Afterlife

27 Claire – William


Doze carros prateados haviam passado por aquela rua um pouco movimentada. Era provavelmente umas nove da manhã, e eu estava em uma lanchonete, sentada a uma mesa, em cadeiras acolchoadas, do lado da janela por onde observava tediosamente o lado de fora. Ouvi os passos da garçonete se aproximando, e voltei a prestar atenção para o lado de dentro. Ela colocou um prato na minha frente com algumas panquecas e com cobertura de morango, e outro com várias panquecas cobertas de chocolate no lado do homem à minha frente.

— O que você quer? — perguntei, sem muito estímulo.

— De novo? — Sua voz era grossa e firme, e ele falava calmamente. — Quero que se alimente — Sorriu.

Eu estava com muita fome, isso era verdade, e a situação, embora extremamente esquisita, não me impediu de começar a comer. Além do mais eu já estava salivando, e aquelas panquecas pareciam deliciosas.

Aquele homem na minha frente havia me libertado. Ele aparecera no galpão onde eu estava presa e simplesmente me soltara, dizendo para que o seguisse. Obviamente aquilo não pareceu boa coisa, porém eu não tinha muitas opções. Eu estava exausta e não saberia para onde ir ou o que fazer. Outro fator que contribuiu foi ele se dizer ser o mais forte do mundo. “Não me conhece?”, ele perguntara pouco tempo depois de me libertar. “Todos sabem quem eu sou. Meu nome é William, e eu sou o homem mais poderoso do mundo”, ele disse em seguida, com seu sotaque diferente e sedutor. Além disso, ele dissera que iria me contar tudo o que eu queria saber. E, como já disse, eu estava exausta demais, e parte de mim já não se importava com o que quer que acontecesse.

William era bem alto, bem forte — não muito exagerado —, tinha pernas grossas, e era bem proporcional. Ele usava uma camisa cinza um pouco apertada com uma gola v de botões que estavam abertos, e eu não podia deixar de notar os pelos em seu peitoral musculoso. Seu rosto era bem bonito, quadrado, com olhos azuis e lábios que não eram finos, mas não eram muito volumosos, porém incrivelmente atraentes — assim como ele por inteiro —, e ele usava uma barba rala. Seu cabelo era castanho-escuro, não muito curto, e com leves ondulações. Seus dentes não eram perfeitos, mas não eram feios, e seu sorriso era extremamente encantador.

O homem já havia falado um pouco de si. Ele podia “roubar” o poder de outras pessoas e utilizá-los quando quisesse. Eu só não sabia o porquê de ele não ter pegado o meu ainda. Mas eu não estava assustada nem nada. Para ser sincera, estava bem calma.

Depois de comermos, eu mais uma vez o perguntei:

— O que você quer comigo?

— Uau... Você é realmente impaciente — ele disse, de um jeito charmoso.

— Você disse que iria me contar tudo o que eu queria saber — Dei uma pausa, e ergui as sobrancelhas, claramente esperando que ele falasse algo. — Vamos, diga o que eu quero saber.

O homem sorriu. “Nós precisamos ir a um lugar. No meio do caminho, direi tudo”, ele disse. Eu já tinha esperado tanto tempo, o que seria mais alguns minutos, não é?

Seu carro, que eu não sabia qual era por ser meio desligada nesse assunto, era bem bonito e provavelmente muito caro. De fato, durante o caminho até esse “lugar”, William finalmente começara a falar. A falar sobre a razão de termos sido capturados.

Os experimentos que faziam em nós não era algo comum como para entender nosso funcionamento, para saber mais sobre nós, ou coisas do tipo. Aquele lugar do qual eu sentia arrepios só de pensar era utilizado para recriar nossos poderes. Sim. Recriar. Eles estavam vendendo nossos poderes, dando-os para pessoas comuns em troca de grande quantidade de dinheiro.

Aquilo era ultrajante. Eu estava revoltada. Não podia acreditar que tudo aquilo era por dinheiro. Tudo o que passei... Sei que não foi por muito tempo, mas fora horrível! Eu estava indignada e furiosa. Essas pessoas eram... desprezíveis.

Em seguida, William disse que por bastante tempo essa recriação das habilidades não funcionava. Os experimentos causavam mutações nas pessoas, deformando-as e as transformando em monstros extremamente poderosos e incapazes de raciocinar. Porém há algum tempo eles conseguiram alguém com poderes regenerativos para experimentar, o que os deu a possibilidade de efetivar essa recriação das habilidades e as vender. O único problema é que, mesmo assim, certa mutação ainda ocorria em determinados genes denominados protooncogenes, transformando-os em oncogenes, o que causa a cancerização das células normais. Eu não captei muita coisa da explicação que ele deu, mas pude entender que essas pessoas estavam desenvolvendo câncer.

“Porém eles conseguiram outra pessoa com poderes regenerativos”, William disse. Ele falava de mim. E, pelo que disse, os experimentos feitos em mim puderam chegar à conclusão de que meu sangue era especial. Diferentemente dessa outra pessoa com capacidades regenerativas, eu era a solução para essa mutação dos protooncogenes. O meu sangue fazia com que o câncer não se desenvolvesse.

Era por isso, então, que eu possuía um quarto especial. Aqueles que me raptaram consideravam-me uma fonte enorme de dinheiro, claramente. E, pelo que William disse, Aaron também. Ele me mantivera naquele galpão porque estava vendendo meu sangue para essas pessoas, as quais precisavam se livrar do câncer adquirido junto de suas novas habilidades. E, como precisavam de bastante, meu sangue valia muito. Porque eu era especial. Estava começando a odiar aquela palavra.

“Mas mesmo assim... Aaron ia me libertar...”, pensei momentaneamente. Até que William estacionou o carro perto de uma mansão enorme.

— É aqui que você mora? — perguntei, um pouco indiferente.

— Não.

— O que estamos fazendo aqui então? — Olhei para ele claramente confusa.

— Aqui é onde mora uma das pessoas que, de certa forma, colaborou com seu sofrimento.