Notas iniciais
Parte I de III

musica para leitura: http://www.youtube.com/watch?v=mZVjCXwL_Uw

Eu correria se pudesse.



Cada passo exigia um esforço imenso enquanto obrigava minhas pernas enrijecidas a moverem-se, abrindo caminho através da água gelada. Meu coração batia de forma tola e desesperada. O ar era sugado dolorosamente por meus pulmões e escapava de meus lábios trêmulos, condensando-se como fumaça. O frio penetrava como milhares de agulhas em minha pele e já se alojava em meus ossos.



Mas eu apenas continuava a seguir em frente. Empurrando, forçando meu corpo exausto a atravessar aquela imensidão escura. De alguma maneira mórbida e inexplicável, era como se aquele rio se tornasse mais e mais fundo e gelado conforme eu avançava.



E foi com um passo em falso que o assoalho do rio desapareceu sob meus pés. Meu corpo desabou e as águas abraçaram-me impiedosamente, tragando-me para o fundo de um abismo sem fim.



Desesperada, agitei os braços na esperança de conseguir nadar e escapar dali. Tentei emergir uma, duas... inúmeras vezes até que a exaustão viera cobrar seu preço. A água negra parecia se tornar mais pesada a cada esforço meu. Como veneno, o torpor se alastrou por meu corpo e o frio tratou de anestesiar qualquer tentativa frustrada de movimento.



“...Não tenho muitas expectativas


que possam me dar alguma paz

Não há nada em que eu possa me apegar,

Nada que venha me trazer um doce livramento


E eu não tenho medo de me afogar...”



Com um último esforço, ergui a cabeça acima da água. Tomei fôlego, abrindo os olhos e direcionando-os para o alto.



Estava muito, muito escuro. Mal conseguia enxergar poucos metros a frente. Não havia horizonte. O céu não possuía luar ou estrelas e se dissolvia em meio as trevas. Havia apenas a névoa que pairava acima das águas negras daquele rio, deslizando ao meu redor de maneira fantasmagórica.



E pensando bem, não havia muita diferença entre manter os olhos abertos ou fechados. Tudo era negro e azul-escuro, por dentro e por fora.



“… E você entende o que eu pretendo?”



Acho que este é o meu limite. Talvez eu sempre soube que não conseguiria ir muito longe. Mesmo assim, a simples ideia de permanecer estática no escuro me apavorava. E eu tinha certeza de que jamais conseguiria conviver com o remorso por ter desistido sem tentar.



“Você entende o que eu quero dizer quando falo 'Eu não quero ficar só' ...?”



Elevei meus braços para o alto uma última vez e tentei tocar aquela escuridão que me fez companhia por tanto tempo. Acho que após nossa longa convivência, nós merecíamos ao menos uma despedida decente.



Adeus, minha amiga. Não posso dizer que sentirei sua falta, mas sempre me lembrarei de sua presença.



“... não quero ficar sozinho...”



As pálpebras pesavam-me e meu corpo esgotado reclamava por repouso. A parte boa é que não sentia mais dor. Aliás, não sentia mais nada. Tudo o que eu queria era dormir. Para sempre.



Sim... este é um desejo fácil de se realizar. E esse pensamento me fez sorrir. Um sorriso amargo e triste, mas seria o meu único. E então me permiti cair naquele sono profundo e tranquilo antes de afundar pela última vez.



“Eu não tenho medo de me afogar...


É respirar

Que está me dando todo esse trabalho.”


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