After Real
1 Capítulo 1 - Juntos
Notas iniciais
É quente, viscoso e vermelho. Um líquido que escorre sem dó de mim. É o mais doce dos sangues e o mais repugnante deles. O meu.
Depois que me enviaram de volta para o Distrito 12 como mentalmente desorientada, senti-me mais sozinha e isolada do que quando estava no treze. Apesar de poder usar roupas de cor e fazer o que quiser da minha rotina, ainda me sinto presa e sentenciada à viver sobre regras, onde não existem entrelinhas e eu continuo a ser Katniss Everdeen. Num mundo onde eu daria tudo para não ser essa garota, muitos a idolatram. Mas como podem? Ela matou todos. Seus amigos, parentes, as pessoas que não conhecia e até mesmo quem deveria morrer. Eu matei todo mundo e muitos acham que foi para que todos possam ser livres, ter suas vidas e parar de sentir medo.
Esses motivos não se encaixam em mim.
Não quando todas as noites sonho com quem perdi. Prim, Cinna, Finnick, Gale, meus companheiros de equipe e até mesmo Peeta. O garoto que me amou desde seus cinco anos já não era mais o mesmo. Effie sumiu, Haymitch deve beber ainda mais do que já bebia principalmente por ter ficado sóbrio durante o tempo em que passamos enfurnados num lugar abaixo da terra para a preparação de uma grande revolução.
Greasy faz questão de aparecer em minha casa todos os dias pela manhã e tarde. Prepara uma comida que eu não como e dar-me sermões sobre o mau jeito pelo qual estou vivendo. Ela já devia ter aprendido que ignoro grande parte do que ela diz com meu super poder de viajar pelas lembranças e bloquear os barulhos sonoros de suas palavras.
É mórbido, depressivo e destrutivo. Mas quem se importa?
Minha patinha não existe mais assim como meu melhor amigo, caçadas e passeios pela floresta. Tudo está morto dentro e fora de mim.
Não me alimento, não saio da cama e confesso ter tomado banho poucas vezes. Não é como se alguém ligasse para isso, realmente.
Me surpreendi quando vi que alguns estavam se refazendo melhor que eu. Haymitch começou a criar alguns gansos na frente de sua casa, Peeta voltou a fazer pães para distribuir pelo distrito que, agora, começou a si reconstruir. Toda a população está empenhada em refazer suas casas e retomar suas vidas de forma direita e digna. Agora todos se alimentam de forma igual e a Capital já não tem toda aquela soberania pela qual éramos submetidos a lidar. Pelo menos foi isso que ouvi Greasy dizer. É, eu não apago exatamente tudo que ela diz já que é uma senhora gentil que tenta cuidar de mim sem que ninguém tenha pedido por isso.
O irônico é que todos têm os motivos certos para se afundar em dor e depressão, mas ninguém o fez. Exceto eu.
Pela manhã me levantei tremendo devido à pouca força que tinha no corpo, tomei banho, almocei e fingi sorrir para Greasy. Na noite anterior vi o jardim de prímulas que Peeta fez ao redor da minha casa e isso acionou uma enxurrada de pesadelos nojentos e terrorísticos pela madrugada. Foram eles que me fizeram tomar a terrível decisão de fazer o que fiz.
Depois que Greasy se despediu sorridente pela minha nova e falsa rotina, tranquei toda a casa, me recolhi em meu quarto e fiquei por lá horas e horas esperando que todos os demônios que me circundam pela noite me atacassem. Eu sabia que essa seria a última vez.
Foi então que as almas e espíritos me cercaram durante um pesadelo. Cinna, Boggs, Prim, Rue, Cato, Marvel, os pais e irmãos de Peeta...
Culpada! Eles gritam.
Sua assassina mentirosa! É culpa sua. Toda sua. Boggs fala com o rosto negro quase explodindo.
Por sua causa eu não poderei ver meu filho crescer, Katniss. Finnick conclui com o rosto triste. Ele vai viver sem o pai, sua sem coração! Monstra.
Eu podia ter vencido. Rue sussurra segurando uma das flores que usei para cobrir seu corpo durante os Jogos. Eu podia ter ficado com a minha família, egoísta. Você é egoísta!
Nosso filho está perturbado por sua causa. É tudo culpa sua, Katniss. Sr. Mellark grita junto da esposa.
Culpa sua, Katniss. Sua, Katniss. Culpa sua. Sua. Sua. Culpa sua, Katniss!
— Não! — berro acordando e jogando o lençol que cobria meu corpo para longe de mim. Coço minha pele como se o suor das almas caísse sobre mim e queimasse meu corpo. — Me deixem em paz!
As lágrimas jorram por meus olhos. Não consigo contê-las. Meu corpo, minha cabeça e meu coração doem como se eu tivesse os martelado por horas. Levanto-me da cama correndo e tropeço em meus pés. Tento segurar-me numa prateleira de madeira, mas caio e a lateral de minha testa bate no puxador de uma das gavetas do guarda roupa. Fico zonza por alguns minutos, posso sentir o corte proveniente da queda e o sangue começando a escorrer por ele. É nesse tempo que lembro-me de meu plano.
Se eu me machucar, os pesadelos não poderão atingir-me mais. Eu farei isso por eles. Eu serei a culpada disso. Uma culpa digna. Culpa esta que livrar-me-á de todos esses monstros. Todos!
Levanto-me ainda tonta e desço as escadas de casa. Silenciosa, perdida e atenta as sombras que estão vigiando-me. Chegando na cozinha a encontro. Uma bela faca pontiaguda de cabo branco que Greasy usa para cortar as carnes dos animais que ela encontra no novo Prego. Seguro-a em meus dedos e vejo meu reflexo na lâmina. Rosto pálido, cabelos negros revoltos, olhos medonhos, filetes de sangue caindo e passando pelo pescoço.
O que essa revolução causou em mim?
Rapidamente passo a lâmina num ponto acima do pulso e grito. Dói. Uma grande mancha de sangue reverbera sobre o lugar e gotas medianas começam a pingar no chão. Um filete do corte em minha testa passa por minha boca e posso sentir o gosto ferrenho que também está sobre a madeira abaixo de mim.
Os cortes cobram atenção pela ardência que sinto, mas por um instante lembro das sombras que me seguiam. Olho para trás e não as encontro.
Deu certo. Elas me deixaram. Foram embora por pouco.
Encaro a lâmina novamente e sorrio. Ela chama-me com sua beleza. Convida-me para mais uma sessão de esquecimento e sussurra que ela pode me mostrar o caminho. Uso-a mais uma vez. Agora no interior de minha coxa. Grito mais alto.
— Não era isso que vocês queriam? — berro para as sombras que começam a voltar com sussurros em meus ouvidos. — Eu estou fazendo o que pediram!
Faço um golpe no ar com a faca e ela raspa em minha blusa preta, rasgando-a em seguida.
Ah sim.
— Vocês querem isso?! — pergunto quando eles ameaçam me abraçar. — Vocês querem que eu caia para o lado negro, não é?
Sim. É isso que todos eles querem.
Seguro com força o cabo sujo de sangue, entrelaço meus dedos nele e aponto para minha barriga a lâmina também suja. Sorrio perversa. As sombras podem ser muito maldosas quando querem. Respiro fundo e olho para cima. As nuvens negras estão sobre mim, os demônios me alcançam com muita facilidade e nunca estão satisfeitos.
Barulhos na porta chamam minha atenção. Os monstros puxam a maçaneta com força para frente e para trás. Estão vindo me buscar para me arrastar para baixo junto deles. Vieram me assombrar e enlouquecer. Olho para a lâmina novamente e, com força, enfio-a em minha barriga. Arde, dói e isso me faz gritar. Minha voz sai roca, aguda e sinistra.
A faca cai de minhas mãos, bate no chão e esparrama ainda mais meu sangue. Tudo pinga. Minhas lágrimas e até mesmo minha vida. Apoio-me na bancada da cozinha e derrubo uma grande travessa de vidro. O barulho é ensurdecedor e os movimentos na porta ficam ainda mais forte.
Eles não vão conseguir me pegar dessa vez. Não vão!
Caio de joelhos. Meu corpo está sujo e gosmento de sangue, mas nunca senti-me tão limpa, tão livre dos pesadelos, almas e sombras que me trouxeram para cá. Minha visão começa a embaçar quando caio e alguém consegue arrombar a porta. Gritam meu nome e fiscalizam meus cortes.
— Eu vou preparar o carro! — grita Haymitch quando estou nos braços confortáveis de Peeta. Os dois parecem assustados, mas quando focalizo os olhos do loiro arrependo-me, por breves milésimos, de ter me machucado. Ele está triste e choroso. Eu não consigo parar de trazer decepções para ele.
— Porque você fez tudo isso, Katniss? — ele pergunta tentando afastar o sangue do meu rosto quando toda minha roupa suja a dele.
— Alivia a dor. — sussurro vendo sua expressão nervosa.
— Não! Você só criou dores novas. — briga ele puxando minha mão direita para cima do corte em minha barriga. Ele põe sua mão por cima e me ajuda a pressionar o ferimento. — Mantenha apertado, entendeu? Deus! Você está branca.
— O sangue está esvaindo de mim. — conto-lhe sentindo minha boca seca. — Os monstros pediram por isso. Eles queriam me pegar.
— Que monstros, Katniss? — ele pergunta com o cabelo caindo em seus olhos.
— As pessoas que eu matei. Principalmente seus pais, Finnick e Prim. Eles não gostam de mim. — conto-lhe como um segredo.
— Você está se perdendo, Katniss. Mantenha os olhos abertos! — grita Peeta quando pisco devagar.
— Está na hora de ir.
— Só se for para o Hospital.
Nisso, Haymitch volta até nós e ajuda Peeta a levantar comigo em seus braços. Eles correm como se pudessem fazer algo, colocam-me no carro e partem para algum lugar gritando para que eu continue acordada, mas eu não quero ficar acordada. Quero dormir o sono mais profundo e perpétuo de todos.
[...]
Depois que saí totalmente remendada do Hospital e inebriada de remédios, Peeta banhou-me e coloco-me para dormir. Não era como se eu conseguisse ter noção de meus sentidos para sentir vergonha e fazer as coisas por vontade própria. Ele ficou ao meu lado para controlar meus remédios e acomodou-se no sofá da sala para passar suas noites até que eu não precisasse mais das cápsulas de comprimido.
— Come. — ele exige quando começo a rejeitar uma sopa de frango e legumes banhados e acompanhados de caldo e arroz.
— Não consigo. — conto ao tempo em que ele ajeita-me em seu peito. É uma posição confortável que encontramos de nos manter unidos e juntos durante minha recuperação. Levou um tempo até que eu me sentisse confortável em tê-lo em meu quarto, mas, ao nos acostumarmos com a presença do outro, não nos separamos mais.
— Consegue. Vamos, está no fim. — ele força juntando uma quantidade razoável na colher. Levanta a mesma e a direciona até minha boca. Mastigo o que foi, maravilhosamente, bem feito por ele e recuso a última colherada alegando ter comido mais do que nos outros dias. Isso o faz afastar o prato marrom de mim e dar-me um copo de suco amarelo. Bebo tudo e o deixo satisfeito. — Hora de trocar o curativo.
— Ah não.
— Ah sim.
Dou espaço para que ele saia de trás de mim e tiro de baixo da cama o kit que compramos para trocar todos os curativos além de pomadas, tesourinhas, talas e tudo mais. Peeta primeiro troca o de minha testa, amaçando a gaze suja e separando para jogar no lixo. Passa uma pomada e coloca o curativo novo preso por um pequeno retângulo de esparadrapo branco. Depois faz o mesmo procedimento com o corte em meu braço até descer para a cocha e subir para minha barriga. Respiro fundo sentindo-me arrepiar quando ele passa a pomada gelada com seus dedos gentis sobre o corte. Ele acaricia os pontos que levei antes de puxar o quarto pedaço de gaze e colocar em cima do machucado.
— Pronto. — ele sussurra voltando o tecido da blusa para o lugar de origem.
Nesta noite tenho outro pesadelo e quando o loiro vem enxugar minhas lágrimas peço para que ele continue comigo pelo resto da noite. Deito sobre seu peito e sinto-me mais confortável e segura do que nunca. As noites em que estivemos juntos no trem repassando em minha cabeça antes que eu possa conseguir dormir. Logo passamos a dormir juntos todas as noites.
Numa das tardes depois do almoço, vejo-o desenhando em um bloco grande que ele encomendou da Capital junto de vários lápis coloridos de diversas pontas e tamanhos diferentes.
— O que você acha de fazermos um caderno de memórias? — pergunto à ele.
— Como aquele de plantas da sua família?
— Isso. Só que falando sobre todos que estiveram na revolução e antes dela. — explico vendo-o concordar.
No dia seguinte, Peeta, eu e Haymitch estamos na mesa de jantar. Um desenhando, um escrevendo e outro fornecendo informações. Demoramos algumas semanas para finalizar e, então, Peeta sela tudo com sal marinho para preservar as folhas e a tinta das canetas que usamos.
O loiro força-me a visitar e rodar pelo distrito quando percebe que volto a me culpar pelas mortes sofridas durante a revolta. Ele mostra o quão as pessoas sentem-se bem e livres, narra quanto tempo as obras levaram para ser concluídas e como os novos mercadinhos, farmácias, hospitais e escolas tem sido úteis.
— Porque você não reconstrói a padaria da sua família? — indago quando paramos de frente às ruínas da antiga relíquia de família.
— Não sei se consigo. — suspira fazendo-me envolver meu braço esquerdo já curado no seu.
— Todo o distrito se reconstruiu. — lembro. — Só falta você. Como é que os cidadãos vão comer pão pela manhã? Sei que fez alguns em casa como terapia, mas funciona como estabelecimento. Vai atrair as pessoas e deixar o começo do dia delas melhor.
— Sozinho não dá. Muitas lembranças, Katniss.
— Eu estou aqui com você.
— Juntos? — ele pergunta. Sorrio de lado encarando seus olhos.
— Juntos.
Notas finais
Espero reviews hein!
Hoje completo 2 ANOS de Fanfic. Tudo graças a vocês.
Um beijão, Vagalumes. Amo todos.
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