Afterlife

10 Ryan – Revelação


Ele claramente não queria acreditar no que havia ouvido. Ficou parado por um tempo, sem proferir nenhuma palavra. Meu coração estava extremamente acelerado.

— Michael? — Claire o chamou, provavelmente sem entender o que estava acontecendo.

— Como você sabe dessa palavra? — ele perguntou, sua voz baixa e seu semblante surpreso.

Eu não sabia como contá-lo, não sabia por onde começar. Tentei dizer algo, mas nada saía. Ele voltou a indagar:

— Diga-me... Como você sabe dessa palavra?

— Michael...

— Diga-me! — ele gritou.

— Eu sou o Ryan, ok?! — eu disse, finalmente — Sou eu...

Ele passou mais algum tempo calado, apenas me olhando. Depois deu dois passos e me agarrou.

— Você pode entrar nas nossas cabeças, não é?! Diga! — Ele me sacudia.

Eu olhava em seus olhos. Eu estava com uma vontade de chorar muito maior do que gostaria de admitir, mas não lacrimejava nenhuma vez. Decidi que não diria mais nada. Apenas mostraria.

Meu corpo começou a se modificar lentamente. Minha pele se tornou mais branca e meu porte físico aumentou. Eu não era muito grande, era bem proporcional e com o corpo definido. Meus olhos mudaram de castanhos para azuis, meu rosto se modificou, e, por último, meus curtos cabelos negros se tornaram loiros e caíram sobre minha testa. E, com isso, inúmeras emoções surgiram.

Michael mais uma vez ficou estupefato. Ele continuou com suas mãos em mim, porém não mais me apertando. Após algum tempo, ele andou para trás.

— Não pode ser... — ele disse com a voz baixa.

— Como havia dito, sou eu, Ryan.

"Como ele conseguiu usar poderes?" — Claire falava ao longe. Mas, naquele momento, nem mesmo Michael estava prestando atenção no que ela dizia.

— Todo esse tempo...

— Sim — Cortei sua fala — Eu senti saudades.

— Você foi embora... — ele disse, claramente aborrecido.

Estava cada vez mais difícil não chorar.

***

Eu me encostei na parede. A fúnebre noite me deixava com um ar melancólico. Pensava em mil coisas, mas nada que faria com que aquilo mudasse. Eu já havia tomado uma decisão. Não queria fazer isso, mas era necessário.

Senti que ficara mais difícil de respirar. Meu sangrento coração se quebrava em mil fragmentos a cada segundo que se passava, e eu sabia que não seria possível consertá-lo. Mais uma vez eu me encontrava perdendo tudo aquilo que fazia minha vida valer a pena. Várias lágrimas escorriam em meu rosto. Lágrimas de um eu em pedaços.

Finalmente consegui forças para pegar a mala e sair dali. Vislumbrei aqueles cômodos pela última vez, e segui meu caminho. Porém, antes de sair da casa, Michael, que possuía uma cópia da minha chave, apareceu. Ele havia chamado meu nome, e, na mesma hora, tentei enxugar minhas lágrimas o mais rápido possível. Pude ver o sorriso em seu rosto se desmanchando ao ver-me daquela forma e ao notar a mala que eu carregava.

— O que está acontecendo? — ele perguntou.

Michael estava lindo como sempre. Eu não sabia o que dizer, e o nó na minha garganta não ajudava.

— Estou indo embora — respondi após algum tempo.

Ele balbuciou algo bem baixo, e depois ficou imóvel. Alguns segundos depois, perguntou:

— Para onde?

Eu senti uma dor imensa ao ver sua expressão de desolação.

— Longe — respondi vagamente.

Dentro de um tempo, Michael começou a sorrir. Em seguida, deu uma leve risada e disse:

— Isso é uma brincadeira, não é?

Ele nitidamente forçava o sorriso. No fundo ele sabia que eu não estava brincando.

— Sinto muito — eu disse.

Desviei o olhar e voltei a andar. Michael parou em frente a mim, bloqueando meu caminho.

— O que está fazendo?! Para onde você vai?! — ele perguntava, e eu continuava me mesclando ao silêncio da noite, que era quebrado por ele, e olhando em seus olhos. — Fala alguma coisa! — ele gritou extremamente alto.

— Eu te amo! — gritei, quase no mesmo tom de voz.

Meus olhos voltaram a lacrimejar subitamente, enquanto meu coração batia o mais rápido possível. Eu o sentia em minha garganta, tentando pular para fora.

Michael ficou perplexo. Foi a vez dele de não falar nada. Seu semblante demonstrava aversão. Não. A palavra que eu usaria seria "nojo".

— Essa é a resposta. Eu te amo. E eu sei que você não me ama — Minha voz e meu corpo tremulavam — E agora você tem nojo de mim — Embora não devesse e não quisesse, não pude deixar de me sentir sujo.

— Isso é sobre Lila? — ele indagou, momentos depois — Porque se você não gosta dela, eu posso parar de vê-la... Ou é sobre aquelas pessoas que apareceram aqui naquele dia?

— Isso é sobre eu nunca poder tê-lo para mim. — Cada palavra que eu soltava vinha como uma pontada em minha alma.

— Mas você me tem! — Michael replicou.

Balancei a cabeça negativamente, e limpei uma das lágrimas que havia escorrido.

— Você me ama? — perguntei.

— Sim! — ele respondeu.

— Além da amizade?

O silêncio foi sua resposta definitiva.

— Vê? — Sorri forçadamente. Mais lágrimas desciam. — Eu tenho que ir.

Desviei dele e continuei andando. Até eu ter sido parado mais uma vez ao ser indagado:

— E é por isso que você vai embora?!

— Você sabe o quanto machuca? Passar todos os dias ao seu lado, amando-o com tudo que tenho, desejando que me amasse da mesma forma, mas sabendo que provavelmente nunca irá?

— Mas... Você é meu melhor amigo — Michael disse. Ele chorava também, embora tentasse ao máximo se segurar por conta de sua personalidade — Não desista disso...

Permaneci ali fitando-o. Eu queria pelo menos abraçá-lo uma última vez. Queria sentir o calor de seu corpo uma última vez. Com meu coração sangrando e em inúmeros pedaços, falei finalmente:

— Já desisti.

Fui embora, em seguida.

***

— Eu tive que fazer isso — eu disse — Esperei que pudesse entender.

— Eu não entendi — ele falou desgostoso.

— Mas e agora? — Apontei para Claire — Você pode entender minha dor? — perguntei — Você pode entender minha dor, Michael?

Ele, assim como eu, sentia por alguém algo que não era correspondido.

— Sim — ele respondeu, sua voz baixa e calma — Eu entendo sua dor. Mas eu não entendo o que você fez. Eu a amo, e ainda estou aqui por ela.

— Suponho que você não teve de lidar com ela te olhando repulsivamente.

— Eu não te olhei...

— Não minta — interrompi-o, ordenando firmemente.

— Eu tinha somente 16 anos. Eu não sabia como reagir. Nós éramos muito próximos, e aquilo... Eu sinto muito. De qualquer jeito, eu pedi para que ficasse, não foi?

Michael falava com a voz levemente tranquila. Era possível perceber que ele estava com raiva, mas acredito que, assim como eu, o sentimento de nostalgia era maior.

— Não precisa dizer nada — ele se pronunciou quando viu que eu tentava balbuciar algo — Eu estou furioso — Michael cerrou os punhos — Furioso por você ter feito aquilo. Por ter jogado tudo aquilo fora. Por ter me deixando quando eu te precisava. Mas... — Suas mãos se abriram — Acho que estou mais aliviado por vê-lo novamente do que com raiva.

Sorri instantaneamente, mas logo tentei disfarçar. Senti como se parte daquele enorme peso houvesse sido tirado de cima de mim.

— Eu senti sua falta também — Michael disse verdadeiramente.

Pude perceber sua sinceridade, embora não sorrisse nem chorasse. Chorar não era algo que Michael usualmente fazia, mas o sorrir... De qualquer forma eu entendia, pois ele ainda devia estar enraivado pelo que fiz. O mais importante é que dividíamos o mesmo espaço mais uma vez, e aquilo já era o bastante para mim. Pelo menos naquele momento.

Notas finais
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