Afterlife
11 Claire – Arrependimento
"Eu entendo sua dor". Aquela era uma das frases que Michael dissera e que ficou ecoando em minha mente. "Eu a amo, e ainda estou aqui por ela".
Eu provavelmente nunca seria capaz de sentir aquela mesma dor. De entendê-lo, como os dois se entendiam. De fato, eu sentia algo por Kyle, um colega de classe, e não sabia se ele se sentia da mesma forma. Porém eu não o havia contado nada ainda. Eu não havia passado por aquilo. Não havia sentido aquela dor.
Comecei a me culpar, a ficar mal. Eu era a razão da dor de Michael. E aquilo eu não podia curar. Por que teve que ser apenas uma atração?
***
Era final de tarde, e eu estava deitada em meu quarto mexendo no notebook, morrendo de fome. Não havia nada de interessante ali para comer, e minha última esperança era que Lisa, minha irmã, trouxesse algo gostoso para mim depois da faculdade, pois a preguiça de sair para comprar algo era imensa.
— Claire, cheguei! — Ouvi minha irmã gritar ao longe.
Em questão de pouquíssimos segundos eu já estava descendo a escada.
— Trouxe alguma coisa? — perguntei.
Foi quando escutei outra voz e me deparei com um estranho bem na entrada, a qual era próxima à escada. Parei alguns degraus antes de descer por completo. Ele era lindo, e eu fiquei encantada. Ele era bem forte e alto. Sua pele era clara e tinha um bom porte físico. Seus olhos verdes se encontrando com os meus com certeza me deixaram com uma expressão bem idiota na cara. Além disso, seus cabelos castanho-claros eram usados em um lindo topete. "Que gostoso" — pensei maliciosamente.
— Eu trouxe isso — Lisa me entregou uma sacola.
— Obrigada — disse, sem nem olhar dentro.
Naquele momento eu só conseguia prestar atenção naquele rapaz que começara a sorrir para mim.
— Olá — ele disse, com seu sorriso encantador.
Sorri de volta, mas não consegui dizer nada.
— Essa é Claire, minha irmã — Lisa, como na maioria das vezes quando se tratava de mim, usava uma voz áspera. — Esse é Michael, um amigo da faculdade.
— Prazer — ele disse.
O homem estendeu a mão. Eu obviamente o cumprimentei de volta, e disse:
— Prazer! — Minha voz saíra um pouco animada demais, e eu fiquei com vergonha no mesmo segundo, xingando-me mentalmente.
— Nós iremos estudar na sala — Lisa disse — Não nos perturbe.
A forma que ele me olhava até que eu saísse de seu campo de visão foi tudo que eu pensei naquela noite.
***
Lembrei-me de que na noite em que o conheci somente conseguia pensar nele, no seu encanto, e na troca de olhares que tivemos. Até que fomos nos aproximando mais, e eu percebi que ele seria meu amigo, um ótimo amigo, mas nada a mais.
Peguei-me desejando ter me apaixonado por ele naquele dia. Ou tê-lo correspondido no dia de meu aniversário, há quase um ano. Talvez tudo tivesse ocorrido de maneira diferente.
***
05 de agosto de 2023
— Você tá com cara de quem está adorando! — Michael gritou. Era difícil de nos escutarmos por causa do volume extremamente alto do som.
Estávamos em uma boate, divertindo-nos bastante, pois era meu aniversário. Várias amigas do colégio estavam lá também. E Lisa, porém para acompanhar Michael. Não é como se ela se mostrasse muito interessada comigo, de qualquer forma.
— Claro! — eu disse no mesmo tom de voz.
Nós sorríamos um para o outro. Eu conhecia Michael há um pouco mais de dois meses, e eu já o considerava um bom amigo. Acredito que ele só era mais próximo de minha irmã por estudarem juntos.
— Eu já estou indo — ele disse.
— Por quê? — perguntei.
— Lisa queria ir para outro lugar, e...
— Ah, entendi — eu o interrompi, ríspida. Bom, ela ter ficado ali tanto tempo assim já era lucro.
— Desculpa — ele pediu verdadeiramente.
— Tudo bem — Dei de ombros.
— Sabe... — Michael olhou para sua esquerda, e eu também, avistando Lisa caminhando em nossa direção. Ele voltou-se para mim, em seguida — Eu queria te dizer algo.
— O quê?
Ele sorriu e desviou o olhar. Parecia ter ficado constrangido de uma hora para a outra. Depois de alguns segundos, ele voltou a me fitar, e disse:
— Eu te amo.
Eu não soube como reagir. Provavelmente arqueei as sobrancelhas, ou arregalei meus olhos, ou fiz algo bem patético como resposta.
— Se você disser o mesmo, eu não vou a lugar algum — ele falou, ainda sorrindo.
A verdade é que eu não sabia o que dizer, e, embora tivesse uma alta tolerância ao álcool, já havia perdido a conta do quanto tinha tomado, e não me encontrava em um estado tão bem para aquela situação. E, por isso, permaneci da mesma forma estática. Pude ver o desapontamento em sua face, a qual foi se misturando no meio da multidão no seu caminho com minha irmã à saída do local.
***
Aquela fora de fato a primeira vez que Michael dissera aquilo para mim. Mas pensar naquele dia doía. Lembrar-me do que acontecera depois me destruía. Por isso eu não pensava muito naquele dia. Por isso, se eu pudesse, faria com que o dia 05 de agosto de 2023 nunca houvesse existido.
Não... Se eu pudesse, eu diria à Michael que o amava, e ele teria continuado lá. Lisa também.
— Então... Você pode confiar em mim?
A pergunta me fez voltar de meus devaneios. Ryan foi quem a fez. Eu já sabia quem ele era através do que Michael me contara no passado. Se ele continuasse a mesma pessoa da qual meu grande amigo me falara, então eu sabia qual era a resposta.
— Sim — eu disse — Mas antes... Por que você consegue usar seus poderes?
— Essa é uma das razões de nossa fuga ser possível. Mas eu contarei tudo depois.
— Ainda quero saber o que aconteceu durante esses anos — Michael disse.
— Eu prometo que contarei tudo, mas não agora. Quando nós estivermos fora daqui... Teremos muito tempo para recuperar o atraso — ele disse, sorridente. — Agora vou arrumar os preparativos para nossa saída.
Um sentimento começou a se apossar de mim. Eu sentia esperança.
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