Afterlife

28 Claire – Os olhos da morte


William saiu do carro e foi em direção à entrada da mansão. Eu fui correndo atrás dele. Eu estava completamente perdida com tudo aquilo, não tinha ideia nenhuma do que ele ia fazer.

— O que está fazendo?! — perguntei em voz alta.

Meu coração começou a acelerar. Ele fez um movimento com as mãos e as grades da entrada se abriram. Eu o continuei seguindo e tentando conseguir com que me dissesse o que estava fazendo, mas era em vão. Tentei segurá-lo, mas ele se desvencilhou facilmente.

Alguns guardas apareceram e começaram a gritar. Eu estava ficando agoniada, inquieta, assustada. Cessei meus passos ao ver aqueles homens armados se aproximando, enquanto que William continuou a andar. Os guardas, então, pararam, ergueram suas armas e atiraram.

Eu fiquei completamente assustada e com medo de aquilo me acertar. Porém as balas pararam no meio do caminho. William estava com seu braço erguido. E as balas lá no ar, estáticas. Elas caíram ao chão de pedra segundos depois.

William, em seguida, direcionando sua mão, fez com que as armas dos guardas fossem retiradas de suas posses. Depois, elas, suspensas no ar, foram colocadas de frente a eles, apontando para suas cabeças.

Em nenhum momento William parou de andar. Ele estava completamente calmo, e claramente não se importava muito com aqueles ao seu redor. Eu, com minha respiração descompassada, já sabia o que iria acontecer. Foi então que as armas dispararam contra os guardas, matando a todos, caindo no chão em seguida.

Eu estava perplexa. Aquele homem... Ele finalmente me dava medo. Assombrada, continuei imóvel. Após alguns segundos, William parou de andar e virou para mim.

— Você vem ou não?

Respirei fundo e engoli em seco. Eu podia correr, podia tentar fugir dele. Mas algo dentro de mim queria segui-lo. Queria ver o que aconteceria. Queria olhar nos olhos daquela pessoa que se dava bem enquanto eu passava por inúmeros momentos horríveis. Eu o segui e não disse mais nada.

William começou a correr. E eu fui atrás. Subimos os vários degraus e nos dirigimos rapidamente até um dos quartos, enquanto eu ouvia alguns empregados se desesperarem e observava aquele homem não dar nenhuma atenção para eles, como se não fossem nenhuma ameaça.

A porta de um dos quartos foi aberta de uma vez por William, o qual entrou e fez algum gesto na mão que, pelo que ouvi, fez com que as janelas se fechassem. Quando consegui alcançá-lo, pude ver uma mulher próxima a uma das vidraças pelas quais provavelmente tentara escapar antes de ser interrompida. Ela estava obviamente com medo.

— Tentando escapar? — William perguntou sarcasticamente, com um sorriso malicioso em seu rosto.

— Quem é você?! — ela perguntou, espantada.

— Seu pior pesadelo.

A mulher se mexeu abruptamente. Era como se fosse fazer algo, talvez usar suas habilidades. Porém William mudou seu olhar, ficando extremamente sério e quase que mergulhando por completo nos olhos da outra. A mulher parou completamente, e o semblante assombrado de seu rosto aumentou de maneira descomunal. Eu podia sentir o seu medo exalar de seu corpo. Também podia sentir a imposição desse medo advindo daquele homem. Eu comecei a suar, mas não tanto quanto aquela mulher que, dentro de pouco tempo, ajoelhou-se e abaixou sua cabeça. Seu corpo tremulava. Engoli em seco.

— O que você fez? — perguntei, com certo receio.

— A intimidei. Sou capaz de fazer as pessoas sentirem temor extremo ao olhar em seus olhos — Ele sorriu para mim como se aquilo fosse algo engraçado.

Comecei a respirar de forma desregulada. Ao perceber isso, tentei me normalizar, pois não queria demonstrar estar desestruturada em frente àquele homem aterrorizante. Consegui melhorar um pouco minha respiração, embora ainda estivesse um pouco ofegante.

— E então, Claire? O que você quer que eu faça com ela?

— O que quer dizer? — retruquei, confusa.

— Você quer que eu a mate?

“Você quer que eu a mate?”. Aquelas palavras ecoaram em minha cabeça. A forma na qual ele falara aquilo... Parecia tão simples. Matar claramente não era nada demais para ele.

— Por que eu iria querer isso? — repliquei, nervosa.

— Ela é uma dos humanos que compraram poderes. Ela é uma das pessoas que sabiam o que acontecia com vocês naquela prisão e não estavam nem aí para a forma em que foram tratados. Não só isso... — William andou até a mulher e ergueu sua cabeça para que olhasse em seus olhos. — Venha conosco, porém não faça nem fale nada — ele disse firmemente.

O homem fora em direção a outro quarto e pedira para segui-lo, e eu o fiz, apesar de que já começava a pensar que ir embora dali talvez não fosse uma ideia tão ruim.

Nesse outro cômodo não havia muita coisa, a não ser um armário um tanto quanto grande e de metal, completamente trancado. Eu ouvia um barulho de dentro. Alguém estava lá.

William abriu todas as trancas e, então, a porta. Aquele alguém dera um grito feroz. Eu dei um grito de susto e desespero, e me afastei. Era um monstro que estava amarrado ali dentro por inúmeras correntes metálicas. Era algo extremamente alto e forte, porém completamente desfigurado, com músculos de fora, sem cabelo, queimaduras... Meu coração parecia querer rasgar meu corpo.

— O que... O que diabos é isso?! — perguntei, inteiramente aterrorizada e enojada.

— Lembra quando eu disse que, ao ter a recriação de habilidades falhada, as pessoas se transformavam em monstros? Pois é. Esse é o irmão dela. Bom... Era.

Eu não podia acreditar. O quão perturbador era aquilo tudo? Aquela mulher sabia o que acontecia com nós na prisão, e ela tinha o irmão transformado em monstro amarrado dentro de sua própria casa!

— Além disso... — William voltou a falar — Muitas vezes, ao acontecer essa mutação nos humanos a partir da falha da recriação das habilidades... Ocorria o mesmo com vocês.

Comecei a me sentir mais nauseada ainda, e, dentro de poucos segundos, regurgitei ali mesmo. “Você está bem?”, ele perguntou. Era óbvio que não estava. Aquilo tudo... Era demais.

— Olhe para você mesma no espelho — William disse quando me ergui, apontando para a parede ao meu lado.

Eu virei meu rosto e olhei. O assombro em minha face e a minha posição de vulnerabilidade me deixavam ainda mais assustada. E aquele monstro à minha frente, então... Era como se eu estivesse olhando diretamente para os olhos da morte.

Ouvi uma das correntes se quebrar. Aquele monstro conseguira, de alguma forma, se livrar de algumas amarras, e eu fiquei apavorada. William o empurrou para dentro novamente, e, então, mirou sua mão para a cabeça daquilo, e começou a fechar lentamente seus dedos. O monstro se contorcia. Foi então que eu soube que William estava esmagando a cabeça daquilo com sua telecinese.

Saí do quarto imediatamente e me encostei à parede. Não aguentaria ouvir ou ver aquilo. Não mais. Foi então que vi a mulher sendo jogada para fora do quarto, chocando-se com a parede à minha frente.

— Diga toda a verdade — William surgiu ao meu lado, e eu senti calafrios. Ele se aproximava daquela mulher com a qual falava. — O que Claire é para você?

— Nada — a outra começou a falar, sua voz trêmula — Nada mais que um rato de laboratório.

— Você, em algum momento, pensou nas pessoas que sofreram para que você conseguisse o que queria? — William perguntou. Ele parecia hipnotizá-la para que falasse tudo.

— Sim, pensei.

— E sobre o quê pensou?

— Se precisassem sofrer ainda mais para que eu tivesse meus poderes, que sofressem. Eu só queria ser diferente, não importando as consequências.

— E então, Claire... — William disse após alguns segundos — O que quer que eu faça com essa pessoa repugnante que, de certa forma, colaborou com todo esse seu sofrimento? — Sua voz era serena. Nada daquilo o afetava de forma negativa.

Respirei fundo. Eu tremia. Estava com medo, muito medo. Mas também estava furiosa. Olhei nos olhos daquela mulher abominável. Tudo o que eu conseguia pensar era no quanto ela merecia sofrer. No quanto ela merecia... Morrer.

Eu olhei para baixo. Cerrei meus punhos, e, finalmente, respondi:

— Mate-a.

— Com prazer — Dessa vez, pude sentir o entusiasmo em sua voz.

*

— O que fará comigo agora? — perguntei.

Nós já estávamos de volta no carro. William dirigia, e eu olhava para fora da janela. Eu tentava pensar em tudo que não fosse os últimos acontecimentos daquele dia. Não queria lembrar e não iria lembrar, pelo menos naquele momento, os eventos horríveis que ocorreram há pouco tempo. Eu não queria lembrar de mim mesma falando aquelas palavras.

— Agora, Claire, farei o que faço com todos. Pegarei seus poderes para mim. Quando faço isso, há chances de a pessoa morrer. Mas, mesmo que fique viva, te matarei.

Balancei a cabeça positivamente de maneira leve. Eu acho que... já não me importava mais. Não queria me sentir especial, não queria ter poderes. Eu só queria que aquilo tudo acabasse. E, se fosse para morrer...

— Você quer morrer? — ele perguntou, calmamente.

— Eu estou cansada — eu disse, suspirando.

— Diga-me, Claire... Como você chegou nesse ponto? Quero dizer... Muitos fugiram da prisão, porém você fora capturada novamente. Como alguém pode ser tão azarada assim?

— Eu não sei.

— Como isso aconteceu?

— Um louco sociopata resolveu que iria tomar meu lugar. Ele atirou em mim, deixou-me lá para ser enterrada com os escombros enquanto, transformado em mim, viveria minha vida.

William franziu suas sobrancelhas e mordeu seu lábio inferior. Dentro de pouco tempo, voltou a indagar:

— Haveria alguma chance de essa pessoa se chamar Ryan?

Fora minha vez de ficar franzida. Totalmente confusa e até mesmo instigada, respondi:

— Sim. Por quê?! Você o conhece?

William começou a sorrir, e, depois, a gargalhar. Em seguida, disse:

— Sim. Só que, no meu tempo, ele vivia como “Lauren Krueger” — Ele parecia se encher de energia. — Parece que não irei matá-la por enquanto. Você irá me ajudar a pegá-la. E eu... — Ele virou seu rosto para mim. A expressão de fúria que mostrara em seguida fora assustadora. — Vou matá-lo!