Afterlife

33 Michael – Transe


Nós voltávamos para aquele lugar coberto por um manto ilusório que o escondia. Claire parecia se sentir melhor, pude perceber, mas ainda não falava comigo como antigamente. Pensei no quanto eu a amava, e, no mesmo segundo, a imagem da cena onde eu e Ryan, fingindo ser Claire, começávamos a nos relacionar intimamente surgiu em minha cabeça. Não sei exatamente o que senti, mas provavelmente foi nojo. Mas tinha certeza de que sentira raiva. Ele se aproveitara de mim... Ele quase fizera sexo comigo... Franzi a testa e olhei em outra direção, claramente indignado e numa tentativa vã de livrar aquilo de minha mente.

Ao longe avistamos o “lugar seguro” onde estávamos ficando. Só foi depois de dar alguns passos que percebemos o que isso de fato significava: o manto ilusório não o cobria.

Corremos até chegarmos bem próximos da entrada, deparando-nos com uma morada que começava a cair aos pedaços lentamente. Vi meu reflexo em um dos pequenos pedaços dos vidros despedaçados que haviam caído das janelas. Escutei um grito vindo de dentro, seguindo-se de outros. Meu coração apertou. Comecei a me sentir mal. A única coisa que veio a cabeça foi que William estava ali.

Claire disparou em direção à entrada, e eu a segui, temendo por sua segurança e pelo que ali ocorria. As paredes destruídas, os quadros quebrados e caídos ao chão... Era como se um furacão tivesse passado por ali. E, então, vimos pessoas caídas. Algumas, mortas. Claire se sobressaltou, estava completamente assustada. Era notável o espanto em sua expressão, e aquilo era mais que aceitável. Aqueles corpos ensanguentados... Um deles fora esmagado. Outro teve sua cabeça arrancada. Fiquei nauseado, e mais uma vez me culpava. Se William estava ali é porque provavelmente Ryan o contara onde estávamos. Se não fosse isso, ele arranjara alguma forma de nos seguir, embora tivéssemos sido extremamente cautelosos em nossa volta. De qualquer forma, aquilo só fora possível por minha causa. Meu coração começou a pesar.

Mais uma vez, Claire se movimentou rapidamente, indo até as escadas para o andar de cima, de onde vinham vários sons de desespero e destruição. Senti-me imediatamente apreensivo por ela. Não podia deixá-la só, tinha que segui-la... Mas não conseguira. Boquiaberto, notei que meu coração batia descompassadamente, e que minhas pernas não me obedeciam. Eu não estava apreensivo só por Claire. Eu estava com medo. Eu temia pela minha vida.

Respirei fundo, tentando me acalmar nem que apenas momentaneamente, e finalmente corri atrás de Claire. No outro andar, mais destroços. E mais pessoas mortas. Engoli em seco e continuei à procura daquela pessoa tão importante para mim.

Enquanto caminhava, imagens se passavam pela minha mente. Cenas nas quais eu era vítima daquele desastre. Onde Claire acabava se tornando uma também. Minha respiração descontrolada me deixava ainda mais nervoso. “Claire?!” eu gritei, em desespero. Sabia que aquilo provavelmente alertaria William, mas eu não sabia como agir.

Eleonor subitamente surgira saindo de um dos quartos mais à frente no corredor que eu andava. Com uma mão apertando um de seus braços, do qual escorria bastante sangue, a ruiva se encostou à parede logo à sua frente, demonstrando-se estar sem forças, e disse, aflita:

— Corra!

A mulher ensanguentada começou a vir em minha direção. Meu corpo impulsionava-me para fora daquele lugar, mas não conseguia deixar de pensar em Claire.

— Onde está Claire?! — gritei para Eleonor.

— É. Onde está Claire?

Aquela voz firme e assombrosa com um tom de gracejo, que vinha de trás de mim, deixou-me arrepiado. Virei de uma vez, e antes que pudesse pensar em qualquer coisa ou reagir de qualquer maneira, tive meu pescoço agarrado pela mão de William que me empurrou contra a parede com uma força que me fez gemer alto e sentir uma dor nas costas insuportável. Sua outra mão perfurava o corpo já morto de uma das pessoas que ali morava, suspendendo-o no ar. Ele o jogou para longe.

Seu olhar era apavorante. Eu sentia que, de alguma forma, William exalava terror a partir de seus olhos, como uma habilidade. Meu corpo tremia.

— Michael?! — Claire se desesperou ao me avistar.

William imediatamente olhou para o lado de onde ela surgira e demonstrou um sorriso com uma carga enorme de malícia. Ele me soltou, e caí de joelhos no chão. Porém, agarrei seu braço com força, e pude sentir a temperatura de meu corpo aumentar. Eu não havia feito aquilo deliberadamente, foi como se eu estivesse sendo controlado. Em seguida, ergui minha cabeça e o olhei furiosamente, enquanto minha mão começou a pegar fogo.

— Seus olhos... — ele disse, com um semblante surpreso misturado à inquietação pelas chamas ardentes que queimavam seu braço — É realmente você...

Então, William sorriu da mesma forma que para Claire. Naquele momento, aquilo não me assombrou nem teve nenhum impacto sobre mim, pois era como se eu houvesse entrado em algum tipo de transe. Porém, quando William se virou para mim, como se fosse fazer alguma coisa, um feixe de luz iluminou toda a proximidade e o impeliu para o lado, fazendo com que se desequilibrasse e caísse ao chão.

Retomando minha consciência, avistei Karen com seu braço erguido e a palma de sua mão apontando na direção de onde William se encontrava. Ela estremecia e também derramava lágrimas em seu rosto enquanto demonstrava terror em seu olhar.

— Karen! — eu disse, aliviado em vê-la.

— Nós temos que ir! — Leon apareceu no último degrau da escada, chamando-nos desesperado.

— Vão! — Killian gritou. Também extremamente machucado, ele vinha do final do corredor de onde Eleonor aparecera.

Depois que me levantei, e após me reunir com todos os que ali estavam, percebi que William continuava no chão. Ele aparentava não estar conseguindo levantar, olhando confuso para o piso em sua volta.

— O que aconteceu? — perguntei antes de descer com os outros.

— Ele está em uma ilusão — a ruiva disse — Killian não conseguirá segurá-lo por muito tempo. Vão logo!

— E vocês?! — Claire indagou.

— Onde está Max? — Karen segurava na mão de Leon.

— Saiam daqui! — Eleonor gritou com todas suas forças.

Depois daquele grito, nós descemos os degraus rapidamente, dirigindo-nos à saída. Eu estupidamente acabei tropeçando em um dos corpos, e, infelizmente, caí, fazendo-nos perder mais tempo ainda.

Aqueles olhos sem vida... “Como tudo isso aconteceu? Como chegamos aqui...?!”, perguntei a mim mesmo enquanto encarava aquele corpo inerte e inexpressivo ao meu lado.

Senti um toque doce, gentil. Era Claire tentando me erguer. Sua voz tranquilizante foi o que me impediu de afogar e sufocar num poço sombrio de pensamentos e pesadelos vívidos. Levantei-me, então.

Assim que saímos, viramos para trás. Todos nós estávamos na esperança de mais alguém sair. Eu não conhecia todos dali, mas tinha quase certeza que pelo menos um ou outro havia conseguido escapar.

Alguns segundos depois, Eleonor apareceu carregando Killian que, completamente esgotado, estava prestes a desmaiar. Leon foi até ela para ajudá-la a carregá-lo, e, antes de qualquer coisa, a ruiva disse:

— Me desculpe. — Ela olhava para Karen.

A loira franziu a testa. Depois, olhou para cima, e todos fizemos o mesmo. Max, com o rosto encostado no vidro da janela do andar de cima, fitava a garota com pesar. Ele claramente havia ficado para trás e sido derrotado. Em seguida, seus olhos se arregalaram e uma enorme quantidade daquele líquido escarlate começara a escorrer por sua boca. Seus olhos foram se desvanecendo, e Karen, inteiramente desolada, gritou seu nome.

— Nós precisamos ir — Eleonor disse.

Leon se transformou e, então, pôde carregar Killian sozinho. Eu tive que fazer o mais difícil: puxar Karen para longe de seu melhor amigo que, ali em sua frente, sofria uma morte terrível. Aquilo era agonizante. “Me solta!”, ela gritava em desespero. Mas eu não podia soltá-la. Max fizera aquilo para nos salvar. Para salvar sua amiga. E eu tinha que ter a certeza de que seu desejo se realizasse.