Afterlife
29 Gélidas Memórias
Ela era linda e incrivelmente elegante. Alta, pele clara, magra e tinha seu corpo definido — embora não tirasse nenhum pouco sua feminilidade. Seu cabelo era longo, loiro e liso. Era usado dividido ao meio e com algumas ondulações leves. Seus olhos eram castanhos, seu sorriso era branco, brilhante e cheio de vida, e seus lábios bem atraentes. Ela era linda.
Era de manhã, e muitas pessoas com grande quantidade de dinheiro se encontravam ali naquela festa beneficente. Ela era uma delas.
Eles se conheceram ali mesmo. A forma em que se conheceram foi levemente peculiar, e uns diriam que acidental. Esbarraram-se. Na verdade, ela se esbarrou nele sem querer e acabou derramando parte de sua bebida em sua própria roupa. O homem acabou se sentindo culpado, e pediu inúmeras desculpas. Ela as aceitou e assegurou que estava tudo bem e que provavelmente era sua própria culpa por ser tão descuidada.
Ele dissera que, depois disso, ela teria que deixá-lo pelo menos pagá-la uma bebida, e a loira, embora levemente constrangida, aceitara. Ambos se cumprimentaram, e, então, passaram a se chamar pelos seus nomes: William e Lauren.
Era perceptível que havia certa “química” entre os dois pela forma que conversavam. Seus assuntos mundanos interessavam a ambos, e até trocaram algumas gargalhadas perante a determinadas conversas.
Com o passar do tempo, William e Lauren se encontraram algumas outras vezes, porém não mais ocasionalmente, já que eles gostavam de sair juntos e se divertiam quando o fazia.
Até que um dia, Lauren foi à mansão de William para contá-lo algo importante. Ela sabia quem ele realmente era, sobre sua empresa que o fazia um homem extremamente rico e conhecido ser, na verdade, apenas uma fachada para o verdadeiro trabalho que ele fazia. Para a verdadeira firma, onde, com seus súditos chamados colunas, ele encontrava pessoas com habilidades especiais para tomá-las para si.
A reação de William fora a única obviamente esperada: surpresa. E, em seguida, dúvida. “O que você quer?”, ele perguntou, demonstrando estar decepcionado. A resposta da mulher fora bem simples. “Ajudá-lo”. Lauren o explicara que fora bem fácil conseguir essa informação e que, se ela conseguiu, outros conseguiriam também.
— E como você me ajudaria? — O homem perguntou, interessado.
— Trabalhando para você, claro. Você precisa de mais pessoas fortes te seguindo se quiser ser o homem mais forte do mundo — ela respondeu com um sorriso e uma expressão maliciosa.
— Todas minhas colunas possuem poderes.
— E eu também.
Foi aí que Lauren modificou sua aparência, tornando-se uma cópia do homem à sua frente que, agora, mostrava-se alegremente surpreso.
— O que acha? — a loira perguntou, voltando à sua forma anterior.
— Magnífico — sorrindo, ele disse em seguida. — Mas aqueles que trabalham para mim precisam, antes, dar-me seus poderes, você sabe disso, não é?
— Sim — ela respondeu prontamente.
— E você sabe que, ao fazer isso, há chances de você morrer, não sabe? — William falava lenta e calmamente. — Só após sobreviver que considerarei vir trabalhar para mim.
— Sim, eu sei — ela respondeu, firme. — É um risco que estou disposta a tomar.
— Mas... Por que deseja tal objetivo? Por que ser uma de minhas lacaias? — ele perguntou, arqueando sua sobrancelha.
— Não é óbvio? — Lauren novamente demonstrava a malícia em sua expressão. — Quando o mundo estiver em caos, eu quero estar ao lado do homem mais poderoso da Terra. Eu o admiro — completou.
William, então, deu um sorriso que há muito não dava, quase que extasiado.
— Além disso... Paga bem, não é? E, embora eu já seja rica, dinheiro nunca é demais! — ela continuou, fazendo ambos caírem em gargalhada.
*
Lauren sobreviveu a ter seus poderes copiados por William, o qual percebeu a força da mulher, porém não a tornou uma de suas colunas logo em seguida. Ele precisava saber se realmente poderia confiar nela, e, então, passou uma missão um tanto quanto complicada.
A loira teria que ir à casa de um homem chamado Cesar para capturá-lo. O problema é que o lugar estava sendo vigiado por policiais após a tentativa de captura pela primeira coluna de William ter falhado: Clark, o braço direito do homem que queria se tornar o mais poderoso do mundo, tinha habilidades de ler pensamentos e implementá-los também, porém não o conseguira fazer com Cesar, o qual possuía tanto força física extremamente elevada quanto força mental.
Embora Clark provavelmente pudesse implementar pensamentos nos policiais para ajudá-lo a capturar Cesar, ou até mesmo usar Karla, a namorada do inimigo, para fazer um ataque furtivo, Lauren teria que fazer isso para que pudesse provar ser boa suficiente.
E ela o fez. Matara os policiais, Karla, e capturara Cesar, o qual, antes de ser morto, fora imediatamente entregue a William para ter seus poderes tomados.
Com isso, Lauren conseguira entrar para as colunas de William. Não só isso, mas o homem achava que ela havia feito o trabalho tão bem que a dera lugar como a primeira coluna, o que deixou Clark extremamente furioso. Ficou assim não somente por ter tido seu lugar tomado, mas por ter ficado abaixo de uma mulher no ranking.
Apesar de, a partir daquele momento, Lauren ter sempre conflitos com Clark — o qual não a respeitava e, às vezes, deixava isso bem claro —, ela se dava bem com os outros membros. Mais ainda com a terceira coluna, Veronica, que ficara quase que instantaneamente amiga da loira assim que ela pegara o primeiro lugar no ranking, mesmo que isso tivesse causado o rebaixamento de Veronica do segundo lugar ao terceiro. Havia algumas razões para esse seu comportamento amigável: Veronica adorava saber que uma mulher estava em primeiro lugar ali; Clark estava puto; ser amiga de Lauren, que parecia estar se aproximando de William, provavelmente seria o melhor a se fazer. E essa aproximação, com o passar do tempo, só aumentava — enquanto que Clark ficava cada vez mais raivoso, chegando até ao ponto de alegar que a mulher só ganhara o primeiro lugar por estar tendo relações com o chefe.
A verdade é que isso não era bem uma falsa alegação. William, de fato, não tornara Lauren a primeira coluna por ser uma mulher e por ter interesse nela, mas sim por sua força e determinação. Mas era óbvio que ele se interessava por ela e a queria, o que, dentro de pouco tempo, conseguiu.
William e Lauren começaram a, finalmente, ficar juntos. Faziam sexo várias vezes, até que passaram a realmente namorar — mesmo que ele fosse casado com outra. Linda, a mulher de William, já fora bem próxima a ele, porém, após ter sua saúde decaído drasticamente, já não mantinha mais a mesma relação que uma vez teve com o marido. E, enquanto Linda esperava por um coração para seu transplante, com a possibilidade de ter um ataque cardíaco à qualquer momento, William se deliciava com sua mais nova mulher, Lauren. Isso, contudo, não significava que ele não amava mais Linda. William ainda cuidava dela e se importava com ela — mesmo que isso pareça ser estranho para um homem tão monstruoso como ele.
Após algum tempo juntos, porém, a relação de Lauren com William foi mudando. Não era mais sexo, pois eles se amavam. Para o homem, os lindos fios loiros de Lauren eram como os raios de sol. Ele amava acordar ao seu lado, fazer missões ao seu lado, lutar ao seu lado... Matar ao seu lado. Era como se tivessem sido feitos um para o outro.
Certo dia, Linda teve seu esperado e nada desejado ataque cardíaco. E, embora William amasse outra, isso não o impediu de passar algum tempo com sua tristeza e nostalgia. Mas, felizmente, Lauren estava lá para consolá-lo, para cuidar dele.
Até que, depois de algum tempo, resolveram se casar. A mulher era tudo para William, e ele queria poder passar o resto de sua vida com ela. Ele queria ser o homem mais poderoso do mundo e ter Lauren como sua companheira.
Porém, com o tempo, inúmeros obstáculos foram aparecendo em algumas missões, fazendo William ficar cada vez mais furioso. As pessoas das quais William tomava os poderes estavam finalmente lutando. Era como se houvessem formado um grupo e estivessem tentando fazer com que os planos do homem falhassem. Um desses planos, extremamente importante, era o de capturar uma criança que aparecera em seu radar, a qual tinha pele escura e era capaz de anular os poderes daqueles próximos a ela. Esse grupo, porém, conseguiu pegar a criança antes que William pudesse colocar suas mãos nela.
Além disso, houve outro acontecimento: o da perda de sua mãe. Fora assassinada. E, para o homem, era óbvio que aquele grupo fizera isso, o que o deixou ainda mais com sede de vingança.
Não só isso. Duas pessoas das quais acreditava poder confiar o traíram: Veronica e Clark, os quais tentaram matar Lauren após ela ter descoberto que eles estavam trabalhando para o inimigo. William, então, viu-se com apenas uma opção: matá-los.
Seus outros companheiros, quarta, quinta e sexta coluna, foram, durante outras missões para tentar acabar com o “grupo”, assassinados, embora tivessem conseguido levar um dos inimigos com eles.
Até que, certo dia, William se deparou com Lauren entrando em sua casa completamente desnorteada. O homem ficou atônito ao ver o sangue na roupa da mulher. Aquele líquido escarlate também derramava de sua boca.
Ao cair nos braços de seu marido, Lauren explicara o que acontecera. Ela tentara vingá-lo por suas perdas, mas falhara. William, triste e furioso, tentava falar alguma coisa que a acalmasse, enquanto Lauren tentava passar uma última mensagem. Ela sabia onde a criança estava. A criança que podia anular os poderes dos outros. “Você pode matá-los se pegar a criança”, ela disse.
“Eu não quero que você morra!”, William falou, em desespero. Lauren sorriu, seus dentes melados em sangue. “Eu... Eu te amo”, ela disse uma última vez, antes da luz em seus olhos se apagarem.
William, preenchido por ódio, então, resolveu fazer exatamente o que ela pedira. Ele fora até o local, com o intuito de pegar a criança, roubar sua habilidade e, depois, queimar todo aquele lugar e todas aquelas pessoas que ousaram entrar em seu caminho.
E ele a viu. A criança, no segundo andar, corria para dentro de um quarto. Em disparada, William foi logo atrás, pensando apenas em se vingar de sua mulher. De sua amada.
Ao adentrar o quarto, o homem com ódio em seu olhar se deparou com a criança, mas ela não estava sozinha. Do seu lado, um homem e duas mulheres, claramente inimigos de William. “Eu vou matar vocês!”, William disse, e ergueu seu braço. Porém nada acontecera. A criança anulara os poderes dele com a ajuda de uma das mulheres, que amplificava a habilidade do menor, pois sozinha não seria capaz de parar William.
“Não. Não vai”, uma voz surgiu de trás do homem cheio de ódio. Ele reconheceu a voz, e virou subitamente para, mais uma vez, poder olhar nos olhos de sua amada. Sim, era realmente Lauren.
“Você... Está viva!”, ele estava inteiramente aliviado e surpreso. “Sim”, ela disse. A forma que a mulher falava, porém, não continha os mesmos sentimentos de William. Lauren, diferentemente dele, não estava alegre por vê-lo. Ela estava... Com raiva.
“Todos esses anos eu tive que aguentar você”, ela disse, com uma expressão de asco tamanha. “Eu realmente tinha você na palma da minha mão. Nunca nem chegou a pensar que eu teria causado o ataque cardíaco de sua mulher, não é?”, ela disse, sorrindo de uma forma que misturava malícia com fúria. “Nem mesmo quando sua mamãe foi assassinada. Você não deu chance à Veronica, porém Clark tentou te avisar sobre mim antes de você matá-lo... Bom, você nunca acreditaria que eu os teria incriminado, não é?”.
“Eu tomei de você sua mulher, sua mãe, seus companheiros, sua empresa...”, Lauren falava. William não podia acreditar no que ouvia. Todos aqueles anos que passara com aquela mulher... Tudo aquilo fora mentira. Confuso, desorientado, perplexo e devastado, o homem não reagia. Ele apenas ficou ali parado, ouvindo-a continuar:
“E, agora... Vou tomar sua vida”.
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