Que isso. Já me acostumei. – falei, deixando um leve sorriso aparecer no canto de minha boca.
-Não, já devia ter superado. Só que...
-Não, eu sei.
Ele sorriu e encostou sua cabeça no colchão (não tínhamos
travesseiro), adormecendo. Voltei para meu quarto e demorei a voltar a dormir. A mistura da ameaça com a loucura do meu pai me perturbava cada vez mais. Adormeci uns quarenta minutos antes de ter de levantar.
Segui para escola tranquilamente. Os ônibus estavam mais
cheios do que o normal, o que fez com que eu me espremesse dentro dos mesmos.
Cheguei à escola no horário. Larguei as coisas em meu armário
e segui para aula de história. Só que para minha surpresa, Daniel estava lá. Assim que me viu, vi seus olhos cintilaram. Não sorriu, nem falou, só ficou me olhando. Segui para a última cadeira. Quando voltei-me para ele, este já não olhava mas para mim.
A aula correu rapidamente. O professor explicou a matéria
rapidamente ou talvez eu não tivesse prestado atenção. Acho que estava
distraída com uma certa carta dentro de minha mochila. Peguei-a e me assustei bcom o que vi.
A carta, com cheiro de rosas, tinha um pequeno celo. Este
tinha o desenho de um coração flechado com uma flor. Totalmente Pink. Atrás pude ler em letras bem redondas “INSTRUÇÃO 1”. Assustada, ergui a mão e pedi para ir o banheiro. Com o consentimento do professor, coloquei a carta em um dos bolsos e segui para o mesmo.
Entrei em um Box e tranquei a porta. Respirei fundo e abri a
carta.
Querida Mel,
Sua primeira missão é olhar fundo nos olhos de Daniel, de modo que ele
fique
“balançado.”
Faça isso no final da aula. Haverá uma vã para lhe inspecionar.
Grata, Medelaine.
Joguei a carta no chão molhado e a pisoteei. Depois de bem
suja, peguei e a joguei descarga abaixo. Sentei-me no tampa do vaso e com as mãos na cabeça, gritei:
-CRETINA!!!
Tapei a boca para prender os próximos palavrões. Como ela
era... baixa!
Zangada, sai do banheiro e segui para sala. Entrei, sentei e
coloquei a cabeça entre os braços. Tinha vontade de chorar, mas não podia. Não ali. Tinha de pensar, em um jeito de olhar nos olhos dele. Não fazia idéia.
-----No Final das Aulas------
Segui-o até a saída. Não tinha plano, mas achei que podia
improvisar.
-Daniel. – chamei.
Ele virou-se e sorriu para mim.
-Oi.- falou
-Bem, queria saber se não tem nada que possa trazer amanhã.
-Bem,...
A parir daí, não ouvi mais nada. Mais a frente, estava minha
salvação. Uma falha na calçada. Podia tropeçar e, talvez ele me segurasse. Caso contrario, iria levar uma queda feia. A falha estava próxima, então, enrolei.
-Claro, pensei...
Enfiei meu pé na mesma e depois de um leve rodopio, comecei
a cair. A cada segundo, sentia o chão mais próximo. Fechei os olhos. Mas logo senti um braço me aparar. “Sortuda.”pensei.
Abri os olhos e, como previsto, aqueles olhos me encaravam.
Com o canto dos olhos, pude ver uma vã preta ir embora depois de um fleche na primeira janela. Voltei-me para Daniel e percebi que ele ainda me encarava. Não só ele, mas vários outros alunos,
-Daniel... – sussurrei.
Ele piscou e me puxou para cima.
-Desculpe. – falei.
-Que isso. – ele disse. – Teria sido uma queda feia.
-É. – foi o que eu disse.
Depois de juntar minhas coisas, seguimos para o portão.
-Já vai? – ele perguntou.
-Sim. – respondi, indiferente. – Quando você vai?
-Depende.
-Ah, legal. Então até amanhã.
-Até. Ah, seu cabelo está bagunçado. – ele disse, passando a
mão por um fio de meus cabelos.
Seus dedos roçaram meu rosto e logo senti um leve arrepio.
Aqueles olhos ainda me encaravam enquanto sua mão ia para trás de minha orelha, posicionando o fio.
-O-Obrigado. – falei.
- De nada. Até amanhã. – ele respondeu, sorridente.
Virei-me e segui meu caminho, nocauteada. Por que senti
aquele arrepio? Por quê? Só estava fazendo aquilo por obrigação, e não... e não...
Joguei-me na cama quando cheguei em casa. Não sabia como
descrever minha viagem. Nem sei como paguei as passagens. Sentada pude pensar melhor. Não estava afim. Era só minha obrigação, nada mais.
Só que aqueles pensamentos não se encaixavam em minha
cabeça. Era como se... se estivesse sentindo algo por ele.
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