After Ever After-Interativa
13 Capítulo XII-Até Os Encantados Sofrem
Notas iniciais
Ser eu é difícil, vou falar. É preciso muito esforço pra permanecer são perante uma irmã extremamente rebelde, um irmão problematicamente explosivo e pais que não conseguem se entender — isso pra não falar de ter crescido em dois mundos conflitantes. Eu não sei como continuo nessa casa de livre e espontânea vontade, não depois de tudo que vi por aqui.
É o que eu penso quando acordo naquela manhã sob gritos. Rapidamente reconheço as vozes de Spencer, minha irmã, e minha mãe. Grunho, virando para o outro lado da cama e enfio minha cabeça no travesseiro enquanto tento abafar o barulho. Falho miseravelmente, como sempre, mas acabo ouvindo uma batida na porta.
–Entra- digo, ainda no travesseiro.
–Tadoka?- ouço a voz de meu irmão mais novo -Posso?
–Claro, Malik– arredo pro lado, deixando espaço para que ele se sente -O que aconteceu com elas dessa vez?
Meu irmão suspira, tomando o lugar que lhe ofereci.
–Bom, Speedy chegou tarde demais noite passada. Mamãe disse que ela não deveria e ela disse que mandava na própria vida- meu irmão resumiu -Aí já viu, né?
Esfrego as têmporas, ouvindo a altura dos gritos. Fazia muito tempo que não chegavam tão audíveis no meu quarto, pelo menos não a ponto de eu distinguir as palavras.
–E onde está o pai?
–Saiu antes de eu acordar. Não faço a mínima ideia- meu irmão diz, e ficamos em silêncio por algum tempo até que ele volte a falar -Acha que isso vai parar, T?
Suspiro alto até demais.
–Eu espero- digo, me sentando na cama -Senão, eu levo você e Speedy pra morar comigo quando eu sair de casa. Não vou abandonar vocês nesse inferno.
Malik sorri melancolicamente. Eu me levanto e coloco um jeans e uma camisa, constatando que é um dia relativamente quente, e penteio meu cabelo. Meu irmão me faz uma cara estranha.
–Vai à algum lugar?
–Bem- eu digo -Eu havia combinado com Moon de fazermos alguma coisa hoje.
–Ah- ele diz, nada surpreso, e se põe de pé -Vai finalmente pedir ela em namoro?
–Malik, eu já disse qu-
–Papo-furado. Você gosta de Moony Willd, ponto, Tristan- meu irmão coloca, e eu devo ter sorrido como um idiota -Meu Deus, você gosta muito de Moony Willd.
–Cala a boca, Henry- eu brinco, o chamando pelo primeiro nome -Vem, eu te dou uma carona para... Pra onde você for.
–Eu tava pensando em ficar em casa, sabe? Passar o dia com meu irmão- ele diz, cético.
–Olha, cara, foi mal. Eu realmente combinei, tá na agenda do meu celular- eu argumento, estendendo-lhe o telefone.
–Certo- ele me diz, embora pareça chateada -Eu acho que vou ter com Finn, então. Não o vejo desde antes das férias.
–De todos os lugares nessa cidade você me pede pra levar-te à casa dos Haddock? Na rodovia?
–Tu foi quem disseste que me levava- ele deu de ombros, e então me encarou -Mas eu já dirijo. Posso ir sozinho, caso alguém me empreste um carro.
Eu sorrio de lado.
–Tá. Mas você vai ter de me deixar na casa dos Willd primeiro- condiciono, e ele sorri antes de abrir a porta e ouvirmos os gritos de mamãe e Speedy ainda melhor.
–Fechado.
Elas realmente estavam tendo uma discussão feia perto da mesa do café. O tipo de discussão da qual você não quer ser testemunha, com certeza. Minha irmã, que estivera tomando chá- mamãe nunca gostara do inglês -aparentemente jogara sua xícara contra a parede e minha mãe tinha uma cara especialmente fechada.
–Você não manda em mim!- Spencer gritou -Não manda, não manda, não manda!
–Ah, Spencer, eu mando sim! Enquanto você viver debaixo desse teto, eu mando sim!- minha mãe disse de volta, nervosa.
–Então eu vou embora!
–Sem chance, Spencer!
–Eu vou!
–Não vai! Você é uma adolescente de quinze anos, Spencer, e você tem uma casa e uma família! Não consegue por uma vez apreciar isso e obedecer uma imposição de horário?!
–Não! Eu estou bem, mãe, e já tenho quinze anos! Consigo ficar na casa de um amigo até a meia-noite sem ser sequestrada!
–Ah, um amigo? Não era uma festa?
–Não importa!- minha irmã gritou -A vida é minha e o que eu faço é só da minha conta!
–Spencer Smith, não grite comigo!
Eu e meu irmão passamos direto pelas duas, na tentativa de nos mantermos afastados da discussão. Enquanto eu não costumava brigar com nenhum dos membros de minha família- só ser pego no fogo cruzado -, Henry Malik Smith era uma história completamente diferente. Henry fazia o que podia, mas os anos de gente falando no seu ouvido que ele e Speedy e eu havíamos estragado o casamento dos nossos pais haviam lhe deixado paranoico.
Como se nossos pais precisassem de nós para arruinar sua relação. Eles conseguiam e faziam aquilo sozinhos.
E Henry ainda se culpava horrivelmente, eu bem sabia. Essa mágoa só achava uma saída, a raiva, o que fazia do meu irmão uma pessoa meio agressiva quando de mau-humor. O que lhe arranjava mais e mais problemas, mas isso é história para depois.
Entramos na cozinha onde Dona Lúcia, a faxineira, faz seu trabalho habitual. Cumprimento-a com um sorriso.
–Bom dia, Dona Lúcia- digo.
–Bom dia, menino Tristan- ela devolve –E menino Henry.
–Olá, Dona Lu- meu irmão disse, distraído.
–Vão sair?
–Vamos- confirmo –Poderia avisar nossos pais se eles perguntarem por nós?
–Claro, meninos- Lúcia sorriu, os olhos encolhendo. Era engraçado como Às vezes eu sentia que ela era mais como uma mãe, que se importava mais com nossa sanidade, do que nossa mãe biológica, Pocahontas –Está avisado.
–Certo. Um abraço, Dona- Malik diz e beija sua bochecha. Eu repito o gesto antes de pegar as minhas chaves e segui-lo para a garagem.
Entramos no carro e eu saio, indo em direção à casa dos Willd enquanto ele ligava a rádio. Meu irmão sintonizou na 99.1, a rádio Encantia, e ouvimos o finalzinho de Roots antes de aparecer uma propaganda.
–Bom dia, reis e rainhas do Mundo Encantado- disse uma voz diferente da da apresentadora, uma mais frágil e alegre que reconheci como Aurora Montgomery –Eu sou Aurora Montgomery, ou, como a maior parte de vocês me conhece, a Bela Adormecida. Gostaria de lhes convidar para a festa que tomará lugar em minha casa no dia 30 de agosto! Todos do Reino são bem-vindos, mas não se esqueça do presente: meu filho está prestes a fazer 17 anos e isso tudo será em sua homenagem! Conto com vocês!
Meu irmão dá uma risadinha e eu o miro em dúvida.
–É tanto desespero- ele explica –Colocar uma mensagem na rádio para que ninguém se sinta de fora.
–Deve ser trauma- dei de ombros –Eu também ficaria assim se tivesse de dormir por cem anos porque meus pais esqueceram-se de uma fada.
–Você é o garoto de ouro, se esqueceu?
–Ei. Você é tão bom quanto eu- eu toco em seu peito com a ponta de meu dedo.
–Até parece- ele dá uma risadinha e solta o cinto quando eu paro o carro. Ele abre o vidro e se despede antes de ir –Te vejo mais tarde!
–Até mais, Henry!- eu aceno e meu irmão acelera, virando a esquina em seu caminho à casa dos Haddock. Ando até o portão e toco o interfone no apartamento de Moony. Sua mãe é quem atende –Senhora Willd? É o Tristan. Tristan Smith.
–Ah, Tristan, que surpresa agradável!- ela diz, e o portão se abre num clique alto –Suba, Tristan! Moony está aqui.
Eu sorrio sem entender o porquê, e subo até o apartamento de selva. Ele me fazia sentir em casa, mas de um jeito estranho. Provavelmente porque minha floresta era uma espécie de taiga, e a delas uma floresta tropical. Ainda assim, eu tinha essa estranha sensação de lar.
Jane abre a porta, sorridente, e me dá um abraço.
–Eu bem vi que ela parecia ansiosa- a mãe de minha amiga me conta, rindo, e Moony faz cara de indignada atrás dela.
–Mãe!
–Olá, Senhora Willd- eu respondo, meio sem-graça –Tudo bem?
–Ah, eu vou bem querido. Como sempre- ela responde –Entre, entre. Suponho que você e Moony vão fazer algo hoje?
–Na verdade, eu queria perguntá-la se ela prefere ir à nova sorveteria Arendelle’s ou ao cinema- olho para minha amiga, que faz cara de indecisa.
–Não pode ser aos dois?- ela pergunta, suplicante.
–Meu pai não estava em casa hoje de manhã e mamãe estava indisponível, então não tenho dinheiro o bastante- eu digo, lamentando eternamente. Era muito difícil pra mim negar algo à Moony, especialmente hoje –Desculpa, Moon.
–Nah, que nada- ela sorri novamente, tentando me alegrar, e eu vejo que ambas as Willd tem um brilho de pena nos olhos. Por mais que eu já tenha me acostumado, é horrível quando eu menciono meus pais e isso acontece –Eu vou pegar minha bolsa lá em cima e já volto.
–Ok. Não vamos sair daqui- Jane diz, e ela arregala os olhos.
–Muita atenção na fala, mamãe. Muita- faz um sinal de estou de olho em você e então sobe.
–Senhora Willd- eu a chamo baixo, quando minha amiga alcança o segundo andar –Acha que existe algum problema em-
–Não diga sandices, Tristan. Nós dois sabemos que não há- ela faz uma cara travessa para mim, e eu sorrio ainda mais largamente. Provavelmente teria dor no queixo aquela noite–Mas Tarzan pode ser um pouco ciumento. Moon ainda é um bebê aos olhos dele.
–Muito obrigado, senhora Willd.
–Não e nada, querido- ela devolve –E pode me chamar de Jane.
Ela dá uma risadinha e sorri enquanto eu assinto, e, num piscar de olhos, Moony está à nossa frente novamente. No momento em que bato os olhos nela, tenho certeza que ela trocou de roupa e passou maquiagem. Moon usa um vestido verde azulado e carrega uma jaqueta de couro nas mãos, e olha pra mim de um jeito estranho enquanto seus cabelos cascateiam pelos ombros. Tenho certeza de que eu devo ter parecido um idiota, mas ok. Vale totalmente a pena.
–Quê foi, Tan?- ela me pergunta, e eu pisco algumas vezes para recobrar a consciência.
–Eu acabei de descobrir a diferença de bonita pra linda- digo, dando de ombros –Vamos?
–Claro- ela diz, e dá um beijo em sua mãe –Te vejo mais tarde, mãe.
–Até mais- Jane diz vagamente, e nós saímos do apartamento.
–Agora, por favor, me diga que você está de carro- ela suplica, com falso desespero, e eu mordo o lábio inferior numa careta de desculpas –Você só pode estar brincando!
–O Henry foi pra casa dos Haddock e pediu o carro emprestado!- eu me defendi, e ela riu.
–Tan, você é um idiota- e ela riu mais. Eu poderia ouvir aquela risada para sempre.
Essa é a primeira coisa que eu me lembro sempre que penso em Moony. Sua risada. Sua risada cheia de vida e contagiante. A risada dela naquela tarde, então, era maravilhosa. E só se tornava melhor cada vez que eu a ouvia.
Naquela tarde em específico.
A tarde em que Moony Willd se tornou minha namorada.
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