After Ever After-Interativa
5 Chapter IV-Cada Idiota Com Sua Idiotice
Notas iniciais
No momento que minha mãe me informa que vamos à Disnea Dresses, eu dou graças à Tritão por ter esquecido minha HQ no carro. No meio dos gritinhos estridentes de Pearl, minha mãe olha para mim perguntando se tenho alguma desculpa para não descer. Levanto o gibi dos X-Men do banco de trás, indicando-o, e ela sorri. Eu nunca entraria na Disnea, muito menos agora, depois da briga que tive com Aria. Conviver com meninas me lembra dela, e eu fico corroído pelo remorso.
Estacionamos o carro lilás de mamãe em frente à loja, e eu deixo-me ficar lá dentro, esperando com minha revista.
Cerca de uma hora se passa e estou na parte em que os X-Men do futuro vem para a Revolução mandar os X-Men do passado para casa quando mamãe e Pearl entram no carro novamente.
– Pera você, maninho.- Pearl me estende um pote de sundae.
Levanto as sobrancelhas.
– É de blueberry.- constato. — Com calda de chocolate.
– Dã.- Pearl brinca. — E trouxemos um coca também.
– Obrigado, Pearl.- tiro uma colherada e enfio na boca. — Por que isso?
– Você é meu irmão, Sean. Por que eu não traria um sundae para meu irmão?
– Não sei. Simplesmente não parece algo que Pearl Pontus fizesse — respondo.
– Ingrato.- ela põe língua, e se vira para mamãe. — Onde vamos agora?
– Precisamos comprar um presente para Richard.- eu as lembro, em seu estado de euforia pós-compras. — Podíamos ir ao shopping.
– Claro.- mamãe gira a chave na ignição e liga o rádio. — Chegamos em dez minutos.
Pearl está com uma sacola da Disnea no colo. Na verdade, duas. Ela me estende os pacotes quando o carro se põe em movimento, e eu olho para ela com cara de interrogação.
– Só coloque aí atrás.- ela diz, e eu coloco aos meus pés. — Não tenho espaço aqui na frente.
– E era minha vez de ir na frente.- resmungo.
– Você foi quem quis ficar aqui dentro, mofando.
– Por que eu entraria na Disnea Dresses?
– Não precisava ir com a gente.- ela replica, se virando para frente. – Podia ter ficado na sorveteria. Foi o que Festus, Max e Will fizeram.
– Festus, Max e Will vieram?
– Sim. E Festus deu por sua falta.
– Por que você não me avisou?
– Porque você disse que iria ficar lendo no carro, Sean!
– É, mas eram os O’Crown!
– E Jasper também — acrescenta a minha mãe.
– Devias ter me chamado Pearl!
– Você pediu para não ser incomodado!
– É, mas voc-
– Ok, já chega! — minha mãe nos interrompe, e eu reparo que estávamos gritando. – Acabou a gritaria! Vocês já não têm cinco anos. Deviam se portar como tal e parar de discutir!
– Mas, mãe- começamos juntos, para sermos mais uma vez interrompidos.
– Sem mas! Quietos, os dois. É mais importante do que suas briguinhas.- diz ela, e nos calamos. – Vou deixar vocês dois no shopping, para que comprem uma prenda para Richard. Cada um vai comprar a sua ou conseguem chegar num consenso ao menos sobre um presente?
– Conseguimos.- dissemos juntos. Apesar de tudo, eu precisava que Pearl me regulasse, e ela precisava de meus conselhos sobre os gostos do Montgomery.
– Ótimo.- concluiu. – Eu encontro vocês na praça de alimentação então, daqui meia hora, para que almocemos.
– Sean não iria almoçar com os Bjorgman hoje? — Pearl pergunta.
– Iria.- minha mãe diz, vez que eu me contenho para não gritar com a obtusidade de Pearl. – Mas, houve um... Imprevisto.
Minha irmã encolhe os ombros.
– Por mim tudo bem.- diz ela.
– Conseguiremos fazer isso.- concordo, no exato momento que chegamos ao shopping.
– Então nos vemos mais tarde.- mamãe concordou, e parece ver alguém. – E, lembrem-se, não marquem absolutamente nada para amanhã, porque-
–O papai chega.- eu e Pearl finalizamos sua frase. Mamãe não fala de outra coisa nos últimos dias, e vai ser realmente muito bom ter papai de volta em casa.
Descemos do carro, ambos de cara fechada. Mas, entendam, é impossível ficar irritado com a minha irmã. Ela é um doce de pessoa; e, se eu não pedisse desculpas, não poderia contar com sua ajuda para resolver meus problemas.
– Desculpa por ter gritado com você.- digo, acanhado como uma criança de cinco anos que fez algo errado.
– Não tem problema. Desculpa por não ter te chamado.- ela emenda, não tão acanhada quanto eu.
– Não tem problema.- concluo. – Que compraremos para Richard?
– Você é quem conhece ele melhor.
– Não, é você.- replico, enquanto entramos no lugar. – Eu não sou da sala dele, e Richard nunca conversa comigo.
– Porque a única coisa que ele faz é dormir.- Pearl devolve. – E ele também não é da minha classe.
Bufo, chateado.
– Tem alguma ideia do que ele gosta? Você tem mais contato com ele por causa de Rosemarie.
– Tá. Você ganhou essa.- ela diz. – Sei que ele gosta de videogames. E de moletons. De filmes de ação e de dormir.
– Certo. Então podemos ir primeiro na loja de roupas masculinas.
– Podemos.- concorda, e começamos a andar. – Mas lembra-te, maninho, que vamos comprar um presente para Richard. Não para você.- brinca ela, e eu ponho língua.
No percurso, passamos em frente à uma loja de quadrinhos, e eu não me contenho.
– Pearl, vem comigo? — pergunto, animado como uma criancinha num parque de diversões.
– Sean, temos de comprar o presente de Rick.- ela me lembra.
– Temos cinquenta minutos ainda.- eu digo, e ela faz uma careta. – Por favor, Peeaarl!
– Tá, tá.- ela se rende. – Mas só dez minutos, okay?
– Preciso de quinze.
– Sean!
– Tá bem, dez.- seguro o braço dela. – Agora vem.
Pearl pode reclamar de mim com meus gibis, mas ela também adora super-heróis. Então, claro, no momento em que ela vê as action-figures do Homem De Ferro, ela se esquece completamente dos dez minutos combinados.
– Mas a armadura dele não é vermelha e dourada? — ela pergunta, segurando um exemplar de um preto-azulado.
– Cuidado, Pearl! — chamo sua atenção. – Esse é um exemplar da Stealth, a Mark 3.4! Só foram produzidos 125 exemplares dela em todo o mundo mágico!
– Ah.- ela coloca a figure de volta na prateleira, meio descuidada e sem-graça. Percebo que metade da loja está olhando para nós dois, e que eu havia falado meio alto demais. – E esta?
– É a Mark 15.0. — respondo, mais controlado, pegando o boneco. – Foi desenhada especialmente para a-
– Hey, Sean! Não te tinha visto.- me viro e vejo Fredrick Frost acenando. Sorrio, e aceno de volta, enquanto ele começa a se aproximar.
Aí é que sua prima, Catelyn Bjorgman, agarra seu braço com força. Vejo uma pequena crosta de gelo se formar no moletom de Fred, sinalizando o estado de humor de Catelyn. Ela diz algo com os olhos para o primo, enquanto uma menina loira atrás dela desvia os olhos também para o primo. Me toco que é Aria Bjorgman, minha melhor amiga. Ou ex-melhor amiga, já que ela não quer me ver nem pintado de dourado. Fico estático no momento que ela levanta a voz.
– Acho que tens razão.– diz ela, me fuzilando com o olhar.– Não vamos encontrar nada que preste aqui. Só vejo coisas para gente... estranha – enfatiza a última palavra.
Essa doeu. E muito.
Observo as Bjorgman e Fred virarem as costas para mim e minha irmã, e Aria se coloca à frente dos três. Parece que quanto mais eu tento consertar a burrada que fiz, pior ela fica.
Me viro para colocar a action-figure de volta na prateleira e me deparo com uma Pearl me fuzilando.
– Que foi? — pergunto, colocando o boneco no lugar.
– Eu é que lhe pergunto.- replica, confusa e zangada. — O que foi aquilo?
Suspiro pesadamente enquanto saímos da loja.
– Eu n-
– Sim, você sabe. Primeiro você não vai almoçar com os Bjorgman, depois faz mais de meio século que Aria não vai lá em casa, e agora essa cena. Vais ter de arranjar algo melhor do que ''Eu não sei'' para me convenceres.- ela enfatiza as últimas palavras, andando em meu encalço. Tento ignorá-la, mas é bem mais difícil do que parece. Minha irmã agarra meu braço, me fazendo parar. — Sean. O que você fez?
Ela se senta em um banco e me puxa com ela. Odeio quando a Pearl banca a irmã mais velha-mesmo que ela realmente seja uma.
– E-eu não sabia.- começo. — Estava na escola antiga, sabe? Com... Max e Eric.
– Max e Eric.- ela me interrompe. — Max eu ainda entendo, mas Raoni? O que é que você queria com ele?
– A equipe de esgrima da escola dele estava competindo contra a da nossa. Eu ganhei dele, ele achou que valia a pena falar comigo. Foi só.- me explico.
– Você tem de aprender a ser mais seletivo, maninho.
– Posso falar? — pergunto, irritadiço, e ela assente. — Bom, estávamos lá. E o Max sabe que eu sou... Bom, era amigo da Aria, e quando contou pro Eric ele começou a falar mais dela. Que ela era feia, que ela era estranha, que eu estava perdendo meu tempo com ela.
– Mas te falam isso desde que vocês dois ficaram amigos.
– Sim, falam. Mas eu estava de saco cheio. — confessei. — E queria que eles parassem de falar sobre Aria, porque eu fico numa situação desconfortável quando falam dela. Eles falam mal, e eu posso defender; mas nunca adiantou de nada. Daí, para que eles calassem a boca, eu falei que também achava ela estranha, e que não éramos tão chegados assim.
Eu olho para Pearl, e vejo seus olhos carregados de desapontamento.
– Se você não fosse meu irmão, eu te xingaria dos nomes mais feios que você conseguir pensar aqui e agora. — ela diz, mas seu o seu característico tom doce e meigo.
– Ainda não acabei.- digo, e ela me olha com cara de quem quer me empalhar. — Foi na hora em que eu falei isso que a Aria saiu correndo de um canto escondido do corredor. Eu fui atrás dela, para tentar explicar porque eu falei aquilo, mas ela não ouviu. Bom, de fato, ela ouviu. Mas não acreditou.
– Claro que não.- minha irmã diz. — Eu também não acreditaria.
– Ei! — digo. — Eu sei que eu dei mancada, mas-
– Não foi uma mancada, Sean. Você jogou quatro anos de uma bela amizade no aterro sanitário em um segundo e noventa e oito décimos.
– Eu sei, Pearl. Eu já saquei isso. Eu nem sei porque fui dizer aquilo mais, não valeu a pena. — digo. — Mas eu não sei como...
– Consertar? — uma terceira voz sugere. Olho para cima e vejo uma garota que aparenta ter minha idade, mas com trajes incomuns. Seu chapéu de pirata é um ótimo exemplo disso. — Então você é o idiota.- concluiu ela.
– Do que está falando? — Pearl sai em minha defesa.
– Só um idiota diz coisas sem saber porquê.- devolve ela, os olhos cinzentos cintilando de empolgação por debaixo do chapéu. — E só um maior idiota ainda pensa que um ser humano é como uma peça de robô, que pode ser simplesmente consertada quando algo quebra.
E então ela vira as costas para nós e sai andando pelos corredores como se não houvesse amanhã. Esbarra em um menino levemente parecido com ela, que usa o mesmo tipo de roupa estranha, e os dois começam a andar juntos.
Okay, né.
– Bom, vai demorar a sarar, Sean.- Pearl continuou. — Mas pelo menos você sabe o que fez de errado.
– Para o bem ou para o mal.- completei, e avistamos nossa mãe. Ela acena, e nós caminhamos até ela. — Mas, Pearl, como é que eu vou fazer?
– Não sou exatamente especialista no assunto, maninho.- Pearl disse. — Talvez Rosemarie...
– Ela é muito próxima de Aria.- a interrompi.
– Ou Rosetta.- ela continuou. — Mais algum problema que queira me contar de uma vez?
Mamãe nos olha e concluiu que a)eu contei a Pearl o que houve e b)não compramos o presente. Oops.
– Eu acho que a Catelyn quer me estrangular.-acrescento.
– Catelyn Bjorgman pode ser meio, hm... Temperamental.- concorda Pearl, enquanto nossa mãe observa.
– Você não viu nada.- uma nova voz diz. Olho e vejo novamente Fred, que se aproxima sorrindo e batucando seu bastão no chão. Ele sorri para minha mãe. — Senhora Pontus. Olá, Pearl.
– Oi, Frederick.- minha mãe devolve.
– Hey, Fred.- Pearl diz.
– Cara, você não estava com as suas primas? — pergunto.
– Estão no toalete feminino.- ele devolve, ainda batucando com o bastão. — Vêm procurar aqui assim que saírem.
– Claro.- devolvo. — Que fazem aqui?
– Viemos comprar um presente para Richard Montgomery, como vocês.
– Não vejo nada em suas mãos.
– Nem eu nas suas.
– Tá. Você ganhou esta.- me dou por vencido. — Mas diz aí, como é que sua mãe tá?
– Ah, levando. Consertou o rinque de patinação que papai tinha estragado mais uma vez semana pas-
Catelyn havia se aproximado e cumprimentado minha irmã e mãe. Fred se interrompe quando a vê.
– Frederick, temos de ir.- ela diz, tão sutil quanto consegue. — Minha mãe está nos esperando lá fora.
Ele levanta as sobrancelhas, obtuso.
– Posso ir para casa mais tarde, Cat.- ele anuncia, e mostra o bastão.
E aí, por um milésimo de segundo, Catelyn desvia o olhar do primo para mim. É o bastante para eu sentir como se todas as partes do meu corpo tivessem sido envolvidas em gelo, e minhas costas se tensionam. Então ela volta-se novamente para Fred.
– Não, não pode. Vamos, Freddy.- ela diz, segura seu braço e se vira. Ele se despede de nós, no encalço da ruiva.
– Eles formam uma dupla divertida.- minha mãe comenta mais tarde. — Amor de primo é uma coisa realmente maravilhosa.
– Mãe, acho que Fred e Catelyn não pensam assim.- digo, ao seu lado no banco da frente.
Minha mãe sorri para mim.
– Ah, Sean. A gente acha amor nos lugares mais inusitados, acredite.
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