Agent Hooper
14 Capítulo 13 (Secret)
Notas iniciais
Definir a sua vida antes era tão fácil, sempre tranquila, tão mundana: normal. Mas depois, uma coisa atrás da outra. O dia que decidiu sair sozinha para uma boate, como acordou no dia seguinte na cama de Mycroft Holmes, na mesma manhã ser chamada para o caso dos eletrocutados no caminhão, voltar para o hospital para pedir férias; ser sequestrada a mando de um dos homens mais perigosos da Europa, apenas para pedir que fizesse parte do seu esquema por dinheiro, em troca dos Holmes fora do país.
Seria muita coisa para escrever, caso fosse necessário. Isso porque nem tinha falado de como fez implicitamente tudo o que Moriarty pediu, se aproximou dos Holmes, muito mais do que a etiqueta permitiria. O mais velho acabava fazendo tudo o que ela pedia. Era uma questão de jeito. Mycroft foi na verdade muito útil; aprendeu com ele defesa pessoal, técnicas de memorização, como identificar expressões e micro expressões faciais, até mesmo a atirar. Atuação foi o mais fácil de aprender.
As semanas no primeiro hotel foram muito proveitosas para aprender como ser uma agente do governo, teve tudo de graça e em segredo de estado. O segundo hotel foi o melhor, conseguiu se divertir, conhecer novos lugares, novas pessoas, se envolveu em um caso para ter acesso a mais arquivos sem que Mycroft descobrisse, ou melhor, manipulando ele para que o mesmo permitisse. Manipular, essa era a palavra de ouro.
Com a morte do agente, ela sugeriu ao novo amigo Holmes que trouxesse o irmão mais novo. Obviamente feito, era o melhor detetive que poderia ajudar no caso. É claro que os dois sabiam que o tal Lucania iria vir atrás dela para pedir satisfações. Foi preso depois que James Moriarty fugiu da cena do crime, deixando Molly presa com ele, sem ao menos avisá-lo. Claramente, depois que ele foi solto, sem ajuda de Jim, daria um jeito de se vingar de quem não deveria. E isso acabaria em Molly, a ajudante secreta de Moriarty.
Mas ela ainda estava em cena, era seu ato, e o show não poderia acabar.
— E então Lorenzo, me acompanha com um drink? — sua voz sedutora encantava o italiano.
— Con gran piacere.- respondeu, olhando-a com intensidade. Era nítido seu prazer ao acompanhar os movimentos dela.
— Eu vou até o bar, ache um lugar na areia para ficarmos a vontade. — disse e gingou com sensualidade para longe de Lorenzo, queria-o em suas mãos e totalmente pronto para seus caprichos.
Molly pediu os drinks no bar, escolheu um fraco para si e uma bebida forte — sua favorita — para o moreno italiano com quem vinha saindo há mais de uma mês, desde que soube da ligação dele com o caso, e agora com Lucania. Fato que só a deixava mais certa do que deveria fazer. Primeiro, proteger-se do louco que estava cada vez mais perto dela. E em segundo lugar …
— Aqui. — o barman, chamou-lhe a atenção dando as bebidas em copos de vidro.
— Obrigada. — Ela pegou as taças sorrindo, mal podia conter o sorriso por pura excitação. Era a ansiedade por conta de seu plano, se tudo desse certo, seria absolutamente perfeito.
— Está aqui, querido. — ela disse ao chegar na orla da praia. No lugar havia uma pequena área coberta, com um grande banco de madeira voltado para o mar.
— Grazie. — o italiano pegou a taça com uma mão, e a outra estendeu a Molly, para que sentasse ao seu lado. — Gostou do lugar?
— É claro, mio cielo, mal vejo a hora do sol nascer. — ela sorriu por se utilizar da expressão italiana, depositando um beijo nos lábios do moreno, o vendo sorver em seguida um pouco da bebida, olhando fixamente para o mar, agora escuro, mas que trazia ao litoral um vento bastante forte e pouco frio pelo horário, entretanto, extremamente delicioso na opinião de Molly.
— Emma? — ele perguntou. Olhou-a confuso.
— Sim, meu amor? — ela pôs as mãos sobre os cabelos negros e lisos do italiano, fazendo carinho. O viu beber novamente mais uma grande quantidade de bebida.
— Emma? — repetiu, dessa vez sua voz estava arrastada, como se aquela fosse uma de inúmeras doses tomadas.
— Pode falar, mas beba mais um pouco. — ela o incentivou. Segurou a mão dele, o ajudando a tragar o líquido. — Pedi do jeito que gosta.
— Você… — ele foi incapaz de terminar sua pergunta, pois caiu no sono. Molly resmungou um “finalmente”, enquanto movimentou o homem para parecer que ele dormiu ali por vontade própria, embora tenha sido obra sua. No caminho do bar até a praia, tirara do decote um sonífero forte, em um conta gotas, pronto para ser misturado à bebida. Sem gosto ou cheiro seria fácil ele consumir. Dito e feito. Agora era só continuar seu plano.
— Querido, está me ouvindo? — ela ouviu ele balbuciar algumas palavras após cutucá-lo. — Tenho uma pergunta para lhe fazer.
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— Vai me dizer ou não o que está acontecendo? — Sherlock, extremamente irritado, perguntava para o irmão que evitava olhar nos seus olhos. Estavam frente a frente no quarto de Mycroft com John Watson entre eles, ambos em pé, pela tensão.
— O que quer eu diga irmãozinho? — com desdém ele respondeu, pegando seu celular que vibrava com a chegada de uma mensagem. — A verdade é que ela é mais dedicada que muito agente.- John abriu a boca surpreso, ia perguntar algo mas foi interrompido pelo amigo.
— Mas é Molly. Molly Hooper, a legista do hospital que faz autópsias para a polícia de Londres, não uma agente. — Sherlock dizia raivoso — Você está usando-a em um caso perigoso, e sabe que está colocando ela em risco à toa, quando se tem milhares de pessoas para ficar no seu lugar. Porque está fazendo isso, Mycroft? — exigiu uma explicação. E tinha que ser muito boa..
Logo seu irmão respondeu, como se fosse óbvio, enquanto guardava seu celular de volta no bolso.
— Molly sempre foi mais que uma legista, você que nunca admitiu. E ela é peça chave nesse caso, sem a qual não teríamos chegado até aqui. Aliás, irmãozinho, ela sabe se defender. — completou.
— Você parece bem convencido disso.- Watson decidiu contribuir com a conversa, deixando sua irritação bem aparente.
— Eu a treinei, sei do que é capaz. E é claro, também me preocupo com ela. — Mycroft sempre calmo respondeu como se fosse nada demais. Mantendo contanto visual com os dois e, vez outra, dando as expressões de desdém tão habituais dele.
— Se preocupa mesmo? — seu irmão o olhava com tanta raiva que tornava o ambiente pesado.
— Sim, mas não há tanta necessidade para isso. Desde que ela foi sequestrada aprendeu a ser mais forte — disse.
— O quê? — Os dois amigos falaram quase que ao mesmo tempo. Surpreso e incrédulo apenas por imaginar o que o irmão levou Hooper a fazer, Sherlock parecia ainda mais perplexo com essa informação. — Quando ia me contar?
— Não fazia parte do plano. — Ao ver que a expressão de raiva piorava, completou para amenizar. — Não ainda, mas já íamos te contar — disse sem muita entonação. Uma clara mentira.
— Quando pensaram em fazer isso? Quando ela fosse pega? Quando ela morresse por uma idiotice sua? Quem… — o detetive ponderou e prosseguiu aumentando o tom da voz. — Eu não entendo, Mycroft, você sempre tão esperto, deixou Molly fazer o que quisesse, colocando ela em risco.
— Ela aprendeu bem, não faria exatamente mal mantê-la longe de quem a sequestrou — o Holmes mais velho a defendeu — E contar a você não faria diferença se ainda existisse um assassino atrás dela.
— É, mas aposto que ele está perto agora. — Sherlock falou tentando manter-se calmo, é claro que para ele, o espetáculo dela como outra pessoa só chamaria mais atenção.
— Está certo. — Mycroft pegou novamente o celular quando vibrou no bolso, olhando a mensagem recém chegada. — Mas ela ainda é esperta. Vamos. — Ele deu uma ordem, recebendo de John em resposta:
— Vamos aonde?
— Sabia que colocar ela nisso não seria à toa — ele não deu atenção à pergunta feita.
— O que ela achou? — Sherlock seguiu o irmão, chamando o amigo que estava do lado de fora.
— Quem achou o quê? — Watson perguntou deslocado.
— Molly achou Lucania. — Mycroft disse.
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Após chegarem em frente a um dos quartos do hotel no terceiro andar, Mycroft já havia chamado parte da segurança além de seu guarda-costas. Armados, John e Sherlock foram à frente. No entanto, a arma de Sherlock não estava à mostra. Ambos os Holmes estavam especialmente preocupados por não avistarem Molly Hooper. Mas não podiam perder tempo. Bateram na porta, vendo os guardas à espreita, e Mycroft logo atrás.
— Não, voltem, por favor. — A voz de Molly chorosa soava do outro lado do quarto.
— Molly? — Sherlock a chamou preocupado.
Ele sabia que nada poderia acontecer a ela. Era como se fosse responsável pela sua segurança. Analisando a situação e as possibilidades, um confronto direto não seria a solução. Poucos segundos pareciam minutos para suas deduções. Geralmente, não naquele caso, a vida de Molly estava em risco, quase podia sentir o mesmo que sentiu quando a segurança de John estava comprometida.
Mas não ia deixar aquilo acontecer, principalmente agora que passou a vê-la um pouco diferente nos últimos dias. Talvez isso soasse um pouco egoísta em voz alta, mas era Sherlock afinal, e mesmo que não se sentisse antes tão ligado a ela, a sua valentia que brotou pelos acontecimentos que só conhecia superficialmente, o fazia sentir-se ainda mais incitado a salvá-la. Era essa sua função ali.
Raciocinando profundamente, nem percebeu quando Mycroft nervoso, saiu à frente, apelando para Ulísses.
— Lucania, você está ai? — perguntou.
— Ainda não percebeu, gênio? Eu acho que a lindinha não falou como está a situação aqui dentro. — Ouviram um baque surdo contra a porta, o que tirou Sherlock do transe, e instantaneamente deixou todos os três tensos. — Abre a porta, vadia. E se tentar dar uma de esperta, detono sua cabeça, entendeu? — um soluço ecoou mais forte. As feições, tanto de Mycroft como de Sherlock, mudaram drasticamente, de preocupados para enraivecidos.
— Isso, princesa. Agora, volte aqui — Lucania comandou.
A porta foi aberta e Molly voltou para perto do moreno alto que abertamente portava uma arma calibre 22 apontada para a sua cabeça. Ela tinha o rosto pálido, com uma marca vermelho forte bem visível no braço esquerdo, marcas de dedos. Um passo a frente de Lucania, ela foi logo puxada para perto de seu corpo sem camisa, apenas com uma calça cinza. Ele sem vergonha alguma, beijou a parte de trás da sua orelha para provocar os outros, que ficaram inquietos, fazendo Molly sentir uma onda fria pelo corpo de total desprezo. Ele falou algo no seu ouvido. Depois fez sinal para que ela repetisse para os amigos.
— Ele quer as armas no chão. Senão atira em mim. — Ela disse pausadamente.
Ulísses riu atrás dela, debochando. A quilômetros poderiam ver que ela não estava no seu normal. Mas não era como da primeira vez. Molly não havia mudado, apenas se aperfeiçoou.
Quando os três puseram no chão, reunindo coragem, ela empurrou uma das armas no batente com os pés para longe, recebendo um soco nas costas por parte do sequestrador, sendo jogada no chão com a força do homem. Sua cabeça tombou para trás, fazendo-a perder o equilíbrio.
O movimento rápido deu oportunidade para os três agirem. Ao mesmo tempo, John atacou Lucania agarrando-se ao pescoço, Sherlock procurou pegar a arma que continuava apontada na direção de Molly e Mycroft tentou imobiliza-lo segurando sua outra mão. Houve resistência, houve força, houve homens brigando.
Ouve-se um tiro.
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Seis e quarenta da manhã.
Peritos criminalistas no corredor. Uma janela retangular no quarto e a porta aberta eram as únicas fontes de claridade, revelando um sol brilhante no céu. Sherlock, pálido, estava perto de um corpo coberto no chão, ao lado de John, que em pé, falava ao celular com Mary, sua esposa. Mycroft terminava de trocar algumas palavras com um especialista forense. Logo prostrou-se ao lado do irmão mais novo, dizendo:
— Sinto muito. Sua Molly está morta.
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