Afterlife
34 Entidade de preto
— Você poderia me dar um copo d’água? — Ryan perguntou.
William não estava lá fazia tempo, mas deixara um de seus lacaios para observar seu prisioneiro. E era exatamente o que ele fazia, enquanto Ryan demonstrava uma expressão de tédio mesclada à exaustão.
— Você é surdo? — Ryan indagou com desdém.
O homem, então, foi até a geladeira. Encheu um copo de água, que segurava com uma de suas mãos enquanto a outra continha uma faca, e foi em direção ao outro, o qual se utilizava do corpo associado ao nome Lauren.
— Obrigada — Ryan disse enquanto o capacho de William se aproximava.
O copo foi lentamente levado até os lábios de Ryan. Ao encostá-los, o homem puxou o recipiente de volta e o virou, derramando todo o líquido que o loiro tanto desejava.
— Filho da puta! — o prisioneiro disse.
Em questão de milésimos, um soco foi desferido ao rosto daquele amarrado à cadeira, que logo cuspiu no piso, com desprezo.
— Como é ser apenas um subordinado de William? — Ryan começou a provocá-lo — Você deve se sentir como um nada, não é? Quero dizer, ele é extremamente poderoso, e você provavelmente não é muita coisa...
— Você deveria ficar calada — o outro disse, seriamente.
— Oh, eu feri um nervo? — Ryan disse, arqueando as sobrancelhas com uma expressão de surpresa extremamente sarcástica.
O inimigo, então, esmurrou o abdômen do loiro, que subitamente sentiu-se sem ar. Quando começou a tomar seu fôlego de volta, tornou a provocar:
— Isso te excita? Você se diverte machucando uma mulher indefesa? — Olhou profundamente nos olhos daquele homem de pé.
— Eu não sabia que você era tão irritante — O lacaio de William disse — Quer saber? Vou mijar.
— Oh, quer que eu assista? Isso pode deleitá-lo também... — Ryan sorria de deboche.
— Que tal ficar caladinha aqui enquanto sangra? — O outro disse, abrindo rapidamente uma ferida no braço do loiro com a faca em sua mão.
— O que diabos está fazendo? — Ryan indagou após gemer com a dor do corte.
— Te deixando enfraquecida, claramente. Quando voltar te darei um daqueles frascos de sangue.
Demonstrando-se sem forças, Ryan deixou sua cabeça cair lentamente em seu ombro. A verdade é que ele estava só esperando aquele homem desprezível sair para que ele pudesse agir.
O loiro, então, começou a curar sua própria ferida. Embora pudesse se regenerar, havia perdido muito sangue, então estava fraco. A recuperação total de seu corpo levaria algum tempo.
Durante o processo de regeneração, ao esperar pelo menos retomar um pouco de sua energia, Ryan viu de relance algo escuro. Olhou para frente, e, um pouco distante de si, pôde avistá-la.
Seu vestido e cabelo preto contrastavam com aquela sua pele do mais puro branco que o loiro já pudera contemplar. Com sua postura calma, seus serenos olhos claros penetravam os de Ryan, mergulhando fundo em sua alma, afetando-o de todas as formas possíveis. Aquele que queria nada além de fugir naquele momento, encarou a mulher. Aquilo, porém, não pareceu algo estranho para ele. Ele a olhava como se já a tivesse visto outra vez. Como se já a conhecesse, de alguma forma. Mas era claro que não apreciara tê-la à sua frente.
Ryan engoliu em seco. Após fechar a ferida, ele usou todas suas forças para modificar sua aparência. Ele se transformara em uma criança, fazendo com que seu corpo se desvencilhasse daquilo que o prendia. Depois, levantou-se e, sem muita energia, desequilibrou-se e quase caiu.
Ao ouvir o barulho da água da torneira do banheiro começar a cair, o loiro tentou agilizar, andando com passos mais rápidos. Antes de ir até a saída, pegara um dos frascos que continham o sangue de Claire e o virara em sua boca. Depois, seguiu em sua fuga. Ao abrir a porta, porém, não esperava encontrar uma cópia idêntica daquele que estava no banheiro. Aquela provavelmente era sua habilidade.
— Mas o quê?! — O homem se surpreendeu por ver Ryan solto.
O loiro instantaneamente fechou a porta, trancando-a em seguida. Enquanto escutava as batidas que consistiam numa tentativa do inimigo de abrir a passagem que se fechara, Ryan andou o mais rápido que podia até uma das janelas de vidro daquele apartamento. Ao olhar para fora, notou que provavelmente estava no 7° andar do prédio.
— Você não tem para onde ir — O capacho de William que havia ido ao banheiro voltara. Sua cópia, alguns segundos depois, arrombou a porta, e, ao lado do outro, encarou Ryan.
O loiro, porém, sorriu com uma satisfação em seu semblante e um ar de superioridade. Depois, disse:
— Diga a William que isso foi divertido. Mas eu não pretendo ser seu prisioneiro por mais nenhum segundo.
Ryan arfou, pausando sua fala. Continuou:
— Hoje não. — Ele olhava para aquela mulher que, embora permanecesse ali no meio da sala fitando o corpo feminino que Ryan utilizava, parecia ser uma entidade só visível pelo loiro.
Aquele com capacidades regenerativas, então, jogou-se ao vidro da janela. Ele já tivera medo de altura, isso é verdade. Mas foram tantas as coisas que Ryan superara em seu treinamento para se vingar de William no passado, que esse seu medo não era nada a não ser parte de suas memórias.
Um grito pôde ser escutado vindo da rua. O subordinado de William, estarrecido, correu até a janela. Ao avistar aquele corpo no asfalto, completamente destruído, começou a se sentir mal. Não pela cena, mas pelo receio do que viria a seguir. “Merda” era a palavra que passava em sua cabeça, e era apenas uma das várias palavras que pensava por se encontrar em uma enorme encrenca. Ele estava assombrado com o que William iria fazer. Por isso, então, o homem começou, naquele instante, a planejar sua fuga.
No meio da rua, uma mulher que por ali passava, e que havia gritado ao ver aquele corpo à sua frente, ligou para a polícia. Enquanto isso, o homem no apartamento do 7° andar começava a arrumar suas coisas para ir embora.
Dentro de algum tempo, os olhos daquele caído na rua se abriram. Ele se sentia nauseado e com dores por todo seu corpo, o qual já estava se regenerando. A mulher, surpresa, perguntou se ele estava bem, mas não obteve resposta.
— Pensei que tivesse morrido! — ela disse, apreensiva e assustada.
— Hoje não.
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