Afterlife

30 Nenhuma esperança


Tudo estava indo de acordo com as expectativas de Ryan. Bom, pelo menos grande parte dessas expectativas, já que ele tinha Michael ao seu lado. Isso ficou mais claro ainda quando o homem de olhos verdes veio até Ryan, que se passava por Claire, para finalmente conversar sobre o que acontecera anteriormente, quando estavam no apartamento de Leon.

— Eu esperei muito para te perguntar isso, mas... O que aquilo significou? — Michael se referia aos momentos íntimos que tiveram. Ele tinha grandes esperanças.

Ryan fazia uma expressão de conflito, como se aquilo tudo fosse muito difícil e tentasse colocar seus pensamentos em lugar. Suas capacidades teatrais eram incrivelmente perfeitas.

— Eu não sei, Michael — Ryan enfim respondeu — A verdade é que você sempre foi muito bom para mim. Bom até demais. E eu o tinha por garantido. Porém depois que conseguimos fugir daquela prisão... Eu não sei, mas eu finalmente pude vê-lo de outra forma. Acho que o que realmente estou querendo dizer é que... — Ryan deu uma pequena pausa e em seguida focou com paixão nos olhos de Michael — Eu estou pronta para ter algo com você. Estou pronta para dar uma chance a nós — ele disse finalmente, e pôde observar o outro sorrir, fazendo o mesmo logo em seguida.

Assim que Ryan começou a se inclinar para beijar Michael, este dissera subitamente:

— Há um lugar que eu queria te mostrar.

Ryan instantaneamente sentiu uma estranheza no ar. Fora quase que parado ao tentar beijar Michael e talvez até tivesse notado o maior se distanciar levemente.

— Que lugar? — Ryan perguntou, incitado.

— Fora daqui. Um lugar que sempre guardei para esse momento.

A forma que o homem de olhos verdes sorria encantava Ryan. E todo aquele momento de aproximação dos dois fizera o mais baixo nem pensar mais no que “possivelmente” acontecera. Embora já tivessem se beijado anteriormente, Michael provavelmente era bem romântico e queria fazer aquilo em um lugar especial já que seria o começo do relacionamento.

Ryan, alegre demais com tudo (ou quase tudo) que ia de acordo com seus planos, apenas perguntou se eles deviam mesmo sair dali, já que poderia não ser seguro do lado de fora. Michael ter dito “Quem se importa?” e ter segurado na mão do outro, porém, fora o bastante para que o menor sucumbisse a seus sentimentos e o seguisse sem delongas.

*

— O que é esse lugar? — Ryan, sorrindo, perguntou.

Eles estavam diante de uma casa comum em um bairro não muito movimentado. A casa não era perfeita, mas também não era nada feia. “Talvez ele tenha comprado essa casa em algum momento de sua vida para quando Claire finalmente o quisesse”, Ryan pensou. “Perda dela”.

— Você vai ver — Michael disse, também sorrindo de maneira charmosa.

Claramente empolgado, Ryan abriu a porta e entrou de uma vez. Deu alguns passos para frente, enquanto verificava os cantos da casa, e então parou. Não havia nada demais, pelo menos não aparente.

Ryan, então, virou para Michael, na esperança de captar uma dica sobre o que estavam fazendo ali. Porém aquilo apenas serviu para ter seu sorriso desmanchado ao ver o homem completamente sério e até mesmo com uma leve feição desgostosa.

Aquele que se utilizava do corpo de Claire franziu a testa e, pouco tempo depois, pôde sentir calafrios. Alguém a mais estava ali. Não, não um “alguém” qualquer. Ryan sabia quem era.

Com seu coração extremamente descompassado, o mais baixo correu em direção à porta, mas subitamente fora acometido com intensas dores de cabeça que o fizeram cessar seus passos instantaneamente, levando suas mãos às têmporas de maneira instintiva. Os gritos de agonia daquela falsa Claire ecoaram naquela sala meio vazia.

Caindo de joelhos no chão, Ryan se virou para o outro lado, avistando o homem cuja simples sombra não queria nem ver perto. Aquele monstro chamado William. E, do seu lado, a verdadeira Claire.

As dores agudas e maçantes na cabeça de Ryan haviam cessado, mas claramente não havia muito mais o que fazer. Além de estar caído, Michael — de pé em frente à porta — atrapalhava seu caminho. Ainda, havia aquele homem tenebroso ali que facilmente o capturaria se tentasse correr. Não havia mais o que fazer.

— “Não posso me dar ao luxo de ter fraquezas. O que é engraçado, já que tenho uma fraqueza da qual nunca conseguirei me livrar: meu amor por Michael”. Foi isso que você disse antes de colocar uma bala em minha cabeça, não foi? — Claire disse, bastante aborrecida, para aquele homem que continuava utilizando sua imagem.

Ryan estava devastado. O homem que amava o havia enganado, e aquilo o destruíra completamente. Ele sabia que algo assim obviamente aconteceria caso Michael descobrisse a verdade, mas isso não impedia seu coração de doer. De sangrar tristemente. E de deixá-lo furioso, pois entregá-lo a William... Logo para aquele monstro...

— Estou tendo um déjà vu aqui — William disse com sua voz recheada de uma entonação sarcástica e maquiavélica.

Aquele homem incrivelmente poderoso fitava Michael, que nitidamente não entendera o porquê de ele ter falado aquilo. Depois, William voltou a olhar para Ryan, com uma expressão de superioridade e desprezo.

— Vocês dois podem ir — O homem de cabelos escuros disse — Eu planejava capturá-los também, mas agora penso que seria melhor deixá-los ir. Não que eu não consiga — ele sorriu, demonstrando deboche —, até porque seria bem fácil. Mas provavelmente criaria uma abertura para essa aqui escapar — Apontou para Ryan.

Ao ver os dois se dirigindo á saída, Ryan começou a berrar em desespero. “Não me deixem!”, ele pedia inúmeras vezes numa voz agoniada, demonstrando uma fraqueza e temor que era assustadora de se ver advindo dele. Seus olhos se enchiam de lágrimas que ele teimava em tentar não liberar.

Em um último olhar que Claire deu àquele homem o qual utilizava sua imagem, ela pôde ver o grande temor em seus olhos. E aquilo não se dava por conta dos poderes de William, pois, quando ele fizera isso da outra vez, Claire sentira, embora não estivesse olhando diretamente em seus olhos. Aquele medo advinha da mera presença daquele homem de cabelos escuros.

Os passos vagarosos de William faziam os pelos do corpo de Ryan arrepiarem. O homem parou, abaixou-se, pegou no queixo do outro levemente para virá-lo em sua direção e, com um sorriso macabro, olhando profundamente nos olhos castanho-escuros daquele rosto que o mais baixo usava, disse:

— Nós vamos nos divertir bastante juntos.

Ryan estava verdadeiramente assombrado. Naquele momento, ele já não via mais nenhuma expectativa em sair vivo da posse de William. Não havia mais esperança.